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quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Como fumaça erguidos: Ensaios de Eduardo Luz (Nilto Maciel)




O título Como fumaça erguidos (Fortaleza: Premius, 2010) saiu de Empédocles: (...) “e breve parte de vida em suas vidas tendo visto, / logo mortos, como fumaça erguidos, se dissipam” (...). Eduardo Luz é o autor. A obra é apresentada por Leite Jr – que leu os originais –, em “Um incenso para os deuses”. Lembra a trajetória de vida e na Academia do professor Luz: a infância no Rio de Janeiro, a paixão pelo futebol, a mudança para Fortaleza, a formação em Engenharia e Administração, a participação no GAPA, Grupo Arte por Arte, “no qual exercitou seu dom poético em versos que são cromos daquele Brasil”, a publicação dos romances Sangues e Quer vele, quer sonhe (1982), Lembrar, lembrava (1984) e Depois-depois das guerras (1985) e, agora, os ensaios, enquanto se doutora no Rio de Janeiro, em Literatura Comparada.

O livro é composto de onze críticas, dispostas em quatro blocos (elementos): “Ar”, “Fogo”, “Água” e “Terra”. São estudos baseados em leituras de construções literárias fundamentais, como Flaubert, Shakespeare/Pessoa, Machado de Assis, Graciliano Ramos, Claude Lévi-Strauss, José Lins do Rego, e outras de menor repercussão.

Em “O abajur de Ema: narração e estetização em Madame Bovary”, Eduardo Luz se apega à figura do narrador ou dos narradores no romance de Flaubert. Mergulha nos “variados procedimentos narrativos” do escritor francês, com seu “narrador quadrifacial” ou “o narrador de muitas faces e muitíssimos olhos”. Como estudioso da Teoria da Literatura, leitor voraz dos clássicos e dos novos, romancista e poeta, Eduardo Luz se serve, para compor suas análises, da nata da literatura teórica: Benjamin, Campbell, Lukács, Morin, Watt, Welsh, sem deixar para trás os pioneiros, desde Platão, os filósofos (Nietzsche), os etnólogos, etnógrafos, antropólogos, etc.

Em “A mão de Shakespeare e a mão de Pessoa: Hamlet e O marinheiro”, Eduardo Luz dá outra aula: a visão do gênio português voltada para o gênio inglês. E a conclusão do nosso mestre: “O camaleão Shakespeare serviu de maneira para Pessoa, que viu em seu fingimento dramático um exemplo de sinceridade artística”.

“O eu machadiano como piparote” é exemplar. Eduardo se refere à “técnica da pseudoautobiografia” em Machado, especialmente no conto “Viagem à roda de mim mesmo”. Em linguagem clara, esmiúça os modos de narrar do autor de Dom Casmurro: “O claro-escuro do edifício literário machadiano nos pareceu menos enigmático em função do “autor-implícito”, este manejador de máscaras que controla o ponto de vista e o ponto de cegueira do narrador.”

Para quem escreve prosa de ficção, como eu, as composições críticas de Eduardo Luz são verdadeiros fachos de orientação. Em “Água-mãe e o romance etnológico”, que publiquei na revista Literatura nº 28, de 2005, dedica-se ao romance de José Lins do Rego. Segue-se “Histórias do futebol: uma leitura etnológica” – leitura do livro de João Saldanha. E não poderia esquecer Claude Lévi-Strauss: “Para ler Tristes Trópicos”. Verdadeira apologia do belga, um dos pioneiros da Universidade de São Paulo. Nem Graciliano: “Como ler Vidas secas”, num exame dos estados mentais das personagens do romance – “aventuras mentais de personagens transtornados por acidentes térmicos”, ou a “insolação e onisciência seletiva múltipla”. Há, ainda, “Por que estudar Teoria da Literatura”, que também publiquei, em Literatura nº 33, de 2007, com outro título e possivelmente modificado para o livro.

Na parte final do volume, três breves composições: “O bricoleur João Clímaco Bezerra: memória e ficção”; “Ensaio à maneira de O mundo de Flora”; e “Cântico oleiro: rezar poesia”. No primeiro, um passeio pela engenharia romanesca do cearense Clímaco: “Memória e ficção integram-se, no romancista João Clímaco, pela bricolagem: a primeira lhe fornecerá os “pedaços de objetos”; a segunda promoverá a combinação deles para a obtenção da totalidade, que, no caso, é cada obra”. (Há poucos meses fiz uns rabiscos de leitura da novela Longa é a noite, em “João Clímaco Bezerra e a arte da novela”, publicado na Internet. Eduardo argumenta: “Parece-nos, entretanto, que não há impertinência em tomar a obra, conceitualmente, como um romance”).

A crítica dedicada ao romance de Angela Gutiérrez homenageia a própria estrutura (o título explica) de O mundo de Flora. E, para concluir, o brevíssimo exame da poética de Maria Helena Pinheiro Cardoso Marques. Cântico oleiro “é um longo canto de fraternidade”; um “poema emblemático”.

Para quem gosta de ler tradução literária, nada melhor do que estes onze ensaios do “erudito” (como afirma o prefaciador, e com ele concordo) Eduardo Luz, mestre em Literatura Brasileira e doutorando em Literatura Comparada.

Fortaleza, 31 de outubro de 2010.
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