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segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Contos reunidos (Enéas Athanázio)



Embora meu intercâmbio com Nilto Maciel venha de 35 anos, só duas vezes o encontrei em pessoa. A primeira foi em Brasília, na época em que ele editava “Literatura – A revista do escritor brasileiro”, publicação que me prestou inesquecível homenagem na sede da Associação Nacional de Escritores (ANE). A segunda aconteceu aqui mesmo, quando tive o prazer de recebê-lo em minha casa e no meu escritório. Somos, portanto, muito mais amigos escritos que falados.


Sempre que me lembro de Nilto Maciel, acorrem-me à lembrança os vaqueiros encourados que vi no Alto Parnaíba, no Piauí, e que vinham dos ínvios do sertão ressequido receber as mercadorias transportadas pelo barco em que eu me encontrava. Homens de corpos enxutos, sem uma grama excedente de gordura, com fisionomias sérias e lacônicos, talvez pelo hábito da solidão nos vastos espaços desabitados. Ainda que Nilto Maciel, cearense, seja urbano desde criança, tem tudo dos homens que cavalgam na caatinga, na lida árdua com o gado, afrontando o semi-árido áspero, semeado de mandacarus, xique-xiques, palmas e variados vegetais garranchentos e hostis. Com a diferença de que ele, – como escritor e poeta que é, – cavalga as palavras e reponta uma tropa numerosa de contos, romances, crônicas, novelas e poemas que vem produzindo ao longo dos anos.

No ano que passou, Nilto deu a público o segundo volume de seus “Contos Reunidos” (Editora Bestiário – Porto Alegre – 2010), contendo nada menos que 122 histórias curtas, o que representa uma produção admirável e revela riquíssima imaginação, além de intenso trabalho para sua realização. Escrever com qualidade literária exige esforço, concentração, solidão e talento. Como dizia Fernando Pessoa, escrever já é solidão que baste. Este segundo volume, pois, evidencia o amor e a dedicação desse vaqueiro encourado pela cavalgada das letras.

Nesse mar de contos encontram-se histórias para todos os gostos, algumas mais curtas e outras mais longas, quase atingindo a extensão das novelas literárias. Nelas a imaginação não encontra limites, colocando muitas vezes num só e mesmo plano o real e a imaginário. Surreais, fantásticas, algumas até fantasmagóricas, são comuns os desfechos inesperados, surpreendentes e mesmo chocantes. Mas tudo é escrito em linguagem clara, sem reboleios desnecessários, quase sempre em frases curtas e sibilantes. Algumas têm títulos estranhos e que aguçam a curiosidade do leitor. Assim acontece, por exemplo, com “As insolentes patas do cão”, “O mundo estaliano”, “Avisserger megatnoc”, “Masmorrer”, “Pescoço de girafa na poeira”, “Dez cuecas para a eternidade” etc. Também os personagens são batizados com nomes muito estranhos: Afonso Baio, Newton Appletree, Quinca Manco, Luís Lamento e outros mais. Enfim, a leitura dos contos de Nilto Maciel é uma experiência inovadora e um agradável contato com a boa literatura. Vale a pena.

Em 1976, com outros escritores, Nilto Maciel criou a revista “O Saco”, suplemento literário que era vendido dentro de um saco ou envelope de papel. O periódico teve grande aceitação e foi muito comentado na imprensa da época. Ainda nos meus tempos de Canoinhas, creio ter sido o primeiro sulista a ver contos estampados naquelas páginas.

O autor desses “Contos Reunidos” é detentor de grande número de prêmios literários, entre eles o “Prêmio Cruz e Sousa”, na categoria romance, concedido pela Fundação Catarinense de Cultura em 1996. Tem participado em numerosas coletâneas e edita o “blog” cultural “Literatura sem fronteiras.”

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