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quarta-feira, 16 de março de 2011

Sua Majestade, o Juiz (Dimas Macedo)



Jáder de Carvalho pertence à elite dos grandes escritores cearenses. Premiado pela Academia Brasileira de Letras e consagrado nacionalmente como um dos nossos melhores poetas, é como romancista que ele vem sendo reabilitado, a partir da reedição de romances como Aldeota e Sua Majestade, o Juiz, que agora volta às livrarias em sua terceira edição.

Este último livro, indiscutivelmente um dos pontos de relevo da obra literária do autor, foi publicado pela Editora Musa, de São Paulo, em 1962, e teve uma segunda edição feita pelo quixotismo de Manoel Coelho Raposo em 2001, ano do centenário de nascimento do poeta.

Ao lado de Aldeota, constitui o dueto de livros do autor que teve a maior repercussão, e que causou a mais acesa polêmica nos alicerces da sociedade cearense do início da década de sessenta, mostrando-nos Jáder de Carvalho o quanto a longa ficção é uma linha de força capaz de revelar a beleza ou as grandes misérias de um povo.

Tanto Aldeota quanto Sua Majestade, o Juiz se tornaram no Ceará das décadas de 1960 a 1980 romances de leitura quase proibida, tendo parte de seus exemplares sido recolhida, ou adquirida por conhecidos figurões da sociedade e da política cearenses para incineração ou destruição, numa tentativa de apagar as marcas da fraude e da corrupção que o romancista havia revelado.

Jornalista corajoso e sempre muito independente, Jáder de Carvalho nunca conseguiu apagar os vulcões que brotaram da sua alma de artista e de militante de esquerda que viveram à sombra do desassossego e da perseguição indiscriminada.

Não existe segmento da cultura ou da política cearense no qual ele não tenha atuado durante mais de meio século. Nascido nos ásperos sertões de Quixadá e criado na região sul do Ceará, mais precisamente em Lavras da Mangabeira, onde o seu pai foi um dos luminares da educação do Município, conhecia, como poucos, o Ceará em todas as suas dimensões: seus usos e costumes, a sua geografia e as suas lutas fraticidas, a sua religiosidade de caráter messiânico e sua identidade de nação castigada pela seca e pela esperteza das suas elites ociosas.

Foi com a visão de sociólogo, por exemplo, que ele construiu todos os seus romances, desde a sua estréia, em 1937, com Classe Média, até o seu trinfo definitivo com os romances Aldeota e Sua Majestade, o Juiz.

Socialista convicto, poeta genuíno e de linguagem essencialmente clara e muito convincente, Jáder de Carvalho foi um dos arautos do modernismo no Ceará e um de seus representantes de maior relevo.

A partir de 1920, destacou-se pela sua liderança de vanguarda no campo específico da literatura; nas décadas de 30 e 40, experimentou os rigores do Estado Novo e todas as formas de discriminação contra a sua liberdade; mas é certo que, nas décadas seguintes e até a sua morte, em 1985, arrebatou e conquistou para si a condição de ícone e símbolo do povo cearense.

Este livro de Jáder de Carvalho – Sua Majestade, o Juiz, agora reeditado pelo Armazém da Cultura, a partir do empenho e da visão abrangente de Albanisa Dummar, é talvez o mais expressivo romance do autor, ainda que não seja o mais conhecido de seus livros, no domínio da longa ficção.

No romance, Iguatu e a região central do Ceará, Santana do Cariri e Sobral, e a sociedade de Fortaleza do final da década de 50, estão expostos com todos os seus vícios. A seca, em suas páginas, aparece como fenômeno climático e fato social que tomam a boca de cena da ação romanesca, mas são as mazelas do Poder Judiciário cearense aquilo que chama a atenção dos leitores.

A corrupção, a fraude e o estelionato praticados pelos nossos magistrados, mormente pelos nossos desembargadores, a partir da reificação de suas consciências e da subserviência ao poder político estadual, legitimando os seus atos arbitrários, são os elementos que saltam do romance como poderosos instrumentos de denúncia.

A construção da personagem principal do enredo, o desembargador José Sampaio Nogueira, com os traços da deformação e da paródia, da alienação e de outros componentes extraídos da teoria crítica de viés marxista, sempre me pareceu um momento alto do romance cearense.

Esse recurso extremo do discurso de Jáder de Carvalho talvez tenha prejudicado a recepção dos seus romances por parte da crítica e da nossa historiografia literária, porque entre nós a derrota da dialética foi sempre maior do que em muitos estados do Brasil.

Menor o romancista Jáder de Carvalho? Menor do que o jornalista, o intelectual, o sociólogo e o poeta? Não, não é possível que isso seja uma tese que tenha alguma consistência. Particularmente, acho que o Jáder foi grande, muito grande, como romancista. E como romancista, importa que ele seja, agora, conhecido pelas novas gerações.

Como não vou entrar, propositadamente, no enredo, nem antecipar a tessitura da trama, preparada inteligentemente pelo romancista, aproveito o ensejo deste prólogo para louvar a iniciativa de Albanisa Dummar.

Convoco o leitor para o debate e a todos sugiro a leitura paciente desse livro, porque firmes as suas linhas de montagem, a sua potência narrativa e o seu indiscutível sentido de alusão e de paródia, condensados em linguagem literária madura e em estilo que se impõe ao gosto de todos os leitores.
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