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terça-feira, 29 de março de 2011

Réquiem para um anjo (João Carlos Taveira)


(Clovis Sena)

Clovis Sena não está morto. Depois de uma vida inteira dedicada à família, ao trabalho e aos amigos, foi convocado para seguir rumo à outra dimensão. Insisto. Clovis Sena não está morto. Depois de uma vida inteira dedicada ao jornalismo, ao cinema, à literatura, à música, às artes plásticas, partiu em 15 de fevereiro de 2011, conduzido pela “indesejada das gentes”. Mas sua missão estava cumprida. Não deixou nada por fazer entre os homens nem débito entre os anjos. Seu crédito agora transcende céus e estrelas.

Nascido na cidade de Carutapera, Maranhão, em 4 de março de 1930, esse menino travesso cedo se transferiu para São Luís, onde deu prosseguimento aos estudos e começou a trabalhar como jornalista. Alguns anos mais tarde, por força da profissão, Sena foi para o Rio de Janeiro, onde viveu intensamente, com participação ativa, o processo cultural e político da antiga capital. Ali conviveu com a nata da intelectualidade brasileira, fazendo amigos (como Oswaldo Costa e Pascoal Carlos Magno) e admiradores, tanto numa área quanto na outra. E, não esqueçamos, a Cidade Maravilhosa naqueles fins da década de 1950 vivia um dos seus períodos mais efervescentes. Grandes artistas, como Portinari, expunham suas obras, que eram recebidas com entusiasmo por escritores e jornalistas renomados. Na literatura surgiam livros e autores de grande importância no cenário brasileiro. O Teatro Municipal recebia e montava grandes espetáculos operísticos e populares, com Nelson Rodrigues revolucionando tudo, sob os aplausos calorosos ou as vaias estridentes de uma sociedade inquieta e participativa.

Por outro lado, fervilhava pelas ruas uma grande euforia coletiva: uns, contrários à mudança da capital, incendiados e capitaneados pelas raposas da velha UDN, ficavam de um lado, mastigando seu ódio; outros, seduzidos pelo sonho de JK, não viam a hora da inauguração da Nova Capital, pois sabiam que aqui se estava construindo uma nova identidade para o Brasil, mesmo com o sacrifício de certas mordomias. A verdade é que o processo mudancista trazia no seu âmago dois aspectos terríveis: a certeza dos contrários e a incerteza dos favoráveis. Mas Clovis Sena não teve dúvida: essa história tinha de acabar bem. Afinal, vinha de uma modernização iniciada por Getúlio Vargas e levada a cabo pelo destemido presidente Juscelino Kubitschek.

Assim, em abril de 1960, Clovis Sena veio cobrir a inauguração de Brasília, movido pela firmeza de seus propósitos e pela força de seus ideais. E nunca mais voltou. (Ainda bem que Gladys aceitou deixar o Maranhão, casar com ele e vir para cá.) Era, em essência, um idealista. E sabia que aqui se construía mais que uma nova capital para o País — que precisava urgentemente sair do litoral e adentrar pelas veredas de seus descampados. Sim, o Brasil precisava conhecer sua gente simples e tomar posse de suas riquezas. Precisava construir uma capital que pudesse divisar o horizonte, sem perder de vista as estratégias de sua nacionalidade e assegurar a ocupação do Centro-Oeste e da Amazônia. E Brasília, além do arrojado de seu urbanismo, da beleza de sua arquitetura, da profundidade de seu céu, acabava de nascer sob a égide de uma espiritualidade nunca vista. Nem Palmares, nem Canudos, nem a Coluna Prestes! Brasília conseguiu unir o sonho e o possível sob o traço da esperança, não de um homem, mas de toda uma nação. Este é o seu legado!

Nos mais de cinquenta anos que viveu em Brasília, Clovis Sena conquistou uma legião de amigos em todos os setores culturais da cidade. Construiu uma sólida reputação entre professores, jornalistas, políticos, artistas e intelectuais, que poucos, como Cassiano Nunes, puderam e souberam desfrutar, com trânsito livre entre as pessoas. Foi um profissional carismático e contundente, embora manso no gesto e nas palavras.

Trabalhou no Jornal do Povo, como repórter, redator, cronista e crítico de assuntos culturais; no Jornal de Brasília, no Diário de Brasília, no Correio Braziliense e no semanário José. Durante vinte e cinco anos, foi correspondente político-parlamentar do Correio do Povo, de Porto Alegre. Nessa mesma época, serviu como redator nos Cadernos do Terceiro Mundo, do Rio de Janeiro. Também atuou como redator da Câmara dos Deputados, de onde estava aposentado. Clovis Sena foi tesoureiro da UNE, presidente do Comitê de Imprensa da Câmara dos Deputados, no período da reabertura política (1985-86), presidente do Sindicato dos Escritores do Distrito Federal (1987-88), vice-presidente da Fundação Claudio Santoro, fundador do Clube de Imprensa e do Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal, membro do Conselho de Cultura do Distrito Federal, do Júri Nacional de Cinema e de diversos júris do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro e do Festival de Gramado. Foi crítico de cinema, de teatro e de música erudita. Pertenceu à Academia Maranhense de Letras, à Associação Nacional de Escritores, ao Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal e à Academia Brasiliense de Letras.

Clovis Sena insistia sempre numa coisa: o Brasil moderno e consciente de seu papel como nação que Getúlio tornou realidade, alguns anos antes, e que Juscelino, corajosamente, estava entregando ao povo brasileiro nunca mais seria o mesmo depois da construção de Brasília. (Pena que as forças negativas da nossa nacionalidade ainda continuam a combater os nossos heróis!) E Clovis Sena sabia exatamente onde estava e está o problema, de difícil solução, mas não impossível de ser resolvido. E ele deu sua prestimosa contribuição, tanto como cidadão e pensador quanto como jornalista e escritor. Deixou uma obra que fala por si mesma.

Livros como Neiva Moreira: Testemunha de Libertação (Movimento Brasileiro pela Anistia, 1979), Flauta Rústica (Thesaurus Editora, 1984) e Fronteira Centro-Oeste (Editora Kelps, 1999) hão de ficar como vigorosos testemunhos de um homem sábio, que nos deixou uma cristalina percepção de Virgílio e, ao mesmo tempo, traçou, palmo a palmo, o mapa de alguns recantos na imensidão do Planalto Central, viajando por terra e em contato direto com o homem autóctone, antevisto por Paulo Bertran em livro também admirável. E a busca dessa compreensão de seu país, de sua gente, em Clovis Sena, não era exatamente compulsiva, ou obsessiva, mas transcendia sua visão pessoal, ideológica. Em síntese, este homem que amava a música de Beethoven, de Brahms e do amigo Claudio Santoro, tanto no gesto quanto na palavra, há de permanecer vivo e atuante em nossas mentes, em nossos corações.

Fará muita falta. Mais pela mansidão de sua presença física que pela impetuosidade de suas exposições. Tudo o que pensava, graças aos anjos, arcanjos e querubins, ficou bem registrado nos seus livros, nas páginas dos jornais em que trabalhou. E, sobretudo, nos artigos críticos de teatro, música e cinema — que ele tanto amava! Ficou armazenado em nossas lembranças, como marca indelével de seu talento e de sua extremada visão pública. E principalmente, repito, em nossos corações, que ele sabia compreender muito bem. Clovis Sena, embora pequeno na estatura, era um gigante na generosidade. Foi um marido exemplar, um pai e um avô amoroso. E um amigo fiel até as últimas consequências.

Brasília, 15 de março de 2011.
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