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sábado, 31 de dezembro de 2011

Quando o Amor é de Graça VIII: História de não se dar Passo (Raymundo Netto)



Moral da História: a vida é o exercício do perder!

Essa fábula ao inverso, nada mais é do que a minha tese de pós-torturado da faculdade da vida, na qual nem pedi a inscrição, mas onde tenho cadeiras obrigatórias desde a primeira tapa, e onde jurei: até a morte hei de viver!

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Filmes de Julien Duvivier (Guido Bilharinho)

Tecnalidade Artesanal


 
Desenvolvida de 1927 a 1967, é das mais longas a carreira cinematográfica de Julien Duvivier (França, 1896-1967). Nem por isso, com isso ou apesar disso, apresenta filmes consistentes ou criativos. Suas marcas relevantes são convencionalismo, linearidade e naturalismo, que significam absoluta submissão à estória, cingindo-se seu objetivo à narrativa de fatos e acontecimentos.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Os escritores (Franklin Jorge)

(Manuel Bandeira)
Disse Faulkner que um escritor, se for um bom escritor, será arrastado por demônios, perderá a paz, a decência, o orgulho, a honra, a felicidade e a segurança, desde que possa escrever, pois a arte não tem nada a ver com paz e alegria. A impiedade seria um dos atributos mais notáveis do escritor que se compraz em sua arte e se mantém, permanentemente, ocupado.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Busca-pé (Clauder Arcanjo)



Milho verde na panela, borbulhante. A semana toda, mestre Anísio a preparar o balão da festa (naquele tempo, não se falava em incêndios, somente na alegria dos céus com tão belo artefato). Na despensa, já prontos: o aluá, o bolo de milho, as broas, a canjica, a pamonha, e algumas novidades de Rita, escondidas sob guardanapos brancos, que só seriam reveladas na noite de São João. A surpresa anual da velha e boa cozinheira.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Equilíbrio (Assis Coelho)



Soltou uma das muletas e a deixou obliquamente encostada. O equilíbrio, ou a falta desse, o perseguia. Quando este lhe fugia, os hematomas surgiam com vários formatos e cores. Há poucos dias, ao atravessar a pista da Praça do Relógio, um bêbado motorizado, no afã de chegar o mais rápido possível ao próximo bar, o atropelou. Na semana passada, pensando ter o equilíbrio de outrora, tentou pular o meio-fio rapidamente, não conseguiu. Antes de cair, ainda viu as muletas no ar e, antes do desmaio, ouviu o som estridente do carro em debandada. Agora, as pernas, cheias de metais e feridas, eram o seu ganha-pão. Aquela gosma e o inchaço lhe proporcionavam muitas moedas, principalmente aos domingos, nos degraus das igrejas, quando os fiéis se sentiam quase santos. Poucos lhe negavam a ajuda para a cachaça. Estava ali, se esforçando novamente para não cair e, ao mesmo tempo, levar a garrafa à boca. Como sempre, o equilíbrio lhe era fundamental. Não podia mais cair, pelo menos por enquanto. Já estava sujo demais e o fedor afastava alguns menos piedosos. Sua roupa continha um pouco de tudo: lama, graxa, óleo, restos de comida impregnada com fiapos de grama e outras pastas indecifráveis. Depois de um rápido e doloroso movimento, conseguiu o gole tão desejado. Tentou outro, mas previu que seria mais um desastre. Exercitanto, mais uma vez, o maldito e insubmisso equilíbrio, agora mais imperioso, conseguiu pegar a outra muleta. Com elas tinha a vã impressão de que não cairia. Por mais indesejáveis que fossem, elas o mantinham, de certo modo, firme. Impulsionavam-no para frente, com pequenos ensaios de voo, dando-lhe a ilusão do equilíbrio e certa superioridade em relação àqueles que tombavam. Seguia em frente, pensando na iminente parada para o próximo gole. O equilíbrio, mais do que nunca, era fundamental para seguir sua rota para um lugar definido, somente quando parasse sem forças para o corpo enfim equilibrar-se.
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segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Viandante (Silmar Bohrer)


(Estradinha, Antonio Roque)

Vinte anos por estes caminhos
tenho tido então andado
caminhando assim sossegado
a ouvir os cantores passarinhos.


Cortejando o meu riozinho,
eu e as matas ciliares,
sempre juntos meus pensares,
não ando jamais sozinho.


Aquelas rimas estradeiras
são as fiéis companheiras
adornando alguns versos,


Sempre cantados com sutileza,
louvando a nossa mãe-natureza,
varando longes universos.
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sábado, 24 de dezembro de 2011

Sonhos do Natal e Ano Novo (Francisco Miguel de Moura)




Não se pense o Natal maior do que é:
Um dia, uma noite, uma festa ou a recordação.
Jesus chegou dois mil anos antes
Mas veio o Papai Noel atrapalhar.
Tudo é dinheiro,
Até o tempo que sofremos,
O dia branco e a noite só,
O minuto que amamos,
A eternidade que choramos
E a morte que nos leva.


Todo dia é um dia novo,
Não depende do Natal, nem da Missa do Galo,
Não depende da mudança do calendário.


Quando nele se pensa, já mudou,
Quando se vai ao banheiro, já mudou...


O tempo nos governa em altos juros
De suor, sangue e salário.


Natal, Ano Novo passaram e ninguém não viu...
Tudo é tão veloz!
– Antes de chegar, quem sabe o que novo?


Todos os sonhos morrem no seco,
Sem chegada, sem saída, sem beco.


Teresina, 23/12/2011
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sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Passio (Emanuel Medeiros Vieira)

(Para o Fábio Vieira Heerdt)

(...) “E de moda em moda, ocupamos o tempo que, senhorio cruel, nos desaloja”.
(HP)

A) Aqui, irrompe o pranto
não a redenção.
B) Redigo o diário de bordo
(o mar é interior)
C) Preparo o inelutável ritual:
pronto está o farnel: água no cantil, pão de centeio.
(Folha de papel em branco, lápis, borracha.)
Retenho o cheiro de orvalho – caído numa manhã de infância.
D) Restaram empáfias, vaidades, simulacros, engenhocas eletrônicas.
E) Paixão vem do latim Passio.
A tradução é sofrimento?
F) O estoque de capital anunciado não me sacia.
G) Nada me sacia?
H) Navegador do Apocalipse?
I) O mar não me alcança – a juventude longe.
J) Luz para o caminho: uma vela só vale acesa.

(Brasília, maio de 2010, e Salvador, novembro de 2011)
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quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Braúna (W. J. Solha)


Li, dele, os contos de Como um cão que sonha a noite só e os versos de Metal sem Húmus. Sintonia, no entanto, é coisa de momento, de magia. Passei séculos para aceitar a Chacona de Bach, esmagado pela beleza imponente da Tocata e Fuga em Ré e da Paixão segundo São Mateus. Daí que o que me marcou mesmo, do cearense Dércio Braúna, foram os detalhes de A Selvagem Língua do Coração das Coisas. “Detalhes” no sentido usado em artes plásticas, em que pormenores de algumas obras encantam tanto ou mais que elas inteiras.
Parece que a propósito, o poeta diz, num dos poemas desse livro:
Deslumbrar de tudo
é que bem queria!
Mas o coração
(um bloco de pedra todo riscado com gritos)...

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Tânia (Pedro Du Bois)




Lembro de mim: menino
a correr pela rua de conhecimentos
jovem preso em si mesmo
adulto na segurança
oferecida pelo cotidiano
lembro de mim e lembro você
ao meu lado: a voz calando medos.
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terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Quando o Amor é de Graça IV: em nome do Pai! (Raymundo Netto)


Não há quem dê nego à importância do nome, esta designação oficial de nossa existência dita cuja, seja ela a mais vã impossível, atribuída seja por quem for, a nos acompanhar pela vida e à morte, falando de nós ou por nós como uma marca, às vezes como uma chaga. Um nome bem escolhido nos coloca à frente, principalmente quando inicial “a”, ou, ao contrário, nos diminui, quando feio, cacofônico, antiquado, com sentido dúbio ou estranho, fruto do engenho experimentalista dos pais. Há tantos nomes bonitos, fortes, significantes — em alguns países asiáticos realizam-se cerimônias dirigidas por sábios que “adivinham” a função de mundo daquele ser e a coloca em seu nome — mas na hora da escolha de um nome, os pais ou os enxeridos de plantão — os “pitaqueiros” — esquecem de atentar para a criaturinha que o levará às costas, às vezes, suportando o ridículo de uma predileção momentânea.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Insônia (Teresinka Pereira)


Passo revista
em minha sina
e nos astros
que fazem ferver
meu sangue.
Meu cérebro
é a serpente do paraíso
que se esconde na escuridão.
A noite é meu
pecado original.


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domingo, 18 de dezembro de 2011

Hiroshima, meu amor (Guido Bilharinho)

A Memória Inconsolável


De tempos em tempos, alguns filmes causam impacto, introduzindo inovações formais, temas inexplorados ou perspectivas inusitadas no trato de assuntos já repisados por inúmeros artistas. Enfim, introduzem e praticam novas maneiras de fazer (forma) e de ver (significado) o cinema e a vida.

sábado, 17 de dezembro de 2011

O Tempo de Iluminadas Palavras (Tânia Du Bois)



“Na manhã iluminada de lembranças refila a cor do sentimento...” (Carlos Vogt) O tempo pede palavras de luz. O amor, a dúvida, a dor e a luz estão presentes no sentimento sobre a vida e a condição humana. Criamos a ilusão da luz por uma questão organizacional e vivemos em função do tempo. “As luzes acesas / as portas abertas / as janelas acesas / todas as coisas acesas. // Bem aceso o viver.” (Álvaro Pacheco) A luz atravessa o tempo e, ainda assim, permanece dentro de nós com real importância. O objetivo fundamental é preencher o vazio com a luz que encontramos na arte literária, como em Lindolf Bell: “Seja o poema/ o homem devorado pela luz...”; em Gilberto Mendonça Telles: “... E deve haver os sentidos latentes/ que vão dando luz/ às coisas ausentes.”; em Jorge Tufic: “... mas é o imenso/ que de mim/ se ilumina.”; e em Luiz de Miranda: “A vida traz a luz/ sem a penúria de perder/ o azul/ na avidez do corpo.”

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Maria e Paul (João Soares Neto)



Maria era a jovem venezuelana morena, encarregada da limpeza. Paul, quarentão descendente de irlandês, sardento, cuidava da segurança da empresa, que ocupava todo o andar. Há muito, estavam envolvidos e ninguém notava. Disfarçavam bem, nem olhavam um para o outro na frente de estranhos. Eram obrigados a chegar cedo. Ela, para fazer a limpeza dos banheiros, copa e salas, reabastecer as máquinas de fazer café e limpar as grandes janelas de vidro. Ele, para checar o equipamento de segurança, que o obrigava a seguir uma rotina de desligar os alarmes, acionados na noite anterior, e reprogramar as câmeras de vídeo para o dia de trabalho que começaria às dez horas. Eram senhores absolutos do andar por aquelas breves horas e corriam contra o relógio para terminar o trabalho e terem tempo de fazer o amor diário.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Terreiro (Carlos Nóbrega)




Sob o cajueiro
uma velha
tricotando rosas
de algodão e sombras
esquecida de morrer
completamente.

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quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Sobre Os Guerreiros de Monte-mor (W. J. Solha)



(Escritor W. J. Solha)

João Pessoa, 8 de dezembro de 2011


Nilto, sempre vi que as pessoas consideram enorme elogio dizer a um autor que leram seu livro de uma sentada só. Pois bem. Li seu "Os Guerreiros de Monte-Mor" de uma só sentada. Como eu e você não conseguimos ler nada sem ir – ao mesmo tempo – fuçando pistas que nos levem ao mecanismo da obra, quando vi o nome de Amparo e soube que Antonio Cardoso "saía para trabalhar com (...) a cabeça coberta de borboletas", somei isso ao fato de que o romance vai buscar uma época primitiva do Ceará, como o Gabo fez na Colômbia, vi certa magia no ar, "grutas cheias de metais, sinos capazes de acordar os sertões, (...) instrumentos que atraíam chuvas e até armas para a guerra sertaneja que se avizinhava", tudo acrescido a um clima de guerra presente o tempo todo, tasquei: "Cem Anos de Solidão". Mas uma frase, já lá perto do final, "Nós somos é decifradores", adicionada a toda uma cultura aficionada aos Pares de França, Teodora, Magalona e assemelhados, me zumbiu: "Ariano Suassuna", "armorial", com a loucura de Quaderna e seus dois amigos igual à loucura da "Majestíssima Trindade" formada pelos três "revolucionários" de "Os Guerreiros de Monte-Mor", pelo que concluí: "O Romance da Pedra do Reino". A verdade, como Gabriel García Márquez já disse, é que estamos todos escrevendo o mesmo livro, Cada novo romance é sempre o acumulado do que já se fez até então e um passo à frente nessa categoria literária. Parece-me que sua grande contribuição com esse trabalho, Nilto, foi a de dar seu recado com mais fluência, em face da brevidade. Isso fez com que ele se aproximasse de uma parábola sobre a Revolução, tanto quanto se aproximou "A Revolução dos Bichos", do Orwell. Pois não é que, lá pelas tantas, seus exiguos três doidos me pareceram Lênin, Trótsky e Stálin armando a tomada do poder pelo "proletariado", mas descaradamente substituindo-o pelo que Vladímir Ulianov chamou de "revolucionários profissionais", mandando Marx às favas? E que tal a briga da Majestíssima Trindade pra ver quem fica no poder, enquanto na vida real Stálin manda matar Trótsky no México? Estarei demonstrando estar pirado, dizendo isso? Acho que não. Lá pelas tantas, José e Chicó perguntam ao João: "Estado, o que é estado?" Ridículo? Claro, é ridículo, mas Norberto Bobbio, em "Qual Socialismo?", diz que o grande problema da União Soviética foi que Lênin soube como chegar ao poder, mas não o que fazer dele. Conclusão? Nota 10, Nilto.

WJ Solha
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A vida vista pelas margens (Adelto Gonçalves*)

(Patativa do Assaré)

I

Qual é o papel do intelectual na questão da exclusão das grandes massas do campo da cultura? Há legitimidade naquela literatura que procura representar os marginalizados, que estão afastados dos espaços sociais de produção discursiva e assim são sempre apresentados por meio de um olhar externo, de quem, bem posto da vida, procura se passar por um dos excluídos? É o que procuram discutir os 14 ensaios reunidos em Pelas margens: representação na narrativa brasileira contemporânea, de Regina Dalcastagnè e Paulo C. Thomaz, organizadores (Vinhedo-SP: Editora Horizonte, 2011).

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Parricida! (Eliane Triska)

... Ele havia feito tudo demasiado belo...
O diabo é apenas a ociosidade de Deus a cada sétimo dia...
Nietzsche – Ecce Homo



Ateu, me nego a ver teu mundo grande
E os dias findos dessa vida imposta.
Eros! Tanatos! Paz! Filhos de Ghandi
E a guerra, por herança, sem resposta.



segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Vida longa (Ronaldo Monte)



As estatísticas não mentem. O IBGE afirma, em suas cabalísticas Tábuas Completas de Mortalidade, é que a expectativa de vida dos brasileiros cresceu em três meses e 22 dias. Vejam bem que vantagem. Em 2009, eu estava jurado para morrer com 73,17 anos. Em 2010, meu prazo de validade passou para 73,48 anos.

domingo, 11 de dezembro de 2011

Lunar (Inocêncio de Melo Filho)




Trilho os caminhos do seu corpo
Não temo os tropeços
Pois tenho a luz da lua
Que me guia
Por onde eu for...
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sábado, 10 de dezembro de 2011

Posfácio de ouro* (Antenor Laurentino Ramos)


Li, gulosa e gostosamente, “Gente de Ouro”, mais um dos admiráveis livros de Franklin Jorge. Nunca vi alguém pra escrever tão bem assim!

Os seus personagens são verdadeiros, são de carne e osso. Quem não os conhece? Que descrição notável de tipos humanos, essa de Franklin! Estão bem pertinho de nós. Existem em todos os lugares e em todos os tempos. É verdadeira galeria.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Um escritor cearense mostra seus contos (Carlos de Souza)

(Tribuna do Norte, Natal, 7 de Dezembro de 2011)

Antes de mais nada, quero pedir desculpas aos leitores e ao poeta mossoroense Antonio Francisco, que teve o nome trocado na coluna anterior por Francisco José. O escritor Franklin Jorge me enviou este livro para dar uma olhada. Luz Vermelha Que Se Azula, de Nilto Maciel, Expressão Gráfica Editora, 212 páginas, sem preço definido. É um livro de contos que você vai folheando devagarinho e sendo fisgado pela prosa concisa deste cearense, praticamente desconhecido entre nós potiguares. Vivemos ilhados neste Nordeste sem porteiras. Outro dia comentei aqui W. J. Solha, o paulistano mais paraibano do Brasil. Agora é com prazer que comento aqui o livro deste nosso irmão cearense.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Bibliotecas (Tânia Du Bois)


Folheando a revista, li: “Bibliotecas não se restringem ao espaço em que se instala a coleção de livros... elas também se transformam em eficientes elementos decorativos...”

Essa sugestão é insensata, porque a criação de uma biblioteca predispõe deixar os livros expostos nas prateleiras, para facilitar o manuseio. O ideal é tê-los para lê-los e não para decorar o ambiente. Entretanto, por muitas vezes, ficamos reduzidos a ler e ouvir esse tipo de tragédia. É preferível transformar essa tragédia em suposto olhar, com profundidade, num passe de gestos e sentidos, onde historicamente permaneceria a alegria da leitura e o mistério das palavras, no hábito como fórmula simples e preciosa.


quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Oito livros para encerrar 2011 (Nilto Maciel)



Entre a viagem ao Rio de Janeiro (7 e 8 de novembro) e os preparativos para o lançamento (1º de dezembro) de Os guerreiros de Monte-mor, recebi oito publicações: Terra de Nheçu (Florianópolis: LEDIX, 2009), de Nelson Hoffmann; As joias da coroa (São Paulo: Tordesilhas, 2011), de Álvaro Cardoso Gomes; Ao som do realejo: narrativas profanas (Florianópolis: Nauemblu Ciência & Arte, 2008), de Péricles Prade; O pequeno Hércules e outras fábulas contemporâneas (Fortaleza: Armazém da Cultura, 2011), de Simone Pessoa; e quatro do poeta Luís Augusto Cassas: A ceia sagrada de Míriam (2010), A mulher que matou Ana Paula Usher (2008), Evangelho dos peixes para a ceia de aquário (2008) e O filho pródigo: um poema de luz e sombra (2008), todos da Editora Imago, São Paulo.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Ela me tratava tão bem (Assis Coelho)


 
Aqui estou novamente sobre esse sofá macio e cheiroso depois de longo tempo vagando pelas ruas. Ainda fica mais gostoso quando me encosto no colo farto de Zuleica, a gorda, não a cabeleireira, magricela que me expulsou de seu salão por achar que eu afugentava seus clientes. Não entendi, sempre tive fama de bom companheiro. Voltei para as ruas.


segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Barracão (Clauder Arcanjo)



Na calçada, a poça fétida de lama. Como porta, um madeirite velho; resto da obra da nova catedral.

Desde a entrada, chão batido. E o luxo de uma cadeira de balanço usada, picadeiro das aranhas, e dois tamboretes desconjuntados.

No mais, apenas outro cômodo: quarto, cozinha, despensa e banheiro. Quatro em um. Integração de espaço e pobreza. Sobre o fogareiro, um bule de café frio, borra da semana. Nas prateleiras tortas: sal, meio quilo de açúcar e duas latas esperançosas por feijão e farinha.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Quadrinhas de Silmar Bohrer




Porque o sábado é de esbaldar-se
hoje eu me esbaldo no verso,
horas boas de abeberar-se
nas planuras do universo.


sábado, 3 de dezembro de 2011

O sertão kafkiano de Pedro Salgueiro (“Inimigos”) (Alfredo Monte)


(Pedro Salgueiro)

“Foi assim de repente, quando menos se esperava (em plena tarde morna) o sol tornou-se pálido, para sumir logo em seguida. O povo ainda não havia acabado de se assustar—ouvimos no meio da escuridão um bater de asas atravessando o vilarejo, como se um bando de pássaros saísse em revoada. Um pouco antes de os moradores da vila abandonarem suas casas em grande alvoroço, os bichos já alarmavam o acontecido: galinhas cacarejavam, galos cantavam em desespero, porcos fugiam pelas ruas atropelando as pessoas…

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Príapo perdido no sumidouro do desejo (Nelson Patriota)


 
Se tempo e espaço são elementos indissociáveis do romance, elementos subsidiários como a metáfora e o aforismo podem às vezes ocupar as colocações mais importantes de uma narrativa estendida, como prova esse "Libido aos pedaços", do cearense Carlos Trigueiro, e que chegou às livrarias natalenses em setembro último. O livro é o segundo volume da "Trilogia da Confissão", iniciada com "Confissões de um Anjo da Guarda" (2008), mas pode ser lido independentemente desse último, com o qual guarda em comum apenas o pendor confessional dos personagens.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Os guerreiros de Nilto Maciel (Flávio Paiva)

caderno3@diariodonordeste.com.br Diário do Nordeste, Fortaleza, 1º/dez/2011



Quem passa desavisado por Baturité nem imagina que aquela cidade do maciço poderia nem existir, caso no tempo em que, na ficção do escritor Nilto Maciel, 66, ela ainda era vila, tivesse sido destruída pela revolução nativista sonhada pelo anti-herói protagonista do livro "Os guerreiros de Monte-mor" (Armazém da Cultura, 2011), que será lançado hoje, às 19 horas, na Livraria Cultura, em Fortaleza. A primeira edição dessa novela alegórica cearense foi publicada em 1988, pela editora Contexto, de São Paulo.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Travessia (Geovane Monteiro)


 
Neste instante tento descobrir de onde me vem tanta vagueza e o que encontro, dentro de minha liberdade sobressaltada, é ainda mais vagueza. Uma claridade me percorre todo e dela somente a sensação de estar cumprindo-a. Não há solidão – há espírito.


terça-feira, 29 de novembro de 2011

Quando me casei com a Poesia (Carmen Silvia Presotto)


Quando me casei com a poesia, não sabia o que era casamento, menos ainda poesia.
Abanava as tranças
Andava em balanços
Girava na gangorra
Inventava palavras
Escutava Cecília, Bilac e Quintana em meus sábados infantis...

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Astrid Cabral e os frutos que não dão em árvore (Nilto Maciel)

(Astrid Cabral)

De ano em ano, de dois em dois anos, me encontro com Astrid Cabral. Não sei a regularidade desses encontros. Não, não há regularidade nenhuma. Se houvesse, seríamos amantes seculares, aqueles de contos fantásticos.

A penúltima vez que estive com Astrid aconteceu em Fortaleza. Terá sido em 2010? Fomos, eu e Soares Feitosa, ao hotel onde ela se hospedara. Brincou, ao telefone: Ela é jovem e bonita? Respondi, como bom amigo: Se fosse velha e feia, eu não o levaria até ela. Na verdade, eles se conheciam, sim, não de apertar as mãos, abraçarem-se, mas de se lerem. Porque todos os bons poetas leem uns aos outros. Fomos ao restaurante do hotel e o almoço durou cerca de três horas. Enquanto falavam de poesia, eu me mantinha calado, a comer o pão que nem Deus amassaria.

domingo, 27 de novembro de 2011

O giuoco piano de Esdras (W. J. Solha)


Página 307 de A Rainha do Calçadão, Opus 14, de Esdras do Nascimento (Global, 2011, 421 páginas):
O romancista Roberto de Aquino brinca com as peças de xadrez. Peão quatro rei. Peão quatro rei. Cavalo três bispo rei. Cavalo três bispo dama. Bispo quatro bispo. Abertura Giuoco Piano. A preferida de seu amigo recém-falecido, o pintor Assuero. Mencionada num manuscrito de 1490 e analisada por Damiano em 1512, giuoco piano que dizer jogo tranquilo, mas no entanto leva a um embate violentíssimo.

sábado, 26 de novembro de 2011

Uma novela critica a perda da identidade cultural (Blog de Eliomar de Lima)

Publicado: 25-11-2011
Autor: Eliomar de Lima
Categoria(s): Brasil, Ceará, Cultura



Raymundo Netto e Nilto Maciel



O escritor Nilto Maciel lança, no próximo dia 1 º, às 19 horas, na Livraria Cultura, a 2ª edição do livro: “Os Guerreiros de Monte-Mor”.

Trata-se de uma novela crítica à perda da identidade cultural do País, segundo o autor. A apresentação será do escritor Raymundo Netto.

O livro é mais uma edição do Armazém da Cultura.

(Foto – Paulo MOska)
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4:30 a.m. (Teresinka Pereira)


(Mulher solitária, Alexandre Fernando da Silva)

Faz uns minutos
notei que estava falando
comigo mesma.
Então retruquei:
Deixa de perder tempo
em conversa fiada!
Vai dormir!
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sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Nada do que... (Clauder Arcanjo)



Nada do que foi virá.
Nada do que já veio renascerá.
Tudo se renova naquilo
Que nos encanta, e espanta.


Mossoró-RN, 24/11/2011
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quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Dimas Macedo e a brisa do Rio Salgado (Nilto Maciel)

(Poeta e ensaísta Dimas Macedo)

Recebo livros de Dimas Macedo desde 1980. O primeiro deles foi A distância de todas as coisas. Morava em Brasília havia uns três anos apenas, porém sentia uma saudade tão grande de nossa pátria cearense que aqueles poemas me fizeram chorar. “Amo-te, Lavras, / nasci de ti, / do teu útero perfumado / que se dilatou com o tempo / para receber mais um filho, /pois parti, /o dever da vida me enxotou / para fora de ti”. Lavras significava para mim o Ceará e não apenas a terrinha onde nasceu o poeta.

Nós & nó(s) (Tânia Du Bois)

“... o tempo não pode viver sem nós, para não parar.” (Mário Quintana)

(Gente normal, Willian de Lima)


Lendo alguns poemas, percebi que certos poetas gostam de desamarrar a linguagem. Desbravar caminhos sem medo de assumir a poesia.

“desfaz os nós/ desamarra/ solta/ na liberdade do corpo/ dança/ anda/ corre/ no livre pensar/ esconde as razões // refaz os nós/ amarra/ prende/ o corpo ao começo.” (Pedro Du Bois)

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Dos livros (Franklin Jorge)




Disse Georges Bataille que a literatura é uma força essencialmente contestadora, uma presença confrontada em “medo e tremor”, capaz de nos revelar a verdade da vida e suas possibilidades excessivas, que só se realiza quando escrever deixa de ser uma arte da livre vontade para tornar-se uma questão de sobrevivência.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Encantamento (Inocêncio de Melo Filho)

Para Manoela Alcântara

 
Encontrei-a na ceia larga do delírio
Entre mistérios humanos e divinos
As pessoas se multiplicavam
Ao redor da mesa
Contemplando o pão e o vinho
Irmanando-se em cada olhar
Em cada sorriso
E em cada chamado.
Ficamos próximos
A felicidade nos saciou
Deixei-a com irmãos diletos
E me fui encantado
Levando na memória o ósculo
Que deixei na sua mão.
/////

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

João Carlos Taveira e o alçar das asas (Nilto Maciel)



(Poeta João Carlos Taveira, a dizer poemas)

Ao chegar a Brasília em 1977, eu conhecia de nome alguns escritores de lá. Os primeiros com quem me encontrei foram Nicolas Behr (ainda adolescente, cabelos longos, livrinhos mimeografados num saco ou mochila), Danilo Gomes (que me entrevistou para o Suplemento Literário Minas Gerais) e Salomão Sousa. Num segundo momento, como frequentador das reuniões da ANE (Associação Nacional de Escritores), como convidado (ainda não como associado), conheci Taveira e outros escritores mais antigos de Brasília, como Almeida Fischer, Joanyr de Oliveira e Anderson Braga Horta. Esses encontros se davam no bar Macambira, na Asa Sul, após as reuniões oficiais. Ao redor de mesas, bebíamos muito e falávamos de nós mesmos e de livros, além de trivialidades.

domingo, 20 de novembro de 2011

Hábito (Pedro Du Bois)





Dos hábitos incrustados o hálito
da serpente antecipa o bote:
límpido momento
amortecido no veneno
inoculado
(o silêncio receoso
da verdade no deslizar
do corpo e a peçonha)
dói o ponto atingido
amortecido espírito:
a luz se apaga
na mágica
do regresso.
/////

sábado, 19 de novembro de 2011

Atrás da porta (João Soares Neto)


 
As varizes nos membros inferiores faziam-no andar arrastado. Já operara duas vezes e elas voltavam. Pareciam formiguinhas andando dentro de suas veias, especialmente na região da panturrilha. Aprendera esta palavra com o cirurgião vascular que o operara. Achava bonito e até ficava contente em dizer a Joan, sua descrente mulher, que as panturrilhas estavam doendo mais.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Oito livros e um relato de leituras (Nilto Maciel)



Não dedicarei uma crônica a cada publicação recebida, por falta de tempo (passo dias e dias a rabiscar uma crônica, um artigo, na maior dificuldade). Sendo assim, apenas lembrarei, nesta nota de rodapé, oito impressos lidos, com muita satisfação, nos primeiros dias de novembro de 2011. São de variados gêneros: dois de poemas, dois de crônicas, três de contos e um romance. Os autores são meus amigos (entretanto, a maioria deles nunca vi), dois moram em Fortaleza (Dias da Silva e Raymundo Silveira) e os demais em cidades distantes daqui (Ádlei Duarte de Carvalho, em Belo Horizonte; Carlos AA de Sá, em São João da Barra, RJ; Franklin Jorge e Paulo de Tarso Correia de Melo, em Natal; e Urda Alice Klueger, em Blumenau, SC).

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Felicidade (Ronaldo Monte)




Chega a ser divertido o esforço das pessoas para definir o que seja felicidade. Antigamente, felicidade era um conceito vago, sua definição dependia das aspirações mais ou menos espirituais de cada um. Hoje a coisa ficou fácil, porque a felicidade passou a ser materializada pelos promotores de marketing. Pode ser encontrada num artigo de consumo disponível na prateleira de qualquer supermercado, nas revendas de automóveis ou no balcão das agências de viagem.De tanto penar à procura de uma noção de felicidade que me deixasse feliz, resolvi aderir ao materialismo individualista pós-moderno e decidi: felicidade é o resultado do bom funcionamento das coisas. Não existe coisa pior do que aqueles períodos em que todas as coisas da sua casa começam a deixar de funcionar. Começa pelas lâmpadas. Teve uma vez que cinco lâmpadas, nos mais diversos cômodos daqui de casa, deixaram de acender. Logo em seguida, inevitavelmente, quebra o liquidificador. Depois pode vir o ferro elétrico ou a televisão da sala. Daí em diante a coisa entra em progressão geométrica, podendo terminar com um vírus que corrompe todos os arquivos do seu computador, inclusive aquele que você deixou para fazer o back-up no final da tarde.

Palpite (Carlos Nóbrega)




Não me interessa saber
para quê eu vim
Interessa que eu vim
e estou aqui,
Ser luz e seda
e abraçar os outros
Até ser só ossos
e me levarem flores.
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quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Brasília revisitada (Emanuel Medeiros Vieira)




Fragmentada crônica “poética” para os que aqui nasceram e que também para os que aqui vieram morar – amaram e honraram a cidade.

Para dona Eliete, com saudade
Em memória de Ivan Moreira da Silva e de Ronaldo Paixão Ribeiro

Tomo o Grande Circular, W-3 Sul, W-3 Norte, mangueiras em flor, primeiras chuvas, a grama ficando verde, penso na “Sinfonia da Alvorada”, nos pioneiros, no barro vermelho, não, não a capital do estatuto, dos maquiáveis planaltinos, mas a urbe de Clarice e do Lucas, de Renato Russo lecionando na “Cultura Inglesa” aos 19 anos, indo a pé ao Cine Brasília, atravessando os verdes, SQS, SQN, não SOS– meu particular socorro nas noites do hospital “Santa Lúcia – em que ‘quase’ desmoronei, e recebi a Unção dos Enfermos, e me deram dois dias de vida – e estou aqui, da Feira do Guará, onde Clarice dançava forró ao som de Luiz Gonzaga, outros sábados, o “Beirute”, o “Bar do Raul” e o finado “Bar do Afonso”, o “Campo da Esperança”, onde deixarei os meus ossos, e lá ficaram o Esmerino, a dona Eliete, o Navega, o Fernando, o Márcio, o Albino, o Côrtes, o Elídio, o Ivan e tantos outros. Ah, cidade bandas de rock, e onde vi Glauber Rocha no Festival de Brasília e conversei carinhosamente com o conterrâneo/cineasta Rogério Scanzerla, que foi interno no Colégio Catarinense, e há poucos anos morreu de câncer. Cidade de amores findos e tão belos urbe de sonhos feitos/ desfeitos da esperança e da solidão, cidade de amigos eternos das belas morenas aqui nascidas, do SCS (agora “traduzo”- Setor Comercial Sul), onde assisti ao comício pelas Diretas, Tancredo, Ulysses, do belo campus da UnB, das cidades-satélites, da riqueza concentrada, do Plano Piloto (não “Pilatus”), cidade deste meu andar, desta escrita, deste sábado de setembro, céu de anil, leio no parque, escrevo na máquina elétrica encantos cerrados, florzinhas descobertas aos poucos, da louvação às primeiras chuvas, do amolador de facas (a cidade tem esquinas sim: é preciso decifrá-las), belos crepúsculos, o Parque da Cidade, a Água Mineral, a cidade real (não a da mídia) não vive nos palácios, mas no rosto de muitos brasis, ah, Clarice, Lucas, e Célia – baiana que aprendeu a amar o Planalto Central. Um dia não estarei mais aqui (apenas estrume), memória, e chegarão as chuvas de outubro – amando, pois só me resta amar.

(Revistando Brasília, após a transferência para a Bahia.)
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Coisas Engraçadas de Não se Rir XV: O Estandarte do Coronel (Raymundo Netto)



Coronel Oswaldo era um viúvo octogenário. O síndico perfeito. Homem de temperamento forte e austero, se distinguia pela invulgar habilidade de comando, fruto de anos dedicados às Forças Armadas de um Brasil. Procurassem, fosse na hora que fosse, acolhia pacientemente as lamentações das moradoras — os maridos não lhes davam a menor bola — que o palmeavam e o exaltavam na hora da janta: “Que homem esse é o seu Oswaldo!”