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sábado, 2 de outubro de 2010

A Literatura Cearense: Dos Oiteiros ao Grupo Clã (Sânzio de Azevedo)


(O Grupo Clã)

 

Em torno do governador Manoel Inácio de Sampaio, por volta de 1813 a 1817, reuniam-se poetas que formavam os Oiteiros. A estética desse tempo era o Neoclassicismo, ou Arcadismo, e entre esses versejadores estavam Pacheco Espinosa, Costa Barros, Castro e Silva, e outros. Pelo fato de se terem guardado apenas textos de louvor ao governante (afinal, eram manuscritos que estavam no Palácio), Silvio Júlio, em Terra e povo do Ceará (1936), disse horrores desses poetas. Mas Dolor Barreira, principalmente em sua História da literatura cearense (1948), compreendeu que, bem ou mal, os versos dos Oiteiros representavam o alvorecer das letras em nossa Província.

Depois de um período um tanto incaracterístico, no que toca a estilos literários, veio Juvenal Galeno, em 1856, com os Préludios poéticos, ainda fracos, mas já românticos e com motivos do povo, o que viria com mais força em seu livro principal, Lendas e canções populares (1865), aparecido no mesmo ano em que, no Rio de Janeiro, José de Alencar publicava Iracema.

O Ultra-Romantismo (ou Bayronismo) teve, na década de 1870, suas vozes maiores com Joaquim de Sousa, que espalhava seus versos no Jornal da Mocidade (1876), e Barbosa de Freitas, cujos poemas musicados e cantados em serenatas, sendo populares por muitos anos.

Em 1873, surgiu um grêmio que era mais filosófico do que literário, batizado por um de seus membros, por gracejo, Academia Francesa. Erguia a bandeira do Positivismo, e contava com nomes de peso, como Rocha Lima, Tomás Pompeu, Capistrano de Abreu, João Lopes e outros. Combatiam o Romantismo, apesar de um deles, Araripe Junior (que haveria de ser um dos grandes críticos realistas), escrever romances na escola de Alencar como, entre outros, O Ninho do beija-flor (1874). Como não tinham órgão na imprensam alguns de seus componentes escreviam no jornal maçom Fraternidade.

Nesse meio tempo, desponta o Cordeirismo nos versos inflamados dos chamados poetas da Abolição: Antônio Bezerra, Antônio Martins e Justiniano de Serpa, autores do livro Três Liras (1883).

O citado João Lopes funda o Clube Literário (1886), que congrega românticos, como esses poetas dos quais falamos, e mais Juvenal Galeno, Virgílio Brígido, Francisca Clotilde, Martinho Rodrigues, José Carlos Júnior e outros. Mas o Realismo começa a surgir a revista de grêmio, A Quinzena (1887 – 1888), nos contos de Oliveira Paiva, nas narrativas cientifica de Rodolfo Teófilo e nas pregações críticas de Abel Garcia. Há páginas do historiador Paulino Nogueira e do filósofo Farias Brito.

Por sinal, depois do romance realista A Afilhada, de Oliveira Paiva, em folhetins do jornal Libertador, em 1889, o primeiro romance editado em volume dentro da estética naturalista é A Fome (1890), de Rodolfo Teófilo, que lançará outras obras dentro da mesma corrente, como Os Brilhantes (1895), etc.

Antônio Sales, que vinha do Clube Literário, publica, em 1890, seu primeiro livro de poesia, Versos diversos, misturando sentimento romântico, construção algo neoclássica e leves prenúncios parnasianos. Frequenta o Café Java, na Praça do Ferreira e juntamente com a meia dúzia de amigos, idealiza a mais original de todas as agremiações culturais do Ceará.

É a Padaria Espiritual, fundada em 1892 e que existirá até 1898. Sales redige seu Programa de Instalação, cheio de humor e novidade, que explode como uma bomba e repercute até no Rio de Janeiro. Segundo esse programa, os sócios do grêmio eram “padeiros”; o presidente “Primeiro-forneiro”; as sessões “fornadas”, realizadas, naturalmente, no “Forno”. Por sua vez periódico do grupo só poderia ser O Pão.

Todos usam um pseudônimo, ou melhor, um “nome de guerra”. Diferente de tudo mais, não era uma associação somente literária, mas “de rapazes de Letras e Artes”: além de poetas como Antônio Sales (Moacir Jurema) e Sabino Batista (Sátiro Alegrete), tinha ficcionistas como Adolfo Caminha (Félix Guanabarino) e, mais tarde, Artur Teófilo (Lopo de Mendoza); agregava músicos, como os irmãos Henrique Jorge (Sarasate Mirim) e Carlos Vítor (Alcino Bandolim), e um pintor, Luís Sá (Corrégio Del Sarto). Havia um sócio, que não sendo escritor, nem músico, nem pintor, era valente, servindo de guarda-costas para os companheiros: era Joaquim Vitoriano (Paulo Kandaslaskaia)...

Houve duas fases, sendo a segunda 1894 até à extinção do grêmio. Foram Padeiros-mores Antônio Sales (inteiramente, em 1892 e em 1894); Jovino Guedes (Venceslau Tupiniquim), na primeira fase; José Carlos Júnior (Bruno Jacy), de 1894 a 1896, e Rodolfo Teófilo (Marcos Serrano), de 1896 a 1898, portanto, na segunda fase. O Pão teve seis números em 1892, e vinte e quatro em 1895 e seis em 1896.

A primeira fase era cheia de espírito, timbrando pela pilhéria, época em que, da sacada de um prédio, um “padeiro” fazia discursos, com barbas postiças; nos piqueniques, carregava-se um pão de três metros, etc. Mas houve a publicação de um livro. Na segunda fase, as brincadeiras diminuíram, mas não desapareceram, como já se afirmou. E os outros dês livros dos “padeiros” são desse tempo. Quanto à estética da “Padaria”, misturando-se as duas fases, podemos dizer que havia românticos: Sabino Batista, Antônio de Castro (Aurélio Sanhaçu), Álvaro Martins (Policarpo Estouro), Temístocles Machado (Túlio Guanabara) e outros; realistas como os citados Adolfo Caminha (que publicaria no Rio de Janeiro A Normalista, em 1893), Rodolfo Teófilo e Artur Teófilo, além de X. de Castro (Bento Pesqueiro), este nos seus Cromos (1895). Um pouco fora de uma classificação rígida ficariam os ficcionistas José de Carvalho (Cariri Baraúna) e Eduardo Sabóia (Brás Tubiba). Alguns se encaminhavam para o parnasianismo como Antônio Sales.

Mas foi na Padaria Espiritual que surgiu o Simbolismo cearense, bebido em obras de Portugal, da qual são frutos os Phantos (1893) de Lopes de Filho e Dolentes (1897), de Lívio Barreto, este último livro póstumo. Nosso Simbolismo, com influência de Antônio Nobre, foi contemporâneo (e independente) da escola do Sul do País, como defendemos em nossa tese A Padaria Espiritual e o Simbolismo no Ceará (1983).

Em 1894, dois “padeiros”, Temístocles Machado e Álvaro Martins, romperam com o grêmio e ajudaram a criar o Centro Literário, que se extinguira em 1904. Esse grupo, que teve como órgão na imprensa a Iracema, não atingiu a originalidade do anterior, mas reuniu um número de sócios bem maior, seguindo também estilos diferentes. Para citar apenas alguns nomes, destacamos Pápi Júnior, Viana de Carvalho, Bonfim Sobrinho, Quintino Cunha, Frota Pessoa, o Barão de Studart, Rodrigues Carvalho, Soares Bulcão, F. Wayne, Martinho Rodrigues, Alba Valdez, Eurico Facó, Júlio Olímpio e José Albano, que versejava à maneira quinhentista em pleno século XX, o que não o impediu de ser admirado por Manuel Bandeira.

Mais de um autor, no passado ou no presente, já considerou o Centro Literário uma espécie de rival da Padaria Espiritual, e para isso certamente contribuiu o fato de Temístocles Machado e Álvaro Martins haverem sido excluídos do grêmio de Antônio Sales logo depois da fundação de novo grupo. Entretanto, basta percorrer os jornais da época ou as transições feitas por Dolor Barreira em sua História da literatura cearense para constatar que os sócios de uma associação iam às festas da outra. Mais do que isso: alguns “padeiros” fizeram parte do Centro Literário e nem por isso foram expulsos, como é o caso de Jovino Guedes, Ulisses Bezerra, que já pertencem á segunda fase da Padaria Espiritual.

Ainda no ano de 1894, funda-se a Academia Cearense de Letras, com 27 intelectuais: Barão de Studart, Justiniano de Serpa, Farias Brito, Drummond da Costa, José Fontenele, Álvaro de Alencar, Benedito Sidou, Franco Rabelo, Antônio Augusto de Vasconcelos, Pedro de Queirós, Virgílio de Morais, José Barcelos, Antônio Bezerra, Eduardo Studart, Adolfo Luna Freire, Eduardo Salgado, Alcântara Bilhar, Antônio Fontenele, Antônio Teodorico da Costa, Padre Valdevino Nogueira e Henrique Thébergue.

Somente a partir da reorganização de 1922, a entidade passa a se denominar Academia Cearense de Letras e a ter 40 Cadeiras, com seus respectivos Patronos. Houve outras reorganizações, em 1930 e em 1951, e a Academia continua ativa, publicando sua revista.

Seguindo o ritmo natural das escolas literárias, o Parnasianismo chegou ao Ceará nos primeiros anos do século XX, sendo, portanto, aqui (e somente aqui), posterior ao Simbolismo em relação ao restante do Brasil.

Ao longo dos tempos, versejaram nesse estilo Antônio Sales, que havia considerado parnasianismo nos tempos da Padaria Espiritual, mas que aprenderia a verdadeira dicção da corrente em contacto com os mestres da escola, no Rio de Janeiro; Alf. Castro, nascido em Pernambuco, mas, radicado aqui, foi um seguidor fiel da ortodoxia da corrente, a partir de suas tradições de Heredia; Cruz Filho, que estréia em livro aos quarenta anos de idade, com os Poemas dos belos dias (1924), ele que já publicava sonetos trabalhados por volta de 1906; Júlio Maciel, o mestre de Terra mártir (1918); Carlos Gondim, o dos Poemas do Cárcere (1923), mais Antônio Furtado, Irineu Filho e Mário Linhares, nomes aos quais podemos acrescentar os de Otacílio de Azevedo e Carlyle Martins.

Contemporâneo dos parnasianos, mas com a dicção ainda algo romântica é o Padre Antônio Tomás, cujos sonetos transpuseram fronteiras.

Pronunciando novos tempos, naquela fase que se convencionou chamar Pré-Modernismo (seria melhor chamá-la de Sincretismo, como sugeria Tasso da Silveira) destaca-se a polimetria e até os versos livres de Mário da Silveira, cujo livro, Coroa de rosas e espinhos, seria publicado postumamente, em 1922.

Em 1925, esteve em Fortaleza o poeta paulista Guilherme de Almeida, em pregação modernista, a convite de Gilberto Câmera.

Mas é de 1927, o livro inaugural do Modernismo cearense, O Canto novo da raça, de nada menos que quatro poetas: Jáder de Carvalho, Franklin Nascimento, Sidney Neto e Mozart Firmeza (Pereira Júnior).

Dedicado a Ronald de Carvalho (e não a Guilherme de Almeida), esse livro, mais horizontal que vertical, sem numeração nas suas quarenta páginas, inaugura efetivamente a nova escola entre nós, mas nem todos os poemas que ele enfeixa trazem o mesmo tom: Jader de Carvalho e Franklin de Nascimento são radicalmente novos, apesar de, no primeiro, haver ainda umas maiúsculas que lembram o Simbolismo. Sidney Neto não compromete a escola, mas seu estilo, em versos de forte conotação patriótica, é mais enfático do que seria de se esperar. Mozart Firmeza, à maneira do Ribeiro Couto dos primeiros tempos, está mais para penumbrista, com seus versus em surdina. Seja como for, O Canto novo da raça é o primeiro livro do nosso Modernismo o qual, surgindo em 1927, foi anterior ao de vários estados do Norte e do Nordeste.

Demócrito Rocha funda, O Povo, em 1928 e o Modernismo se expande com ele (Demócrito se assinava Antônio Garrido), Filgueiras Lima, Edgard de Alencar, Heitor Marçal, Rachel de Queiroz, Martins d’Alvarez, os quatro autores do livro inaugural e mais Silveira Filho e Suzana de Alencar Guimarães, notadamente no suplemento Maracujá, de 1929, do qual saíram dois números. Esses escritores na mesma época apareciam na Revista Antropofagia, de São Paulo.

O que nem todos sabem é que Rachel de Queiros escrevia mais poesia do que prosa, tendo sido anunciado um livro seu de poemas, Mandacaru, nunca publicado.

Em 1931, sai o único número de Cipó de fogo, folha independente na qual escreviam João Jacques (irmão de Sarasate), Beni Carvalho e os mesmos de Maracujá.

Dois livros do Modernismo cearense, o de maior repercussão foi sem dúvida O Quinze (1930), de Raquel de Queiroz.

Após um hiato em que uns continuavam com o ímpeto revolucionário, e outro pendiam ora para o Parnaso, ora para o Símbolo, surgiu, nos anos de 1940, o Grupo Clã. Apesar de se haverem iniciado em 1943 as Edições Clã, a nosso ver o Grupo vai adquirir maior coesão em 1946, com o número zero da revista Clã, e quatro importantes livros: Noite Feliz, de Franz Martins; Face iluminada, de Eduardo Campos; Roteiro de Eça de Queirós, de Stênio Lopes, e um livro de quatro poetas: Os Hóspedes, de Aluízio Medeiros, Antônio Girão Barroso, Otacílio Colares e Artur Eduardo Benevides.

Talvez com algum exagero, possamos dizer que esse grupo existia tão espontaneamente que nem seus componentes tomavam conhecimento disso. Pode se depreender isso com a literatura do livro Falam os intelectuais do Ceará (1946), de Abdias Lima. Nele, o autor entrevistou, de março de 1944 a fevereiro de 1945, vários escritores, entre os quais quatro de Clã, e onde não se encontra a menor referência ao grupo.

Acrescentam-se aos nomes citados os de Antônio Martins Filho, Braga Montenegro, João Clímaco Bezerra, Joaquim Alves, Lúcia Fernandes Martins, Milton Dias, Moreira Campos e Mozart Soriano Adrealdo. Bem posteriormente entrariam no grupo Cláudio Martins, Milton Dias, Durval Aires e Pedro Paulo Montenegro.

Além do número zero, foram publicados de 1948 a 1988, vinte e nove números da revista Clã.

Já tivemos oportunidade de afirmar, em Literatura Cearense (1976), que o Grupo Clã veio trazer, como contribuição mais importante às nossas letras, a definitiva implantação do Modernismo no Ceará, numa época em essa corrente já não precisava dos rasgos iconoclastas de outros tempos.

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