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sexta-feira, 4 de março de 2011

Prazo de validade: um último trago (Tânia Du Bois)




O amor, as lembranças, os vícios e os amigos também têm prazo de validade?

A lembrança é a memória, a constatação de um só estado... Que tem por instrumentos os vícios e os mitos. A memória é emotiva; como no conto “Um último trago”, de Borboleta. Ele mostra que o que fica na memória é a lembrança do que interessa, o que tem valor para a sua vida, de alguma forma. E também o compromisso para com o amor e o tempo.

“A presença da marca do tempo no maço ainda aberto, dos resquícios esmaecidos de seus lábios no filtro sobre o cinzeiro e de sua imagem sorridente na moldura”.

Todo dia é dia de encarar e vencer novos desafios. E parar de fumar, driblar as saudades e não beber são as novas marcas do tempo: “... pude ver a poeira do tempo depositada sobre a minha pele...” Mas o que o conto nos mostra é o desejo cristalizado, a vontade alimentada pelas recordações que se entregam de corpo e alma e se convertem em instrumentos de dependência, como: “... coçam-me os dedos e salivam-me na boca os resquícios de um amor alimentado à nicotina”.

Sim, por que quem vê o símbolo do cigarro no fundo da consciência e do coração, pode pensar que o tempo somente se localiza através do amor, colocando-o como espécie de tatuagem – prova da sua fidelidade que chega a parar o tempo.

Claro que a memória d’Um último trago parece estar prestes a desmoronar, não é reconfortante, mas ajuda a dar a dimensão do seu amor e delimitar o tempo. Despretensiosamente, a fumaça torna-se símbolo, criando possibilidades de um reencontro: dos sentimentos que ainda purgam nas veias, como imagens que mostram os principais lances da vida.

Ele vive na expectativa de reencontrar o seu amor através do cigarro e da bebida. Sua história, seus momentos, suas palavras e seus gestos demonstram que em cada situação há um prazo de validade; compartilha da falta de responsabilidade e de violência para consigo mesmo.

Isso não significa que tenha perdido o ímpeto pela vitória de se manter vivo, mas, alheio ao tempo, ele exige de si sobre o seu amor, fazendo das lembranças a sua espera, exagerando por querer vencer a qualquer custo a saudade; “... sustento a impressão de que apagamos nosso último cigarro com a mesma desenvoltura de juventude com que acendemos o primeiro”.

Essa percepção é alimentada pelo vício, que não é bem vindo para que se possa perceber a hora de colocar em seu destino a marca consolidada pelo tempo, que se torna mais forte ao fazer diferença no seu viver, procurando apenas os “flashes” da memória, como voo sem limitação, que desperta o sentimento para brincar entre lembranças, acumulando emoções sem prazo de validade.

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