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terça-feira, 31 de agosto de 2010

Adeus, Grécia (Emanuel Medeiros Vieira)

(Delacroix, Barque of Dante)

Não bastaram fibra e amor,

cai, Grécia,

universo solar

adequação entre ser e destino,

envelhecemos

– morte na soleira da porta,

fragmentos de sonhos

– só fragmentos –

não a totalidade,

adeus, Grécia,

adeus,

despedidas

– só despedidas.


Ulisses: somos apenas seres virtuais,

Homero envolto em brumas,

homens sem fibra carregando engenhocas eletrônicas,

caindo como folhas ao vento

(prenhes de cobiça – soberbos –, e miseravelmente rotos),

Não, não eram eternos,

onipotência só de papel,

deuses de barro,

TV.


O Espírito sopra onde quer?

Adeus, Grécia,

adeus, pátria dos homens,

adeus, pássaro da juventude,

inunda-nos o lamento de homens afundados –

uma doída lembrança.


De que barro somos feitos?

Não, não só de vileza,

também busca,

mesmo acampados em sucursais do inferno,

caminhando em sombras:

sonho da eternidade pela arte.


Para todos – fúteis, deslumbrados, sábios –

haverá sim – como haverá!,

o momento da Revelação –

e será tarde,

muito tarde.


Adeus, Grécia,

adeus,

desfeitos, como pó, varridas cinzas,

irrelevantes ou – para alguns –

nobres nessa finitude.


Sonâmbulos, clones dos nossos sonhos,

escritores de narrativas epigonais.


Não naveguei nos melhores mares:

preciso navegar – sempre –

infinitamente humano.
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sábado, 28 de agosto de 2010

Astrid Cabral e os livros

Depois de ler minha crônica "Alma perdida na biblioteca", a escritora Astrid Cabral me mandou o seguinte comentário, que é uma delícia:

Querido Nilto,
gostei muitíssimo de sua crônica. A verdade é que nós escritores somos viciados em letras: Ou elas saem de nós, ou entram em nós. Tal o ar que respiramos. O circuito é contínuo e intenso. Um fanatismo, como define meu filho Alfredo. Mas acontece que o dia tem só 24 horas, as editoras não param e nosso ritmo não acompanha essa fecundidade. Como já dizia o Drummond, à noite os papéis copulam. E não há olhos nem boca humanos para digerir toda essa fartura, essa avalanche de folhas.

Universo Moreira Campos

Cole isto – universomoreiracampos.blogspot.com – em “pesquisar” (Google ou outro) e relembre (ou conheça) Moreira Campos.


Vamos lembrar sempre Moreira Campos. Não apenas a figura humana, o rosto, o homem, mas o escritor, o contista, um dos melhores do Brasil.


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sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Carcomido (William Lial)

Tudo o que vejo agora

são paisagens negras,

árvores mortas e flores secas,

nuvens cinza que usurpam meus olhos,

corpos estranhos que se movem inexplicavelmente.


Tudo o que vejo agora

é a terra morta que paira nos meus olhos,

é o sentimento amargo que corrói

vários peitos ignominiosos,

é o beijo falso que beija bocas

como se beijasse vermes.


Tudo o que vejo agora

é tudo o que não quero ver,

são esses olhos negros

e esses braços içados, marciais,

são esses peitos que arfam

prazenteiros a morte que os almeja,

são essas bocas pornográficas

a vomitarem palavras podres,

são amores falsos,

verdades tortas,

retas circulares,

luzes apagadas,

são meios-homens

que amam meias-mulheres,

paixões violentas

que destroem mundos,

demência coletiva

que cultiva a tortura,

sorrisos cínicos

que seduzem os miseráveis.


Tudo o que vejo agora

é a mentira da paz utópica e bélica,

é a falácia ruminada de ancestrais

que se fizeram deuses

para que a história os fizesse imortais.
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quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Alma perdida da biblioteca (Nilto Maciel)

Nilto Maciel


Recebi exemplar autografado do novo livro de Everardo Norões: “Para o escritor e amigo Nilton Maciel, este Poeiras na réstia, pó que somos, às vezes réstia... com a admiração e o abraço de (assinatura). 02.VIII.10”. Nem prestou atenção à grafia de meu nome. Não faz mal: talvez não haja outro Nilto Maciel.

Há alguns anos recebo livros. Quase todos de escritores, que querem uma resenha, um comentário, um elogio. Algumas editoras também mandavam, desde os tempos da revista O Saco. Para divulgação. À frente da revista Literatura, que durou dezessete anos, essa avalanche de publicações quase me sufocou. Cheguei a alugar um apartamento, em Brasília, só para abrigar meus hóspedes de papel. Uma loucura, como dizia minha mulher. E dava ultimatos, diariamente: Ou eles, ou eu. Terminei sem ambos. Ela não aceitava dividir o restrito espaço do mundo com aqueles seres inanimados, empoeirados, sem atrativos: Como você pode ser tão idiota, leitorzinho. Ela talvez quisesse me chamar de leitãozinho. E me ver assado, para me comer melhor.

Também meus amigos, que são todos escritores (nunca tive amigos que não fossem escritores), me chamavam (e chamam) de idiota: Como você pode perder tempo lendo tanta porcaria e, ainda por cima, dando divulgação a ela em revistas e na Internet? E levavam (e levam), por empréstimo, o que julgam não ser porcaria. Dia desses fiz um balanço: dos vinte mil livros que ocupam (ou ocupavam) as estantes de minha mansão, menos de um por cento vale a pena ler de novo. Já me levaram Cervantes, Camões, os sermões de Vieira, os amantes de Lady Chatterley, os amores de David Herbert Lawrence.

Certamente não terei tempo de ler toda a minha biblioteca. Levaria uns duzentos anos. Mas tenho sido educado: leio as abas, o prefácio, alguns poemas, contos, páginas, e escrevo ao doador do livro umas palavras de agradecimento. Não prometo resenha, artigo, estudo. Não sou jornalista profissional, não me pagam para escrever. Não disponho de muito tempo para leituras desse tipo. Em compensação, desde 1974, data de minha estreia como escritor, envio, pelo correio, exemplares de meus livros (acho que são vinte) aos amigos escritores. Trinta e seis anos remetendo livros. Uns poucos me dirigem agradecimentos. Se todos eles leram meus livros, não sei. Alguns leram. Poucos escreveram artigos e ensaios. São escritores maravilhosos, críticos excelentes, leitores apaixonados: Adelto Gonçalves, Adriano Spínola, Aíla Sampaio, Angelo Manitta (italiano), Artur Eduardo Benevides, Astrid Cabral, Batista de Lima, Caio Porfírio Carneiro, Carlos Augusto Silva, Carlos Augusto Viana, Carmélia Aragão, Celestino Sachet, Chico Lopes, Dias da Silva, Di Carrara, Dimas Macedo, Donaldo Schüller, Eduardo Luz, Enéas Athanázio, Erorci Santana, Fernando Py, Foed Castro Chamma, Francisco Carvalho, Francisco Miguel de Moura, F. S. Nascimento, Henrique Marques Samyn, Inocêncio de Melo Filho, Jaime Collier Coeli, João Carlos Taveira, Jorge Pieiro, José Alcides Pinto, José Lemos Monteiro, José Luiz Dutra de Toledo, Laene Teixeira Mucci, Liana Aragão, Moreira Campos, Nara Antunes, Nelly Novaes Coelho, Nicodemos Sena, Paulo Krauss, Paulo Nunes Batista, Ronaldo Cagiano, Salomão Sousa, Sânzio de Azevedo, Sérgio Campos, Tanussi Cardoso e Valdivino Braz. Alguns nem conheço ou conheci (a morte os levou cedo). A todos sou muito grato.

Everardo, desculpe a demora no relacionar nomes. É que minha memória nunca foi boa e precisei buscá-los num arquivo. Desculpe também estar falando de mim, em vez de falar de sua obra. O posfácio de Manoel Ricardo de Lima é uma aula. Como ele sabe literatura! “Um poema sempre aparece como se fosse uma indefinição de si mesmo, de seu contorno, de seu absurdo; um erro.” Li alguns poemas. Você é bom poeta e está ao lado (ou na mesma estante) de Nabokov e sua Lolita, Vitorino Nemésio, Fernando Namora, José Santiago Naud e outros da letra “N” (primeira do sobrenome). Quero ler mais, porém Ana Clara me chama do quarto onde se hospedam alguns poetas esquecidos. Quer que eu leia Florbela Espanca. Gosto dela como de poesia. Gosto dela porque venera meus livros. Mas nem sempre consigo atender a seus quereres. Já vasculhei todas as estantes. Nada de encontrar a frágil Florbela. Mudou-se de lugar, decerto, e se escondeu atrás de algum poeta mais encorpado: Dante, Homero, Virgilio, sei lá. Ou a levaram meus visitantes. Chamei Clarinha: Venha ouvir um poeta novo, vindo do Crato. E me pus a ler em voz alta: “a cafeteira / me dá bom-dia /com seu gesto de prata. / digo a mim mesmo: / acorda! / levanta-te e anda! / sofre/ a alegria vã / das árvores tardias, / dos morcegos que lançam / os frutos maduros das imbaúbas / sobre os telhados. / olha em torno: / o verde indiferente, / a música fechada no piano, / a pequena formiga / e suas passadas, / a suportar / o grão de açúcar / do Universo!”

Isto, intitulado “De manhã”, é que é poesia. O resto é poeira que se vai. Ou réstia que fica por instantes. Olho para Ana Clara e sinto o que é poesia. Florbela reaparece: “Minha’alma, de sonhar-te, anda perdida”. Arrojo-me a seus pés.

Fortaleza, manhã/noite de 25 de agosto de 2010.
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quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Alguns versos (Silmar Bohrer)



Ando buscando a substância

que caiba nalgum versinho,

algo que traga a constância

perene de um cadinho.


Vagam em vagas vagantes

os canarinhos cantores,

são pequeninos cultores

de melodias vibrantes.


Caem folhas bem ao léu

no final da invernia,

vou buscando a alquimia

que há debaixo do céu.


Versejando versejando

sempre ao sabor dos ventos,

eu espanto desalentos

e vou na vida vibrando.


Tudo tem o seu preço

na romaria da existência,

por isso busco a essência

com carinho e com apreço.


Ando à procura dos rebentos

da viúva-alegre querida,

eles é que dão a boa vida

nestes agostos mormacentos.


O "bosco" anda encantado

no final da invernia,

a cantiga da galharia

me deixando alumbrado.


Faça o pouco que puder

fazendo sempre bem feito,

pois este é o melhor jeito

de ter o que de melhor houver.


Voltar aos queridos versos

é coisinha saborosa,

pensares em rebordosa

até os confins dos universos.


São ventares bem quentinhos

anunciando nova era,

e vem surgindo os brotinhos

anunciando a primavera.


A corruíra maviosa

voltou então a cantar,

cantando sem rebordosa

faz meu ser então vibrar.


Ventinhos imensuráveis

nas canhadas do infinito,

companhias agradáveis

pralgum versinho bonito.


Tico-ticos e canarinhos

são companhias caseiras,

criaturinhas faceiras

merecendo meus versinhos.


Mas como vou tratar mal

as minhas poucas idéias,

verdades ou panacéias,

elas são o meu fanal.


Ventos ventinhos ventares

também são venturas minhas,

são eternos silabares

quais vinhos das melhores vinhas.


Fim de tarde. Calmaria.

Sol no ocaso. É o poente.

Eu nos versos. Confraria.

Sossego. O "bosco" silente.


Andam ventos altaneiros

anunciando nova era,

ventos quentes, mensageiros

da doçura primavera.
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terça-feira, 24 de agosto de 2010

Eu, fumante (Manuel Soares Bulcão Neto)

Mephistopheles (Delacroix)

O romancista João Ubaldo Ribeiro, sempre bem humorado, disse certa vez que seu epitáfio deveria ser o seguinte: "Ex-escritor. Aos cinquenta anos de idade deixou de escrever para se dedicar, em tempo integral e pelo resto da vida, a parar de fumar."

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Filho (Pedro Du Bois)

(Arte de Chico Lopes)

Eu, filho imprevisto

do outono faço desabar

mistérios e dos céus

em acometimento

rasgo espaços e me faço

alegre ao desgaste: estar

preciso na estação derradeira


eu, filho inaudito

acometido em vida

desvisto os olhos

e nego enxergar

ao longe o horizonte.

http://pedrodubois.blogspot.com/
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sábado, 21 de agosto de 2010

Recortes (Simone Pessoa)

(Quadro de Chico Lopes)

simoneps@fortalnet.com.br

Revivi minha infância em companhia de minha avó, no centro de cidade. Lembrei-me da forma como passeávamos de manhã cedo à beira da praia. Nostalgia? Talvez. O certo é que todos nós temos uma necessidade interior de fortalecermos os nossos elos com o passado. Esse encantamento dos tempos de criança levarei para o além.

Mas a passagem do tempo é assim mesmo, nos transforma! Vivemos por viver a vida de algo ou alguém. Um abismo que toca o meu abismo. E no final continuamos os mesmos quadrados de uma só cor, ofuscados pelo brilho diferente e mais jovial de cores vibrantes.

Que oportunidades te estimulam e ambiciosamente te lançam para conquistar? Perguntas que vão construindo um ideal. O que importa é o enigma, é a pergunta, a curiosidade. Os reinos subjetivos mais presentes e fortes do que a “realidade”.

A escrita nos revela. Escrever é para mim um sonho acalentado há muitos anos. Quisera eu ter o domínio da palavra e a capacidade de transpor para o papel as inquietações do meu espírito. É adicionando poesia em nossas vidas que temos um sabor bem diferente...

O texto merecia uma música de fundo e coloquei More Than Words. Profundo, firme e verdadeiro. Um toque todo especial de poesia.

Às vezes acho que é injusta a roda da vida, tanta luta, tanto amor e um dia tudo acaba... Porém, a felicidade não custa muito. O apreciar dos pequenos gestos, das coisas simples da vida, é o que nos faz verdadeiramente felizes. O importante é sentirmo-nos descarregados, despoluídos, limpos, enxaguados e leves. Assim, segues te autocriando...

Tratar o problema do outro é também parte do nosso problema. A humanidade só caminhará para o bem quando todos tiverem consciência disso. Um convite a sairmos de nós mesmos e irmos à luta em busca de ajuda ao próximo. Isso demonstra com nitidez o grande sentimento de humanidade.

Quanta sensibilidade! Quanta sabedoria! Mas o curioso é que, ao contrário do que se poderia supor, todos os pensamentos acima foram formulados exclusivamente por leitores desta coluna e não pela cronista que ora escreve.

Nessa página, resolvi homenagear meus leitores. E a maneira mais autêntica que encontrei foi reproduzir trechos de mensagens e manifestos enviados por eles. Assim, leitor, você poderá se enxergar nesses recortes e reivindicar a coautoria.
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sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Saramago: Todos os Nomes (Tânia Du Bois)


José Saramago faz parte das nossas vidas. E relembrá-lo através de Todos os nomes é fazer referência ao setor cultural e desfrutar de sua companhia em todos os momentos.

Todos os nomes foi a obra que escolhi para comentar, por ser marcante pela sua criatividade, transmitindo uma literatura de qualidade, sem contar as mudanças positivas no seu modo de escrever: grandes parágrafos e grandes ideias.

Todos os nomes trata da história de um escriturário do Registro Civil, José, que fazia coleção de nomes e de recortes de jornais. Certo dia agradou-se do nome de uma mulher e seu desejo de conhecê-la o levou a ignorar as regras do bom funcionamento dos serviços públicos; aproveita-se da vantagem de ser escriturário, para procurar em todos os arquivos dados que o levassem até a mesma. Também, não se detém ao ultrapassar a marca do permitido, para descobrir algo sobre a mulher com aquele nome.

“Pessoas assim como este Sr. José, em toda a parte as encontramos, ocupam o seu tempo ou o tempo que creem sobejar-lhes da vida a juntar selos, latas vazias, pedras... vão tentando pôr alguma ordem no mundo, por um pouco de tempo ainda conseguem, mas só enquanto puderem defender a sua coleção...”.

Com coragem, o personagem passa pela porta do proibido e avança nos arquivos, copiando os dados, o que o deixa feliz e satisfeito ao ter conhecimento do todo.

Ao viver de mentiras, que dão significado a sua vida, passa momentos de suplício ao se deparar com a data da morte constante nas anotações da desconhecida mulher.

O livro está recheado de conteúdo em sua beleza e profundidade com que aborda o silêncio e a solidão do personagem, dando qualidade intrínseca à importância e à significância do nome. O autor nos dá o valor absoluto do nome, como vida; o valor humano, profundo, que repousa na raiz da cultura, enquanto espírito.

“Conhecer o nome que te deram, não conheces o nome que tens”.

“Além do seu nome próprio de José, o Sr. José também tem apelidos, dos mais correntes, sem extravagâncias onomásticas...”.

Todos os nomes, em cada parágrafo, nos faz sentir vivos, retratando o valor do nome no sentido da expressão humana. É sensível a ponto de envolver o leitor em toda a arte encontrada, para refletir que o nome é a nossa natureza, nossa alma, nossos sonhos, nosso inconsciente e, principalmente, a nossa história.

Todos os nomes é Saramago, escritor consagrado e inesquecível, que agora ganhamos (ou perdemos) para a eternidade.
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quinta-feira, 19 de agosto de 2010

O perdão (conto de Nilto Maciel, imagem e som)

Ventania (Ronaldo Monte)


Estamos em pleno agosto, mês das ventanias. Agosto sempre me serve como uma metáfora de passagem. Estamos saindo da estação das chuvas e prevendo o sol que virá com setembro. Mas até lá, teremos que nos haver com os ventos de agosto, que tanto nos chateiam com seus alvoroços, quanto nos alegram com a dança das saias.

Os ventos de agosto levam para longe os miasmas e o mofo criados nos aguaceiros. Seus redemoinhos denunciam o sujo das ruas, carrosséis de papel e folhas secas. Suas noites friorentas propiciam a reconciliação dos casais e atiçam os solteiros em busca de uma costela onde se esquentar.

Agosto irrita, às vezes. O cinzento do céu do inverno ainda teima em nos tapar o sol. As rajadas mais fortes do vento castigam com areia as pernas dos que já se aventuram à beira-mar. Foi o mês em que morreu Getúlio, em que cai o dia das sogras, em que dizem que a bruxa anda solta. Por falar nisso, neste agosto de 2010 vamos ter uma sexta-feira 13.

Mas se não ligarmos para esta fama de mês aziago, podemos viver em paz o que nos resta deste agosto. Enfrentemos com alegria a sua ventania. Vamos pedir para que ela leve, junto com os miasmas e o mofo, as nossas tristezas pelas notícias ruins acumuladas neste ano. Que o vento forte sopre para longe a maldade encruada no coração dos homens.

Pode parecer um desejo infantil, ilógico, esse meu. Mas é o que me ocorre pedir a agosto, este mês de passagem do peso das águas para o céu limpo sobre os campos e as praias. Que o seu mar revolto nos entregue às ondas calmas. Que sua ventania nos leve à brisa leve do verão. E quando estivermos torrando sob o calor da última quadra, lembremos com carinho dos momentos de terna intimidade que agosto nos deu.

Visite meus blogs:
blog-do-rona.blogspot.com.br
memoriadofogo.blogspot.com.br
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quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Blogues de literatura

– No http://novapoesiabrasileira.blogspot.com, a consagrada Poesia de Emanuel Medeiros Vieira e o jorro de juventude que sopra dos versos de João Carreño.
No http://blogdobenilson.blogspot.com, algumas frases do eterno José Saramago.
E novas imagens para os poemas de http://poesiacoxipo.blogspot.com .

– Entre linhas e imagens, novos sentidos estão presentes na Diversos Afins. As mais recentes expressões conduzem a:
- uma entrevista com o poeta Ildásio Tavares
- confissões íntimas expostas nos contos de Cláudia Magalhães,Milena Martins e Isaias de Faria
- os homens e seus lugares na exposição fotográfica de Ricardo Sena
- o lirismo poético presente em Elaine Pauvolid, Nestor Lampros, Luis Benítez, Elane Tomich, Ricardo Mainieri, Sylvia Araújo, Cyro de Mattos e Hilton Valeriano
Outros signos mais em:
http://diversos-afins.blogspot.com/

– Atualizei meu blogue com dois sonetos de José Pedro Soares Bulcão, meu tio-avô? (pai da atriz).
Confiram o talento do cabra:
http://asesquisiticesdoobvio.com.br/blog/?p=105
Website e blog de Manuel Bulcão:
http://www.asesquisiticesdoobvio.com.br/
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terça-feira, 17 de agosto de 2010

Diálogos na Internet (Nilto Maciel)


Diálogo no Youtube, a respeito da canção “Teresinha”, de Chico Buarque:

Gabbriie : não é querendo desmerecer mais essa música é tão "vazia" deprimente, broxante, em fim vai ver e pq eu nao gosto do genero.

Antennahat : Não é que você não gosta do gênero. É porque você é idiota mesmo.

Outro diálogo:

Nilto: Olá, Pedro. Que crônica mais marota! Dá nisso andar lendo piadinhas na Internet. Desculpe a crueza.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Memória e Linguagem (Emanuel Medeiros Vieira*)

Quero falar da memória não como algo mecânico, mas como base de toda a identidade. Memória como instrumento de justiça e de misericórdia. Não por acaso, na mitologia grega, Mnemosina, a memória, é a mãe das Musas, ou seja, de todas as artes, do que dá forma e sentido à vida. Sim, ela protege a vida do nada e do esquecimento. A literatura não deixa de ser (também) um instrumento de transfiguração de um momento (eternizar a memória). Uma busca de perenizar o instante para convertê-lo em sempre. O ato da lembrança é ao mesmo tempo caridade e justiça para as vítimas do mal e do esquecimento. Muitas vezes, indivíduos e povos desapareceram no silêncio e na escuridão. Muitos devem se lembrar das ditaduras que, apagando as fotografias dos banidos querem, em verdade, apagar a sua memória. A memória é resistência a um tipo de violência: àquela infligida às vítimas do esquecimento. A memória é o fundamento de toda identidade, individual e coletiva. Guardiã e testemunha, a memória é também garantia da liberdade. A linguagem é edificada para a construção dos textos que querem eternizar nossa brevidade, a nossa finitude. Como observa a filósofa e historiadora, Regina Schöpke, “quanto mais inconsciente ou subliminar é a linguagem, mais fortemente ela age sobre nós, mais ela nos domina e nos dirige.” Os filósofos e filólogos sabem disso. Estes últimos, veem nela não apenas uma ferramenta da razão para dar conta do mundo, mas, sobretudo, uma segunda natureza. “Algo que, de certa forma, produz o mundo, e não apenas o representa”, como observa a autora citada. Os gregos já enfrentavam a questão. Nietzsche – que além de filósofo era também filólogo – chamava esse universo da linguagem de “duplo afastamento do real”, de “segunda metáfora”. Porque aí os homens lidavam com conceitos e não apenas com o mundo em si. A linguagem pode ser instrumento de dominação, estimulando um preconceito racial, como fizeram os nazistas, alimentando o fanatismo e o preconceito, gerando um horror como raramente (ou nunca) se viu na História. Todo sistema com ambições totalitárias, como detectou a pensadora, tem necessidade de produzir um discurso, uma mitologia e palavras de ordem. O que é a publicidade que só pensa em vender, sem nenhum compromisso ético? É um exercício mental doloroso, mas assim a gente pode entender como uma cultura que produziu tanta beleza com Goethe, Beethoven, Nietzsche, Hegel, Wagner e outros, tenha mergulhado, com o nazismo, na mais profunda irracionalidade, onde o Mal apareceu com toda a sua força, ou melhor, em toda a sua plenitude. Tento meditar sobre esses assuntos, entre outras razões, porque a falta do estudo da filosofia para quem tem menos de 60 anos, criou um tremendo vácuo cultural. Fundou-se o universo utilitário, da posse imediata. Só vale o que tem valor contábil. Faço minha a proclamação de Michel Foucault: “Não se apaixone pelo poder.”

* Emanuel Medeiros Vieira é escritor catarinense. Viveu em Brasília durante 31 (trinta e um) anos. Hoje mora em Salvador ou, como diz, “faz a ponte afetiva entre a primeira e a última capital do Brasil”. Tem 20 livros publicados, é e detentor de diversos prêmios literários. Possui mais três obras ainda inéditas. Participou de mais de 50 antologias de contos e de poemas, no Brasil e no exterior. Foi jornalista, professor, crítico de cinema, editor, vendedor de livros e redator de discursos parlamentares. Fundou cines-clube e grêmios literários, e militou ativamente na política estudantil no secundário e na universidade.
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domingo, 15 de agosto de 2010

Gonzaga, um poeta no desterro (*)

Adelto Gonçalves (**)

I

O poeta Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810), autor de Marília de Dirceu, a coleção de poemas líricos mais popular da literatura de língua portuguesa, nasceu em Miragaia, no Porto, mas viveu parte da infância e da juventude no Recife, Bahia e Rio de Janeiro, antes de voltar a Portugal para estudar em Coimbra. Bacharel em Direito, montou banca em Lisboa e ainda candidatou-se, sem êxito, à cadeira de Direito Pátrio em Coimbra, antes de ingressar na magistratura em 1778. Foi juiz de fora em Beja, até que em fevereiro de 1782 saiu sua nomeação para ouvidor-geral de Vila Rica, em Minas Gerais.

Como ouvidor, não se pode dizer que Gonzaga tenha sido um magistrado reto, que não se tenha deixado levar pelas paixões e a cobiça de um tempo em que a atividade mineradora fizera a América portuguesa passar por muitas transformações. Se não existem provas cabais de que o ouvidor tenha favorecido a família de sua noiva, evidências não faltam.

Em 1788, por exemplo, o ouvidor se limitou a confirmar a reforma compulsória do capitão Baltasar João Mairinque, pai de sua noiva, Maria Dorotéia Joaquina de Seixas. Não lhe aplicou nenhuma sanção, embora o militar tivesse sido afastado do comando do destacamento da Serra Diamantina de Santo Antônio do Itacambiruçu por crime de tolerância ao contrabando.

Afastado Mairinque por imposição da Junta Diamantina, o governador e capitão-general Luís da Cunha Meneses, aquele que passaria para a História como o Fanfarrão Minésio das Cartas Chilenas, aproveitou para favorecer apaniguados: promoveu o tenente José de Sousa Lobo e Melo a capitão e sargento-mor “em breves meses” e o tenente Tomás Joaquim de Almeida Trant a capitão, entregando-lhe o comando da repartição de Paracatu.

Quem ardeu de raiva foi o alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, que, com a vaga aberta, pretendia ascender a tenente. Era julho de 1788. A ira do ouvidor talvez nascesse da constatação de que, afastado Mairinque, seu substituto, sob o manto protetor do governador, agia de modo ainda pior, sem que nada lhe pudesse ocorrer. O ouvidor deu o troco como pôde, ao absolver, mais tarde, o cadete Joaquim José Vieira Couto, irmão do doutor José Vieira Couto, conhecido maçom. Joaquim José fora acusado de injuriar o comandante do Tijuco, José de Vasconcelos Parada e Sousa, homem do esquema do governador.

Talvez por isso o irmão de Parada, o tenente Fernando, tenha resolvido desrespeitar o ouvidor. Gonzaga, então, recorreu ao tenente-coronel Francisco de Paula Freire de Andrade, comandante do regimento de cavalaria regular, que advertiu o subordinado. Todas essas questiúnculas o ouvidor contou disfarçadamente nas Cartas Chilenas, mas podem ser também comprovadas na documentação do Arquivo Público Mineiro e em vários depoimentos que constam dos Autos da Devassa da Inconfidência Mineira.

Depois que Cunha Meneses deixou Vila Rica em julho de 1788, Gonzaga teve menos de dois meses para trabalhar com o novo governador, o visconde de Barbacena. No dia 7 de setembro, passou o cargo para o novo ouvidor, Pedro José de Araújo Saldanha, que subira do Rio de Janeiro com o alferes Tiradentes à frente do comboio. A posse foi tumultuada porque, no dia anterior, 31 presos haviam fugido da cadeia pública.

II

Fora das funções, Gonzaga permaneceu em Vila Rica à espera de autorização real para o seu casamento com Maria Dorotéia. Por esse tempo intensificou suas relações com os poderosos do lugar: no começo de outubro, esteve por vários dias como hóspede do fazendeiro Alvarenga Peixoto em São João del-Rei. E batizou um filho do amigo. Um outro filho de Alvarenga recebeu batismo no mesmo dia, mas o padrinho foi o arrematante de contratos de entradas João Rodrigues de Macedo, dono do prédio em Vila Rica que, mais tarde confiscado pela Coroa, passaria a ser conhecido como Casa dos Contos.

A festa serviu para muitas manifestações de repúdio ao domínio português. O que preocupava o coração daqueles homens era a decisão da Corte, trazida pelo novo governador, de impor a derrama para se completar o pagamento das cem arrobas de ouro exigidas por lei.

Por aquela época, o jovem José Álvares Maciel, filho do capitão-mor das ordenanças, que estudara em Birmingham, estava de volta e fora nomeado assessor do governador. Maciel já havia conquistado para o levante a adesão de seu cunhado, o tenente-coronel Freire de Andrada, a maior autoridade militar da região depois do governador.

Freire de Andrada estava tão empenhado na conjura que cedeu sua residência na Rua Direita de Ouro Preto, em Vila Rica, para uma série de reuniões. A principal ocorreu a 26 de dezembro com a participação do ex-ouvidor Gonzaga.

A hesitação do visconde de Barbacena em decretar a derrama, porém, aparentemente, atrapalhou os planos e dispersou alguns conspiradores. A outra possibilidade é que tenha havido uma ruptura entre os revolucionários quanto ao sistema político que a nova república adotaria.

Em meados de janeiro, talvez por ter desistido da idéia da sublevação, Freire de Andrada decidiu pedir licença do comando por dois meses. Alvarenga resolveu deixar a casa de Gonzaga e voltar para a sua fazenda em Paraopeba. Quando o coronel dos auxiliares Joaquim Silvério dos Reis, ex-arrematante dos contratos de entradas e grosso devedor do Erário Régio, decidiu delatar seus companheiros de conjura, os planos de sublevação já haviam sido praticamente deixados de lado.

As autoridades, porém, nunca se deixaram enganar por Silvério e sempre o tiveram como o “motor” da sublevação, aquele que tivera a idéia inicial do levante. O outro seria Macedo, igualmente ex-arrematante e grosso devedor. Ambos haviam construído fortunas com os recursos que haviam arrecadado em nome da Coroa. E queriam se ver livres das dívidas.

Mesmo com a delação de Silvério, os inconfidentes só não derrubaram o visconde de Barbacena por causa da hesitação de Freire de Andrada, que se recusou a colocar a tropa na rua. Um gesto do militar e o poder régio teria ruído na capitania: Barbacena estava acuado no Palácio de Cachoeira do Campo, valendo-se apenas do “fraco socorro de seus ajudantes-de-ordens”, sem um barril de pólvora.

Denunciada a conjuração, Gonzaga tratou de tomar algumas providências que o colocassem acima de qualquer suspeita. No dia 20 de abril, procurou o governador a pretexto de obter uma autorização para casar a 30 de maio, um sábado. Alegou que precisava viajar para assumir o lugar para o qual estava nomeado na Relação da Bahia.

Detido, foi encaminhado ao Rio de Janeiro e recolhido à fortaleza da ilha das Cobras no dia 6 de junho. Escreveu liras, rompeu o noivado com Maria Dorotéia e compareceu a vários interrogatórios, sempre mantendo-se “numa tenaz negativa”. Da prisão, pediu a um amigo que levasse para Lisboa os originais de Marília de Dirceu, que sairia à luz pela Tipografia Nunesiana, quando ele já estava em seu exílio na ilha de Moçambique havia três meses.

III

Pouco tempo depois de desembarcar da nau Nossa Senhora da Conceição e Princesa de Portugal, a 31 de julho de 1792, para cumprir pena de degredo por dez anos na ilha, Gonzaga foi nomeado promotor de defuntos e ausentes pelo ouvidor Francisco Antônio Tavares de Siqueira.

Ao contrário do que afirmou o professor M. Rodrigues Lapa, em seu prefácio para Obras Completas de Tomás Antônio Gonzaga (São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1942), o poeta não casou com “a herdeira da casa mais opulenta de Moçambique em negócio de escravatura” nem consagrou “as horas vagas ao rendoso comércio de escravos”. Muito menos ajudou o sogro a aumentar sua fortuna. Até porque nem teve tempo para isso. O escrivão Alexandre Roberto Mascarenhas, seu subordinado, morreu aos 42 anos, em 1793, no mesmo ano de seu casamento com Juliana de Sousa Mascarenhas, uma jovem analfabeta de 19 anos

Mascarenhas nunca se envolveu no comércio negreiro. Era proprietário de uma casa na Rua do Largo da Saúde, na ilha de Moçambique, onde Gonzaga passou a morar com a mulher, e de uma machamba (plantação de mandioca) no continente fronteiro à ilha, que obtivera pelo casamento com Ana Maria de Sousa.

O casamento representou um desafogo nas finanças do degredado, mas não foi suficiente para torná-lo um potentado. Ana Maria, a sogra, com a morte do marido, transferiu para o casal a morada da Rua do Largo da Saúde e passou a morar sozinha na machamba, nas Terras Firmes. Com a concordância de sua mãe, Juliana França de Sousa, doou ao casal um palmar com suas casas contíguo a sua propriedade.

A vida nunca esteve mal para Gonzaga. Tanto que, com menos de 25 dias de chegado à terra, pôde comprar um escravo ladino por 20 mil-réis. Uma das raras pessoas cultas naquele fim de mundo, o ex-ouvidor não encontraria dificuldades.

No AHU, há um atestado que Gonzaga escreveu para João da Silva Guedes, a tempo ainda de o ouvidor que estava de saída assiná-lo e levá-lo para o Reino na mesma nau que deixara os inconfidentes. Guedes nunca mais esqueceria o favor e seria fiel a Gonzaga até o fim. Em troca, o ex-ouvidor faria outros favores a Guedes e fecharia os olhos para muitos negócios escusos do amigo.

Gonzaga nunca deixou de ser maçom, como mostra o seu bom relacionamento com Guedes, pai de Vicente Guedes da Silva e Sousa, que, de retorno do Reino onde fora estudar, seria preso no Rio de Janeiro em julho em 1799, acusado de ter embarcado ilegalmente livros “ímpios e blafesmos” e catecismos maçônicos.

Como advogado, Gonzaga trabalhou para outros traficantes negreiros e, mais tarde, ao final da vida, como juiz interino da alfândega, seria acusado pelo governo do príncipe regente D. João de ter favorecido os interesses da elite negreira da ilha, em detrimento da Coroa.

IV

Na África, comporia alguns versos e pelo menos “A Conceição”, poema épico inspirado no naufrágio da nau Marialva, em 1802, às costas de Moçambique, que hoje (incompleto) faz parte do acervo da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Como advogado, escreveu cartas e petições às autoridades no Reino.

Com Juliana, teve dois filhos: Ana e Alexandre Mascarenhas Gonzaga. Alexandre, que nasceu em 1809, morreu solteiro e não deixou descendentes. Ana casou, em segundas núpcias, com Adolfo João Pinto de Magalhães, que viveu até 1860 e foi um dos maiores traficantes negreiros de Moçambique. Gonzaga morreu entre 25 de janeiro e 1º de fevereiro de 1810 e foi sepultado na igreja do convento de São Domingos dedicada à Nossa Senhora do Rosário, na ilha de Moçambique. Em 1852, esse templo foi demolido por estarem suas paredes comprometidas e os ossos do poeta teriam se perdido. Não há indícios de que tenham sido trasladados para outra igreja.

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(*) Publicado na Revista Brasileira, da Academia Brasileira de Letras, abril-maio-junho 2010, nº 63, ano XVI, pp.175-180.

(**) Adelto Gonçalves, doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo, é autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – O Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E- mail: marilizadelto@uol.com.br
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sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Reiteração (Inocêncio de Melo Filho)

(Para Roberto Piva)


A morte ceifa meus diletos

No final o que sobrará?

Uma parede repleta de retratos

Retratos repletos de memórias

E molduras exibindo lágrimas

Resistentes ao vento

E ao tempo.

(5/7/10)

Vejam meu blog: www.transitoriodiamante.blogspot.com

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quinta-feira, 12 de agosto de 2010

O Mundo Circundante

Caros amigos e amigas,



estou enviando textos no blog sobre Flash Mob na BienaL de SP, Carlos Pena Filho, Oliveira Lima, Joaquim Nabuco e Gilberto Freyre.


Abraços e boa leitura,
Luiz Carlos Monteiro
Acesse e divulgue 
http://omundocircundante.blogspot.com
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quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Exílio (Pedro Du Bois)




No exílio de mim mesmo

passeio tranquilas saudades

em parques verdejantes. Viajo florestas

e mares. Estou na solidão da espera:

avisto navios ao longe.

Não tenho curiosidade em aportar

ao marujo e pedir noticias.

Não é minha hora de chegada.

Retorno na calmaria: ondas

maravilham a terra escorraçada,

meu corpo ilhado em pedras.


Chegar é mistério atravessado ao fio

do desencontro.


http://pedrodubois.blogspot.com/

http://www.veropoema.net/interna.php?page=5&action=show&id=1278

http://luis-eg.blogspot.com/2010/07/dilemas.html

http://vidraguas.com.br/wordpress/2010/07/27/marcas/
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terça-feira, 10 de agosto de 2010

Passantes ou ficantes? (Simone Pessoa)

(Quadro de Chico Lopes)


simoneps@fortalnet.com.br

No momento em que escrevo esta crônica, sinto como se outras mãos me ajudassem na elaboração. E não seria diferente, já que, ao longo da vida, encontrei (ou esbarrei em) tanta gente que, inevitavelmente, me legou um pouco de si. Muitas me acompanharam no trajeto por longas distâncias e deixaram marcas indeléveis. Dessas, algumas, para minha alegria, ainda hoje são presentes. Outro tanto de gente acabou tomando outros rumos, atalhos talvez. Houve quem desse meia volta e retornasse não sei para aonde. Algumas, fui eu quem largou pelo caminho. Uma porção apenas atravessou minha estrada no traçar de suas próprias trajetórias. E nesse intercruzamento de percursos, resolvi me deter naquelas que assinalaram minha existência, por instantes que fossem, sem que eu tivesse mais notícias.

Onde andará a Deusimar, minha primeira babá? Dela guardo uma única foto em que, atenta, me segurava nos braços. Ainda estará nesta dimensão? Bill, um garoto do jardim da infância com quem gostava de brincar? Assim como a Sayonara e a Marta, minhas colegas de alfabetização no João XXIII. E o Antônio Neto, também colega daquele colégio, que me ofereceu emprego na fábrica de vassouras do pai?

O Maranguape, o picolezeiro que nos tentava diariamente com seus picolés de ameba deliciosos? Ainda empurrará sua carrocinha pelas ruas da cidade? Seu Jaques, dono da mercearia da esquina da Padre Valdevino com Nogueira Acioly, creio, já não está entre nós.

Onde andará minha colega France, do colégio Cearense? Tão espirituosa, a France! Mas não suportava o apelido que a turma lhe imputou e que não ouso revelar para poupá-la de possível dissabor, caso esta crônica chegue às suas mãos. E por falar no colégio marista, onde andará a Cassundé, austera professora de matemática? A Germana, funcionária sempre de prontidão na secretaria? Tenho curiosidade de saber se o Irapuã, um colega do primário e filho de um funcionário do colégio, se tornou médico, como anunciava naqueles tempos.

O Mauricex Cascavel, meu rival em disputas de ping-pong? A Maura e o Mauro, dois irmãos, cujos rostos não lembro, do tempo em que frequentei a então nativa praia das Flexeiras, onde andarão? O Domingos, o Homero, a Jofo, o Mozart, a Astrid, a Ieda, o Moisés, a Lia – já escrevi sobre ela -, a Virgínia, a Neyla, a Laydilane, a Julieta, o Morais, o Cláudio Henrique, a Tomires, a Nely, os irmãos Marcos e Ilana, a Jonilce... A lista é sem fim. Pessoas de quem ainda lembro os nomes e posso vislumbrar as expressões. Outras, sem rosto, mas que deixaram, pelo visto, algo que guardo em mim.
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segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Palpites futebológicos (Manuel Soares Bulcão Neto)



Tenho um amigo cujo filho do meio é esquizofrênico. Sempre que lhe pergunto sobre a saúde do rapaz, ele, que é torcedor fanático do Ferroviário Atlético Clube, responde: "Continua como o Ferrim: quando a gente pensa que está melhorando, piora." Ocorre que não é apenas o Ferrim que se comporta desse jeito.

Na verdade, não é esse time outra coisa que a expressão caricata de todo o futebol da parte de cima do Nordeste (o potiguar, o cearense, o piauiense…), que está mais para o da Nicarágua e Ilhas Fiji do que para o do sul do País. Sim, até na pelada o Brasil é terra de contrastes - e mais uma vez fiquei no lado sofrível.

Por isso, sendo brasileiro "apesar" de cabeça chata, esforço-me para torcer apenas pela Seleção Canarinho. O problema é que não consigo. Por mais que tente, termino retornando aos estádios e ao Alvinegro, nem que seja para, amargurado, torcer contra. (O futebol tem mesmo um elã encantatório, um quê religioso.)

Na ocasião da presente Copa (2010), andei especulando sobre as razões da imensa popularidade do futebol ("soccer"), e tenho tido alguns "insights". No caso do Brasil, vislumbro como uma das razões a tradição da capoeira – uma luta com as pernas – que, aliada ao gosto infantil pelos dribles no pega-pega (fez que ia, não foi e acabou "fundo") e com a tendência à simpatia pelos mais fracos, ensejou as primeiras torcidas. De fato, devia ser hilariante ver negros longilíneos escapando das correntes e do pelourinho na base da esquiva desconcertante e da rasteira, deixando tontos os seus feitores ("diminutos portugueses com expressões assassinas", conforme definição de Darwin no "The Voyage of the Beagle").

Além da simplicidade das regras – exceto para a minha mãe, que até hoje não entende esse tal de impedimento – e do material necessário para a prática do esporte, outra razão global do sucesso do futebol está no fato de as partidas serem decididas, no mais das vezes, com escores mínimos, de modo que a alegria, em vez de se diluir em cinquenta cestas, como acontece no basquete, ela se concentra em um ou dois gols em média. É mais ou menos o que ocorre numa relação sexual entre apaixonados: muitas carícias preliminares e, de repente, o orgasmo - uma explosão de dopamina, o prazer em clímax. Daí a relação de paixão irracional entre as torcidas organizadas dos "fieis" e seus times.

Daí, também, que torcer pela seleção nacional é como fazer amor com a pátria em que nós, os torcedores, somos os passivos da relação e, portanto, sujeitos às ejaculações precoces do parceiro, às suas impotências circunstanciais, aos seus momentos de virilidade exuberante…

Demais, o fato de os placares encerrarem-se com poucos gols, isso aumenta significativamente o papel da sorte ou do azar – i.e., do acaso – no resultado final. Por isso que, principalmente para quem torce por clube ruim, isto é, pela zebra, futebol é jogo de azar. Ora, todo mundo sabe que jogo de azar vicia mais que o álcool e talvez tanto quanto a heroína. E, segundo Freud, em jogatina a maioria dos jogadores aposta não para ganhar, mas para perder: inconscientemente, o jogador (no caso, o torcedor) quer expiar um sentimento de culpa abscôndido. A propósito, tenho quase certeza de que aquele meu amigo doente pelo Ferroviário é um desse tipo: um adicto da "zebrinina", um futebólatra.
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sábado, 7 de agosto de 2010

Retratos a óleo: “Passar é ficar sempre" (Tânia Du Bois)


“Que o tempo passa, vendo “retratos” no lugar que está, sentindo a vida desconhecida nascer em mim, procurei encontrar o que o mesmo foi esquecido...” Lêdo Ivo

Sobre o livro “Imagens Negociadas”, de Sérgio Miceli, traço algumas pinceladas. O livro faz uma análise mais sociológica do que artística. A tese de Miceli é a de que o retrato brasileiro é uma espécie de coluna social feita a óleo; defende que o retrato é sempre uma “imagem negociada” e que funciona como arma de marketing pessoal.

Ao tirar essa máscara, pergunto, será que não encontramos arte verdadeira nesses retratos pintados? Por exemplo, o retrato da Mona Lisa é sinônimo de arte.

Antigamente os pintores tinham a pretensão de fazer arte quando produziam retratos, mas nem sempre o retrato foi feito de forma adulatória. Mário Quintana mostra: “Há uma cor que não vem nos dicionários. É essa indefinível cor que têm todos os retratos, os figurinos da última estação, a voz das velhas damas, os primeiros sapatos, certas tabuletas, certas ruazinhas laterais: - a cor do tempo...”

Mário de Andrade, por exemplo, foi retratado por divas como Anita Mafaltti e Tarsila do Amaral e, no caso, em troca de notas jornalísticas avalizando os dotes artísticos das retratistas; mas cada pintora colocou na tela o Mário que desejou, sem perder sua criatividade, porque, mesmo assim, seus trabalhos são considerados como arte. Tanto a arte de pintar, quanto a arte de escrever de Mário de Andrade .

Até o grande Portinari pintou Getúlio Vargas, nos anos 30, e seu modelo foi uma fotografia, o que também pode ser chamado de arte. E qualquer traço vindo do mestre Portinari é e sempre será arte.

Também nos anos 30, Flávio de Carvalho fez bons retratos e conseguiu impor sua marca expressionista; reconhecida e valorizada até hoje. Sem contar que muito do que se produziu na pintura, até o final do século passado, foi composto por retratos.

Atualmente o retrato é desprezado e é tão caro que talvez não sejam feitos mais, porém, será sempre considerada obra de arte.

O retrato teve o seu papel no passado, de funcionar como coluna social, de ser feito apenas pela elite e de retratar, como vejo hoje, as pessoas com quem os pintores se relacionavam.

Enfim, mesmo o retrato sendo negociado, não perde o seu valor artístico. Expressar, pintar, pincelar, captar as linhas, demonstra criatividade: quem sabe olhar o real geometricamente retrata para sempre. Pedro Du Bois conduz em palavras poéticas:

“Imagens / figuras traduzidas / iconográficos / retratos inacabados /

ao abrirem as luzes // a modelo / nua / se adianta à roupa / não contida

na pintura // o retrato guarda / a instantânea forma / de se dizer eterno /

de se dizer duradouro / de se permitir esmaecer / na sobriedade da pose”.
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sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Um pouco de boa música

Lêdo Ivo, poeta e ensaísta (Adelto Gonçalves*)

I

Grandes poetas, geralmente, resultam em grandes ensaístas. Talvez pela necessidade que têm de sistematizar em ideias aquilo que, muitas vezes, é atribuído apenas à inspiração, embora se saiba que os chamados poetastros só conseguem escrever versos de pés quebrados. Afinal, não dá para imaginar um poeta inspirado que não conheça a fundo o seu ofício, isto é, que não seja um grande teórico, o que significa horas de leitura e conhecimento.

Só de uma enfiada pode-se lembrar aqui de alguns poetas que cumpriram com rigor esse duplo papel: T.S.Eliot (1888-1965), Charles Baudelaire (1821-1867) e Octavio Paz (1914-1998), entre os de outras línguas; Fernando Pessoa (1888-1935) e José Régio (1901-1969), entre os portugueses; e Mário de Andrade (1893-1945), Oswald de Andrade (1890-1954), Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) e Paulo Leminski (1944-1989), entre os brasileiros.

Entre os brasileiros vivos, há pelos menos três que são tributários dessa estirpe e cumprem esse papel anfíbio: Alberto da Costa e Silva, Ivan Junqueira e Lêdo Ivo, todos membros da Academia Brasileira de Letras. Haveria outros, ainda que não acadêmicos que não fogem dessa linhagem, como Mário Chamie, Cláudio Willer, Moacir Amâncio e Álvaro Alves de Faria – só para ficar com paulistas –, mas é de Lêdo Ivo que se quer aqui falar a propósito de seu O Ajudante de Mentiroso, reunião de 24 textos ensaísticos curtos produzidos em épocas distintas e a respeito de temas diversos, incluindo participações em solenidades acadêmicas e fóruns universitários.

Em Lêvo Ivo, como em Junqueira, é nítida a influência do ensaísmo anglo-saxônico, especialmente de Eliot, para quem o ofício não exigia uma postura rígida nem solene, mas um estilo coloquial, exatamente aquilo que o ensaísta alagoano constata em José Lins do Rego (1901-1957) que, se não foi poeta, mas romancista, ao reunir impressões de um passeio a Europa na década de 1950, escrevia “à maneira de um Montaigne (1533-1592) ou um Stendhal (1783-1842) – como se a viagem fosse uma conversação”.

Como muito bem observou Eugénio Lisboa em recensão deste livro publicada no Jornal de Letras, de Lisboa, de 23/3/2010, a referência ao francês Montaigne não é fortuita nem invalida a observação inicial que consta do parágrafo acima. Pelo contrário. “Esta alusão ao mestre francês não deixa de ter significado incisivo, porquanto foi ele o pai do ensaio de Bacon (1561-1626) e de todo o grande ensaísmo anglo-saxônico, caracterizado por uma conversa altamente civilizada, mas informal”, diz Lisboa.

É o que, em outras palavras, afirma Lêdo Ivo ao observar, em relação a José Lins do Rego, que “a grande lição do ensaio ocidental é o da literatura em língua inglesa, com os seus ensaístas informais, que escrevem sobre ruas tortas, cemitérios, cidades, viagens, cenas cotidianas, sonhos. E esse tipo de ensaio praticado pelos ingleses, se por um lado se distancia inapelavelmente do eruditismo predatório que grassa entre nós, por outro se aproxima da nossa crônica de jornal”.

Para Lêdo Ivo, um bom ensaísta é um cronista culto, que sabe escrever. “E uma apostila não é um ensaio”, acrescenta, de modo peremptório. De fato, ao contrário do que imaginam certos ensaístas saídos de cursos de doutorado de nossas principais instituições, escrever bem não é escolher palavras desusadas nem construir parágrafos herméticos e quilométricos que levam o leitor a interromper a leitura para voltar ao princípio da frase que já esqueceu por tédio ou fastio e reencontrar o fio do pensamento.

II

Se a observação serve para definir o ensaísmo de José Lins do Rego, cai à medida também para explicar o que Lêdo Ivo entende por ensaio. Pois é com essa “prosa lépida e nervosa” que identifica no romancista paraibano que ele, no ensaio “Os modernismos do século XX”, investe contra certa postura de professores da Universidade de São Paulo (USP) de outros tempos que, por regionalismo ou sabe-se lá por que, transformaram a Semana de Arte Moderna de 1922 no acontecimento mais importante da vida cultural brasileira no século passado. E que professores mais moços, talvez por desídia ou excessiva reverência a nomes consagrados, preferem não revisar.

Segundo Lêdo Ivo, há mais de meio século, a USP, a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a Pontifícia Universidade Católica (PUC), de São Paulo, e outros órgãos pedagógicos, culturais, editoriais e jornalísticos procedem a uma verdadeira lavagem cultural em dezenas ou centenas de milhares de jovens estudantes. “Professores e pesquisadores, guiados e monitorados por mestres influentes erigidos à cômoda condição de monstros sagrados (ou monstros leigos, inaposentáveis), recebem e propalam sempre a mesma lição: a da dimensão providencial da Semana de Arte Moderna de 1922 e do papel seminal que teria exercido o Modernismo paulista na elaboração da vida cultural do Brasil no século XX”, diz, ressaltando que “inumeráveis teses de mestrado – e que são, na realidade, dóceis ou bisonhos atestados de amestramento – repetem exaustivamente o tema, já convertido numa cláusula pétrea da literatura nacional”.

III

É com razão que Lêdo Ivo se levanta contra essa “verdade” consagrada em compêndios universitários idealizada por quem imagina que os acontecimentos seguem uma seqüência natural, pois, de fato, nada há que sustente que o romance do Nordeste da década de 1930 tem de estar obrigatoriamente atrelado ao Modernismo paulista ou que Geração de 45 seja tributária do movimento de 1922.

Essa é apenas uma de tantas outras “idéias” que se converteram em “cláusulas pétreas” na História brasileira das quais poucos se dispõem a discordar. Outra é que a conjuração mineira de 1789 constituiu uma etapa de um processo independentista que culminaria com a Independência de 1822.

Mais uma é chamar de Revolução de 30 (assim mesmo com maiúscula) um golpe militar dos mais salafrários como todo golpe, que não passou de uma rearrumação de elites carcomidas no poder. Até porque não há nada que garanta que o Brasil seria melhor ou pior se a República Velha (1889-1930) tivesse sobrevivido mais quinze anos. Pelo menos aquelas elites tinham certo verniz cultural que haviam trazido de Paris. E o País? Ora, o País, certamente, seria tão atrasado quanto o é hoje, com suas legiões de miseráveis e seus alarmantes níveis de violência social.

Aliás, se aqueles que tomaram o poder em 1930 tivessem alguma preocupação cultural teriam aproveitado a década para criar em algum lugar de suas regiões uma universidade do nível da USP e, se não o fizeram, é porque o que queriam mesmo era igualmente usufruir o direito de sugar as tetas do erário da Nação, a exemplo do que fizeram até então os cafeicultores paulistas e seus associados durante a República Velha, como observou Lima Barreto (1881-1922) em vários textos reunidos em Toda Crônica, volumes I e II (Rio de Janeiro: Editora Agir, 2004). E, no entanto, foram os representantes das elites derrotadas em 1930 e 1932 e o interventor federal da ditadura em São Paulo que criaram a USP em 1934.

Se tivesse surgido uma universidade do porte da USP no Nordeste àquela época, com certeza, o romance nordestino da década de 1930 é que teria sido ungido a acontecimento mais importante da literatura brasileira no século XX. Até porque o reconhecimento cultural sempre andou atrelado à importância econômica da região daqueles que produzem os fatos. Ou será que, se James Joyce (1882-1941) fosse brasileiro e escrevesse em português, o romance Ulisses (1922) seria reconhecido como um divisor de águas na literatura mundial?

IV

Para Lêdo Ivo, o Modernismo de 1922 não passou, “em muitos de seus aspectos, de uma rumorosa e festiva repetição, um gracioso plágio, uma astuta clonagem do primeiro e seminal Modernismo deflagrado em 1836, como comprovam os manifestos assemelhados, a postura selvático/internacionalizada de alguns de seus corifeus, e o empenho de abrasileiramento e coloquialização da nossa língua”. E quem há de dizer o contrário? Até a idéia da antropofagia foi clonada dos Essais de Montaigne, lembra.

Nem por isso se pode negar os méritos de Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Menotti del Picchia (1892-1988), Ribeiro Couto (1898-1963), Raul Bopp (1898-1984) e outros, embora o maior de todos os modernistas -- até porque precursor do movimento -- tenha sido o pernambucano acariocado Manuel Bandeira (1886-1968), cuja poesia não envelheceu tanto quanto a dos demais.

V

Mas não se imagine que Lêdo Ivo alimenta qualquer parti pris contra São Paulo. Na verdade, o ensaísta é reconhecidamente generoso com aqueles que lhe proporcionaram algum deleite ou emoção a partir da leitura de seus textos, independente de onde nasceram. E isso inclui não só os grandes mestres universais como brasileiros de todas as latitudes.

É assim que, em “A propósito de Orígenes Lessa”, reconhece o talento de um escritor que, embora dono de vasta obra, que inclui romances, novelas, contos, reportagens e livros de viagem, não teve o lugar que merecia na história da Literatura Brasileira. Orígenes Lessa (1903-1986), observa Lêdo Ivo, foi um raro escritor que sempre soube usar o diálogo em seus romances e contos, a ponto de fazer com que “a ação das histórias e a psicologia dos personagens se revelem através da dialogação”.

Por isso, foi um dos poucos, como Alcântara Machado (1875-1941), que fez desfilar em sua obra uma variada população da cidade de São Paulo: os carcamanos, os paus-de-arara (dos quais saiu até um presidente da República), os japoneses, os provincianos da grande metrópole, os caipiras, os chineses, as prostitutas, os trocadores de ônibus. “É realmente notável a capacidade que ele tem de mobilizar pequenas vidas e pequenos destinos”, diz o ensaísta.

Por aqui se vê quanto vai perder quem deixar de ler estes pequenos textos ensaísticos de Lêdo Ivo que, reunidos, dão uma visão pouco usual da Literatura Brasileira, a ponto de resgatar até um esquecido modernista, Geraldo Ferraz (1905-1979), e seu romance Doramundo, publicado em 1956 por um suposto Centro de Estudos Fernando Pessoa, de Santos, mas escrito em boa parte na cidade de São Paulo em 1952 e concluído em outubro de 1955 em dias de descanso em Praia Grande.

Quantas cidades não dariam a vida – se é que cidades podem ter vida – para ostentar esse privilégio? Pois é, ao que se sabe, a Prefeitura de Praia Grande ainda mantém o nome do ditador Garrastazu Médici (1905-1985) dado em tempos nebulosos para sua biblioteca pública, que, por estes dias, passa por reformas. Santa ignorância.

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O AJUDANTE DE MENTIROSO: ENSAIOS, de Lêdo Ivo. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras/Editora Universitária Candido Mendes (Educam), 349 págs., 2009. E-mail: cmendes@candidomendes.edu.br
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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage: o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: marilizadelto@uol.com.br
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quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Terroir (Ronaldo Monte)

(Quadro de Chico Lopes)

Para Fátima e Waldir

Conversar fiado é uma arte. Sexta-feira de noite, então, é a mais necessária e imprescindível. Principalmente se você estiver na cozinha da casa dos amigos comendo pão com café, ambos feitos na hora. E se depois houver a possibilidade de rolar um vinho italiano, aí a conversa fiada se torna uma questão de sobrevivência.
Uma boa conversa fiada é aquela que se confunde com uma sessão coletiva de livre associação. Deixa-se a prosa à deriva, seguindo para onde bem quiser, ao sabor das mínimas circunstâncias e ressonâncias.
Sexta-feira passada, por exemplo, estávamos na tal cozinha, já no momento de passar do pão com café para o vinho italiano. Numa das prateleiras do armário havia um rótulo de manteiga, resto de uma viagem à França, anunciando que o produto era de Terroir. Não importa muito quem primeiro tocou no assunto, mas a minha posição era a de que a classificação de Terroir só era aplicável aos vinhos. O dono da casa, especialista em me contrariar nas minhas afirmações categóricas, falou qualquer coisa sobre a complexidade do termo, que ia muito além da simples demarcação geográfica de uma região agrícola. A dona da casa, por sua vez, que adora me ver derrotado em minhas opiniões, foi lá dentro e voltou com uma página impressa do Wikipedia que me dava um pouco de razão, mas puxava a brasa para a sardinha do marido. Minha mulher não disse nada, mas eu adivinhava o quanto estava saboreando a derrota iminente da minha posição.
Não me lembro bem do final da discussão. Aliás, a boa conversa fiada é aquela que não leva a conclusão nenhuma. É uma estratégia para se voltar ao assunto numa próxima reunião. O importante é que o tema seja instigante o suficiente para se passar do café ao vinho e deste ao licor ou coisa mais perigosa que nos entregue ao abandono do convívio despretensioso.
Independente de qualquer definição, havia uma compreensão comum sobre o significado da palavra terroir. O território, o rincão que nos tornava iguais em nossas diferenças era o lugar mesmo em que discutíamos. Aquela cozinha era o nosso terroir, assim como são todos os lugares em que os amigos se encontrem para jogar conversa fora e se querer bem.

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segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Os trilhos cruzados de Silvério da Costa (Nilto Maciel)

(De boné, Silvério da Costa)


Conheço (nunca o vi) Silvério da Costa há muitos anos. Talvez desde 1989, ano de publicação de seu primeiro livro, Retalhos da existência. Escreve e publica sem parar. Mas sem pressa. Escreve poemas e artigos, resenhas, notas de leituras. Que publica em jornais. Envio-lhe meus livros; ele os lê e comenta. Com muita atenção e sabedoria.

domingo, 1 de agosto de 2010

Tempo (Emanuel Medeiros Vieira)




Em memória de Evandro Magalhães e de Stuart Angel
Para Maura Soares


Dizei-me em tempo o que é o tempo?
Senhor, antes de cruzar a ponte, Ensinai-me:
linha reta de eterna agonia?
bússola na encruzilhada?
Sim, o choro de uma menina nascida na luz de agosto,
de um menino junto à flor de maio.

É o vento?
O espaço?
O mar?

Meus mortos não me respondem, Senhor.
Tempo: não o retenho -
areia da praia que escapa da mãos.

Lapso no cosmos,
cometa errante,
eu sei, Senhor: assim sou:
pretérito menino contemplando a gaivota,
sentado no trapiche da Praia de Fora.

(Salvador, julho de 2010)
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