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quarta-feira, 2 de março de 2011

Reynaldo Jardim (Alaor Barbosa)


(Reynaldo Jardim)


Faleceu há poucas semanas em Brasília, com 84 anos de idade, o jornalista e poeta Reynaldo Jardim. Ele levou consigo um período particularmente significativo da minha vida, do qual participou com muita força, mas, assim me parece, sem saber que sua participação era importante e sempre influente e, ao menos em um momento, decisiva. Fazer um registro memorial desse trecho da minha adolescência e juventude com o fim precípuo de constituir um pequeno e sentido depoimento a respeito da personalidade singular de Reynaldo Jardim me parece um dever que não posso me recusar a cumprir.

Seu nome completo era Reynaldo Jardim da Silveira – coisa que só vim a saber muito tempo depois que o conheci, em meados de 1956, no Rio de Janeiro. Tinha eu, portanto, 16 anos de idade. Ele, 30 - nascido que foi em 1926. Em São Paulo, Capital.

Foi assim. Eu havia escrito um artigo sobre Monteiro Lobato, a que dei o título “Apologia desnecessária”. Decidi publicar meu pequeno texto em algum jornal do Rio de Janeiro. Fazia pouco tempo que eu estava no Rio: uns seis, sete meses. Num conhecia ninguém no meio da imprensa. Eu lia todos os jornais do Rio e lhes conhecia as características e consistências editoriais: o Diário de Notícias editava um suplemento literário aos domingos muito bom, só que bastante conservador e um tanto acadêmico, sob a direção de Raul Lima; o Correio da Manhã apresentava textos literários em duas páginas também dominicais; o O Jornal também editava um suplemento literário de duas páginas, sob o nome “Estudos Brasileiros”; eu notara que o Jornal do Brasil, até então um jornal de anúncios classificados, vinha abrindo espaço para textos de notícias e de informações e até, em uma página também dominical, para textos literários. Decidi procurar o Jornal do Brasil provavelmente porque, localizado na Avenida Rio Branco - no coração do Rio - apresentava a vantagem de ser bem acessível porque próximo dos lugares aonde eu costumava ir nas minhas prazerosas andanças através do Centro do Rio: o Ministério da Educação (onde às vezes assistia a conferências literárias e onde conheci Agripino Grieco, que proferiu uma delas), a Biblioteca Nacional, o Teatro Municipal, a Livraria Agir (na Rua México), a Livraria El Ateneo (na Avenida Calógeras), a Livraria Freitas Bastos (no Largo da Carioca, no prédio depois demolido do Liceu de Artes e Ofícios), a Livraria São José (na Rua São José), etc. Fui lá. No pavimento térreo me dirigi a um homem negro de carapinha branca com refletida bonomia no semblante (anos depois, tornado repórter do Jornal, me fiz amigo dele) e lhe disse: “Eu gostaria de publicar um artigo de literatura neste jornal. Com quem devo falar?” O bondoso homem me respondeu: “Com Reynaldo Jardim. No quinto andar”. “No quinto andar?” “No quinto andar. No andar da Rádio. Numa salinha em frente ao elevador”. Peguei o elevador e desci no quinto andar. Vi a salinha com porta de vidro embaçado aberta. Entrei e encontrei um homem meio loiro, cabelo enrolado (anos mais tarde soube que o pai dele era negro), sentado a uma mesa, lendo absorto alguma coisa: em atitude de trabalho. Perguntei: “Reynaldo Jardim?” Ele suspendeu a vista para mim com alguma dificuldade e confirmou: “Sou eu. Quê que você quer?” Eu me sentei numa cadeira diante da mesa e disse: “Eu escrevi um artigo sobre Monteiro Lobato e gostaria de publicá-lo no Jornal do Brasil”. E ele, sem pensar: “Monteiro Lobato? Num interessa. Num interessa. Um cara ultrapassado”. (Notei que ele era objetivamente direto, propenso a uma certa franqueza, e, de fala apressada, meio engolia sílabas das palavras.) Me levantei e fui embora, desconcertado e colocando em suspenso meu julgamento moral e intelectual sobre aquele sujeito: nunca fui precipitado em julgar negativamente as pessoas.

Que eu consegui, um tanto por acaso, publicar meu artigo em outro jornal pouco tempo depois é coisa que num interessa a este depoimento.

Pouco mais de um ano depois, graças à amizade que fizera, no Restaurante do Calabouço, com o escritor Assis Brasil, me tornei freqüentador quase diário – e colaborador uma ou duas vezes por mês - do Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, do qual Assis era uma espécie de secretário. O editor do Suplemento era Reynaldo Jardim. Ele fizera, naquele período de um ano e pouco, evoluir a página única de textos literários editada pelo Jornal do Brasil para um belíssimo caderno literário, com 12 (se num me engano) páginas, e que, com o nome de Suplemento Dominical do Jornal do Brasil (SDJB), vinha chamando muito a atenção dos leitores em todo o Brasil com uma arrojada diagramação inovadora (o espaço-em-branco conferia novidade e beleza às páginas impressas) e por causa da divulgação que fazia do movimento artístico denominado concretismo e de textos – artigos e resenhas de críticas, poemas, contos – assinados por numerosos autores ainda não estabelecidos ou pouco falados: uma nova geração que emergia no cenário cultural do Rio de Janeiro. Me acostumei a passar, a cada visita, mais de uma hora na redação do Suplemento conversando com Assis Brasil e com outros escritores que lá apareciam. Reynaldo Jardim, sempre ocupado, apressado e distraído, pouco me enxergava e num me dava atenção. Quando me cumprimentava, era com pressa - e logo se punha a fazer as suas tarefas. Ele era cercado de muito respeito e admiração por todos os freqüentadores e colaboradores do Suplemento. A sua receptividade a inovações era uma auréola que lhe conferia um prestígio a mais. Mas ele vinha sendo um poeta sem poesia. Se acaso escrevia, eu num sabia, pois num publicava. Ele se conduzia quase estritamente como editor – um editor sempre surpreendente na sua inventividade incessante. No fim de 1958 deixei o Rio e fui para Morrinhos tentar retomar a minha vida na cidade onde nasci. Acho que instintivamente me guiava a idéia de que é feliz o homem que vive e morre no lugar onde nasceu.

Minha tentativa durou quatro meses. Em maio de 1959, retornei para o Rio, desamparado da mesada que meu pai me dera durante os quatro anos em que estudei em Goiânia e no Rio. Sem outra qualificação profissional além de saber escrever a máquina e produzir contos e artigos literários, entrei a procurar emprego naquela cidade difícil e cruel, embora, sem embargo dessas decepcionantes qualidades, apodada, por um dos seus cantores musicais, de Maravilhosa - e que de fato o é em seus belíssimos panoramas de mar, montanhas, serras e morros. Fazia quarenta dias que caçava uma colocação, como se dizia na minha terra, e nada. Só num desanimara porque nunca fui de entregar os pontos. Uma tarde, estava eu sentado, um tanto cansado de tanto andar e me oferecer para trabalhar, em uma poltrona na redação do Suplemento, aproxima-se de mim Reynaldo Jardim. Ele me pergunta: “Você já trabalhou em rádio?” Lembrado da Rádio Brasil Central, de Goiânia, onde fora redator por algum tempo, respondi que sim. Ele voltou à sua mesona oval grandona e escreveu rapidamente à máquina. Puxou o papel, voltou a mim e me disse: “Mostre isto ao Brito. Ele vai contratar você”. Brito era o todo-poderoso administrador das empresas Jornal do Brasil. O genro da Condessa Pereira Carneiro. O herdeiro daquele império já no exercício do poder. Ele assumira a direção do Jornal e da Rádio poucos anos antes, após a morte do Conde Pereira Carneiro. Era, assim se dizia, o principal fautor e responsável (mas com decidido apoio da sogra, a qual muita gente dizia ser a verdadeira inspiradora dos acontecimentos administrativos do Jornal) pela grande e radical renovação por que vinha passando o Jornal do Brasil. Subi ao quinto andar, onde ficava o gabinete de Nascimento Brito, ao lado do estúdio da Rádio. Ele me recebeu muito bem e sem demora me contratou Redator Comercial e Artístico da Rádio Jornal do Brasil. Pouco tempo depois – um mês ou dois no máximo – Reynaldo assumiu a direção da Rádio e, tendo criado um programa denominado “Serviço de Utilidade Pública” (além de ter mudado radicalmente a programação musical, introduzindo música popular, principalmente de bossa-nova - uma grande novidade - em uma rádio até então restrita a música clássica), me fez redator dele. O diretor do “Utilidade Pública” era Jânio de Freitas, secretário de redação do Jornal do Brasil. Uns seis meses depois falei com Jânio e ele me colocou na redação do Jornal. Passei a acumular dois empregos e duas funções: redator da Rádio e repórter do Jornal. Trabalhava em dois turnos de cinco horas cada um.

Durante os três anos que vieram depois, às vezes conversei com Reynaldo Jardim. Minha colaboração literária no Suplemento era relativamente assídua, mas não, assim me parecia, devido a ele e sim a Assis Brasil. Alguns textos meus (em especial dois contos) foram publicados por Ferreira Gullar – uma espécie de editor-assistente. Outros (um dos quais a tradução de um capítulo do livro História da Literatura Boliviana, de Fernando Diez de Medina) permaneceram esquecidos na gaveta do arquivo que guardava os textos que esperavam ser editados. Mas Reynaldo às vezes me concedia alguma atenção pessoal – mais do que aos meus textos. Uma vez, no restaurante do Jornal, no quarto andar, me contou dos problemas que vinha tendo na revista O Cruzeiro, da qual era redator e com a qual estava em processo de ruptura. Outra vez, também durante um almoço no restaurante do Jornal, me confessou: “Num sou propriamente um poeta, entende? que se dedica à poesia, entende? Gosto mais da fase de invenção, entende?”. Outra vez ainda ele me afirmou: “O Modernismo foi a última coisa boa que São Paulo produziu. Depois do Modernismo não se fez mais nada que preste em São Paulo”. (Apesar dessa aversão a São Paulo, ele se cercava de amigos paulistanos: os irmãos Nelson Coelho - então em Nova Iorque - e Edeson Coelho, chefe do departamento de publicidade do Jornal e, após a ascensão de Reynaldo ao cargo de diretor, da Rádio Jornal do Brasil.) Um dia, ele me perguntou se em minha terra existia algum móvel típico, próprio da região. Lhe falei da banqueta, um móvel de sentar - baixo, com duas tábuas convergentes num estreito espaço - muito usado nas cozinhas e varandas das casas de Morrinhos, mormente as de mais forte impregnação rural. Ele se interessou em conhecer uma banqueta. Escrevi a meu pai e pedi a ele que mandasse fazer uma banqueta pequena – uma quase miniatura - e me enviasse por avião. Meu pai, com singular e para mim tocante atenção e eficiência, me remeteu dias depois uma banquetinha muito bonita, bem envernizada, feita com muito capricho na serraria do Walter Alves. Ela chegou ao Rio em um avião da Nacional Transportes Aéreos. Satisfeito com o meu (e do meu pai) desempenho, entreguei a banqueta ao Reynaldo. Ele se mostrou bastante contente, levou a banqueta num sei pra onde e nunca mais me falou no assunto. Confesso que fiquei no fundo desconcertado por ele não demonstrar atenção especial ao fato de que um homem, meu pai, lá na longínqua cidade de Morrinhos, no Estado de Goiás, se movimentara, atencioso e leal, em vários momentos, para atender um pedido meu e proporcionar a um desconhecido (presumível amigo do seu filho) residente no Rio de Janeiro o conhecimento e posse daquele objeto tão comum em Morrinhos mas ignorado no Rio de Janeiro. Mas, com uma certa facilidade racional e emocional que tenho para relevar desapontamentos e não remoer maus julgamentos, procurei esquecer aquilo.

Foi nesse período que Reynaldo Jardim publicou um romance neoconcreto de ficção-de futuros (geralmente denominada “science fiction”), dentro de uma coleção de textos neoconcretos intitulada Espaço. Interessantíssima e habilidosíssima “narrativa”, sem verbos, de uma viagem interplanetária. José Carlos Oliveira, em um vibrante artigo publicado na última página do Suplemento a respeito desse romance, classificou-o, com acerto, de “uma experiência fascinante”. Essa criação originalíssima está hoje completamente esquecida. Mesmo na época em que surgiu não conseguiu a atenção senão de raras pessoas.

No período que passei em Morrinhos tentando morar lá, conversando com Alberto Xavier de Almeida eu soubera, com grande surpresa, que Reynaldo Jardim era “cunhado do Sarmento”. Sarmento – Eugênio Sarmento Silva -, era casado com uma das irmãs de Alberto e Guilherme: Amelinha, a mais nova. Sarmento morara em Morrinhos alguns anos, fora gerente de uma agência de banco em Morrinhos, casara na família Xavier de Almeida e possuía ainda propriedades imobiliárias importantes – uma fazenda grande e uma casa muito boa – em Morrinhos; e era pai de um amigo meu de infância, da minha idade, que tinha o mesmo prenome do pai: Eugênio. (Na fazenda “do Sarmento” produzia-se uma cachaça famosa, de marca Imperial – depois Rainha -, considerada a melhor de Morrinhos e, por alguns hiperbólicos locais, a melhor do Brasil; ela não é mais fabricada porque, dizem, o inventor da fórmula de seu fabrico morreu sem revelar o segredo a ninguém.) Sarmento se mudara de Morrinhos para o Rio em 1955; morava no Leblon - em uma rua chamada Rita Ludolf. (Logo que cheguei ao Rio, em 1956, fui de bonde conhecer essa rua. E avistei, a distância, a casa do Sarmento. Mas não fui até ela, apesar da minha amizade – de pouca convivência - ao filho Eugênio. O Leblon era um bairro muito bonito, só de casas térreas e com escasso movimento de gente e veículos; parecia uma cidade pequena à beira-mar plantada, adjacente a Ipanema - também quase todo ainda livre de edifícios de apartamentos - e indiretamente ao resto do Rio de Janeiro.) Ao saber que a mulher de Reynaldo Jardim era irmã do Sarmento, pensei no quanto o mundo às vezes é pequeno. Então o paulistano Reynaldo Jardim, notável jornalista no Rio e poeta emergente no campo da fama, um sujeito típico de cidade-grande, inquieto e agitado, estava ligado indiretamente à minha pequenina cidade, Morrinhos, em virtude do casamento do seu futuro cunhado Sarmento, ocorrido antes do princípio da década de 1940, com uma moça de família importante de Morrinhos! (No setor de revisão do Jornal, no segundo andar, trabalhava também um irmão de Sarmento, Amaury, que igualmente morara em Morrinhos na condição de funcionário da mesma agência bancária de que Sarmento era gerente nos anos de 1940. Nos cumprimentávamos e às vezes conversamos.) A mulher do Reynaldo se chamava Edelweiss. Eu a vi umas duas vezes na Rádio – uma delas com o filho, Joaquim, que não tinha mais do que sete anos de idade. Em uma das visitas, ela estava acompanhada de uma irmã mais nova, por nome Selva – uma das mulheres mais bonitas que vi no Rio. Edelweiss, também bonita e muito bem vestida, era puxada a loira ou tinha cabelos castanhos bem claros; Selva tinha os cabelos pretos e os olhos verdes. (Elas e o irmão Sarmento eram de Montes Claros – Norte de Minas. Muitos e muitos anos mais tarde - em 1994 – visitei em Montes Claros um historiador local, por nome Geraldo Tito Silveira, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais e da Academia Montesclarense de Letras, autor de um livro valioso intitulado Crônica da Polícia Militar de Minas (do qual possuo um exemplar com dedicatória datada de 19 de março de 1994): ele se lembrava bem de Eugênio Sarmento Silva em Montes Claros.) Embora Dona Edelweiss tivesse me tratado muito bem, num me lembro de, conversando com ela, ter tocado naquele ponto da sua relação indireta com minha terra. Quanto a Reynaldo, me disse um dia que não freqüentava o cunhado Sarmento. Uma das lições desses fatos, repito, é que o vasto mundo se mostra às vezes bem pequeno!

No início de 1960, estava pra sair meu livrinho Monteiro Lobato das crianças, editado pela Editora Caminho, fundada pelos escritores Rodrigues Marques e Edson Guedes de Moraes (felizmente ainda vivo: mora na terra natal, Paraíba). Tive a idéia de publicá-lo também em capítulos no suplemento infantil do Jornal do Brasil, criado pouco tempo antes por Reynaldo Jardim e editado por uma estudante da Escola Normal recrutada, num sabia eu como, por Reynaldo – que tinha muita facilidade para fazer amizade com mulheres. (Citem-se: Rute Silver, Lygia Pape, Lygia Clark, Maura Lopes Cançado.) Esse suplemento saía também aos domingos. Falei com ela (acho que se chamava Maria), e ela topou a idéia proposta. O primeiro capítulo, intitulado “Monteiro Lobato e o rei”, apareceu muito bem diagramado, com uma ótima ilustração feita pelo ilustrador do suplemento, Júlio Braga – amigo de Reynaldo Jardim desde a época de primeira juventude em São Paulo e também grande amigo meu. Quando levei o segundo capítulo para Maria, ela me disse que não continuaria a editar os capítulos do meu livro porque “o Reynaldo mandou cancelar a publicação”. Levei um baque. Eu num conseguia atinar com o motivo daquela súbita decisão surpreendente. Porém, nunca (eu tinha dezenove anos de idade, sofria uma certa timidez provinciana, Reynaldo era bem mais velho do que eu e intermediara meu emprego na Rádio) interpelei Reynaldo a respeito daquele estranhíssimo e chocante ato de vetar o meu texto. Hoje em dia me pergunto se aquele veto não atingira, pela segunda vez, não a mim, e sim, por meu intermédio, a Monteiro Lobato.

Mais ou menos em agosto de 1960, conversando com Reynaldo na redação do Suplemento contei que estava me mudando para uma casa na Zona Norte e que precisava de uma estante para guardar meus livros. Reynaldo me propôs com entusiasmo desenhar uma estante para mim: uma estante neoconcreta - a primeira estante neoconcreta do mundo. Gostei muito da idéia. Ele desenhou a estante e me indicou um marceneiro que trabalhava na gráfica do Jornal para confeccioná-la. Procurei o marceneiro e encomendei a estante. Ele executou com muita perícia o projeto de Reynaldo: a estante ficou muito bonita e original – e enorme. Num me lembro como foi ela transportada para minha casa no distante bairro de Francisco Xavier, no caminho do Méier. Nela guardei meus livros durante o breve tempo que morei naquela solitária casinha de quatro cômodos, passada a mim pelo meu amigo José Ribeiro Luz (mineiro de Itajubá e irmão do escritor Clemente Luz e um dos amigos de melhor caráter que tive em toda a minha vida) que ia se casar e morar em apartamento e precisava se livrar do contrato de aluguel.

Num me recordo se ainda no princípio de 1961, Reynaldo ampliou bastante o seu poder de influência e atuação criadora no Jornal do Brasil (ele editava três suplementos: o literário, o infantil e o feminino) projetando e criando o “Caderno B” – uma modalidade de suplemento (ou antes, complemento) de jornal que se tornaria, de então em diante, no jornalismo brasileiro, um modelo de caderno de variedades, principalmente culturais e de entretenimento. Acho que o Caderno B perdurou enquanto o Jornal existiu.

Saí do Jornal do Brasil em janeiro de 1962, demitido, assim me constou, por exigência pessoal do governador da Guanabara. Meses antes ele me denunciara, em editorial não assinado no seu jornal, como “repórter comunista infiltrado em jornal burguês”. Nos dias seguintes à solerte denúncia, a diretoria do Jornal me apoiou, depois de me indagar se eu tinha condições de provar que era verdade o que eu havia dito em certa reportagem que enfurecera o destemperado governador arrependido das palavras que pronunciara em discurso perante mais de três mil pessoas no Maracanãzinho. Meses mais tarde, Nascimento Brito num resistiu à pressão e me despediu, juntamente com outros oito redatores. “Por motivos ideológicos”, se dizia então.

Naquele primeiro semestre de 1962 ainda vi - uma vez - Reynaldo Jardim: na sede da UNE, em uma reunião do Centro Popular de Cultura. Ele me tratou muito bem. Vendo ali naquele ambiente de gente engajada no que era chamado de Revolução aquele poeta e intelectual até pouco tempo antes integrado em outro tipo de movimento – o desengajado neoconcretismo –, me perguntei se ele não estava de certo modo retomando, ainda que timidamente, o seu passado de comunista na juventude. Num sei se eu podia pensar assim. Do seu possível passado de comunista eu num dispunha de informações seguras, mas somente indícios e referências em fragmentos de informações, ouvidos ou captados em conversações ligeiras: naquela época o passado de comunista de alguém era assunto proibido na maior parte das circunstâncias. A principal referência me viera do meu amigo Júlio Braga, amigo de Reynaldo na quadra dos vinte e poucos anos de idade; ele me revelou uma vez que ele, Júlio Braga, com Reynaldo e outros rapazes, todos recém-casados, formaram um grupo bastante ligado ao Partido Comunista – num sei se em São Paulo ou no Rio. Eu me lembro bem de que Reynaldo, durante a minha convivência com ele, de vez em quando deixava transparecer que em época anterior tivera uma imagem de homem com sérios compromissos ideológico-políticos. Em 1972 mesmo, na minha casa em Goiânia, ele se queixou de ter sido rejeitado em uma emissora de televisão do Rio sob a acusação de ser comunista.

Em 1964, voltei para Goiás. Mas tinha notícia das intensas atividades de Reynaldo no Rio: sempre inovador, inquieto, inventivo. O jornal O Sol, editado por ele, ficou famoso – foi uma das realizações que lhe assinalaram a trajetória de editor dotado de enorme capacidade de congregar valores humanos em torno de si.

Voltei a vê-lo em 1972 - em Goiânia. Taylor Oriente o encontrara por acaso na rua e o levou à minha casa, à noite. Ele viera a Goiânia por causa de um trabalho: projetar um jornal em Brasília para uma empresa de Goiânia. Ele conversou comigo como se nenhum espaço de tempo nos tivesse separado desde que nos víramos a última vez no Rio de Janeiro, na UNE. Nessa conversa ele me contou que o poeta Ferreira Gullar tivera de refugiar-se da Ditadura fora do Brasil. Mas Reynaldo num sabia ainda onde ele se homiziara.

Mais oito anos decorreram. Em 1980, Reynaldo se mudou para Goiânia, a fim de integrar a equipe do Diário da Manhã, recém-fundado. Logo que ele chegou eu o procurei na redação do Diário da Manhã, no qual eu colaborava com uma crônica semanal (“Página Aberta”, criada pela saudosíssima Consuelo Nasser) – semanas depois suprimida. Tornei a vê-lo no Diário da Manhã mais uma ou duas vezes. Nos nossos reencontros pude constatar, mais uma vez, que Reynaldo Jardim era um homem avesso a efusões sentimentais: reencontrava um amigo (e eu o era), após longo afastamento no tempo e no espaço, como se o houvesse visto no dia anterior. Aliás, este era um dos traços, que eu sempre notara em Reynaldo Jardim, de sua alma de homem essencialmente e medularmente metropolitano: um não-provinciano típico.

Quando Reynaldo se mudou para Brasília, após algumas temporadas em outras cidades, já fazia algum tempo que eu morava lá. Ele ocupou um cargo na Fundação Cultural e – com a inquietude criadora de sempre – fundou um jornal semanal que atravessou existência breve. Não nos encontrávamos. Na década de 1990, os jornalistas da equipe da revista Tira Prosa (muito bem feita e original), do meu generoso amigo Jorge Ferreira dos Santos, talentoso escritor e empresário nascido em Minas, em Cruzília, sabedores de que eu conhecera Reynaldo na fase do Suplemento do Jornal do Brasil, no Rio, me pediram que os ajudasse a fazer uma entrevista com ele. O encontro, no apartamento de Reynaldo, na Asa Sul, foi demorado e muito agradável. Colaborei bastante na condução dos diálogos. E me lembro da profunda satisfação – e gratidão - de Reynaldo quando eu revelei aos colegas entrevistadores que a inovadora diagramação do Suplemento Literário do Jornal do Brasil não era feita apenas por Amílcar de Castro, mas também, e às vezes sozinho, por Reynaldo Jardim. Durante a entrevista, Reynaldo me apresentou à segunda mulher, goiana de Ipameri, da família Daher. E também acho que dois dos seus filhos, ainda bem novinhos, desse segundo casamento. Num me recordo se o filho do primeiro casamento, Joaquim, que eu conheci no Rio em 1959 com 6 ou 7 anos de idade, já falecera.

Embora pouco assíduo em criar poesia, Reynaldo terminou compondo, me parece que mais nos derradeiros anos da sua vida, uma obra relativamente quantiosa. O volume do conjunto dos seus poemas, editado pouco antes de sua morte, constitui-se, se num me engano (ainda não o vi), de mais de mil páginas. Tendo sido concretista e neoconcretista, e portanto radicalmente parcimonioso no emprego de palavras e contrário ao discurso, tornou-se, com o tempo, um praticante destemido do preceito de Mallarmé: poesia não se faz com sentimentos e idéias, mas com palavras.


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ALAOR BARBOSA, jornalista e advogado, é autor de Contos e novelas reunidos e, inédito, A guerrilha da Serra de Caldas; e dos romances Vozes e silêncios em Imbaúbas: a morte de Cornélio Tabajara; Memórias do nego-dado Bertolino d’Abadia; Belinha: uma lenda; Eu, Peter Porfírio, o maioral; e, a sair, Vasto mundo. Membro da Academia Goiana de Letras e da Academia de Letras do Brasil e do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal.
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