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quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Beleza tirana (Manuel Soares Bulcão Neto)

(O fumante de cachimbo, de Paul Cézanne)

Uma das coisas de que mais me orgulho foi ter influenciado a decisão da minha filha de jamais pôr cigarro e gota de álcool na boca (até o antisséptico bucal que ela usa não contém etanol). Não, não sou abstêmio e antitabagista, muito pelo contrário. Sua escolha, ela a tomou em razão do meu pigarro atroz e do meu ronco domingueiro de capotado, cacofonias que atrapalhavam seu soninho de princesa. Ah! Outras atitudes minhas também foram determinantes em sua sábia resolução de se formar em Medicina… e se especializar em Psiquiatria. (Conforta-me moralmente saber que estou desempenhando bem minha função paterna: dar exemplos. Aqueles que não devem ser seguidos, eu aviso e, com a linguagem do meu corpo desmazelado, demonstro o porquê.)

Como, nesta crônica, pretendo criticar a monomania, atualmente pandêmica, por saúde e beleza perfeitas, achei por bem – para ser honesto – introduzi-la com um breve autorretrato. Sim, não sou uma pessoa comedidamente ocupada com a própria saúde e a boa aparência para, com o moral dos justos, chutar o pau da barraca daqueles que, de forma desarrazoada, preocupam-se com tais motivos.

Ou não? Será que, pelo fato mesmo de ser exagerado ao ponto da displicência com o próprio corpo, não tenho legitimidade para falar, "de igual para igual", com esses tarados por cooper e halteres? (Excluo do rol os profissionais, sejam atletas, atores ou modelos, dado que seu ganha-pão depende da melhor forma física possível.) – Se, tanto em meu comportamento como no de muitos desses maníacos, há fortes traços de TOC, uma afecção mental, não posso sentenciar com propriedade: "você é minha imagem ´invertida´ no espelho."? Quanto às "carolas" de academia de ginástica que olham com desdém minha barriga grande – carinhosamente alcunhada por uma ex-namorada de "nossa" ilusão de óptica –, por que não devo dizer-lhes que são criaturas ressequidas, pasteurizadas, enfeadas pela super-malhação diária, embonecadas pelo silicone? Essa preocupação "mórbida" com a saúde e a beleza, assim como o alcoolismo, é uma doença mental degenerativa amplamente disseminada na sociedade de consumo. Três são as causas da pandemia: a) O "merchandising" midiático das grandes empresas, que, valendo-se de artifícios psicológicos, "erotiza" as mercadorias, associando até inseticidas com belas mulheres seminuas; b) O fato de que, nas economias afluentes, a riqueza material já não basta como meio de distinção social. Conforme constatou Michel Houellebecq, observando as pessoas em um shopping center, não dá para saber quem é filha de operário ou de capitalista. Em razão disso, o que melhor atende, hoje, ao impulso natural de competição narcísica é o "sex appeal"; c) A tecnocracia da previdência pública e privada, que, objetivando minimizar as despesas com doenças associadas a certas escolhas, desenvolve campanha agressiva contra o gordo e o fumante.

Criou-se, assim, um ideal de beleza inacessível à maioria das pessoas. Demais, a revolução "new age", ao transformar o sexo em meio de diferenciação narcísica, trouxe muita miséria afetiva. Sim, enquanto um punhado de estátuas gregas faz amor com vários parceiros todos os dias, a massa dos quasímodos gasta a maior parte do tempo só treinando.

Enfim, essa luta obsessiva contra o envelhecimento e a morte (por juventude eterna) está fadada ao fracasso. A antecipação do fiasco e o desconforto das dietas geram frustração, que, por sua vez, é fonte de agressividade. Ora, tal agressividade pode voltar-se contra o próprio indivíduo, seja na forma de moléstias autoimunes ou como vontade inconsciente de morrer jovem – ou então se concentrar num bode expiatório: o "outro" que não compartilha seu "modus vivendi". Por isso que, como afirmei, tem essa doença um caráter degenerativo.
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