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segunda-feira, 25 de abril de 2011

Eu disse, ela disse (Lohan Lage)

(Extraído do blog Autores S/A http://autoressa.blogspot.com)



Eu disse a ela que queria juntar nossas escovas de dente. Ela disse nada, e mostrou-me, mais radiante que a luz do amanhecer, todos os seus dentes. Ela disse ter medo da minha sinceridade. Eu disse ter medo de suas omissões. Eu disse que não queria dizer. Ela disse nada e permitiu que a beijasse. Eu disse para ela se afastar do joio daquele campo. Ela disse que o meu trigo era suspeito. Eu disse te amo. Ela disse não ter certeza. Eu disse que ela ficava linda de branco. Ela disse que preferia preto. Eu disse que nossa relação estava em ebulição. Ela disse para irmos com calma. Eu disse que era virgem. Ela disse não acreditar. Eu disse que a levaria para onde ela quisesse.
Ela disse que queria meu abraço para ir até seu universo mais remansoso. Eu disse que pagava o cinema. Ela disse que pagava minha passagem. Eu disse que nossa filha se chamaria Beatriz. Ela disse que seria Maria Eduarda. Eu disse que concordava. Ela disse que Beatriz também era lindo. Eu disse que podia ser um menino. Ela disse que eu estava em outro mundo. Eu disse ainda bem. Ela disse ser realista. Eu disse que adentrar no “ismo” do real tornava a vida mais chata. Ela disse que a primeira vez foi boa. Eu disse que a segunda seria ainda melhor. Eu disse que ia fotografá-la. Ela disse que não era fotogênica. Ela disse que sonhar não pagava a prestação da geladeira. Eu disse que ela estava enganada, pois o fiz em sonho. Ela disse que estava grávida. Eu disse alguma coisa que não lembro. Ela disse que a parede da casa tinha que ser branca, como estava. Eu disse que devia ser azul, como o céu daquela manhã, repleto de horizontes. Ela disse que o café não podia ser doce. Eu disse que detestava adoçante. Ela disse que queria comer brócolis cru. Eu disse que era desejo de grávida. Ela disse que fazia parte da dieta. Eu disse que ia ao futebol com os amigos. Ela disse que não faria o almoço. Eu disse que ficaria em casa. Ela disse que mesmo assim, não faria o almoço. Eu disse que faríamos amor. Ela disse que faríamos as pazes. Eu disse, com todo brilho no olhar, que tinha sido promovido no emprego. Ela disse, com todo embaço no olhar, que era um menino. Eu disse que ele seria Flamengo. Ela disse que seria Fluminense. Eu disse que ele era a cara dela. Ela disse que bebê não tinha cara. Eu disse que se chamaria Emanuel. Ela disse “que lindo”. Ela disse que precisava colocá-lo numa creche. Eu disse que não tinha coragem. Ela abandonou o emprego. Eu disse obrigado. Ela disse nada, e não de nada. Eu disse que ele precisava ler mais gibis. Ela disse que ele podia ler Platão. Eu disse que ele queria ser Vasco. Ela disse “ele não tem querer”. Eu disse que estava ficando velho. Ela disse que era uma indireta para ela. Eu disse que o tempo passava para os dois. Ela disse que eu tinha um caso com uma mulher mais jovem. Eu disse que ela estava louca. Ela disse que leu o bilhete do bolso da minha calça. Eu disse que bilhetes não significavam nada para um poeta renomado. Ela disse que minha poesia era uma merda. Eu disse que ela se deixou conquistar por merdas. Ela disse pra eu dormir no sofá. Eu disse que ia para a rua beber. Ela disse para eu não voltar. Eu disse que queria a guarda do meu filho. Ela disse que o filho era dela. Eu disse que tinha um emprego melhor. Ela disse que mãe é mãe. Eu disse que ia visitá-lo aos finais de semana. Ela disse que encontrara um novo amor. Eu disse que ia pegar minha escova de dente. Ela disse que já tinha jogado no lixo. Eu disse que ela foi precipitada. Ela disse que agiu tarde demais. Eu disse que não queria dizer. Ela disse tudo o que eu não queria ouvir. Eu disse para ela se afastar do mal que ocupava a vida dela. Ela disse que o bem da minha vida era a boemia. Eu disse que ela realmente ficava melhor de preto. Ela disse que àquela altura, o claro lhe caía melhor. Eu disse que pagava o cinema. Ela disse pra eu guardar meu dinheiro para a pensão. Eu disse que ainda a amava. Ela disse que estava esperando uma filha. Eu disse o silêncio mais profundo. Ela disse que ia me fotografar ao lado de Beatriz no dia de seu primeiro ano. Eu disse que meu semblante estava péssimo para foto. Ela disse que Beatriz era flamenguista. Eu disse que ia me matar. Ela disse que se matar exigia muito da cabeça, e menos do coração. Eu disse que ia atirar na cabeça. Ela disse que precisava do meu coração. Eu disse para trocarmos novamente. Ela disse que voltaria a ser o meu real. Eu disse que voltaria a ser sua utopia. Ela disse que um começo feliz merecia um final feliz. Eu disse que o final não existe quando se tem amor para todo o sempre. Ela disse que pintara a parede da casa de azul. Eu disse que branca realmente era a melhor cor de parede. Ela disse que só bebia café melado agora. Eu disse que tinha aderido à sua amargura. Ela disse que comprara uma escova de dente nova para mim. Eu disse que precisava usá-la para ela passar a ser minha. Ela disse que o banheiro ficava no mesmo lugar. Eu disse, espumando pasta de dente: te amo. Ela disse que agora tinha certeza. Eu disse que as certezas eram ilusões. Ela disse que queria viver iludida. Eu disse que ia fotografá-la. Ela disse que as rugas sexagenárias não seria uma boa lembrança. Eu disse que ia caminhar com meu neto no calçadão. Ela disse para eu levar o casaco, pois podia esfriar. Eu disse que esqueci. Ela disse que não tomei meu remédio. Eu disse para ela cessar o sermão. Ela disse que eu era teimoso. Eu disse que a vida é que teimava em aproximar-me da morte. Ela disse que morreria antes de mim. Eu disse que isso era inconcebível. Ela disse que morreríamos juntos. Eu disse que ninguém vive sem um coração, ou sem uma cabeça. Ela disse que sentiu uma fisgada no peito esquerdo. Eu disse que estava sentindo uma forte dor de cabeça. Ela disse para eu lhe dar a mão. Eu disse que a levaria onde ela quisesse ir. Ela disse que queria meu abraço para morrer em mim. Eu disse que queria morrer nela.

Nossas escovas de dente já não mais seriam usadas.
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