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quarta-feira, 1 de setembro de 2010

João Soares Neto me livrou da morte súbita (Nilto Maciel)



(João Soares Neto)


Andava pelos corredores (?) do Shopping Benfica, após o almoço, em busca do subsolo, onde se guardam os carros. Mais uma tarde de leituras pela frente. Assim tem sido minha rotina. E imaginava se me veria de novo com o velho Machado – não consigo viver sem ele – ou se recorreria a um de meus contemporâneos, daqui do Ceará, de outros brasis ou de bem longe. Pensei em Airton Monte e seu Bailarinos, cujo lançamento se dará no começo de setembro. Ora, como poderia ler um livro que ainda não existe para mim? Poderia ler Luiz Ruffato, que nasceu em Minas, mora em São Paulo e publicou há pouco Estive em Lisboa e lembrei de você. Mas a obra me foi surrupiada por um amigo: “Lerei hoje; amanhã mesmo devolverei.” Faz dois meses que ouvi a frase. Poderia ser, então, a francesa Catherine Millet, de A Vida Sexual de Catherine M. Não, não poderia ser, porque aquele amigo (dos livros alheios) também me levou Catherine, naquele mesmo dia.

Ia eu me decepcionando comigo e com os amigos, a ponto de sofrer um infarto, uma congestão qualquer, quando ouvi meu nome. Parei, como se me preparasse para o tiro fatal. Chegara minha hora derradeira? Uma pena não reler Machado, não conhecer as novas publicações de meus amigos Airton Monte e Luiz Ruffato, e não me excitar sexualmente com as narrações de Millet. Dei uma volta ao redor de mim mesmo, em busca da voz roufenha que me chamava. E me vi diante de João Soares Neto. Abraçamo-nos, como amigos que não se veem há anos. Convidou-me a visitar seu escritório: “Quero lhe oferecer exemplar de meu novo livro”. A caminho, falou-me de política, livreiros, escritores, vida social, saúde. Ouvi tudo caladinho. Recebi o volume de capa grossa, 256 páginas, bela impressão: Gente que conta. São dezesseis entrevistas. João não é jornalista, mas escreve crônicas para jornais. “Gosto de ler, ver e ouvir entrevistas”, informa em “Palavras essenciais”, prólogo da coleção. A primeira entrevista é com Ana Miranda, a mais conhecida escritora nascida no Ceará. Na área das letras, há ainda o poeta Artur Eduardo Benevides, o saudoso José Alcides Pinto, o ilustre Lustosa da Costa e o enciclopédico Juarez Leitão. No campo multicultural (música, pintura, teatro, televisão, etc), o grande Chico Anysio. Os outros são políticos (Lúcio Alcântara, Marcelo Linhares, Mauro Benevides, Ubiratan Aguiar, Zé Júlio Barreto Cavalcante), empresários e empreendedores (José Dias Macedo, Elano Paula), jornalistas (José Raymundo Costa, Lúcio Brasileiro) e o advogado Ernando Uchoa Lima. A História do Ceará (e do Brasil) nos últimos cinquenta anos passa por eles.

As entrevistas não foram feitas para jornal, mas para um livro. Ou seja, João não praticou jornalismo apressado. Captou (fez perguntas como esta: “Você seria um simples que se tornou sofisticado?”, a Chico Anysio) o essencial de cada personagem. E erigiu um monumento de valor cultural, histórico, literário.

Que me desculpem meu mestre Machado, meus amigos Airton Monte e Luiz Ruffato e a exuberante francesa, mas me livrei da morte súbita naquela tarde, ao ler Gente que conta.

Fortaleza, 28 de agosto de 2010.
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