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sexta-feira, 8 de abril de 2011

Anatomia do ódio (Sander Cruz Castelo*)


Etimologicamente, “alofobia” significa temor ao diferente, ao outro, ao estrangeiro. Tal qual Elias Canetti (1995), Bulcão deposita neste sentimento a origem da falta de deferência ao outro que caracteriza comportamentos de massa da estirpe do racismo. Consoante sua balizada formação autodidata em filosofia da ciência – entre inúmeros outros campos, atestando a erudição e a trânsito fluido entre as disciplinas exigidas nessa especialidade e no ensaio, gênero escolhido –, o autor mobiliza os conhecimentos hauridos nas ciências naturais, notadamente na biologia, no seu esforço de elucidação do fenômeno, prática inusual nas ciências humanas, inclinação maior do escritor.

Com efeito, uma das matrizes dessa manifestação narcisista coletiva comportaria resquícios filogenéticos do homo sapiens, produzidos no decurso da seleção natural. É o caso do “comportamento apetitivo”, estudado entre os animais por Konrad Lorenz, e estendido aos humanos. Segundo essa teoria, a agressividade não demanda necessariamente a presença do outro, acentuando-se mesmo em sua ausência, devido à “drástica diminuição do limiar do estímulo liberador do comportamento agonístico”, que gera procura intencional do objeto de estímulo – tal acontecera na Alemanha nazista, em que, não obstante a invisibilidade dos judeus, população ínfima e assimilada, o antissemitismo alçou patamares nunca antevistos. Em razão da intensidade diminuta do estímulo, a aversão aos judeus tomou ares de paranoia, sendo-lhes atribuída atividade virótica, mal a corromper, insidiosamente, todo o corpo social. Daí o título do livro. Nas palavras do autor, “[...] no vazio, o Ódio criou o seu próprio objeto valendo-se apenas da eloqüência” (p. 67).

Inimigo fidalgal do reducionismo, contudo – enfrentado na obra anterior, Sombras do Iluminismo (2006), sob a insígnia de “cientificismo”, a transformação da ciência em ideologia, caso do darwinismo social nazista e do liberalismo e comunismo ortodoxos –, Bulcão se recusa a submeter a agência humana aos dogmas de uma religião laica, travestida de ciência. O processo de socialização ensejara outro, paralelo, de individuação, entendido como a capacidade humana de autoconsciência, ou seja, de refletir e, portanto, de se revoltar contra o destino. Segunda natureza, a sociedade–cultura apresentou ao homem o reino da liberdade, ou melhor, a libertação da necessidade tornou-se uma virtualidade. Por essa razão é que o autor denomina de “contratendências” da evolução os cientificismos supracitados, antevistos, na obra em exame, como municiadores do racialismo.

Deriva daí, igualmente, sua lide de distinguir os juízos de fato dos de valor. Bulcão não descrê do conhecimento objetivo. Se o homem de ciência, como o que se ocupa de outras coisas, é movido por paixões, como reconhecera Max Weber, o que dizer da epistemofilia? Ainda que em conjunturas econômicas ou sociais críticas, favoráveis ao apaziguamento da vontade de deliberação, a tentação de regressão à condição de autômato aflija o ser humano, despertando atavismos de ordem mística e religiosa, avalizados por parcelas dos cientistas, versados em substituir, no altar, Deus pela Razão (como o fizera Comte), não se deve jogar fora o bebê com a água da bacia. A despeito das distorções cientificistas, a ciência está inextricavelmente ligada à autonomização humana.

Mas como distinguir a ciência de suas derivações ideológicas, como o racismo? Adepto do ceticismo epistemológico de Karl Popper – também daquele de André Comte-Sponville, cuja frase “Tudo é incerto, inclusive esta afirmação” epigrafa o primeiro livro do autor: As esquisitices do óbvio (2005), no qual são enfeixados artigos sobre temas variados, de política e religião à ciência e psicanálise, em suas múltiplas imbricações –, Bulcão propugna que a validade das teorias implica sua falseabilidade. Uma teoria impermeável à refutação não pode se dizer científica.

Aclara-se, por conseguinte, a diligência do autor por separar o joio do trigo, ou seja, a ciência de seus subprodutos, legitimadores do racismo moderno. Nesse diapasão, os argumentos racistas de Darwin e Marx, relativamente desnecessários em seus raciocínios basilares, não incriminam nem deslegitimam integralmente a teoria da evolução ou o materialismo histórico, como se o holocausto e o stalinismo, engendrados por vulgarizadores (uma elite cientificista), pudessem, retroativamente, desautorizar teorias que não recusavam, a priori, a refutação, como o fazem cristãos tradicionalistas. Daí o autor voltar contra esses o estratagema retórico, visibilizando as facetas racistas do cristianismo, a quem é imputada a desova moderna da serpente, no curso da Inquisição espanhola, entre o século XV e o XVII.

Igualmente, entendem-se as reservas com relação às leituras de Bauman e Arendt sobre o racismo. O primeiro, para quem o horror totalitário era uma das virtualidades da vocação de jardinagem da Modernidade (BAUMAN, 1998, 1999), é criticado por subestimar a autonomia da ideologia e a relação de continuidade entre o antissemitismo cristão e o cientificista, no seu afã de salientar a autossuficiência da razão instrumental. A segunda, por sua vez, é contestada por acreditar que os regimes totalitários se distinguiram pela subjugação do pensamento pela ação, de sorte que a ideologia somente subsistia mediante sua autorrealização, sua capacidade de tornar realidade suas profecias (ARENDT. 2006). Bulcão não corrobora essa visão instrumental da ideologia. Acresço, ademais, que para a autora isso se tornou possível com a secularização embutida na Modernidade. A religião, nesse prisma, como a tradição e a autoridade, representava anteparo e não esteio das ideologias modernas (ARENDT, 2009), como parece crer Bulcão.

A relevância que o holocausto e o stalinismo adquirem no livro não decorre unicamente de conformarem experiências limítrofes de alofobia, a comprovar o saldo genocida das perversões cientificistas. Evidenciam que o capitalismo, movido por crises permanentes, configura terreno particularmente fértil para o ódio dirigido ao outro. Fenômenos que vicejaram sob a égide do capitalismo monopolista, o holocausto e o stalinismo legitimaram propósitos de dominação, assentados, respectivamente, na teleologia da raça ou da classe, abstrações que resultaram na coisificação do homem, tomado como meio (e não fim).

Bulcão, todavia, sonda as motivações profundas do Mal com os instrumentos da psicanálise, “ciência da irracionalidade como desvio de conduta e de pensamentos enviesados” (p. 242). Assim, indivíduos irracionais, por obra do caráter ou da genética, ansiando reverter o sofrimento emocional carreado pela solidão, propendem ao ajuntamento, traduzindo, portanto, em fato social sintomas individuais, caso da neurose, da psicopatia ou da psicose. Na solidão e na concentração ilimitada do poder, esses grupos marginais exacerbam seus delírios narcisistas, o ódio dirigido ao diferente se erigindo em prática sistemática e progressiva de autopreservação.

As conquistas da psicanálise, como as de outras ciências, são, porém, insuficientes para a decifração completa do objeto, dado o alcance limitado da racionalidade humana. Como Freud notara em suas análises dos sonhos, há um fundo do inconsciente inacessível à experiência clínica, o “umbigo do sonho” (Lacan, de seu lado, falava num inconsciente “Real”, resistente à simbolização). Destarte, Bulcão conclui que

[...] é provável que alguns ramos das raízes dos fenômenos históricos, aqui citados, estejam fincados no inconsciente “Real”, incognoscível, do tirano. Significa dizer que tais acontecimentos são irracionais também no sentido de serem, em princípio, “inatingíveis” à razão ou ao entendimento. Se o discurso totalitário – que rechaça o diferente, recusa a realidade do Outro e mata a individualidade em nome de um universal abstrato ou de um Grande Todo imaginário – é o delírio do ódio narcísico, creio que se pode afirmar que o Holocausto e o inferno dos grandes expurgos stalinistas constituam o umbigo desse delírio (p.245).


Referências

ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo. São Paulo: Cia das Letras, 2006.
______. Sobre a violência. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009.
BAUMAN, Zigmunt. Modernidade e ambivalência. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999.
______. Modernidade e holocausto. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998
BULCÃO NETO, Manuel Soares. As esquisitices do óbvio. Fortaleza: APEX, 2005.
______. Sombras do iluminismo. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006.
CANETTI, Elias. Massa e poder. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

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(Resenha do livro A eloquência do ódio (BULCÃO NETO, Manuel soares. São Paulo: LivroPronto, 2009), do prof. Sander Cruz Castelo, publicada na revista acadêmica (bilíngue: português/inglês) Tensões Mundiais (Vol. 5 n. 9/jul./dez.2009, ISSN 1809-3124) do Observatório das Nacionalidades (p. 287-290). Nota de Manuel Bulcão: o termo “alofobia” é criação de Roberto Mitsuo Takata. A revista pode ser comprada na livraria Gramma: Gramma Livraria e Editora)
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*Professor de História da FECLESC/UECE
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