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sexta-feira, 3 de setembro de 2010

P.O.E.M.A. (Raymundo Netto)

(Quadro de Chico Lopes)


Eu quero a poesia concretamente não concreta!?

Um poema não poético não hermético não soneto nem só Netto

Um poema-cuspo na hipocrisia de quem se diz poesia

Sem acordo sem sintaxe nem metro ou morfologia

O meu poema tem de ser vazio da cabeça aos pés

Sem Nossa Senhora sem cachoeiras sem badalos de sinos sem amores fieis

Eu quero um poema que não seja truque nem mágico nem mágica

Que não seja verso nem falso nem farsa

Que chegue a Lém da poeticidade convencional conveniente convexa e com cavas

Que vá como se vás o poeta às favas

Que se escreva com avaro o amor amaro ocre e acre

Com porrada o susto o massacre

Quero a poesia sem sobras sem prantos sem lábios tremulantes

Sem lágrimas lenços brancos sem berço sem fim nem meio

Sem bundas sem coxas olhos ou seios

Um poema que não seja desta terra nem do céu menos da lua

Que não escorregue lânguido entre os poros da pele nua

A poesia sem rima sem ramos sem remos... cem rumos

Eu quero o poema que não seja emo nem poemo

Eu quero paixão que não seja calor

Nem ouro nem prata o meu poema tem de ser de lata

O poema é e tem de ser sempre o perdedor

Decepcionado, decepado e vergastado pela dor

Eu quero quentura que não seja fritura — não quero tristeza eu quero é tristura

Constringe-me a mente a sinérese da minhagonia

De não a querer mais e mais podê-la poema que poesia.

Eu quero a poesia com Creta à mente?!
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