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terça-feira, 22 de março de 2011

Pequena crônica de uma tardinha (Silmar Bohrer)


18 horas – Saio a caminhar até a Barra. A maré está baixa, o mar, distante, caminho dentro das águas. Final de tarde sereno... Chego à Barra calmamente entre um e outro dos exercícios diários. Aprecio a pororoca do Saí e começo a volta pra casa. venho devagarito na beira d’água observando o mar, as ondas bem serenas, muita areia com a maré baixa. Paro dentro d’água, olho o céu, vejo a lua cheia. Depois sigo. Caminho como gosto, chutando as ondinhas suaves, sempre em frente.

De repente, olhando a pequena distância, vejo um vulto entre as ondas. Cinquenta metros, se tanto. As águas levam e trazem. Penso – é uma madeira, como tantas que aqui chegam. Alguém vem caminhando de lá pra cá. Vejo que também enxergou o que vi. Está curioso. Nos aproximamos e eis senão quando o mar despeja na praia um corpo de mulher, que permanece inerte. Chegamos, eu e outro caminhante. Nos perguntamos se era conhecida. Não era. Estava quase de bruços, as águas batendo. Idade? Mais de vinte, menos de trinta. Longas melenas pretas que o mar agitava. O corpo ainda mole. Caso recente? Provável! Teria acontecido agora pela tarde. Corremos chamar a polícia e os bombeiros. Demora, 15 minutos. Neste meio tempo já havia cerca de vinte curiosos em redor do corpo. Lembrei então do Carlos Cony (jornalista, escritor, cronista): "TEMOS DE FATO UM LADO ABUTRE, SEMPRE À ESPERA DE UM DESENLACE, QUALQUER QUE SEJA, MESMO AQUELES QUE NÃO NOS AGRADAM". Grande Cony ! O "bolinho" dos curiosos só aumentava. Anoiteceu... e os bombeiros chegaram. O corpo foi puxado para fora da areia à espera agora do IML, que vem de Joinville...! Oh céus...!

20horas – o corpo permanece estirado no chão, devidamente coberto. Um corpo de mulher dentro da noite. Inerte. Desconhecido. À espera.

20h20min – chimarrão aqui na frente de casa, um som de pássaro ferido. Saímos à procura. O som muda de rumo. Novo gemido. Pensamos: uma alma penada nos caminhos da noite. Olho para cima e vejo... uma coruja nos fios de luz logo ali, emitindo um som diferente do seu tradicional. Parece um som de dor que a coruja emite. Mas logo voou. Foi-se. Apenas um pássaro noturno com seus gemidos até aqui ignorados. A noite é calma, sem ventos, lua cheia menina ainda. Sábado chegando. Breve nota de um final de tarde na Barra. Lúgubre, ominoso, triste. A coruja volta a piar. Eis então mais um "evento" para minhas memórias. Amém.

Barra/180311
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