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domingo, 5 de dezembro de 2010

Plenitude – Não perfeição (Emanuel Medeiros Vieira)

Para Cida, irmã, amiga, comadre, infinitamente amiga

“Um dos motivos mais poderosos que conduzem o homem em direção à arte e à ciência é o de escapar do cotidiano” (Albert Einstein)




A quarta-feira,

o lado-sombra,

dentro de cada um,

pão, café,

o paraíso pode ser o outro,

não só o inferno?,

o mito é o nada que é tudo,

escreve Pessoa,

um arquétipo universalmente conhecido,

eu sei, é Jung, não Freud,

inconsciente coletivo,

mas de onde vem essa apreensão?,

esse temor metafísico contemplando o mar,

ah, brisa marinha

sempre aspirei a plenitude,

não a perfeição,

sou mortal,

agonia sem nome,

na manhã bela e repetida

a apreensão continua

vontade de chorar ouvindo Cartola e a voz de Elis,

pensando na coleção de amigos mortos,

Ela te contempla,

a Cachorra, a que te colocará de pés juntos,

novamente citações:

“Deve haver no mais pequeno poema de

Um poeta, qualquer coisa por onde se note que existiu Homero”

(Pessoa – novamente).


Voltarei sempre com as mãos vazias?

Mas estou pleno dessa finitude,

Já sem medo, reconciliado,

olhando as vidas tão “pequenas” e anônimas,

ônibus, salário pequeno, hospital cheio,

a luta de cada dia.


Resta-me a esperança de que um só leitor, um só

– se houver leitores –

daqui a mil anos, entenda o meu esforço

(acolher a linguagem no mundo quebrado).


(Salvador, novembro de 2010)
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