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terça-feira, 1 de março de 2011

Outra vez, Nilto Maciel (Henrique Marques-Samyn)



Uma das narrativas presentes neste segundo volume de Contos reunidos, de Nilto Maciel (Bestiário, 2010), tem por título "Os monstrinhos de doze anos". Breve, trata o texto de umas "criaturinhas defeituosas, semelhantes a pequenos monstros" que aparecem como uma "verdadeira peste" após uma explosão que mata alguns operários "desclassificados", acidente esse lido pelas autoridades como "pura invenção de bolchevistas"; criaturas que acabam morrendo carbonizadas, "vítimas de sua monstruosidade sanguinária", lideradas por Armando, filho de um boêmio patriota que nunca ouvira falar da tal explosão.

Curto e fragmentário, o conto naturalmente suporta leitura(s) política(s) − seja a partir da crítica do ímpeto revolucionário que, ao ultrapassar os limites da prudência, acaba vitimizando aqueles que pretendia redimir; seja a partir de um reconhecimento da estrutura dialética da realidade social, sempre necessariamente contraditória e sujeita a incessantes transformações. Não obstante, gostaria de tomar outro caminho; penso ser possível ler o conto de modo mais universalizante, como uma figuração literária desta angústia tão intrinsecamente humana. O homem carrega o peso de construir o seu próprio destino; não está a dimensão desse fardo por trás da gênese dos "monstrinhos"? Tanto o incorrigível boêmio quanto o revolucionário fanático e o autoritário repressor se identificam por tentar, de diferentes formas − todas dogmáticas, é claro −, preencher esse vazio que habita no próprio espírito humano. Inevitavelmente, assim constroem o caminho para a sua própria destruição.

Os contos de Nilto Maciel estão cheios desses "monstrinhos"; talvez, mais radicalmente, seja possível afirmar que os personagens que povoam suas páginas sejam variações de um mesmo personagem, representação da iniludível precariedade humana. O mundo é formado por Armandos, por Albertos, por Erivaldos; por pessoas que, se nos causam tanta repulsa, é justamente por espelharem a mediocridade a que estamos condenados. Talvez seja possível falar num projeto literário, lendo-se a obra de Nilto Maciel, na medida em que perpassa os seus escritos um olhar que não se recusa a dissecar, muitas vezes cruelmente, essa fragilidade.

Compilando três livros − As insolentes patas do cão (1991), Babel (1997) e Pescoço de girafa na poeira (1999) −, o segundo volume de Contos reunidos é um valioso acréscimo à vasta bibliografia deste importante autor cearense, cujo valor como escritor pode ser medido por textos como o pungente "Dez cuecas para a eternidade" ou o mordaz "A divisão do mundo". Resta esperar que Nilto Maciel continue a produzir; e que, daqui a alguns anos, estejamos celebrando a terceira reunião de sua produção contística.


*Publicado em O Caderno Cinza
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