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terça-feira, 3 de maio de 2011

Amor de Deus (Eduardo Sabino*)


E ele disse, “Deus é o amor”. Falava desenhando figuras geométricas. O olhar de criança em embalagem madura. “Como o amor se manifesta?” Ele com boca aberta para engolir as perguntas para todo o sempre. Ele admirando coisas no teto invisíveis aos outros. “Podemos falar sobre Raíssa?”. Agora sim, a primeira vez das circunferências azuis e das verdes. Sem tesão, ele me devora, o fogo no olhar celeste. “Aconteceu alguma coisa com a Raíssa?”.

Digo que não, “Raíssa estava bem”. Os ajudantes dão gargalhadas, gorilas desalmados. Insisto em saber sobre a namorada. E o rapaz tira folhas amassadas do bolso. Quer mostrar um poema que fez. Ajoelha e pede para eu fingir ser a Raíssa. Aceito. Ele começa: “Amor é fogo que arde sem se ver...” Emudece. Se inibiu com o riso dos gorilas. “Deixem-nos a sós.”, exijo. O mais gordo cruza os braços: “Temos ordens de ficar aqui, madame. Ele é perigoso”. Improviso na cara uns traços de bicho. Ameaço chamar a diretoria se ouvisse mais uma risada. Quem se assusta é o jovem. Está fazendo um origami com o papel, os olhos amarrados no chão, enquanto peço, mais uma vez, para ouvir o poema. Coloco de novo a Raíssa no meio da frase, “o poema da Raíssa”, e os faróis se acendem de novo para ele encarnar aquele andrógeno de Camões e Dom Quixote. Só o coração de um louco pode sentir certas coisas. A poesia que vem desaparecendo do mundo se esparrama pelos corredores dos hospícios. Lá fora os números adestram as palavras, o sexo tapa o sexo com a máscara do amor, os catálogos de compras se estabelecem como os dicionários dos novos românticos. E aquele homem soltando estrofes de Camões como bolhas de sabão... Sou toda ouvidos. E coração. O caso dele não dói mais. Estou presa aos versos por vontade, num contentamento descontente, a solidão dos centros urbanos exalando da pele. O mito do plágio não tem mais nome e identidade. O jovem é Deus, é Camões, quem bem entendesse. Um beija-flor sugando néctar da merda para oferecer à Raíssa.

Ao final, recompenso Quimões com duas ou três salvas de palmas. Ele sorri, “Raíssa vai gostar, não vai?”. O poema poderia animá-la, quem sabe? “Mas não há nada errado com seu amor?”, quero saber. “Você se sente correspondido?”

“Não preciso ser...”

Um mártir abobalhado. A avaliação psicológica é um encontro com o crucificado. Ele parece ter o poder de amar o céu, a terra, as pedras e os outros não amam nem as mães.

“César!”, “César!”. Falo o seu nome e os olhos azuis estão de volta ao teto. “A Raíssa é pequena e frágil, César. Não escolheu estar com você!”.

Ele se levanta. “Eu dou a vida a ela!”. O chute na cadeira. O dedo apontado para mim. “Eu dou a vida a ela, doutora!”. Os seguranças o agarram. Aplicam a injeção no braço e o colocam na maca. Ele adormece cortando em trindade o seu Deus: “Ra-ís-sa, Ra-ís-sa”.

Fico sozinha na sala. As mãos de gelo seco voltando à estabilidade. Nada é tão assombroso quanto o ódio de quem ama. Oito horas de trabalho chegam ao fim. Pego o celular na bolsa e confiro: nenhuma chamada não atendida, nenhuma mensagem. A caixa de entrada do aparelho é um cemitério eletrônico. Sem noção do mundo, enviei três frases apaixonadas para o cafajeste.

Abro o cofre e tiro de lá alguns objetos. Desligo a câmera na parede e tranco a porta. Só para carregar, sem medo, a boneca nos braços, alisar os cabelos de nylon, encarar os olhos de plástico. É feita de pano, a Raíssa, mas eu a invejo.

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* Eduardo Sabino é escritor e jornalista. Colunista da revista Plurale, colabora regularmente com revistas, sites e blogs.
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