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domingo, 13 de fevereiro de 2011

Um certo gosto de infância (Simone Pessoa)

simoneps@fortalnet.com.br


Domingo à tarde. Ouço o tilintar frenético e ritmado do triângulo de metal que anuncia um vendedor de chegadinhos se aproximando. Meu ímpeto é correr para encontrá-lo, comprar uns pacotinhos e me deliciar com aquelas memoráveis guloseimas. Ao quebrar as lâminas - qual grandes hóstias - doces e finas e saboreá-las, sinto-me criança outra vez.

Porém, para quem está no décimo sétimo andar de um edifício, não é fácil concretizar esse desejo infantil. Algumas vezes, como essa, ouço a cadência do triângulo, sem que eu possa chegar a ele, senão em pensamento. Nas vezes em que tento alcançar os chegadinhos, preciso contar com a sorte de o elevador estar disponível para que a descida ao térreo seja ágil. Já na calçada, esforço-me para alcançar o vendedor de chegadinhos. Ele caminha célere e quem quiser que o chame gritando ou corra atrás. Assim, eu fazia quando criança. Assim, gosto de fazer agora - de vez em quando.

Sei de pessoas que se surpreendem com esse meu gosto por chegadinhos. Uns chegam a achar os chegadinhos anti-higiênicos. Se os chegadinhos vêm lacrados em um baú de zinco e são revestidos até com camisinhas de plástico, como podem ser anti-higiênicos?... E... quer saber? Estou pouco ligando para os arautos da higiene. Quem nunca chupou um picolé de castanha ou de essência de morango, que os nossos pais diziam ser de ameba, não sabe o que é bom. Quem não provou um punhado de algodão doce ou um pastel com caldo de cana, também não conhece os genuínos sabores da meninice.

Posso imaginar quão estranho os vizinhos devem achar quando veem uma mulher de meia idade correndo atrás de um vendedor de chegadinhos. Não deixa de ser pitoresco mesmo... Contudo, uma das vantagens de quem ultrapassa a barreira dos quarenta é não dar tanta importância ao que os outros pensam. Nessa etapa da vida, aprendemos que não vale a pena renunciar a um prazer ou a um devaneio para atender às expectativas dos outros. Ao contrário, estamos na fase em que essas vontades, esses sonhos, cada vez mais raros, devem ser acalentados.

O tilintar está se esvaindo sem que eu tenha saboreado aquelas folhas torradinhas com gosto de infância. Quem sabe, da próxima vez...

simoneps@fortalnet.com.br