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terça-feira, 28 de setembro de 2010

Ivone C. Benedetti entrevista Chico Lopes

Ivone C. Benedetti é tradutora e escritora. Formada em Letras pela USP, doutorou-se em Literatura Francesa, defendendo tese sobre Charles d’Orléans e a tradução de sua poética. Como tradutora, atua há mais de vinte anos, tendo trabalhado para várias editoras. Entre outros autores, traduziu Barthes, Montaigne, Voltaire, Ricoeur, Merleau-Ponty, Althusser, Balzac, Simenon. Organizou e coordenou o Dicionário de Italiano Martins Fontes (WMF Martins Fontes). É autora de A Arte da conjugação dos verbos em português (WMF Martins Fontes) e co-autora de Conversas com tradutores (Parábola). Recentemente, publicou seu primeiro romance, Immaculada, pela WMF Martins Fontes.
Chico Lopes: Nascido em 6 de maio de 1952 em Novo Horizonte, SP. Em Novo Horizonte, ajudou a fundar jornais (A Cidade, A Voz da Região, O Jornal) e começou a fazer exposições de pintura e escrever – poesia, traduções livres e informais do Inglês, crítica de cinema, conto, novela e ensaio. Mudou-se para Poços de Caldas em 1992, onde trabalhou no diário Mantiqueira e assumiu a função de apresentador e programador de filmes do Instituto Moreira Salles – Casa da Cultura de Poços em 1994. O IMS publicou dois livros de contos seus – “Nó de sombras” (2000) e “Dobras da noite” (2004). Realizou traduções de ficção em Inglês para a editora Landmark, Ediouro e Prestígio Editorial e atualmente faz traduções para a Rocco. Seu terceiro livro de contos, “Hóspedes do vento”, foi lançado recentemente pela Nankin Editorial – São Paulo. Tem ainda para lançar um livro de novelas e vários inéditos de poesia, ensaio, memórias, crônicas e resenhas.

EU: Chico, você para mim é um espanto. Traduz, escreve, sabe tudo de cinema, pinta e ainda deve fazer uma infinidade de coisas aí em Poços de Caldas. A impressão que eu tenho de você é o de um ponto de fuga para o qual convergem inumeráveis linhas de perspectiva.

CHICO: Pois é, Ivone, agradeço pelo “espanto” e pelo “ponto de fuga para o qual convergem inúmeras linhas de perspectiva”, mas é que tenho horror ao ócio, ao vácuo, à inação. Durante muito tempo, tive uma vida muito ociosa, mas abusivamente boêmia e diletante em Novo Horizonte (SP), onde fiquei até os 39 anos escrevendo sim, pintando sim, e lendo muito (minha cultura literária, afinal, se beneficiou desse ócio todo), mas sendo muito niilista e ignorando os problemas reais da vida por um certo comodismo aristocrático que era até absurdo, visto que sempre fui pobre e era, portanto, um caso de “falta de juízo”, como diziam. Bem, mais tarde as necessidades da vida de casado, com uma família a sustentar, com mil lutas no dia-a-dia, me tornaram bem mais realista e responsável, acredito, e Poços de Caldas surgiu em minha vida como uma segunda etapa, de concretização do que era apenas devaneio, escrita solta, descompromissada, e pintura um tanto errática. Aqui, fui organizando minha vida em função do trabalho no Instituto Moreira Salles, com tempo para dar ordem aos meus escritos, pinturas, e me tornar um colaborador assíduo de vários sites da Internet. O casamento fez com que eu me organizasse não apenas na vida prática, mas também na vida artística, dando um rumo mais coerente, objetivo, realizador, aos meus sonhos estéticos. Sempre fui dotado para pintar e desenhar e escrever, além de ter uma paixão maluca pelo Cinema, e tudo isso foi se disciplinando e entrando nos devidos eixos (claro que também com o devido peso restritivo das circunstâncias e das arqui-penosas dificuldades). Mas, penso que, em maior ou menor escala, todos nós que queremos fazer arte, e insistimos nisso, num contexto de capitalismo tão hostil e primitivo como o brasileiro, somos meio “fenomenais”, por assim dizer, já que compramos brigas infindáveis e vivemos perdendo. Somos todos um tanto heróicos, menos por heroísmo inato que pelo inferno das contingências.

EU: Essa coisa de precisar cair na real depois do tempo de insistência na boêmia artística deve ser universal. É muito comum o choque acontecer quando a sacrossanta instituição familiar vem exigir seus direitos com uma gravidez inesperada, ou então quando o(a) companheiro(a), que parecia não querer compromisso, começa a fazer cobranças. Então todos aqueles planos de viver sem planos desmoronam. Em geral esse processo é sentido como esterilizante. Mas para você parece ter sido redentor!

CHICO: Para mim, assumir o compromisso do casamento foi redentor sim. No meio literário e boêmio, o fato de um escritor, admirado pela possível audácia estética do que escreve, ser um sujeito comprometido com a família, os horários de trabalho, os filhos – em suma, um “homem sério” – fará com que seja um tanto discriminado ou visto obliquamente. As tribos literárias (não todas, certamente) abominam essa, digamos, caretice, como se o auto-aniquilamento e os porres a Charles Bukowski, mesclados por uma mordacidade e um amor declarado à franca marginalidade, fossem regras a serem obedecidas rigidamente.

Vivi tempo demais numa vida boêmia, doida, niilista, pra saber que a atmosfera dos botecos e da dita “marginalidade” pode ter aspectos libertários positivos, mas também pode ser uma enorme perda de tempo – pode significar uma arte descomprometida demais com o rigor e a depuração da forma, personalista demais, e a vida boêmia, com sua dissipação e irresponsabilidade, pode gerar é uma eterna insatisfação, uma esterilidade em termos criativos que é mal compensada por bebedeiras, sexualidade anárquica e ressentimentos nada nobres contra quem se “ajeitou na vida”, digamos. Há muito despeito raso mascarado de superioridade moral. Não acho que um escritor tenha que ser mártir de um “estilo de vida”, de uma escolha existencial penosa, ou que isso necessariamente o torne superior aos outros, por estar vivendo na pele os dilemas, pesadelos, desesperos que despeja em sua ficção. Sua ficção poderia, até pelo contrário, se beneficiar de um bom distanciamento entre criador e criatura. Poderia ser fantasia, por quê não? O egocentrismo autobiográfico derramado, em nome de fidelidade ao real e de “transparência existencial”, já matou muita gente que não se contentava com a ficção por achá-la um ardil comercial. Pegue-se livros do deus “beat” Jack Kerouac que não o bem realizado On the Road (que deve ter tido mão de um editor sensato) e se verá nada mais que isso – auto-indulgências quilométricas, papos furados de um homem que, mais tarde, até simpático à Klu-Klux-Khan se tornou. Marginais podem se revelar monstros de direita, por que não? E gente execrada pela chamada “caretice” pode ser apenas, em alguns casos, mais comedida e humilde em sua vida pessoal enquanto se derrama confessionalmente, com muito mais eficácia, em formas indiretas, em criações arrancadas de suas vísceras e embebidas na fantasia, na ficção.

O casamento tem falhas mil, e não é preciso citar Ana Karenina, Madame Bovary ou o grande personagem clássico que seja para saber disso, mas pode dar certo. Pode ser um compromisso com uma vida mais próxima à do homem comum, à comum humanidade de que um escritor, se persistir demais em se esquivar, pagará caro em termos pessoais e, ouso arriscar, até literários. Não consigo, por exemplo, deixar de pensar que um homem que não conheceu a glória de ser um pai, de criar um filho, só poderá ter uma visão injusta e parcial da família, das dores e doçuras humanas, do mundo, ao escrever. Não tenho a menor dúvida de que o que vivemos, em termos emotivos e sociais, transparece no que escrevemos, se temos um compromisso real com a escrita. E há um niilismo anti-família e anti-tudo que me parece sobretudo poseur e equivocado.

Para mim, pouco importa se uma arte de primeiríssima qualidade brota das horas vagas de um burocrata que paga direito as suas contas e é responsável por seu lar ou se brota de uma mesa de boteco por um típico barbudo que vocifera contra o Sistemão. A arte verdadeira independe do sujeito optar por um caminho a Machado de Assis ou um caminho a Lima Barreto, na dicotomia clássica estabelecida em terreno literário brasileiro em cujas fileiras antagônicas tanta gente se insere e se propõe a polemizar puxando a sardinha para as respectivas brasas.

Thomas Mann, em sua novela “Tonio Kroeger”, toca neste problema polemicamente, aliás, ao confessar-se um homem mais interessado na singeleza, na vida comum, na beleza das pessoas que não se envolvem com os “espectros e demônios” da arte. Em diálogo conhecido com uma artista plástica, Lisavieta, sua amiga, Tonio faz toda a pregação de um mundo luminoso, simples, feito por gente que gosta de cavalos, passeios e festas e não de livros e escritores, e Lisavieta, sarcástica, conclui que ele é um escarrado burguês, embora “um burguês em caminhos errantes”. Também o Harry Haller, de O lobo da estepe, de Hesse, demonstrava saudades de um mundo pequeno-burguês comum, asseado, idílico, quando se confessava atraído por um pinheirinho numa residência. E O lobo da estepe, ao menos nos anos 70, foi verdadeiro “cult” nas fileiras “underground” do país.

Acho que os jovens escritores, rapidamente interessados em ingressar numa ou outra fileira de “transgressão”, agem com o sangue juvenil agitado, com a vocação da contestação em plena e legítima cegueira e nem poderia ser diferente. Mas se beneficiarão muito, mais tarde, de leituras mais cuidadosas, de reflexões menos simplistas e reducionistas sobre a vida e sua literatura, em geral impetuosa e descuidada, só lucrará com isso. Não se trata de nenhum velho de branquíssimas barbas falando. Tenho 58 anos, e gosto da abertura estética, fui formado dentro dela, na geração que conheceu os explosivos anos 60. Mas o tempo me ensinou a ver tudo como extremamente irônico e relativo. E acho que não perdi nada com isso. O conselho sábio que Nelson Rodrigues disse que daria aos jovens: “Envelheçam”, me parece ainda muito pertinente (risos).

EU: Lendo tudo isso que você escreveu, resisto à tentação de enveredar pelo lado existencial e tento ficar só na arte, ou melhor, na literatura, para delimitar minhas ideias. No que você disse vejo uma dicotomia entre arroubo e comedimento, transgressão como norma e racionalidade como base, originalidade a todo custo e aperfeiçoamento de caminhos já traçados. Não consigo deixar de ver nisso a antinomia romantismo-classicismo. É bem verdade que na vida real as antinomias tendem a se embaralhar, mas em certos momentos se distinguem, se iluminam, se mostram. Na tentativa de compreender o que está por trás dessas atitudes antitéticas, mas sempre coexistentes, foi que Argan, em famosa passagem de As fontes da arte moderna, ao tratar do impressionismo, aventou a hipótese de que classicismo e romantismo sejam eternas polaridades do espírito humano. Essa dicotomia, não há como negar, todos nós vivemos. Um escritor pode vivenciá-la em dois momentos diferentes da sua vida (o teu caso, por exemplo) ou mesmo simultaneamente, na tentativa de sintetizar os contrários. Aliás, para Argan, o impressionismo talvez procurasse essa resolução. Não há dúvida de que essas duas atitudes existenciais acabam por se revelar no texto literário. Minha impressão é de que em nossa época essas duas polaridades convivem e se alternam em influências mútuas, como sempre deve ter ocorrido, aliás, mas hoje de uma maneira mais livre. Na literatura atual no Brasil, que avatar de qual delas predominaria: o romântico ou o clássico? Ou você acha que isso é simplificar demais o problema?

CHICO: Talvez seja sim simplificar demais o problema. As coisas se embaralham mesmo, na realidade. Essas antinomias, e a tentativa de conciliá-las também, sempre existiram, como você observa. Lembrei Machado de Assis e Lima Barreto, que, por razões tanto literárias quanto comportamentais, parecem representar uma bifurcação simbólica dos caminhos que um escritor pode tomar na literatura brasileira, um o típico literato consagrado e oficial, outro o marginal cheio de verdades e de ressentimentos, mas poderia também ter lembrado aquela diferença sempre citada entre o Mário de Andrade “apolíneo” sério e o Oswald de Andrade “dionisíaco”, brincalhão e anárquico, que pareceu simbolizar outro tipo de bifurcação (tanto estética quanto comportamental, não?) para escritores brasileiros no estágio do Modernismo. Eu diria que, hoje em dia, com a multiplicidade de caminhos, propostas, possibilidades, tudo é caótico demais para que se afirme isto será assim, isto será assado. Há tendências em todas as direções, há hibridismos muito livres e até mesmo absurdamente arbitrários e toda espécie de afirmação personalista e originalidade natural ou postiça, mas elas se dissolvem ou trocam de posição com a facilidade superficial do descompromisso, tudo parece frívolo. Sinto que, numa sociedade de consumo que criou a “cultura de massa” em que vivemos, a literatura se contaminou também de modo irresistível, e o que surge são sempre fenômenos personalistas, escritores que são mais personalidades do mundo dos espetáculos que “escritores reais, de gabinete”, digamos, de tal modo que parece haver mais escritores que literatura, mais artistas do que arte.

A gente, ao se opor a essa falta de seriedade generalizada, a tanta impostura, mediocridade e baixeza, em geral é caracterizado como sério, soturno, acabando por cair no rótulo de clássico, o que não passa de uma maneira superficial de caracterizar um tipo mais concentrado e alheio que demonstra justificada ojeriza à conversa fiada e ao desleixo. Portanto, sinto que me posicionei foi contra isso mesmo, contra essa leviandade total que parece dar as cartas com um vigor grande demais hoje em dia – há poucas discussões sérias, profundas, a não ser em nichos da Internet – é óbvio que até grande imprensa virou ninho de uma frivolidade, de um culto às celebridades que já passou do estágio de nauseante. Falta reflexão, e é uma falta pungente.

Ao dar a resposta anterior, que pareceu muito longa e talvez muito impura, nessa mistura de análise literária e existencial, eu não tinha a pretensão de falar como teórico literário, e acho que nem você tem. A gente dá palpites, e em alguns acerta, noutros erra. Falei como escritor, falei de uma experiência vivida.

Agora, a pergunta que não quer calar: não é a indústria cultural que, nos últimos anos, abalou toda e qualquer seriedade e nos obriga, hoje em dia, a falar como cristãos nas catacumbas, se queremos falar de literatura a sério? A ponta visível do que se chama Literatura, hoje em dia, não é, para o grande público, só outra forma de entretenimento, braço da tevê, da música, da indústria cultural, da mídia sensacionalista, nada mais? Como lutar contra isso? Esta me parece a questão mais premente. Como sobreviver com dignidade nesse cipoal de desvario?

EU: Não sei se o que você chama de falta de seriedade alguma vez não existiu. Todas as épocas sempre foram cheias de quiproquós. Só depois de baixada a poeira é que sobressai o que era mais alto. O que dita a permanência ou não das obras é até certo ponto imponderável. Tão imponderável que podem até ocorrer surpresas: uma obra fica esquecida durante séculos e de repente é ressuscitada, reavaliada e revalorizada. O contrário é mais frequente: obras incensadas em sua época, que depois caem no esquecimento perpétuo. Por isso, nesse campo, sou um tanto anarquista. Acho que tudo deve grassar e engrossar, para depois ser desbastado. Mais preocupante me parece o tráfico de influências em arte. Mas vamos em frente.

Numericamente, a produção de obras literárias no Brasil me parece até elevada demais para a quantidade de leitores. Muitos escritores acabam escrevendo apenas para seus pares. Também acho que isso sempre aconteceu. A diferença é que hoje os números são astronômicos, graças às atuais facilidades de reprodução gráfica. Não sei se é possível dizer o mesmo da distribuição. Porque os mecanismos desta não parecem ter evoluído muito. Claro que muita coisa pode mudar com o advento dos tais e.books, mas as perspectivas aí são de longo prazo.

A superficialidade das análises também não parece ser apanágio de nossos dias. Aquela passagem do Graciliano Ramos, abstraído o tom caricatural, não deixa de ser verossímil ainda hoje:

Alguns rapazes vêm consultar-me:

— Fulano é bom escritor, Luís?

Quando não conheço, respondo sempre:

— É uma besta.

E os rapazes acreditam.

O “critério” para a resposta aí é o desconhecimento do autor. Na prática, podem ser outros: o fato de o escritor ser de direita ou de esquerda, de ser religioso ou ateu, de não escrever segundo os cânones da moda ou de se ater só a eles, de escrever sobre assuntos que o leitor-crítico em questão não aprecia, de não ser amigo dele ou amigo do amigo dele etc. Estamos num campo em que impera a apreciação subjetiva. Não tem jeito.

Mas, mudando de assunto. Sei que lançou um livro no dia 8 de maio último, em São Paulo. Pode falar a respeito?

CHICO: Você está certa: não nos resta nada senão trabalhar da melhor forma possível e ver no que dá. Num mundão caótico como esse, tudo que um escritor sente o dever moral de fazer é executar seu trabalho da melhor maneira possível, aprimorando-se, depurando seu estilo e seus temas, e deixando o julgamento do Mercado agir ao seu modo aleatório e insondável. Quanto à crítica, é excelente a historinha que você lembrou de Graciliano, este mestre cuja integridade obriga-nos sempre a retornar a ele, como fonte de água limpa. Essa limpidez até brutal do Graciliano é um refresco maravilhoso porque em geral há pouca honestidade nesses meios, e as patotas, com seus interesses ideológicos, sociais, econômicos, com a mera defesa passional de seus integrantes, cada um empenhado em fazer o melhor pelo outro em termos públicos (ainda que com meias verdades ou mentiras inteiras), me parece um fenômeno cultural brasileiro, uma necessidade tão entranhada no país literário que é praticamente impossível não se formar alguma, de um modo ou de outro, e praticar injustiças, exclusões ou eleições duvidosas. Reconheço, no entanto, que essa necessidade de proteção grupal tem seus benefícios, a par de suas tolices. É assim que vem sendo feita a história literária do Brasil, e não me parece que possamos escapar a alguma forma de corporativismo, ainda que tosca, num país que deixa os escritores tão ao léu. Ainda assim, há uma quantidade bem grande de bons livros de cuja existência ninguém sabe e nem saberá, e nesse ponto concordo com você: a divulgação precária é nosso maior problema.

Quanto ao meu livro novo, sim, foi lançado. Chama-se “Hóspedes do vento” e reúne 13 contos, 8 das quais curtos e já publicados em jornais e revistas como Suplemento Literário do Minas Gerais, Rascunho, Jandira, Cult, e 5 outros mais longos e inéditos. Creio que traz uma mostra mais heterogênea de minha produção de contos, porque meus dois livros anteriores, “Nó de sombras” e “Dobras da noite”, podem ter dado aos leitores a impressão de que só escrevo narrativas longas (alguém escreveu que faço contos “novelísticos”). Na verdade, tenho uma tendência a evocar e a dar relevo a personagens secundários que, em geral, são ignorados nos contos, que, com a obrigação e a estética da brevidade, os eliminam automaticamente. Mas escrevo curto também, e com freqüência. Na verdade, certos contos parecem nascer com necessidades intrínsecas irreversíveis de compressão ou dilatação. Mas, não acredito em inspiração (você acredita?). Na minha experiência, há ocasiões em que um conto pareceu me vir do Nada (ou do Inconsciente, como se queira) com ares de já-pronto, mas melhorou, e muito, com revisões e escritas posteriores, muitas e muitas. Acredito muito em reescrever. Tanto que reescrevi contos do “Nó de sombras” e “Dobras da noite” onde me pareceu haver gorduras e erros, para futuras novas edições que nem sei se terão. Mas é um dever pessoal meu, independente das publicações. Gosto muito de uma frase do Borges que, referindo-se talvez a Emily Dickinson, dizia que “uma vida literária não é necessariamente uma vida de livros publicados”.

EU. Você escreve contos novelísticos? Alguns meus também são. Há coisas que nascem para ser longas, outras não. É como a análise crítica de uma obra: de que ponto de vista abordar? Se for sempre o mesmo, sem dúvida haverá distorções. Cada obra pede uma abordagem própria. Cada motivo, uma forma e uma extensão apropriadas. Essa história de tamanho é uma tremenda bobagem. Pode-se escrever bem ou mal em qualquer manequim. Quanto à inspiração, acredito, sim. E você também, aliás. Ela sempre existiu. O que não existe é a inspiração como presença determinante, absoluta e suficiente. Quero dizer, ela não é suficiente, mas é necessária. A genialidade inspirada do Romantismo certamente não passava de pose. Recaída de velha doença, que a nossa cultura ainda está tentando curar, nostalgia da posição do artista na Grécia arcaica, quando a inspiração vinha dos deuses. Tudo começou lá. Quando os gregos entraram na era clássica, essa história de inspiração sofreu o primeiro revés: era o nascimento do pensamento racional. De lá para cá ela tem passado por vários percalços, ora tem mais crédito, ora menos, mas está sempre na arena. Eu diria que não se trata de discutir se ela existe ou não, mas de que forma existe. De onde vem a primeira ideia de uma obra? No meu caso, não sei de onde. Costumo achar que do inconsciente. Acordar com uma ideia na cabeça é experiência pela qual todos passam. Nem por isso se cria uma obra por dia. Há ideias e ideias. Há aquelas que a gente reconhece como prenhes, e há as estéreis. Essas ideias prenhes não costumam ser geradas paulatinamente pelo trabalho minucioso. Não, elas vêm de supetão. Mas não vêm prontas. Não somos aedos. Depois nos perguntamos: o que dá para aproveitar disso? Por que isso valeria a pena? Bom, então começa a elaboração. Pelo menos é assim que funciona comigo.

CHICO: É bem verdade, gostei de tuas formulações, muito claras. A gente às vezes pega, meio que no vento, uma ideia prenhe de possibilidades, em meio a inúmeras outras estéreis. Há umas que dão certo, outras que falham horrivelmente, de modo que a inspiração não deve valer de modo algum como uma garantia rígida de qualidade. Mas há sem dúvida algo de misterioso nessa captação, e acho que, a despeito de toda a mistificação que o romantismo colocou nisso, e mesmo com as duvidosas fumaças mistificadoras e piegas que às vezes cercam o assunto, o mistério existe. No meu caso, aconteceram já coisas muito estranhas, em algumas ocasiões: escrevendo uma novela, construí um personagem baseado num parente próximo em que ele, o personagem, enlouquece e se mata. Na época, o parente real que me valeu de modelo (vago, vale dizer, porque a gente faz muitos “compósitos”, Frankensteins com gente real e gente inexistente) não parecia de modo algum alguém propenso a enlouquecer e se matar. Mas, depois de alguns anos, não é que a figura realmente enlouqueceu e tentou suicídio? Fiquei tão mal impressionado com isso que retirei o personagem da novela. Como se, de algum modo, eu fosse o responsável, de maneira absurda, pela decisão terrível que acometeu a pessoa real que o inspirou. Achei esse dom involuntariamente premonitório uma coisa odiosa.

Em outra ocasião, em meio a um trajeto de ônibus, uma frase me veio em meio a pensamentos soltos e frouxos: “É Arlete outra vez”. Aquilo ficou batucando na minha cabeça por bom tempo.Como não conheço nenhuma Arlete, não ao menos como pessoa de minhas relações, fiquei intrigado. Como a frase me perseguia, decidi dar outra forma de atenção a ela. E, de repente, era claro: Arlete seria um personagem e aquilo entraria num conto (mas eu não sabia como nem onde de modo algum). O conto acabou sendo o “Trio”, do livro “Dobras da noite”, onde dois amigos, ambiguamente ligados um ao outro, têm uma relação problemática com uma mesma mulher, precisamente a Arlete que me foi “dada”, por assim dizer, no trajeto de ônibus, no engendrar obscuro do conto.

Ainda, para esse terceiro livro lançado, eu havia escrito um conto longo, muito sentido, muito ligado às minhas lembranças de menino que ia a festas juninas, e não tinha um título para ele. Todos que me ocorreram me pareciam banais, bestas, e eu ficava lutando com aquilo, pensando, arquitetando, desistindo. Até que, numa noite, em meio àquele estado meio onírico-meio vigilante em que a gente fica antes de pegar no sono de uma vez por todas (ou eu já havia dormido, não sei), uma voz masculina muito nítida, muito decisiva, murmurou um título perfeito. Uma voz que impressionava pela profundíssima autoridade, como se fosse categórica e irrespondível. Não havia como recusar o que ela dizia, vinha lá de funduras com uma autoridade absoluta. Foi o título que adotei, finalmente, que, mais redondo que ele, impossível. Não estou inventando nada, não há nada de fantasia no que digo, não sei o que me aconteceu, e prefiro que essas coisas fiquem mesmo entre mistério e dúvida a tirar a partir delas conclusões que só seriam vaidosas e discutíveis. Porque trabalho muito, posteriormente, a partir de um jorro inicial. E nunca me dou muito por satisfeito com os resultados. E acho que a obscuridade do processo inicial pode ter um grande valor tático, que convém não dissecar demais. Mas é um terreno onde toda cautela e toda honestidade é pouca. A gente corre o risco de parecer tomado por algum “daimon” privilegiadíssimo e parecer querer passar por especial, superdotado ou qualquer coisa do gênero. E isso tem um lado que pode derivar para um sensacionalismo muito perigoso e tolo.

Mas, quanto aos contos, sei também que v. elabora um livro assim e li um conto teu, curto, no Cronópios, com o célebre “jogo da velha” pelo meio, que me pareceu muito engenhoso. Pode me dizer o que será esse livro de contos? Até aqui, só conheço esse conto teu e o teu romance, “Immaculada”, aliás muito bom…

EU: É, Immaculada esteve entre os finalistas do Prêmio São Paulo de Literatura, cujo resultado saiu há pouco, no dia 2 de agosto. Está no prelo (parece que sai no ano que vem) um livro com oito contos. O título ainda estou estudando. Tenho um romance pela metade (assim acredito) e mais uns contos engatilhados. E você, quais são os planos?

CHICO: Bem, por enquanto, seguir trabalhando no “Hóspedes do vento”, que foi lançado com um público que achei bem satisfatório no bar Canto Madalena, no dia 28 de maio último. É da Nankin Editorial e a edição me agradou pelo acerto da capa a um só tempo abstrata e dramática de Antonio Amaral Rocha, pela orelha de Valentim Facioli, pelos cuidados gráficos. Facioli diz que o livro fecha mesmo uma trilogia com vocação para beira-de-abismo e está muito certo – ele leu os dois anteriores e, com sua lucidez de professor de literatura e grande machadiano, percebeu essa coesão, o que me deixou muito satisfeito. Outra crítica que me agradou muito foi a de Alfredo Monte, professor de literatura de Santos e crítico refinado, do blog “Monte de leituras”, que também teve em mãos todos os três livros e costurou uma análise pertinente dos personagens e das situações. Aquela coisa ótima: um crítico que nos revela a nós, autores, para nós mesmos… Muitos amigos queridos leram e gostaram. O livro vai fazendo sua trajetória e também está me atraindo palestras, participações em debates etc.

Creio que uma carreira literária é feita não de explosões, mas de pequenas realidades efetivas, modestas, porém persistentes, que vão se consolidando de um modo menos equivocado que o chamado “sucesso” ou “estouro”. Na verdade, a Literatura é sempre maior do que a humana preocupação com o sucesso que o literato tem. A arte nos deve importar antes de tudo. Só o que decorre do valor real de um trabalho ou de um conjunto deles deve contar. Porque é com esse trabalho que vamos justificando nossas vidas, é com ele que vamos em frente, é por ele que vale lutar. Todo o glamour do mercado e do sucesso pode ser reduzido a nada, de repente, e virar um restinho de lantejoula jogado no meio da rua e sendo levado pela enxurrada. Mas a arte que fazemos, que nos consola de um mundo nada fácil e nada feliz, é nosso maior prêmio e estará lá quando todo o carnaval virar cinza. O glamour começa e acaba nela, na hora em que mergulhamos para escrever e quando, depois de muitos erros, sofrimentos, contramarchas e interrupções, damos um livro por acabado. Só para recomeçar outro, e passar a vida escrevendo, num estado de deleite e descoberta que é maior do que tudo que existe.

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