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terça-feira, 26 de outubro de 2010

O alfabeto mesopotâmico de teus olhos (Nilto Maciel)



(Nicole Kidman)


(Oscar Wilde)

Ia-se a tarde trôpega pelas veredas de minhas retinas cansadas, quando me assustou o ronco metálico da campainha de minha casa. Esquecera-me do combinado no dia anterior: Ivan Monteiro queria me conhecer. E perguntara: Posso me acompanhar de uma amiga? Pode e deve. E me abraçaram a juventude dele e a beleza dela. Feitas as apresentações, pusemo-nos a falar desordenadamente. Ambos estudantes de Letras. Ouviram falar de mim num boteco do Benfica. Meu nome anda assim enxovalhado desde que me arrisquei a frequentar a noite de Fortaleza, ao lado de Pedro Salgueiro, Raymundo Netto, Felipe Barroso, Manuel Bulcão e outros habitantes das cavernas do etilismo (não confundam com elitismo) literário. (Ó, desculpem minha confusão mental: eu queria falar de sua adoração por Dioniso e por Bach e chamá-los de dionisíacos e bachianos).
Depois do zunzunzum noturno, Ivan e sua amiga leram uns continhos meus nessa galáxia de letras e imagens chamada Internet. Encontraram-me lasso, caído numa cadeira. À minha direita, um sofá novo e, sobre ele, alguns livros, espalhados, à espera de leitura demorada ou apressada: Desgracida, de Dalton Trevisan; Como fumaça erguidos e Manual de bruxaria, de Eduardo Luz; O retrato de Dominique Moro, de O. Arnáis; A tríade, de Carlos Andrade, Claudio Brites, Kizzy Ysatis e Octavio Cariello; e Maria do Monte, o romance inédito de Jorge Amado, de Carlos Emílio C. Lima.

Ofereci-lhes água e refrigerante. O rapaz parecia ofegante, suava muito, abanava-se. A moça olhava para meus pés murchos e o chão repleto de formiguinhas mortas. Qual o seu nome, boneca? (Não, não pronunciei o segundo substantivo; fiquei na intenção). Ela balbuciou: Nicole. Arrepiei-me. Para disfarçar, lembrei-me de uma atriz famosa: Nicole Kidman? Quem me dera ser ela? Sou apenas Nicole Masina.

Passemos diretamente às letras e deixemos o cinema e os sonhos para o depois. Você está lendo tudo isso, Nilto? Nem só de livros vive o homem – explicou a menina, como nas velhas narrativas. O garoto se remexeu no sofá e se aproximou mais de mim, fingindo curiosidade pela resposta. Como dois corpos não ocupam o mesmo espaço ao mesmo tempo (lembrei-me dos bancos escolares), levantei-me. Preciso ver se os pombos se acasalarem. Você cria pombos? Não, eles se criam no quintal. Ao voltar da área de serviço, sentei-me numa cadeira velha, bem defronte da pequena. Ivan folheava Trevisan. Ao pressentir a minha presença: Você gosta do velho? Sim, ele é genial. Gosta de sacanagem? Ele não escreve sacanagem. Olhei para a mocinha, que não sorria nem piscava olho para mim. E você: Gosta de sacanagem? Não, adoro água-com-açúcar. Irei preparar (leio tudo ao pé da letra). Ela riu: Falo de livro e filme. O garotão se entusiasmou: Assistiu ao Morte em Veneza? Adorável. O menino é lindo, não é? De quem você está falando? De Björn Andrésen, que faz o papel de Tadzio, o garotinho. Nicole folheava o romance de Carlos Emílio, como se não se interessasse pela conversa. Ivan abriu os braços: Luchino Visconti é genial. Eu retruquei (como nas antigas histórias): Thomas Mann mais ainda. Ele olhou para mim: Leu Der Tod in Venedig? Não, li Morte em Veneza. Uma pena! Mas li também Os Buddenbrook e Tônio Kroeger.

Doido para ouvir e ver a estrelinha Nicole Masina, eu já me aborrecia com o pedantismo de seu amigo. Porém, ele queria mais. E se pôs a falar de suas leituras prediletas. Sabe de tudo, o danado, devorou a melhor literatura no original. Você leu The Picture of Dorian Gray? Não, li O retrato de Dorian Gray. Uma pena! (Não parava de ter pena de mim). Mas leu Mémoires d’Hadrien. Não, não li. Só consegui ler Memórias de Adriano. E O bom crioulo? (Riu, o sacana). Mas aposto que não leu Devassos no paraíso, de João Silvério Trevisan.

Para me livrar de tanta cobrança, voltei-me, com ímpeto de fauno, para a estonteante Nicole. Está gostando do Carlos Emílio? Muito genial esse cara. E se pôs a ler, em voz alta, trechos daqui e dali: “O nome vagueava num pequeno estrondo inócuo, estojo aéreo inalcançável, sem sequer os mais diminutos contornos...”; “O pássaro que trouxe a própria idéia do livro antes dele existir.” Ivan arregalava os olhos: Que loucura é essa? “Dentro do carro negro, de grandes paralamas prateados, conversávamos sobre a possibilidade dos refletores já estarem prontos...” Súbito, fechou o livro. Você me empresta? Sim, empresto Carlos Emílio e ainda lhe dou Thomas Mann, todos os alemães e seus canhões, Marguerite Yourcenar e os imperadores romanos, Oscar Wilde e seus retratos, toda a devassidão de Adolfo Caminha e João Silvério Trevisan. Em troca, me basta o alfabeto mesopotâmico de teus olhos (ela parecia chorar, mas ria sem parar, a entender que eu brincava).

Antes de se irem, o jovem quis ler um trecho do romance de Carlos Emílio: “Chegavam junto com os pavões da riqueza e da neblina”. Olhou para mim, a rir: “Ele é muito criativo”. Completei: “Um dos mais imaginativos escritores da literatura brasileira”.

E se foram os dois, na tarde sem morte e sem Veneza.

Fortaleza, 23 de outubro de 2010.
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