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sábado, 30 de outubro de 2010

A importância de E. T. A. Hoffmann na cena romântica francesa

Maria Cristina Batalha
Doutora em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense e Professora Adjunta da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. É autora de diversos artigos publicados em revistas especializadas nacionais e internacionais

(Ernst Theodor Amadeus Wilhelm Hoffmann, 1776-1822)
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RESUMO

Se o gênero fantástico surge na França com as obras Le diable amoureux, de Jacques Cazotte (1772), e Le manuscrit trouvé à Saragosse, de Jean Potocki (1805), estas permanecem estreitamente vinculadas aos modelos narrativos do século XVIII e não conseguem impor-se na cena literária dominada pelo princípio orientador da verossimilhança. Na Alemanha, a explosão de fantasia, presente no maravilhoso de Achim von Arnim, traz um fermento novo ao romantismo nesse país e possibilita a evolução do gênero até alcançar a riqueza de recursos ficcionais trabalhados por E. T. A. Hoffmann em seus contos fantásticos. É então a partir das traduções da obra do contista alemão, ou seja, a partir de 1829, que o caminho da literatura fantástica é restabelecido neste país, inspirando alguns autores românticos franceses. No breve intervalo entre os anos 1830 e 1840, a literatura fantástica se apresenta, mais uma vez, como uma resposta à crise política e ao marasmo no qual a ficção francesa estava mergulhada, ganhando projeção e foro de literatura hegemônica. Mas, como mais um mito romântico, ela perde seu fôlego e acaba como paródia de si mesma na própria obra ficcional de Gautier, contista fantástico de primeira ordem, e que, pelo viés da ironia, promove a crítica à literatura de seu tempo.

Palavras-chave: literatura fantástica, romantismo, quebra de cânone, crise da representação

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sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Rahakanariwa (Rodrigo Novaes de Almeida)

                             (L'enfer, Hortus Deliciarum, de Herrade de Landsberg: 1125-1195)


– espírito abutre, entidade canibal, devorador de pombas

virgens, luas cheias brancas e senhor dos corvos –

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quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Hemingway em notas (Enéas Athanázio)


BIÓGRAFOS - O escritor norte-americano Ernest Hemingway (1899/1961) tinha aversão à ideia de ser biografado em vida ou mesmo nos cem anos após sua morte. Não obstante, é um dos autores que tem encontrado inúmeros biógrafos em vários países, inclusive no Brasil. Muitas dessas biografias são integrais, reconstituindo sua movimentada existência do início ao fim; outras são parciais, atendo-se apenas a determinadas fases; algumas são conjuntas, biografando em paralelo outras personalidades. Creio, porém, que o ponto de partida, a inspiração para a maioria delas, foi “Ernest Hemingway, o romance de uma vida”, de Carlos Baker, publicada entre nós pela Editora Civilização Brasileira, em tradução de Álvaro Cabral (Rio de Janeiro – 1971 – 639 págs.).

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Complexo e imperfeito (Manuel Soares Bulcão Neto)

(Michelangelo, A criação do mundo)


Dias atrás assisti ao filme “Reflexos da Inocência”, do diretor britânico Baillie Walsh. Surpreendeu-me o trecho em que uma menininha, sentindo-se injustiçada em casa, pergunta ao jovem Joe Scot (Daniel Craig): “Quantos dias Deus levou para fazer o Mundo?”. Joe respondeu conforme a letra do Livro: “Em seis dias. No sétimo descansou.” A criança, então, blasfemou: “Se Ele fosse menos apressado, teria errado menos. Eu mesma faria melhor!?”

terça-feira, 26 de outubro de 2010

O alfabeto mesopotâmico de teus olhos (Nilto Maciel)



(Nicole Kidman)


(Oscar Wilde)

Ia-se a tarde trôpega pelas veredas de minhas retinas cansadas, quando me assustou o ronco metálico da campainha de minha casa. Esquecera-me do combinado no dia anterior: Ivan Monteiro queria me conhecer. E perguntara: Posso me acompanhar de uma amiga? Pode e deve. E me abraçaram a juventude dele e a beleza dela. Feitas as apresentações, pusemo-nos a falar desordenadamente. Ambos estudantes de Letras. Ouviram falar de mim num boteco do Benfica. Meu nome anda assim enxovalhado desde que me arrisquei a frequentar a noite de Fortaleza, ao lado de Pedro Salgueiro, Raymundo Netto, Felipe Barroso, Manuel Bulcão e outros habitantes das cavernas do etilismo (não confundam com elitismo) literário. (Ó, desculpem minha confusão mental: eu queria falar de sua adoração por Dioniso e por Bach e chamá-los de dionisíacos e bachianos).

Oferta (Inocêncio de Melo Filho)

                                      (Semnele, 2005, de Patricia Watwood)


Dou-lhe minha ereção

Dou-lhe minha nudez sem pudor

Dou-lhe meus movimentos mais precisos

Dou-lhe a maciez do meu corpo

Que será seu leito

Para que acordes com brilho nos olhos

Dou-lhe as fantasias que desejares

Dou-lhe a leveza do tempo

Não o perceberás passar

Dou-lhe o ar que dança entre nós

Dou-lhe entre os lábios os melhores versos

Da minha lavra

Dou-lhe em único cálice o vinho

Da melhor safra

Dou-lhe o que prometo

Para sejas cativa ao meu amor.
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segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Nacos de necas & outras histórias - 09 (Claudio Parreira*)

(Microcontos extraídos de O Bule: http://o-bule.blogspot.com)

1

Jovem ainda, 17 anos, e sai com um jacaré. Suas amigas mais velhas, um pouco mais ajuizadas e experientes, aconselham:

– Larga disso. O camelo é mais charmoso.

O camelo, porém, não bebe. Ela prefere ficar com o gorila. E depois dele o elefante, porque fuma. Não resiste, porém, ao abraço do tamanduá e por isso mesmo se entrega aos beijos do leão. Chega em casa abraçada ao cachorro. Seu pai, indignado com o comportamento da filha, reclama:

– Isso são horas de chegar, mocinha?


2

Nós nos conhecemos no dia da sua morte. Foi curioso: eu passava na rua; na mesma rua ele havia acabado de morrer. Eu disse oi, ele falou oi. Para encurtar a conversa, eu cheguei a ser grosseiro: “Não adianta você ficar aí falando comigo porque eu não acredito em mortos falantes!”. Ele gargalhou. E disse: “Pois agora que estou aqui deste lado, começo a duvidar – a vida existe mesmo ou não passa de puro sonho?”. Faz três anos que conversamos. Eu continuo não acreditando. Ele duvida mais e mais a cada dia. Concordamos apenas num ponto: todas as respostas são insuficientes.


3

Passei anos falando bom dia todas as manhãs. Alguns respondiam, outros não, a grande maioria sequer me notava. Faz algum tempo, por distração, falei boa tarde ao invés de bom dia. O presidente da empresa ameaçou me demitir, os gerentes agora se calam quando eu me aproximo e os boys me olham com uma expressão que mescla admiração e repulsa. Eu compreendo: de uma hora para outra alterei o delicado equilíbrio das coisas. Não sei como suportaram isso; é mesmo muita sorte ainda estar por aqui.


4

No mês passado fui vítima de dois assaltos – mas tudo correu bem: eu saí vivo e os ladrões, satisfeitos. Percebi isso. Na semana passada, um assalto apenas. Mas foi genial: fui seqüestrado e passeamos muito pela cidade, eu e o ladrão. Descobri, aliás, ser ele um apreciador da filosofia de Kant. Um homem raro – e foi com raro prazer que lhe entreguei todo o meu dinheiro.

– É o suficiente para as suas investigações filosóficas? – perguntei.

– Tá de bom tamanho, doutor – respondeu ele, que se foi levando o meu carro. Ontem, no entanto, as coisas não correram nada bem: fui pego de surpresa, com pouquíssimo dinheiro, e o ladrão, percebi, ficou decepcionado.

– Faltas desse tipo são intoleráveis – ele protestou.

A mim só restou baixar os olhos e concordar, resignado.


5

A caixa é pequena: menos de um metro quadrado. Mas tem me sustentado há mais de 20 anos. Eu faço assim: chego na cidade, alugo um teatro modesto e espalho cartazes com uma fotografia colorida da caixa pelos postes. Em vermelho, uma frase bem simples: “O que será que tem dentro da caixa?”. É o suficiente para lotar o teatro. A cada uma das 100, 200 pessoas eu falo: “Não é fantástico? Nunca vi coisa tão genial dentro de uma caixinha!”.

Com medo de serem consideradas insensíveis a tão refinada manifestação artística, as pessoas todas concordam. Algumas até acrescentam: “É mesmo! O conteúdo da caixa é impressionante!”. Impressionante são as pessoas, eu diria. Mas isso não vem ao caso agora.


*Claudio Parreira - Escritor, chargista e vigarista. Foi colaborador da Revista Bundas, do jornal O Pasquim 21, Caros Amigos on line, Agência Carta Maior, entre outras publicações. Incluído nas antologias Contos de Algibeira, da Ed. Casa Verde; Fiat Voluntas Tua, editada pela Multifoco, e também Dimensões.br, da Ed. Andross. Mora em São Paulo, SP. Bloga em http://claudioparreira.blogspot.com/
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A morte... anunciando a sua chegada (Tânia Du Bois)



A morte nos filmes vem silenciosa. Chega sorrateira dando a impressão de serenidade e algumas vezes a faz “bonita”. A morte na vida real chega barulhenta: anunciando temor e angústia. O corpo se transforma em reprodução de sons pesados, fortes, que nos assustam, chamando-nos a atenção; a morte chega anunciando o deprimente instante. Lembro da morte assistida: todas chegaram acompanhadas de um ronco e, agora, o som da tristeza se encontra em mim.

E o último suspiro? Na verdade, quem tem o forte suspiro somos nós que sentimos a morte chegando. Ao se anunciar, nos desestruturamos por algumas horas; começamos a ver o lago escuro; no sol sem brilho sentimos o impacto de o vento frio entrar em nossos ossos, a cabeça roda, as pernas tremem e o coração acelera. Tudo o que queremos é que a pessoa não sinta a chegada da morte; como choramos a lembrança antes de esquecê-lo.

Já perceberam que sempre que a morte é anunciada nós corremos ao encontro dela? Com a morte anunciada conseguimos reunir os familiares, rever amigos... Por muitas vezes ela se torna inspiração para os poetas, levando-nos à contradição, invertendo a situação, e por muitas vezes refletindo o belo. O poeta Pedro Du Bois chama a morte de a “Ausência Inconsentida”. Belo nome, dá certo ar de elegância, de silêncio, de paz. Transmite algo, como a “renovação da vida, em outra forma e função”. Nada parecido com o que se faz presente: ouço gritos, choros, desesperos que batucam na minha cabeça, no ouvido e deixam meu coração desgovernado, consumindo-me entre a vida e a morte.

Na “Ausência Inconsentida”, Du Bois declara ser inconsentida a perda; e a ausência, como no poema:
“Na morte espelha a tristeza / em pouca companhia / não será a carne e os olhos fechados / trazendo parco consolo. // Na morte esplendor e glória / trajeto feito, curto e seco / caminho inexorável / de indizíveis saudades.”

Anunciada a morte, não há consciência; há tênue lembrança da vida, que se faz forte. Há a minha tristeza em presenciar, há o badalar do sino, há flores secas; o sonho contém o instante do que não existe mais.
“Pero há vivas memórias / Há mortos que nunca morrem, / voz / imagem / eles surgem feito marés / ou límpidos cristais a esculpir / as lágrimas que a curva do olho não apaga...// Há mortos que nunca morrem, / feitos braseiros, rios caudalosos seguem a refletir em nós vivas memórias...” Carmen Silvia Presotto.
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domingo, 24 de outubro de 2010

Comentário de Chico Miguel

Nilto,

Lido e achado conforme, poderia até dizer mais, talvez por falta de espaço... O critério de Fernando Py é de extrema seriedade e singularidade. Parabéns. Quem faz – uma dia aparece. A crítica é difícil mas existe ainda.

Abraço grande

chico miguel
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sábado, 23 de outubro de 2010

Fernando Py comenta Contos Reunidos, volume I, de Nilto Maciel


Contos reunidos


Fernando Py

Do escritor cearense Nilto Maciel, recebemos o primeiro volume de seus Contos reunidos (Porto Alegre: Editora Bestiário, 2009). Compreende os livros Itinerário (1974), Tempos de mula preta (1981) e Punhalzinho cravado de ódio (1986). Nos contos curtos do primeiro deles, o autor se detém a questionar amores desgastados, uma certa ironia prazenteira e, principalmente, exibe um tom de desencanto em relação à crueza da realidade dos fatos. Isto significa uma discordância com o que está acontecendo, num país em que a grande maioria das pessoas não consegue sobreviver com decência. De todo modo, Nilto Maciel deixa para o leitor, em Itinerário, a ideia de um inconformismo que diretamente norteou sua obra futura. Em Tempos de mula preta, vemos que Maciel consegue se ambientar melhor em seu nordeste natal, mostrando-se bem mais maduro. Realiza uma aproximação comovida na direção da religiosidade que lhe balizou a infância, consolidando seu domínio da linguagem de modo leve e divertido. É a primeira coletânea de seus contos que exibe a segurança e o estilo do escritor que será sua marca registrada, não só na narrativa curta como em novelas e romances, sobretudo Os varões de Palma (1994), Vasto abismo (1998), A última noite de Helena (2003) e Carnavalha (2007). Já Punhalzinho cravado de ódio é um volume composto de vinte e quatro textos curtos nos quais o autor exercita com êxito a sua versatilidade, pois os textos cuidam de assuntos bastante variados, em ambientes e épocas bem diversas. Essa variedade de temas e de enfoques leva Maciel a uma abordagem diferenciada de formas e linguagens, e ele se assenhoreou de tal modo desse formato de conto, que acabou criando um estilo bem próprio na maneira de realizá-los. Hoje, Nilto Maciel é o escritor por excelência da narrativa curta brasileira, com seus textos enxutos, nos quais mescla com felicidade o bom-humor e o mistério, o picaresco e a carnavalização do cotidiano. Vale a pena uma leitura cuidadosa.

(Tribuna de Petrópolis, 8 de outubro de 2010, caderno Lazer, p. 5)

Indigestão (conto de Mariel Reis)


é foda. um dia eu estive do lado lá. você duvida? tem razão. quem me vê hoje esculachado, vestindo qualquer merda, não desconfia que fui rei. mandava a vera. roupa da hora, carro do ano, metranca no porta-mala para as eventualidades. pistola na cintura. mulher a dar com pau. a vida dá voltas. um malandro comparou com uma roda gigante. um dia lá em cima e outro cá embaixo. trabalhava no carro da brink’s. transporte de valores. asseado, barba e bigode aparados. o peito estufado. protegendo patrimônio alheio com a própria vida. minha mulher orgulhosa de lavar meu uniforme, preparar minha marmita. engraxava até virar espelho minha botina. tinha capricho. pois é. aí o papo mudou. o patrão me promoveu. supervisor. gostava do meu trabalho. era o que o filho da puta dizia. e eu acreditava. o dinheiro melhorou. comprei uma caxanga perto dos meus coroas, vestia meus filhos bem e minha mulher como rainha. conferia e despachava tudo nos conformes. mandava os outros embora, não aceitava corpo mole no serviço. tudo as mil maravilhas. nunca faltei, nem por doença. o patrão me colocando no quadro de funcionário do mês. cesta básica e um bônus. uma felicidade só. você podia me oferecer um jantar lá na sua casa, o patrão insinuou. não conheço sua família, adiantou. a casa é de pobre, patrão, mas isso se corrige, eu disse. ele então, tá certo. fala pra patroa caprichar na bóia. vou levar uns presentes para a molecada. tá certo, eu concordei. falei com a minha mulher o patrão quer jantar com a gente. capricha que sexta-feira ele taí. não deu nem a hora já estava no portão. bateu palmas. meu filho mais velho atendeu. entre, estavamos aguardando o senhor. a fila para beijar-lhe a mão. o patrão ficou todo satisfeito com o respeito recebido. e encompridou os olhos para minha mulher. bonita a esposa, hein, comentou, com todo o respeito você uma senhora bem formada. não maldei, pensei sincero o elogio, agradeci. tudo o que ele cobiça costuma comprar, certa vez me alertou um companheiro. não levei fé. eu estava cego. o jantar inteiro ele com as indiretas. minha mulher, educada, desviava do assunto. não facilita com ele, tudo o que quer compra. é inveja, matutava comigo. minha mulher não gostou da boa educação do meu patrão, xingou de quantos nomes pode, reclamou que não queria que aquilo se repetisse. ele tem dinheiro, pode ir a restaurante. mulher pode ter a que quiser. não pisa mais aqui. ela exagerava, eu sentenciava. meu trabalho seguia normal, sem sobressalto. pelo contrário. dispensado mais cedo que de costume. as regalias aumentavam. ganhei um escritório para organizar melhor os pápeis, com arquivo e tudo. minha mulher com a cara emburrada, conseguiu a promessa de que ele, o patrão, não pisava mais lá em casa. tudo o que ele cobiça costuma comprar. não tardou. tô precisando de uma faxineira, fale com sua mulher, pode fazer um bico e arrumar um dinheirinho. reforça o orçamento. o que acha? vou falar com ela. minha mulher resistiu à idéia. aceitou para não me desfeitear. na primeira vez pagou a mais do devia. ela, honesta, devolveu. que é isso, você merece, falou o canalha. na segunda vez, um vestido como presente. na terceira, um brinco. pra ficar mais bonita pro marido. ela começou a deixar de lado a oposição que fazia ao meu patrão. pode trazer ele pra jantar. na quarta vez, ele não se fez de rogado. ela, nunca entendi, quis agradecer o que ele havia feito por nossa família e cedeu. adverti que nunca mais se repetisse. ela afirmava foi fraqueza. o corpo tomou gosto pela safadeza. o patrão me disse você precisa ter um carro. isso facilitaria a nossa vida, minha mulher acentuou. as coisas foram assim em um crescendo. ela saiu de casa, com meus filhos, para viver com o meu patrão. trabalhava normalmente. ele me dava tapas nas costas, sem ressentimento, né? a mulher é quem escolhe. se você fosse o melhor, ela não largaria tudo. é amor, não duvide. espero que respeite a decisão dela. minha mulher não me olhava mais os cornos. era a patroa agora. não me dirija palavra. tava lá eles se lambendo. tudo o que ele costuma cobiçar, compra. tá certo. pedi que meus filhos fossem para casa de minha mãe para o fim de semana. minha ex-mulher aceitou. não desconfiou de nada. na minha cabeça, era uma passa-fome, não tinha culpa, seduzida pelo burguês, não pagaria a conta. era mãe dos meus filhos. na triagem, pedi que deixassem o malote de dinheiro no cofre. aleguei que não tinha tempo. um compromisso urgente. na segunda-feira, acertaríamos. pedi uma audiência com o patrão. ele, amigável, marcou no sábado, cria que eu, conformado, não tentaria uma loucura. arrumei minha mala, levei o malote comigo e a pistola. minha ex-mulher abriu a porta sorridente. os seguranças dispensados para o fim de semana, o pessoal da cozinha não ouvia nada. tudo o que ele cobiça, compra. bebemos vinho, jogamos conversa fora. ele pediu para minha ex-mulher sair para tratarmos de negócios. nunca fui tão paciente. fomos para a biblioteca. fechei as portas. o que é que houve, rapaz? retirei da mochila o malote de dinheiro. é maluco andar com toda essa gaita por aí? bronqueou. a pistola. o que é isso, não me venha com brincadeiras. eu não tô pra isso, respondi. servi em uma bandeja as moedas. o que você quer com isso, hein? coloquei a pistola na cabeça dele. come. come tudo. senão morre. aos borbortões, com o copo de vinho engolia as moedas. agora o dinheiro. mastiga. ele perdia a respiração. eu ria. tudo o que ele cobiça, compra. minha ex-mulher entrou na biblioteca, encontrou-o com o rosto caído na bandeja. me perguntou o que aconteceu. indigestão, meu bem. indigestão.
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sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Pagu: a escritora tentou se matar duas vezes


Adelto Gonçalves

Patrícia Rehder Galvão (1910-1962), nascida em São João da Boa Vista, interior do Estado de São Paulo, foi jornalista, escritora, animadora cultural e militante política. Como jornalista, trabalhou no Diário da Noite, A Fanfulla, Diário de S.Paulo, Correio da Manhã, A Tribuna, de Santos, e Agência France Presse, em São Paulo. Sua formação intelectual e política deu-se mesmo na década de 1930. Mas, como foram os anos 30?
Ao contrário do que se diz, a chamada Revolução de 30 foi um golpe militar como outro qualquer e não constituiu revolução social nenhuma. Foi apenas uma rearrumação das elites no poder. Assim, os cafeicultores paulistas, que haviam sugado as tetas públicas durante toda a República Velha (1889-1930), tiveram de dar lugar também a oligarcas de outros Estados, enquanto Getúlio Vargas levava para o Palácio do Catete o modelo de governo implantado por Júlio de Castilhos (1860-1903) no Rio Grande do Sul por 30 anos que serviu para configurar o Estado Novo, de índole positivista.
Algumas conquistas foram obtidas pelos trabalhadores à época, mas nada há que prove que, se a República Velha tivesse durado mais quinze anos, esses avanços não teriam acontecido. A rigor, o Brasil continuou o mesmo país atrasado, com legiões de excluídos e analfabetos. Para piorar, o getulismo representou a quebra da ordem constitucional. E logo se transformou em ditadura sem qualquer disfarce, com perseguições a seus desafetos.
A jovem Patrícia Galvão levantou-se contra isso, aderindo ao Partido Comunista do Brasil (PCB), que, como sempre, nunca passou de uma seita, sem qualquer perspectiva de empolgar as massas e alcançar o poder. Iludida, como ativista política e membro do PCB, ela combateu a ditadura de Getúlio Vargas, o que lhe valeu 23 prisões. Depois da Segunda Guerra Mundial, ao visitar Moscou, desiludiu-se com o comunismo soviético, rompeu com o PCB, passando a defender um socialismo de linha trotskista.
Lúcia Teixeira, no livro Croquis de Pagu e Outros Momentos Felizes que Foram Devorados Reunidos (Editora Cortez/Unisanta, 2004), reproduz um trecho do panfleto Verdade & Liberdade em que Pagu diz: “(...) Dos vinte aos trinta anos, eu tinha obedecido às ordens do Partido. Assinara declarações que me haviam sido entregues, para assinar sem ler (...). Mas, não haviam conseguido destruir a personalidade que transitoriamente submeteram. E o ideal ruiu, na Rússia, diante da infância miserável das sarjetas, os pés descalços e os olhos agudos de fome. Em Moscou, um grande hotel de luxo para os altos burocratas. Na rua, as crianças mortas de fome: era o regime comunista...”
Pagu publicou os romances Parque Industrial (edição da autora, 1933), sob o pseudônimo Mara Lobo, considerado o primeiro romance proletário brasileiro, e A Famosa Revista (Americ-Edit, 1945), em colaboração com Geraldo Ferraz (1905-1979). Parque Industrial foi publicado nos Estados Unidos em tradução de K. David Jackson em 1994 pela University of Nebraska Press.
Seus contos policiais, escritos àquela época sob o pseudônimo King Shelter e publicados originalmente na revista Detective, dirigida pelo dramaturgo Nelson Rodrigues (1912-1980), foram reunidos em Safra Macabra (Livraria José Olympio Editora, 1998). Em 1950, já desiludida com o PCB, saiu candidata a deputada estadual pelo Partido Socialista Brasileiro, sem ter sido eleita. A essa época, publicou em edição própria Verdade & Liberdade, panfleto de propaganda política em que denuncia os totalitarismos comunista e fascista, defendendo um socialismo democrático.
Em sua fase madura, como animadora cultural, revelou e traduziu grandes autores até então inéditos no Brasil como James Joyce, Eugène Ionesco, Arrabal e Octavio Paz. Teve um trabalho marcante como incentivadora do teatro amador, especialmente em Santos, onde trabalhava no jornal A Tribuna, cuja redação era dirigida por seu marido, Geraldo Ferraz.
O apelido Pagu foi-lhe dado pelo poeta modernista Raul Bopp (1898-1984), autor de Cobra Norato, que imaginou que seu nome fosse Patrícia Goulart. Ela mesma inventou muitos pseudônimos para si, como Zazá, Gim, Solange Sohl, Mara Lobo, Pat, Pit e Leonie.
O cinema brasileiro já homenageou Pagu várias vezes: além de documentário de Rudá de Andrade, há o filme Eternamente Pagu, dirigido por Norma Benguell, no qual ela foi interpretada por Carla Camurati. Patrícia Galvão aparece também no filme O Homem do Pau Brasil, de Joaquim Pedro de Andrade, e foi tema do documentário Eh, Pagu!, Eh!, de Ivo Branco.
Lúcia Teixeira lembra ainda, em seu livro, que os anos de prisão, tortura e perseguição deixaram muitas marcas em Pagu, o que a levou a tentar o suicídio duas vezes, a primeira, em 1949, quando deu um tiro na cabeça, durante estada na casa do artista Flávio de Carvalho, em São Paulo; e a segunda, em setembro de 1962, quando, diagnosticada com câncer nos pulmões, foi a Paris submeter-se à cirurgia no Hospital Laennec.
Com o fracasso da operação, “ao antever o sofrimento e a morte iminentes, atira no próprio peito”, escreve a autora. Mais uma vez, sobreviveu. Retornou, então, para Santos, onde morreu em dezembro.

*Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo.
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quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Pão com ovo (Simone Pessoa)



O auditório estava lotado na véspera do Dia das Crianças. Dirigindo-se à meninada, a mestra de cerimônias então pediu voluntários para subir ao palco e revelar ao microfone a coisa de que mais gostavam.

Rapidamente uma fila de meninos e meninas se formou em frente ao púlpito. Vídeogame, gritou o primeiro. Tevê, exclamou o segundo. Futebol, emplacou outro. Internet, declarou uma garota. Uma menina magrinha, que parecia tímida, então gritou: pão com ovo!

A risadaria foi geral. Eu que estava assistindo, assim como os demais adultos, também ri. A menininha esboçou um sorriso sem graça, pois não entendeu o motivo da comoção.

Todos rimos da autenticidade da declaração da menina. Assumir algo tão simples e banal como o suprassumo do prazer só poderia culminar com risadas e das boas! Tanta coisa sofisticada, moderna, tecnológica para se declarar e aparece uma pirralha para mencionar pão com ovo no mesmo patamar! Um absurdo! Daí porque hilariante...

O irônico é que rimos da menina, mas no íntimo estávamos rindo de nós mesmos, porque, afinal, todos nós adoramos pão com ovo. Só não tínhamos coragem de declarar assim altissonante como a menina magrinha o fez. Quando nos expomos em público, preferimos revelar nossos requintes, coisas que julgamos chiques. Se for adulto então, o tema gira em torno de vinhos, queijos, filmes, equipamentos, computadores de última geração, viagens, restaurantes. Enfim, no geral, queremos impressionar os outros exibindo nossos gostos diferenciados, de preferência exclusivos – se é que hoje existe algo exclusivo.

Mas, diante da declaração da menininha pelo pão com ovo, me vieram à mente coisas maravilhosas e simples que são acessíveis à maioria das pessoas: conversa com amigos, sorvete, chegadinho, pipoca, tapioca com manteiga, sol de manhã cedo, sesta, praia, brisa no final da tarde, rapadura, frango assado, papai e mamãe.

Enquanto isso, nos charmosos restaurantes e cafés parisienses, os franceses, conhecidos pela requintada cozinha, não deixam faltar no menu o seu “croque-madame”, que é basicamente uma fatia de pão com ovo.
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Chover (Pedro Du Bois)



Sou a sede

a fome

a garra com que o pássaro

retira d’água o peixe

que se oferece

em superfícies


na profundeza

o abismo se fecha

na escuridão do tempo

naufragado


minha fome se completa

minha sede busca a gota

terminal dos ares.


http://pedrodubois.blogspot.com/
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quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Exílio* (Emanuel Medeiros Vieira)

(Emanuel em visita ao passado)



Um Atlântico nesta separação:


batido coração segue as ondas de maio.


Desterros além da anistia,


para lá dos poderes.


Velas ao vento,




não bastam os selos,


a escrita crispada.


Queria os sinais da tua pele,


vacinas, umidades, penugens,


pêlos perdidos no mapa do corpo,


o olhar suplicante, soluços.




Jornadas:


missas de sétimo-dia,


retratos arcaicos.


Outro exílio:


sem batidas na boca da noite, armas, fardas, medos,


clandestinidades.




Sol neste retorno:


casa, guarda-chuva no porão, caneca de barro,


álbuns, abraço agregador,


cheiro de pão, gosto de café,


o amanhã junta os dois nós da memória,


um menino e o seu outro: estou melhor feito vinho velho.




*Poema premiado no Concurso Nacional de Poesias, cujo tema foi “O Mundo do Trabalho”, promovido pela Universidade Estadual de Ponta Grossa, Paraná.
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Dia do professor (Jéssica Dias e Fátima Lemos)

(Aluna e professora do colégio Maria Ester 1, Fortaleza, Ceará, juntas na comemoração do Dia do Professor)




Homenagem aos professores

Jéssica O. Dias (aluna do 9º ano do ensino fundamental)

“Professor”, uma palavra que abrange tantas coisas... Como explicar a tua força, a importância do teu papel? Como transformar em orações tudo o que essa palavra representa?


terça-feira, 19 de outubro de 2010

De venenos e amores (Nilto Maciel)

(A morte de Cleópatra, de Reginald Arthur)


Pelas mãos de Clauder Arcanjo, chegou-me exemplar de Sabor de amar (Mossoró: Sarau das Letras, 2010), de Paulo de Tarso Correia de Melo. No exato momento em que o carteiro me entregou o pacote, eu conversava no meu escritório com um amigo. Não lhe direi o nome, para evitar atritos. Revelo apenas suas iniciais: AM. Adianto, porém, que não se trata de Airton Monte, nem de Airton Maranhão nem de Armando Monteiro. Rasguei o papel do embrulho, lambi a capa, folheei o volume. Curioso, AM olhava para o presente com olhos de quem comeu e não gostou. “Posso dar uma olhada nisso?” Entreguei-lhe a publicação e ouvi a primeira sentença: “O título é muito pobre”. O sangue me subiu às têmporas. Tive ímpetos de o expulsar de minha mansarda. “Ora, meu amigo, o título não é tudo”. Ele se aproveitou de minhas palavras para se fazer mais cáustico: “Se fosse tudo, os livros só teriam capa”. Senti-me ofendido. Mas ele continuou a diatribe: “A apresentação desse Clauder ainda fala em “musa inspiradora”, “profundo domínio da forma”, “inspiração dos aedos”. Tomei-lhe o impresso, com fúria, mudei de assunto e lhe ofereci veneno. Não sei se morreu a caminho de casa (não, não morreu, como vocês verão mais adiante), mas se retirou, trôpego e mudo, meia hora depois.

Evocação (Carlos Nóbrega)



Posso perder a noção da sobriedade,
da fidelidade, a da boa educação,
da estética e a do ridículo.




Qualquer perda dessas
me causará dor e prejuízo
o que eu não posso é perder o desfiar da história
Se eu perder a noção da história
a minha vida toda terá sido nada,
eu terei sido nada,
Porém se eu pude a história compreender
e a renego
mais do que nada, terei sido um criminoso.




(Do livro inédito Contém infâmia)
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segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Um arado rasgando a carne (Cláudio B. Carlos)

(Paul Cézanne: The Gardener Vallier c1906, Tate)


às vezes acho que nem mesmo eu tenho a noção exata do que me causa essa dor e temo o que ainda possa causar essa dor que se fosse noutro seria como um dom e que em mim me cai às costas com o peso de um castigo às vezes tenho medo do rumo que essa dor possa tomar e noutras vezes tenho a nítida sensação de que ela já é nau à deriva o mar aos grandes pertence quintal de tubarões jardim de piranhas o mundo é dos ordinários na mais pura acepção da palavra essa dor que me causa cortes que me lavra a carne sem nenhum pudor nem assepsia essa dor que me separa dos demais – nem pior nem melhor – o diferente o que sofre de solidão da solidão de quem é habitado por muitos tem noites que perco o sono e só me encontro se me debruço sobre minha própria dor e os que vivem em mim raramente sorriem às vezes sinto que minha alma chora como madeira verde no fogo fogo-fátuo-eterno quem tiver cabeça que ostente reinado vejo diariamente nas ruas nos estabelecimentos nas casas reis e rainhas com reizinhos na barriga eu quando saio sou o sem saltos o de pés rachados o enxovalhado ainda ontem vi um fidalgo que catava porcarias no chão fui também por ele hostilizado e serei novamente e novamente por quantos mais o meu deus que é o meu destino assim o quiser eu que por mais que treine e saiba de cor as melhores jogadas nunca saio do banco de reservas fantoche ignaro num palquinho pobre que no teatro de DEUS nunca saio do ensaio às vezes sinto o ar rarefeito tenho a garganta sufocada por palavras e palavras e palavras e palavras e palavras que da minha boca como que costurada não saem não caem como o cuspe cai como os dentes podres caem eu que sinto dores viscerais um caroço que cresce em mim uma planta que cresce dentro de mim e que fraco cambaleio pela noite é de dor que tranço as pernas e é de bêbado que sou chamado e onde estás Senhor das terras e dos mares que não me dá de agarrar a tua mão e por que plantaste em mim tal semente que não se cala? não sei nominar o que sinto que nome se dá a um arado rasgando a carne?
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domingo, 17 de outubro de 2010

Ao que ainda somos (Inocêncio de Melo Filho)


 (Le rêve du bonheur, Constance Mayer)

Quando me olhas

É a mim que tu olhas?

Quando me abraças

É a mim que tu abraças?

Quando me desejas

É a mim que tu desejas?

Quando me beijas

É a mim que tu beijas?

Quando me procuras

É a mim que tu procuras?...

Curva-me o peso dos anos

E as indagações se avolumam

Na minha mente

Questionando o que ainda somos.
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Os ponteiros da vida (Belvedere Bruno)

(Femme avec deux enfants, l'un apparemment mort, à Seashore (1800), Maria Cosway)

Mariana acostumara a banhar-se nua no riacho, longe de olhares alheios. Por não aceitar as regras impostas pela sociedade daquele lugarejo onde vivia, falava sem pudores: – Detesto essas coisas de roça! Quando fizer 18 anos, vou pro Rio de Janeiro. Nelsinho, fazendeiro da região, parou diante dela montado no seu cavalo. Olhando-a, sorriu. Ela, assustada, procurou suas roupas.

– Safado! Tá sempre me caçando, como se eu fosse um bicho.

– Eu, heim? Tô no meu caminho! Deixa eu te ajudar...

– Sai! Me visto sozinha. Veio atrás de mim, me seguiu...

– Segui tu, não. Tô indo pras terras de Anísio Bruno ver se tem feira da barganha. Monta aqui. Larga teu cavalo, que ele toma o rumo.

Os dias passavam e a intimidade entre ambos crescia naquelas cavalgadas diárias que tomaram gosto de fazer. A sensualidade dela, ao despir-se no riacho ou rolando calorosamente no gramado com ele, fez com que, em quatro meses, Nelsinho, apaixonadíssimo, a pedisse em casamento. Ela aceitou. Na decisão, não levou em conta o amor, mas o interesse em sair da mesmice em que vivia.

Mais ou menos três meses após o casamento, era uma outra mulher, totalmente diferente daquela por quem Nelsinho se apaixonara. Nunca mais voltaram ao riacho, e ele já se lembrava, com saudade, de um tempo tão recente.

– Por que não fui para o Rio de Janeiro? Por que caí nesta esparrela? – dizia Mariana.

Sempre que contrariada, galopava a toda e se atirava ao rio com o cavalo, no intuito de provocar escândalo. O fato causava grande rebuliço entre os habitantes da região; mas,

a Nelsinho, não incomodavam esses rompantes da esposa.

– Vida insossa! Acordar, olhar empregados, ouvir falar de bois, cavalos... À noite, me deitar com Nelsinho... Que vida de merda! – pensava Mariana.

O tempo corria. A família aumentava.

Numa tarde, Nelsinho, deitado na rede, comia frutas recém-colhidas e conversava com ela:

– Tô pensando em comprar mais terras. Garantir o futuro dos meninos.

Ela concordou, balançando a cabeça . O que lhe importavam essas coisas?

Certo dia, como a manhã avançasse e Nelsinho não acordava, Mariana se aproxima do leito e pergunta: – Que sono é esse? Acorda, homem! – Nenhuma resposta. Balançou-o pelos braços, nervosa, e deu um grito lancinante: – Não! Não faz isso comigo, Nelsinho! O corpo estava frio. Na fazenda, foram tristes os dias que sucederam àquela partida.

Mariana, então, decidiu deixar ali o seu passado, indo morar em outra cidade. Abandonara o sonho de viver no Rio de Janeiro. O vazio de sua existência, nunca conseguira preencher. Numa casa aconchegante cercada por jardins e pomar, passava os seus dias. A varanda tornara-se seu espaço preferido. Ali, pensava no quanto sua vida sempre fora insustentável.

Estava noiva e, através da janela viu Manuel, seu futuro marido, quando ele dobrou a esquina, caminhando em direção à casa. Olhando-o, sorriu. Uma súbita e forte pontada no peito derrubou-a ao chão. Na mão direita, uma aliança de ouro. No relógio da vida, os ponteiros, agora parados para sempre, mostravam 64 anos.
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sábado, 16 de outubro de 2010

Docência (Benilson Toniolo)


Não sei se viste,
Mas o sol desta manhã era maior que o mundo,
E maior também que o nosso coração turbado.

Ainda ontem um pássaro
Pousou sobre os galhos que sombreiam o rio,
E seu canto amarelo apaziguou
A agonia da tarde.
Mas nada vimos:
Nossos olhos e nossos corações
Se ocupavam e se multiplicavam pelas lousas
E cadernos.

Nada temos além das nossas vozes
E as horas debruçadas sobre escritos, mapas e cálculos
– Viagens que nunca fizemos,
Mas que nos sustentam
E habitam os abismos que infestam
Nossa alma carregada de esperanças.

Não sei se enumeraste dias ou noites,
Se armazenaste as dores
De ensinamentos apaixonados,
Se imaginaste canções
Para cada momento de alegria ou desespero,
Ou o motivo pelo qual
Te ausentas de casa para edificar pessoas
E nações.
De muitas coisas não sei.

A vida segue sem nos darmos conta,
E o que nos sobra
– este sol maravilhoso e insano –
Insiste em iluminar-nos o caminho
E a esperança,
Como se merecêssemos, apesar de tudo,
Começar mais um dia.

Eis o edifício, e as salas
E os que nos esperam sedentos, com olhos de fogo,
Pelo que há em nós
Pelo que somos
E pelo que construiremos diariamente
Com nossas vidas abnegadas
E permanentemente apontadas
Para o futuro.

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sexta-feira, 15 de outubro de 2010

O sobrevivente (Enéas Athanázio)


Depois de permanecer inédito por mais de sessenta anos, o manuscrito veio a público e o livro desde logo se tornou um dos grandes textos da literatura sobre a II Guerra Mundial. Ao contrário de muitos outros, que foram escritos a posteriori, após os fatos narrados, como páginas de memórias, este foi composto na época contemporânea dos acontecimentos, ao calor dos fatos, quando tudo ainda estava verde e seu impacto repercutia na sensibilidade do narrador. Estou me referindo ao livro “Eu sou o último judeu”, de autoria de Chil Rajchman, publicado pela Editora Zahar, neste ano de 2010. Ele contém o relato direto e cru, sem adornos literários, dos terríveis dias vividos pelo seu autor no campo de extermínio de Trenlinka, na Polônia, entre 1942 e 1943. É difícil imaginar que alguém tivesse suportado tantos e tais sofrimentos e ainda pudesse sobreviver sem perder a razão. O autor e outros sobreviventes (foram 57 no total) é que eram – estes sim – os verdadeiros super-homens! E o mais interessante é que o relato não é carregado de ódio acumulado, mas a exposição de algo consumado contra o que nada mais poderia ser feito e nem poderia ser alterado. Aconteceu assim e como tal foi relatado pelo autor.

Tanussi Cardoso



Amigos,

Tanussi Cardoso é poeta de primeira categoria. Vejam poemas dele nem

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O parto da Terra (Ronaldo Monte)


Um a um, a terra devolve à superfície os trinta e três mineiros que guardou no seu ventre por sessenta e oito dias. É impossível resistir ao poder simbólico do episódio que a mídia nos serve a domicílio. Um a um, ficamos prisioneiros da tragédia que latejava no meio do deserto chileno. Todos nós ficamos grávidos destes homens que desceram aos infernos e ficaram prisioneiros de suas entranhas. De repente, fomos tomados por um medo atávico. O medo de ser enterrado vivo.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Bilhete de Wilson Gorj


Nilto,

Obrigado pelo presente literário. Muito bem urdida, sua crônica. Bacana a graduação da sua sede: primeiro de água, depois de corpo[?] e, por fim, saciada na literatura. Mais bacanas ainda as referências afins: ler aos goles, "nas águas barrentas", "escorria para o quarto" [medo líquido]; meu microtexto "Ondas" revelando a outra sede do narrador. E por fim a frase do Mayrant repetindo de outra forma um ditado muito empregado pelo povo: "Por detrás das brincadeiras há sempre alguma verdade". Fiquei muito lisonjeado em ver minha literatura abrilhantada pela sua. Postei o link para a crônica no meu blog: o muro e outras páginas.

Grato abraço. Wilson.

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Aquela dor no peito (Nilto Maciel)

(Retrato de mulher, Jeanne Rhéaume)

Após o almoço, costumo ler. Sempre as novidades. Deixo os clássicos para a noite. Desde ontem folheio o novo livro de Wilson Gorj: Prometo ser breve. Mas nunca leio numa tarde um livro todo. Não por preguiça. Prefiro ler aos goles: vou à copa, beberico umas gotas d’água, caminho pela casa, volto ao assento, reabro o volume. E assim passo uma hora.

Esse sossego, no entanto, é quase todo dia quebrado. Vez por outra, sou despertado pelos telefones – esses objetos quase totêmicos para muitos de nós. Oferecem planos de saúde e morte súbita, automóveis voadores, viagens aos confins do mundo (nosso, meu). Invento histórias terríveis, para me livrar desses vendedores de ilusões: ontem meu filho (não tenho filho) caiu do segundo andar; assaltaram minha casa e me levaram quase tudo.

Também os carteiros – esses portadores de cobranças bancárias – me chamam à realidade. Há, ainda, os vendedores de frutas e verduras, em carrinhos puxados a mão. Gritam, na calçada: Olha o limão verde, freguesa. Hoje tem abacaxi doce.

Às vezes, minha tranquilidade é roubada por jovens leitores. E eu muito me regozijo com esse roubo. Como se me levassem a angústia toda que me cose os retalhos da tarde.

Hoje recebi a visita da estudante Jéssica Morais. Quer ser escritora. Mostrou-me uns poeminhas. Como soube de mim? Buscava poesia na Internet e terminou encontrando meu nome. Deve ter sido no Jornal de Poesia, de Soares Feitosa. Na primeira mensagem escreveu: “Li umas poesias do senhor e gostei muito”. Foram mais de dez comunicações, minhas e dela. Na mais recente, se encheu de coragem: “Quero muito conhecer o senhor. Nunca vi um escritor de perto”.

Com vergonha de falar de mim, perguntei-lhe se conhecia Dante, Camões, Shakespeare. Sim, tinha lido um “resumo” da Divina Comédia, uns sonetos do luso, Romeu e Julieta. Como não sou conhecedor deles, temi meter-me numa enrascada dos diabos e decepcionar a garota. Preferi falar dos novos escritores: “Você conhece Wilson Gorj?” Não, não conhecia. Lembrou-se de Gorki. E falou de Dostoiévski, Gogol, Tolstói, Tchekhov. Fiquei embasbacado. Como esses jovens sabem de tudo!

Abri o livrinho do moço de Aparecida (nasceu em 1977, ano em que a revista O Saco se findou e me mudei para Brasília) e li em voz alta: “Wilson Gorj é um dos expoentes da nanoliteratura.” São palavras de Cairo Trindade, na apresentação do volume. Jéssica me interrompeu: “O que é nanoliteratura?”

As epígrafes de Wilson são do mestre inglês: uma de A tragédia do Rei Ricardo II, outra de Hamlet. O livro é dividido em “Microcontos” (38 narrativas curtíssimas, numeradas e sem títulos, e outras com títulos), “Reinações no reino da palavra” (algumas de uma linha, sem título; outras com título) e “Doses homeopoéticas” (todas com título, algumas mais longas: quatro, cinco, seis linhas).

A tarde morria. Lembrei-me de Castro Alves: “A tarde morria! Nas águas barrentas / As sombras das margens deitavam-se longas” (...). Minha sede aumentava. Meu medo passava, escorria para o quarto, calava-se debaixo da cama. “Quer ouvir algum continho do Gorj?” Eu não esperava resposta tão áspera: “Prefiro Homero, mas gosto do mesmo modo desses meninos de hoje”.

Li o primeiro: “O carro era zerado. Mas a namorada... Como era rodada!” Olhei para a cara dela. Fazia careta. Mas uma careta tão engraçada, tão bonita, que tive ímpetos de beijá-la. Contive-me. Não estou mais na idade desses arroubos. “Parece piada”. Ri, envergonhado. “Ouça este, então: ‘Aquele teria sido o sono mais longo de sua vida. Não tivesse acordado a sete palmos debaixo da terra’. Jéssica sorriu: “Este é bem melhor. O senhor não acha?” Irritei-me: “Por que você me trata assim, menina?” Ela se mostrou surpresa: “Porque o senhor me lembra meu avô”. Que pirralha mais atrevida! Tive até vontade de lhe dar umas palmadas. “Leia outro”. Li, agastado: “Perdeu a fé nos homens. Desde então se devota às mulheres”. O título é “Padre”. Riu, sem querer me ofender. De propósito, continuei a leitura e passei ao igualmente brevíssimo “Ondas”: ‘Teu corpo, praia deserta. Minha língua, o mar’. Ela entendeu tudo: “Esse Wilson Gorj é bem criativo”. Concordei com ela. E li uma frase de Mayrant Gallo, nas abas do livro: “E, se tudo é brincadeira, é preciso lembrar que, freudianamente, não existe brincadeira”.

Sedento, ofereci água à menina. Enquanto sorvia o líquido, ela vasculhava a pequena biblioteca da sala. Súbito, me pediu, por empréstimo, os dois volumes dos contos reunidos de Moreira Campos. Saciado, não pude dizer não. Afinal, literatura é entrega.

Ao se despedir, disse, rindo: “Enfim, consegui realizar mais um sonho: conhecer um escritor pessoalmente”. Dei-lhe um beijo na testa e, sem saber o que dizer, balbuciei: “Moreira Campos é o nosso Tchekhov.” Ela saiu, muito séria e faceira. Voltei ao livro de Wilson Gorj: “Aquela dor no peito, quem dera fosse poesia... Mas era crônica”.

Fortaleza, 8 de outubro de 2010.
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quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Charmosa morbidez (Manuel Soares Bulcão Neto)

(Van Gogh)

Minha amizade com o poeta Francisco Moreira, talvez por ter se iniciado na adolescência, tinha a dureza do diamante. Discussões ásperas, trocas de impropérios e até pequenas e mútuas traições, nada a abalava. Lembro-me sempre, às gargalhadas, do dia em que apaguei um cigarro em seu tornozelo: O “Don Juan”, enquanto recitava versos eróticos de Alcides Pinto, tentava explorar com os pés, por baixo da mesa, as pernas da minha então recém-namorada. — Horas depois, eu e ele estávamos em outro bar, jogando xadrez. (Arrependido, deixou-me comer sua rainha em todas as partidas.)

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Contestação consciente (Henrique Marques-Samyn)

(Tanussi Cardoso)

As referências à poesia brasileira produzida ao longo da década de 1970 tendem a evocar imediatamente os nomes relacionados à chamada "poesia marginal" – embora o pressuposto de que a todos os autores que produziram durante aquela época possa ser aplicado esse rótulo seja equivocado, sendo prova recente disso o volume referente aos Anos 70 da antologia Roteiro da poesia brasileira, organizado por Afonso Henriques Neto. Não obstante, se aquela "marginália" legou para a poesia brasileira um conjunto de importantes elementos, teve por outro lado ecos negativos que se prolongam até os dias atuais. Esses prós e os contras foram proveitosamente sintetizados por José Paulo Paes, de cuja análise destacamos, de um lado, a contestação dos valores estabelecidos a partir de uma opção existencial e o questionamento do bom gosto das elites lítero-sociais; e, de outro lado, a desorientação, a desinformação e o descompromisso com diretrizes estéticas que, na maior parte das vezes, resultou numa produção circunstancial e efêmera.A estreia literária de Tanussi Cardoso ocorre apenas no fim da década de 1970: Desintegração data de 1979, o que em primeira análise nos permite postular que sua obra não representa fielmente o ideário predominante na "marginália". De fato isso ocorre, mas não porque seja o poeta um epígono, ou porque meramente espelhe a estética predominante naquela época; uma leitura do volume dedicado à sua obra na valiosa série 50 poemas escolhidos pelo autor (Galo Branco, 2008) demonstra que, se Tanussi Cardoso é o autor de uma poesia que contesta os lugares-comuns e desconstrói o discurso literário essencialmente a partir de uma postura existencial, cumpre essa tarefa por intermédio de uma poesia que nada tem de gratuita. Sob uma dicção aparentemente fácil e despojada, Tanussi Cardoso ergue uma poesia densa, que resgata e atualiza alguns temas perenes da história da literatura.As duas últimas partes do livro, por exemplo, reúnem poemas que tratam precisamente de dois desses motivos universais. Em "Do amor", encontramos o belíssimo "Fado", que merece ser transcrito na íntegra:

Agora, podes ficar onde a tormenta não mais te alcança.

Onde Deus não mais te eleve.

Onde o mar não mais te salgue.

Onde o azul não te aborreça.

É assim o amor – vela por nada.

Cuida por nada.

E quando pensas que és,

teu sangue estanca.

Já em "Das mortes" lemos o excelente "O morto", que tem esta última estrofe:

Tudo permanece em seu lugar.

(...)

O morto é um poema

acabado

solto

completo.

Vê-se, portanto, que Tanussi Cardoso é um poeta que habilmente maneja os recursos formais, jamais mobilizados em favor de artificialismos; em sua poesia, tudo está a serviço de uma expressividade absoluta. Para além disso, atravessa a sua obra um lirismo que nasce das vivências cotidianas, cabendo pôr em relevo uma característica particular: se Tanussi Cardoso se alinha aos poetas que buscam dilatar as fronteiras do poético, nele incluindo também as (supostas) trivialidades do dia-a-dia, importa observar que dificilmente seu lirismo se limita à superfície, havendo uma pungência que a ultrapassa em direção àquela angústia metafísica que sempre assola o humano, decorrente da certeza da finitude e da incerteza da existência. Exemplo disso é um poema como "Oráculo" – raro pela construção precisa, pela força lírica e pela eficácia das imagens –, do qual transcrevemos o trecho final:

mas não quero falar disso agora.

tantas idas e vindas.dor no coração fodido.

vôo e nem acredito.

vôo e nem domingo.

sábado e nem comigo.

vôo e nem futuro.

só preciso disso:

a paz inalcançável do gesto da mão no ar no vento

como um corte lento e gosmento.

silencioso.brutalmente silencioso.

como um poema. límpido como um santo caído das nuvens.

como um poema. gênesis.

como um poema. estupidamente triste.

como um poema. sutil e inacabado.

como um poema. belo e qualquer.

mas não quero falar disso agora.

As anteriormente mencionadas observações de José Paulo Paes acerca da poesia produzida nos anos 70 dizem respeito a problemas que encontramos ainda em poetas atuais, relacionadas à carência cultural e a deficiências na formação literária que conduzem a tentativas de enfrentamento que, por sua ingenuidade e ineficácia, denunciam a inconsequência dos que tentam empreendê-las. Melhor fariam esses autores se seguissem o exemplo de Tanussi Cardoso, contestador consciente, cuja competência no fazer literário é inegável.


Crítica sobre o livro 50 poemas escolhidos pelo autor, da Ed. Galo Branco, publicada no blog

Henrique Marques-Samyn nasceu e cresceu nos subúrbios cariocas. É escritor, tradutor e pesquisador acadêmico, autor de Poemário do desterro, Esparsa erótica e de diversos artigos acadêmicos. Articulista do Jornal do Brasil e da revista Speculum, tem textos publicados no México, na Venezuela e na Espanha. É doutor em Literatura Comparada (UERJ), mestre em Psicologia Social e em Filosofia.
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segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Ceará (Jéssica O. Dias)

(Nasci no dia 13 de março de 1996 em Fortaleza. Estou no 9° ano do ensino fundamental dois e estudo no Colégio Maria Ester 1)




Ceará terra da luz,


É uma “boniteza” que seduz.


O povo do sul nas férias nem demora,


Faz as “mala” e vem “simbora”.


Também numa terra dessas,


Cheia de José, Raquel, Patativa...


Um bando de cabra macho,


Com as suas “Maria Bonita”.


Quem é que não vem conhecer,


As histórias do Ceará.


Mais engraçadas que piada boa,


“Arrodeam” o mundo sem ninguém decepcionar.


Nossos livros regionalistas,


Fazem mais sucesso,


Que artigo bom de jornalista.


Quem é que nunca ouviu,


Um repente cearense?


Quem nunca dançou um forró,


Ou xote nesse sol quente?


Ô povo “arretado”,


Da literatura danada de boa.


Aqui, lixo se “rebola” no mato,


E as “conversa” voa.


Foi aqui que a abolição começou


E um sol mais igual brilhou.


Ô povo invocado,


Gente boa de memória.


Um povo simples e engraçado,


Mas pense, que o cearense faz história!
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sábado, 9 de outubro de 2010

Remoção (Mariel Reis)

(Quadro de Chico Lopes)



para reinaldo ramos

não. meu cachorro, não. se ele não vai, não me interessa. abrigo? o meu é aqui, na marquise. obrigado, agradece ao sr. prefeito por mim. não me incomoda viver na rua, não senhora. assistência social? isso eu deveria ter tido quando nasci e minha mãe me abandonou. por que vocês se lembraram de mim agora? ah, porque estou aqui na calçada da madame? ela tem um palacete e não pode me ceder um pedaço da calçada? a rua não da prefeitura? do governador? de quem é a rua? eu sou limpo, pode perguntar para qualquer um. não, senhora. droga eu não uso. bebo uma cachacinha de vez em quando. tô largando. uns bíblias conversaram comigo. é coisa do demônio a bebedeira. então é o demônio que me faz esquecer a minha desgraça, eu disse. eles ficaram um tanto sem jeito. me falam de jesus e não tocam mais no assunto de cachaça comigo. família? já tive. não deu certo. tem muita família que não dá certo, né? nem todo mundo é feliz como em propaganda de televisão. por que será? a senhora que tem estudo, pode me dizer? filho, não. tenho uma filha. uma moça. mora com a mãe. o que separou a gente? o desemprego. é, nem de porteiro. nada. trabalho? catei papelão na rua. dinheiro pouco. a menina necessitando de cuidados. a mãe azucrinava que eu tinha que fazer alguma coisa. eu fiz. tô aqui, né? a sociedade, dona. se falo com ela? não. que filha que ver o pai nessas condições? tem vergonha, não sabe? e o abrigo, aceita cachorro? se não aceita é perda de tempo que não embarco no ônibus. pego minha trouxa e rumo para outro lugar. que isso, senhora, o cachorro ir para um canil. é meu amigo. único amigo. um piadista falou que o cachorro é amigo do homem, porque não conhece dinheiro. mentira. cretinice. se ele não vai, pode me esquecer aqui. sou que cuido dele. é indefeso. como via se virar sem mim? tem gente que vai cuidar dele, mas não é a mesma coisa. a senhora sabe. o animal se afeiçoa a gente. e a gente ao bicho. ô, minha roupa, ele tá levando a minha trouxa de roupa. tá me assaltando. a senhora vai deixar o guarda levar as minhas coisas? a senhora iria se conformar se alguém invadisse a sua casa e levasse tudo embora, sem o seu consentimento? eu não preciso de endereço, dona. a sociedade não me quer. eu também não faço nenhuma questão. recuperação quem precisa é doente e criança que ficou em segunda prova. a madame só quer ter limpa a calçada dela. ela tem nojo de gente como eu. eu sou livre. e ela? por que eu não volto para os meus familiares? porque quero ser livre, dona. não me venha com conversa fiada. isso aí é meu colchão. se a senhora quisesse mesmo me ajudar, pediria aos brutamontes para largar os meus trecos. minha última chance? é isso, é? vou começar a gritar. podem bater em mim. eu não saio daqui sem o meu cachorro. maldade. vocês querem fazer sabão com ele. o bicho é tão sozinho quanto eu. vocês vão querer separar mais uma família?

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