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quinta-feira, 24 de março de 2011

Em favor de uma TBC original (Alaor Barbosa)



A Televisão Brasil Central, pertencente ao Estado de Goiás, mudou o nome para TBC News. E vai adotar um estilo de televisão copiado de uma emissora americana. Só notícias.

As mudanças anunciadas constituem erros graves. O primeiro erro é o da inconstitucionalidade do novo nome adotado: fere o Art. 13 da Constituição Federal, que estabelece: “A língua portuguesa é o idioma oficial da República Federativa do Brasil”. O certo seria chamar-se TBC Notícias. A palavra notícias é – e mesmo que o não fosse, pois pertence ao vocabulário da nossa língua – muito melhor, mais bonita, mais expressiva, mais inequívoca e comunicativa do que news. Adotando notícias em lugar de news, a TBC se ajustaria também aos bons exemplos das emissoras públicas federais no ponto em que se mostram redutos e instrumentos de resistência da cultura nacional. Adotando o substantivo news no nome, inscreve-se a TBC no rol das emissoras de televisão brasileiras subservientes ao imperialismo anglo-saxônico. Até agora, somente emissoras privadas haviam cometido esse desastroso ato errôneo.

A anticonstitucionalidade do nome adotado pela TBC precisa mesmo provocar uma reação enérgica e corretiva da parte do Ministério Público. Necessário defender o Art. 13 da Constituição Federal.

E existe o mérito da mudança. É impugnável a mudança de estilo. Além do vício de ser uma imitação, passa a privilegiar a mera notícia (o modelo americano é superficial e sensacionalista) em vez de promover a informação e a formação culturais, que são o que o Brasil precisa. O Brasil – e Goiás ainda mais – necessita, com urgência, mobilizar a televisão para combater o analfabetismo e promover o desenvolvimento cultural. Este é o papel que a televisão, com o seu elevado poder de comunicação, deve desempenhar em nossa sociedade atrasada. Quantos programas de alfabetização podem ser veiculados por meio da televisão!

Em matéria de televisão, se quisermos aprender com exemplos estrangeiros devemos buscá-los nas televisões da Inglaterra, da Itália, da França – países que têm televisão original, não imitativa da televisão dos Estados Unidos. A BBC de Londres é decente. A RAI italiana tem coisas boas. A televisão francesa possui muita dignidade. Além disso, as televisões públicas brasileiras apresentam alguns exemplos dignos de ser seguidos.

Mas ninguém fala nada contra essas mudanças na TBC. Ao contrário: tem havido elogios – com muita ingenuidade intelectual e mesmo política. Parece que a maioria do povo brasileiro aceita os atos ato de servilismo colonial como uma coisa natural. Já se tornou tão natural no Brasil aceitar a dominação dos nossos colonizadores quanto beber água com sede ou comer com fome ou vestir roupa para sair de casa. A televisão privada brasileira já se abastardou tanto na submissão à cultura americana que eu tenho frequentemente visto nas telas propagandas comerciais inteirinhas em inglês. Quem estranha? Eu estranho e não aceito – e me revolto. Há momentos em que, diante da televisão, eu me pergunto se estou mesmo no Brasil ou em alguma colônia oficial dos Estados Unidos. Uma ignomínia. Falta de caráter e personalidade dos agentes desses fenômenos. Alguns deles são cúmplices com dolo elevado; muitos não agem com dolo, mas com culpa – se é que se pode falar de culpa em caso de ingenuidade própria de quem é levado de roldão em um processo avassalador aparentemente irresistível. Neste caso da TBC, tenho certeza de que não houve nem há dolo da parte dos responsáveis pelas mudanças. Me parecem vítimas de uma certa ingenuidade na boa-intenção. Presumo – e espero – que, alertados, acordem para os erros inerentes às mudanças projetadas.

É duro e penoso viver em uma sociedade colonizada no grau em que já se acha a sociedade brasileira. E na qual toda resistência parece inútil, ou inócua, ou mesmo tola; ou ridiculamente quixotesca ou policarpoquaresmeana.

Em alguns países a resistência é consciente e organizada: tornou-se ação política. Na França, por exemplo, as autoridades reagiram – legislativamente – à invasão da língua inglesa. Lá os quislings locais não tiveram força para barrar a ação das autoridades.

O Brasil sempre tem sido um país submisso aos colonialismos em voga. Foi moda, durante mais de cem anos após a independência política de 1822, entre as camadas sociais dominantes, falar e escrever em francês. Não só entre as mocinhas instruídas em colégios chiques, mas entre poetas, escritores, políticos. Depois o inglês desbancou o francês, a partir principalmente do fim da Segunda Guerra em 1945. Agora o inglês já se tornou uma praga tendente a substituir o português em prazo que parece que vem sendo abreviado com muita eficácia. Tenho certeza de que, da parte dos colonizadores, esse processo é planificado. E eles não têm pressa. Contam com o tempo. Se o processo dever custar um século, eles esperarão um século. Se demorar duzentos anos, eles aguardarão duzentos anos. Eles julgam que têm um encontro marcado – em uma esquina da História – com a vitória do seu trabalho de expansão cultural e política.

A imposição do inglês na Índia foi rápida, porque a Índia era presa militar do Império Britânico: uma colônia subjugada. Lá o inglês virou idioma oficial. Tem indiano que sustenta que isso foi um benefício para os indianos: passaram a ter um idioma comum – eles que possuem numerosos idiomas e dialetos impeditivos ou dificultadores da comunicação de indianos de uma região com indianos de outra região.

Me parece, e eu gostaria de estar enganado, que o povo goiano é, dentre os povos brasileiros, um dos mais vulneráveis e rendidos ao atual processo de insidiosa e gradual implantação da cultura e dos valores americanos. Este é um dos traços da ingenuidade goiana: da nossa falta de autodefesa e da nossa fragilidade cultural. Tenho comigo que uma boa parte dos goianos gostaria até mesmo de se tornar uma unidade federativa da União Americana; e de assim votar nas eleições americanas para Presidente da República. Noto o mesmo fenômeno em São Paulo e entre as camadas ricas do Rio de Janeiro – cuja subserviência à dominação anglo-saxônica (até sessenta anos atrás, repito, à dominação francesa) apresenta ingredientes de desconcertante ausência de brio. Gostaria que me provassem que, nesse meu diagnóstico, estou fantasiando em delírio mais do que imaginando com base na agressiva realidade circundante.

Fiquei besta, outro dia, em uma feira popular de Goiânia, de ver a grande quantidade de revistinhas pornográficas em inglês vendidas em algumas barracas. A pornografia facilita a penetração e difusão. Não é mais apenas a gente pedante e pretensiosa das classes médias e das classes dominantes das cidades-grandes que se submete à dominação colonial americana. É o povão – que, como ensina a sociologia, gosta de imitar o comportamento das camadas privilegiadas. O processo de colonização anglo-saxônica já avançou no Brasil muito mais do que eu sabia.

Quanto à televisão, considerando que é um meio de comunicação de natureza diversa da imprensa escrita, precisa, com urgência, de um estatuto regulador. O governo Lula/Dilma tentou elaborar esse estatuto, mas recuou com timidez diante das reações dos poderosos grupos subservientes ao imperialismo. Esses grupos, para reagir contra toda tentativa de se defender a cultura nacional, habitualmente, e por tática, se escudam no princípio da “liberdade de imprensa”. Ninguém é mais fiel a esse princípio do que eu: eu o defendo desde menino. Mas é inaceitável a invocação da “liberdade de imprensa”, por astúcia e desonestidade intelectual, com o fito de infringir a nossa Constituição e servir ao processo de desnacionalização da nossa cultura. A liberdade de imprensa não pode ser exercida para defender interesses contrários aos da nacionalidade pátria, da preservação e desenvolvimento da nossa cultura, da justiça e do desenvolvimento sadio da coletividade. No século 19 e no princípio do século 20, as camadas reacionárias resistiam às intentadas leis protetoras dos trabalhadores assalariados invocando a “liberdade de contrato”, que assegurava o direito de escravizar os operários e suas mulheres e seus filhos menores até de cinco, seis, sete anos de idade. Era essa uma liberdade sagrada e inviolável. Para os donos de escravos negros no Brasil, a propriedade escrava constituía um “direito natural” e efeito de uma liberdade também inviolável; eles combatiam o movimento social que queria abolir a escravidão dos negros invocando, além dessas razões falsas, o princípio dos “direitos adquiridos”. Os proprietários de capital e de homens eram muito parecidos entre si na articulação de sofismas inimigos da verdadeira e justa liberdade.

Espero que o governo Dilma (fiel às suas origens e compromissos e subtraindo-se aos envolvimentos em que a Direita é muito hábil e que tenho notado vão já se urdindo sutis) tenha suficiente coragem para tomar a iniciativa de impor à televisão brasileira uma disciplina normativa. Uma disciplina normativa, claro, democraticamente elaborada: por meio do Congresso Nacional e após debate e exame do maior número possível de representantes da chamada “sociedade civil”. Essa disciplina, se adequada, nos libertaria, no Brasil, de vários males terríveis – um dos quais a corrosão moral e espiritual produzida pela avalanche de filmes americanos que infestam as nossas emissoras de televisão. Eles somam, sei lá quantos! mais de sete ou oito por dia em cada emissora. E quase todos expressam uma visão mórbida e perversa da vida humana e propagam toda espécie de violências. (Uma das muitas mensagens falsas que se depreendem de algumas séries de filmes americanos exibidas diariamente na nossa televisão – agora posso falar de cadeira porque assisti a um grande número deles – é a de que crime é problema de polícia e não também problema social a ser resolvido mediante a educação social e a construção e difusão sistemática de elevados valores morais e espirituais que moldem ou condicionem os indivíduos para viverem com nobreza, idealismo, bondade, solidariedade.) Tal disciplina normativa com certeza contribuiria muito, também, para preservar e desenvolver a identidade cultural do povo brasileiro.

Viva a Constituição do Brasil! Viva a cultura nacional! Viva a língua portuguesa!

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Alaor Barbosa, jornalista e advogado, é autor de Contos e novelas reunidos e, inédito, A guerrilha da Serra de Caldas; e dos romances Vozes e silêncios em Imbaúbas: a morte de Cornélio Tabajara; Memórias do nego-dado Bertolino d’Abadia; Belinha: uma lenda; Eu, Peter Porfírio, o maioral; e, a sair, Vasto mundo. Membro da Academia Goiana de Letras e da Academia de Letras do Brasil e do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal.
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