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sexta-feira, 20 de maio de 2011

Breve história de uma antologia do conto marginal (Nilto Maciel)


Queda de Braço: uma antologia do conto marginal foi editado no Rio de Janeiro, em 1977, pelo Club dos Amigos do Marsaninho (pessoa jurídica fictícia criada por Glauco Mattoso), em colaboração com o Movimento de Intercâmbio Cultural (criação de Nilto Maciel). A capa é de Flávio Tâmbalo, com utilização de desenho de Ricardo Augusto Rocha Pinto (originalmente publicado como pôster na revista O Saco, número 3, de julho de 1976). Há duas epígrafes: uma (brincadeira) de Glauco, assinado como Glauco Mattoso “de Santana”: “Um país que tivesse 845 contistas insuportáveis seria genial”, e outra de Antônio Torres: “A gente não pode esquecer também que é da quantidade que se faz a qualidade”. Escrevi uma das dobras do volume. A outra é assinada por Antônio Carlos Villaça. A apresentação é de Glauco, embora o seu nome não apareça. Em tom de brincadeira, faz algumas perguntas: “Uma antologia do conto marginal? Mas o que é antologia? O que é conto? O que é marginal? O que é uma antologia do conto? O que é o conto marginal? Marginal existe? Antologia existe? Existe o conto?” Mais adiante responde uma destas perguntas: “Marginal aqui não designa propriamente o conto, mas o autor, assim considerado face a uma conjuntura bestsellercrática. Isso não implica necessariamente em anonimato ou ineditismo, mas vale alertar que mesmo os trabalhos já publicados em livro o foram à custa e por iniciativa dos próprios autores.”



Desde o início do projeto, optamos por escritores jovens ou mais velhos, de todos os recantos do Brasil, que escrevessem contos e não tivessem oportunidade de publicar. Feita a seleção, tivemos amazonenses, baianos, capixabas, cariocas, cearenses, fluminenses, gaúchos, goianos, maranhenses, mineiros, paulistas, piauienses e potiguares.

 

Origens

Depois de 1964, os centros acadêmicos (substitutos dos grêmios estudantis nas faculdades) se tornaram a principal fonte de manifestação cultural e política da juventude brasileira. Publicavam-se revistas e jornais, quase todos por mimeógrafo. Após o Ato Institucional nº 5 (1968), com a intensificação da repressão policial às atividades políticas, culturais e artísticas, os centros e diretórios acadêmicos foram fechados ou abandonados (fisicamente). Os estudantes voltados para a literatura se “apossaram” dos mimeógrafos “esquecidos” e passaram a editar jornais literários. Iniciou-se uma febre nacional nos jovens. Era o surgimento da chamada imprensa nanica, marginal ou independente. Havia pelo menos um desses pequenos veículos em cada cidade grande e média do Brasil. E todos se comunicavam, pelo correio.

Fortaleza era, até o surgimento de O Saco, uma cidade muito tranquila, onde os jovens leitores só falavam de Jean-Paul Sartre, Gabriel García Márquez, Dalton Trevisan. Em 1974 publiquei minha primeira obra, Itinerário. Não conhecia um só escritor. Não frequentava redações de jornais. Mas sentia necessidade de divulgá-lo. Então passei a procurar as pessoas, a ler jornais, a participar de bate-papos. O círculo se alargava. De tanto vasculhar a vida, “aproximei-me” de pessoas de outras cidades, até mesmo estrangeiras. Mandavam livros, revistas e jornais. Eu nada tinha a oferecer, a não ser meu pequeno Itinerário. Por que não criar um jornal?

É desse tempo (1974/75) Intercâmbio, impresso em papel ofício, com poemas, contos curtos, notícias de literatura, que editei por algum tempo.

 

O boom do conto e a ideia de uma antologia

Tive então a ideia de uma coletânea de contos. Vivia-se o chamado boom do conto. Viam-se contos em todos os jornais e revistas, grandes, médias e nanicas. Até mesmo as de nu feminino, como Playboy. Eu não queria, porém, uma antologia cearense, mas nacional. Não queria repetição, contos bem comportados, mas uma antologia do conto marginal. Por coincidência, na mesma ocasião, no Rio de Janeiro, Glauco Mattoso, anunciava um projeto semelhante ao meu. Glauco era participante do grupo de poetas “marginais” que publicava em periódicos alternativos. Compunha versos satíricos e, como muitos poetas, editava um jornalzinho feito em mimeógrafo e distribuía por aí. Decidimos unir forças. Realizaríamos juntos o projeto. “Vamos reunir quem nunca tenha publicado nada em livro, só em jornaizinhos ou revistas, e selecionamos o que a gente achar de melhor”. Divulgamos notícias na imprensa (a nanica e a grande) de todo o país. Em pouco tempo, tínhamos em mão centenas de páginas de contos, semicontos, anticontos. Quem seria o editor? “Não vamos ter editora, porque somos marginais”.

 

Os contistas

Quem eram (são) os contistas marginais? Além dos organizadores da “antologia”, que também participaram como contistas, foram estes os “marginais” de Queda de Braço:

A. Rosemberg: cearense (passou a assinar Rosemberg Cariry), fez imprimir alguns livros até se decidir pelo cinema, como diretor, com filmes polêmicos, de inspiração sertaneja ou nordestina.

Adrino Aragão de Freitas: amazonense, então com duas obras editados. Seguiram-se muitos outros no gênero contos. Passou a residir em Brasília.

Airton Monte: cearense, inédito em livro até aquele ano. Editou contos, crônicas e poemas. Dedicou-se à crônica diária para o jornal O Povo, de Fortaleza. Um dos melhores contistas nascidos no Ceará.

Alciene Ribeiro Leite: mineira, também inédita naquele momento. Na sua bibliografia constam diversos livros.

Alda Abrantes Cabral: Carioca, de 47. Científico. Residente em Goiânia. Na Internet: Alda da Piedade Abrantes Cabral, nascida a 31-3-1947 na freguesia do Minhocal no concelho de Celorico da Beira. Em 1950 emigrou com os seus pais para o Brasil. Regressou com vinte e sete anos.

Almir de Vasconcellos: baiano, nascido em 1925, autor de Ovo, publicado em Portugal, e nenhuma outra informação.

Ângela José: fluminense, inédita até então. Em nota assinada por Luiz Zanin, no estadao.com.br/blogs, de 15/3/2007, a “jornalista, crítica de cinema e diretora do Cine Sul”, autora de “Olney São Paulo e a Peleja do Cinema Sertanejo”, teria morrido aos 51 anos de idade.

Benicio Medeiros: fluminense, jornalista, formado em Letras e Direito. Dedicou-se ao jornalismo. Apresentou A poeira da glória (1998), Brilho e sombra (2006) e A rotativa parou (2009), nenhum deles de contos.

Carlos Emílio Corrêa Lima: cearense, estudante de letras. Dedicou-se exclusivamente à literatura, como poucos outros. Tem editados contos, romances e ensaios.

Carlos Eugênio Baptista: carioca, de 60, estudante de colégio. A única informação recente na Internet é a de que é roteirista, professor de cinema, TV e vídeo e mestre em comunicação.

Celso Eduardo Moliterno Franco: carioca, de 54, estudante de biologia. Mais tarde, publicou livros de poesia. Conheci-o pessoalmente em Brasília, muitos anos depois.

Cineas Santos: piauiense, jornalista, poeta e contista. Como “agente cultural”, editou jornais, criou movimentos, fundou editora e livraria. Tem livros de contos, poemas, humor, cordel, infantil.

Dionísio Pereira Machado: goiano. Formou-se em Direito. Vasta bibliografia, sobretudo de contos e romances. Conheci-o pessoalmente em Goiânia, no início dos anos 1980.

Domingos Rimoli: mineiro, de 1928, inédito. Não tive mais notícia dele.

Eduardo Dobbin: fluminense, estudante de letras, inédito. Não tive mais notícia dele.

Edvar Costa: cearense, de 51. Formado em letras, dedicado ao teatro. Tornou-se professor da Universidade do Vale do Acaraú e pesquisador (artesanato, literatura de cordel, etc).

Fernando Tatagiba: capixaba, jornalista, poeta e contista. Colhi esta informação em texto de Wilson Coêlho, na Internet: Nascido em 1946, em São José do Calçado-ES, e falecido em 1988, em Vila Velha-ES. Deixou inéditos contos, poemas, infantil e outros gêneros.

Firmino Martins Galvão: maranhense, de 1926. Poeta e contista inédito. Dele também não tive mais notícia.

Francisco Sobreira Bezerra: cearense, tinha inédito segunda reunião de contos. O primeiro intitula-se A morte trágica de Alain Delon, de 1972. Ao correr dos anos, fez imprimir coleções de contos e romances. Passou a residir em Natal.

Helenara: gaúcha, de 1915. Não forneceu nome completo, o que dificulta pesquisa na Internet.

Hélvio Antônio de Oliveira: goiano, arquiteto, poeta e contista publicado. O arquiteto, contos, é de 1978.

Hugo de Almeida Souza: mineiro, jornalista, contista. Globo da morte saiu em 1975. Não consegui outras notícias dele.

Idalécio Vitter Moreira: gaúcho, jornalista e professor. Faleceu em 2004. Deixou Fragmento (contos e crônicas), A quatro mãos, O Silêncio dos Homens e o inédito Os votos do Padre & Outras estórias.

Jackson Sampaio: cearense, um dos criadores da revista O Saco. Dedicou-se à cátedra e à psiquiatria, sem esquecer a poesia.

João Bosco Sobreira Bezerra: cearense, estudante de medicina. Formou-se, porém não se dedicou à literatura.

João Carlos Duarte de Melo: carioca, 1957, vivia em São Paulo. Não tenho notícia dele.

Jolivaldo Freitas: baiano, dedicava-se ao jornalismo, ao teatro e à literatura. Tinha “pronto” um livro de contos. Estreou em 1976 com Cemitério de Cães Noturnos, contos. Publicou também poemas e uma novela.

Jorge Medauar Jr: paulistano, contista inédito. Tornou-se publicitário. Filho do escritor Jorge Medauar.

José Antunes de Lima: na antologia não há nenhuma informação. No site Usina de Letras colhi isto: Goiano, l942, escreveu Capoeirão (contos, 1974), Gravatás (1976) e outros livros. Formou-se em jornalismo. Faleceu em Goiânia, 1987.

Julio Cesar Monteiro Martins: fluminense. Estudou na Sorbonne, realizou dois filmes, poeta e contista. Dono de algumas obras, sobretudo contos, no Brasil e na Itália. Tornou-se professor de língua portuguesa e literatura brasileira na Itália.

Lúcia Afonso: mineira, psicóloga, contista e poetisa. Não encontrei notícia de publicações suas.

Luiz Fernando Emediato: mineiro, jornalista, contista premiado, inédito. A seguir, publicaria diversas reuniões de contos e se tornaria grande editor.

Luiz Guedes: paulista, nascido em 1951, redator publicitário, poeta e contista. O capitão Cometa não existe mais é de 1976. Não consegui notícia recente dele.

Maria Amélia Mello: carioca, formada em Comunicação, poetisa publicada. Editou os contos de Às oito, em ponto. Por seu trabalho na área editorial, recebeu o prêmio Faz Diferença, concedido pelo jornal O Globo, em 2007.

Mário Galvão: fluminense, 1940. Poeta e contista. Conheci-o em Brasília, no final dos anos 1970, a caminho da cegueira. Não tive mais notícia dele.

Mário Newton Filho: carioca, 1921. Tinha vários contos inéditos. Em 1957 publicara os poemas de Ilha Solidão. Outros volumes de versos se seguiram.

Neusa de Oliveira Peçanha: fluminense, 1935. Professora de português. Contista e poetisa. Recentemente, 2007, participou de concurso literário em Angra dos Reis.

O. Reyex: paulista, formado em letras pela USP, poeta e contista. Membro do Club dos Amigos do Marsaninho, ou seja, amigo de Glauco Mattoso. Não sei mais nada a respeito dele.

Octávio Ribeiro de Mendonça Neto: paulista, engenheiro, alguns contos na imprensa. Tornou-se professor doutor de faculdade de administração e economia. Nenhuma notícia de publicações suas.

Paulo Augusto: potiguar, dedicado a música, teatro, jornalismo, poesia (uma obra publicada), romance (inédito). Militante do gay power. Não tenho notícia de livro de contos. Em recente notícia (2011), residia em Natal.

Paulo Garcez de Sena: baiano, 1943. Poeta publicado. Conheci ao tempo da revista O Saco, em Fortaleza e Salvador. Dedicou-se à poesia. Faleceu em 1998.

Paulo Veras: piauiense (vivia em Fortaleza, quando o conheci), formado em letras. Os contos de O cabeça de cuia são de 1979. Faleceu em 1983.

Paulo Veríssimo: carioca, dedicou-se ao ensino de história e geografia, bem como a teatro, cinema, televisão e jornalismo. Poeta e contista inédito. Não consegui notícia recente dele.

Reinaldo Rodrigues de Sá: paulistano, dedicado à música, ao desenho e à literatura. Tem publicado poemas em sites como Recanto das Letras (2011) e participado de concursos.

Reinoldo Atem: piauiense, radicado em Curitiba. Poeta e contista. Publicado em O Saco nº 6. Considerado um dos mais importantes poetas do Paraná, por Miguel Sanches Neto, em artigo de 1997.

Rogério Menezes: Baiano, dedicado ao teatro. Inédito como poeta e contista. Publicado em O Saco nº 3. Não consegui outras informações.

Rogério Ruschel: gaúcho, redator publicitário, jornalista, contista. Publicado em O Saco nº 7. Não tenho notícia recente dele.

Vicente Fernando Giannella: paulistano, estudante de colégio, dedicado ao teatro e à literatura. Não consegui nenhuma notícia de sua vida literária pós-77.

Victor Cintra: cearense, poeta publicado, meu amigo. Lia muito, formou-se em letras, dedicou-se à cátedra.

Conclusão

Como se vê, poucos daqueles escritores se dedicaram ao conto. Alguns optaram por outros gêneros. A maioria, no entanto, desistiu das letras ou não teve oportunidade de publicar livro. Há também os que faleceram cedo.

Todos, porém, “exprimem a realidade nossa, querem atribuir identidade à nossa gente, dão testemunho de algumas verdades (entre elas, a de que as gerações mais novas escrevem, e escrevem com garra, pra valer). Nesta antologia está o Brasil todo, expresso pelos seus novos contistas”, como afirma Antonio Carlos Villaça, na primeira aba de Queda de Braço.

Fortaleza, maio de 2011.

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