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terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Planeta África (Manuel Soares Bulcão Neto)


Na festa de aniversário do escritor Pedro Salgueiro, estávamos eu e outros convidados a especular sobre a violência urbana e a pandemia do vício em crack, evidentes sintomas de anomia social, quando, de repente, surge-me uma ideia – um daqueles insights que tenho com frequência: aparentemente originais e ululantemente errados. “A principal causa do mal é a superpopulação das metrópoles, sendo as favelas os pontos de maior concentração”, sentenciei; e para fundamentar minha tese (na verdade, de Rousseau), falei de uma experiência científica com camundongos. A seguinte:

Psicólogos behavioristas abarrotaram um viveiro com ratinhos de ambos os sexos e idades diversas. Mesmo não havendo escassez de víveres, constataram rupturas drásticas nos padrões comportamentais das cobaias: aumento significativo de relações sexuais sem fim reprodutivo (homossexualismo e necrofilia); formação de “bandos” entre os machos; agressividade mortal contra os fracos e isolados; canibalização pelas mães das suas crias recém-nascidas; secreção extra de endorfinas – estupefacientes endógenos – pela hipófise…

Os comentários à minha sacação, todos discordantes, foram imediatos: nossos índios caçam e coletam em amplos espaços, porém, na maior parte do tempo, vivem apinhados em ocas; as casas grandes patriarcais, habitavam-nas várias gerações da família e seu séquito. Mesmo assim havia paz e obediência às regras e valores.

Admiti meu equívoco. “Raios!” – Praguejei em pensamento. – “Por que sempre digo bobagem com ar professoral?”. Concordamos, então, que a alta densidade populacional só se torna problemática quando quebra a estrutura social, o que nem sempre ocorre. Os comportamentos alterados dos ratos foram reações instintivas voltadas para um desses objetivos: a) Eliminar o excesso e recuperar a estrutura; b) Criar nova estrutura; c) Adaptar-se à situação de caos.

Voltando para casa, pensava no assunto e no que mais poderia ser socialmente desestruturalizador. Logo me veio à mente o método de conquista da África pelos colonizadores europeus, resumido na carta de um traficante de escravos aos fazendeiros da Virgínia, em 1712: colocar o negro velho contra o jovem negro, o negro de pele clara contra o de pele escura, o homem contra a mulher e vice-versa, até que todos só tenham a “nós” (i.e., os brancos) em quem confiar. Foi assim, dividindo (desestruturando) por meio da discórdia, que um bando restrito de assassinos, liderado pelo Rei Leopoldo II da Bélgica, pôs o Congo de joelhos e, durante trinta e um anos (1877–1908), explorou sua borracha e marfim. — A Enciclopédia Britânica estima que, neste período, a população congolesa declinou de vinte ou trinta milhões para apenas oito milhões.

Se a África, principalmente a subsaariana, mesmo depois da descolonização permanece violenta e paupérrima, não se deve essa tragédia apenas a causas internas (a opinião racista do biólogo James Watson não vale um comentário), mas, precipuamente, a este fato: os colonizadores, na pilhagem daquele continente, destruíram suas fundações sociais arcaicas e nada colocaram no lugar, a não ser instituições de fachada (frágeis gambiarras), desconfiança generalizada e ódio intertribal exacerbado.

Ah, e o que dizer da nossa anomia social e suas terríveis consequências? Ainda no caminho para casa, deparei-me com a epifania de uma possível resposta (espero que não seja outro daqueles “insights”): ao estacionar o carro numa loja de conveniência, observei, ao lado, num outdoor, a imagem de uma belíssima e jovem mulher apenas de lingerie e um colar de pérolas. Próximo ao painel luminoso, escorado em seu carro de mão, um catador de lixo, feio e de meia-idade, mirava aquele luxo — com olhar encantado, desejoso, catatônico…
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