Pesquisar este blog

terça-feira, 24 de maio de 2011

A era da incerteza (W. J. Solha*)

(Karl Marx)


Todo mundo conhece a lenda folclórica hindu em que sete cegos se deparam, pela primeira vez, com um elefante. Vivi algo semelhante em 1992, depois de ver vários VTs do concerto “Os Indispensáveis”, com música do Eli-Eri, texto meu, participação de vários solistas, sinfônica, grupo de dança Sem Censura e coral da UFPB. Cada um desses VTs foi encomendado por um participante, e o resultado foi que nenhuma das versões afinal disponíveis mostrou o espetáculo como um todo. O contratado por Eli-Eri concentrara-se no maestro, o tenor Elton foi quase que onipresente na sua versão, uma das dançarinas também centralizou totalmente a fita que encomendara, e assim por diante. Eli-Eri percebeu a mancada e me pediu que fizesse uma cópia que juntasse todos aqueles pontos de vista numa montagem cinematográfica da coisa, e foi só quando todos tivemos uma visão de conjunto do que vivêramos.
Pois bem. O americano John Kenneth Galbraith tem um livro de que gosto muito: “A Era da Incerteza”, de 1977, em que traça a trajetória da Economia, de Adam Smith até os anos 70. O inglês Bryan Magee tem, também, uma obra excelente, “História da Filosofia”, com os caminhos do pensamento mais abrangente (incluindo economia), dos gregos até a morte de Karl Popper, em 94. Tudo muito bom, até que dou com uma divergência notável entre os dois. O que havia de sólido, antes que tudo se desmanchasse no ar que respirávamos? Para o americano,  as certezas tinham estado com o capitalismo imperialista, de um lado, Marx do outro. Para o inglês, elas se encontravam nos duzentos anos de ciência e filosofia, a partir de Descartes e Newton.

Galbraith, convicto:
- Se alguém tivesse que escolher uma cidade da qual observasse a mudança, seria Cracóvia, escolhida como base por Lênin, o homem que, mais do que qualquer outro, dirigiu e catalisou a dissolução da antiga ordem. Todo mundo esperava – baseado na confiante análise de Marx e Engels – que a revolução eclodiria em breve, e num país industrialmente desenvolvido, com um operariado forte, consciente e revoltado. Aí surgiu Vladimir Ilitch, impaciente com o fato de que os novos tempos cada vez mais desautorizavam seu mestre... e com uma novidade: em lugar de multidões armadas, muito melhor seria que os revolucionários se limitassem a “um grupo de homens intimamente ligados, intelectualmente disciplinados e inteiramente dedicados à causa”. Logo, por que a grande virada não ser na sua Rússia subdesenvolvida e agrária?

Para a “História da Filosofia”, porém, a bagunça começou um pouco antes da Revolução de 1917. - Na virada do século XX – diz Magee - um gênio científico, Einstein, surgiu em cena, produzindo teorias incompatíveis com as de Newton (...) e as conseqüências disso foram cataclísmicas. Sempre, desde Descartes, a busca da certeza estivera no centro, ou quase, do pensamento ocidental. (...) Agora tinha de ser abandonada, porque a certeza – como argumentava Popper – está tão indisponível para a política quanto para a ciência.

Como na lenda hindu - a dos cegos em torno do elefante - e como nas várias versões do VT d”Os Indispensáveis”, a verdade sobre o aparecimento da Era da Incerteza me parece estar não só em Magee, não só em Galbraith, mas nos dois juntos. Lênin errou ao não ouvir Marx, precipitando-se na construção de uma União Soviética com alicerces na areia, e que, por isso, no final do mesmo século em que foi criada, se esfacelou. A Revolução poderia ter acontecido noutra nação? Certamente, não: como disse o próprio Galbraith, as reivindicações de “O Capital” e do “Manifesto de 1848” fizeram com que o capitalismo selvagem achasse melhor perder alguns anéis do que os dedos.... e resistiu.

Magee, ao considerar a Teoria da Relatividade, de 1905 - tornando toda certeza relativa – a causa de todo esse mal-estar instaurado no século XX, foi pouco relativista, pois na verdade ela apareceu num contexto propício à sua eclosão, assim como, também, à eclosão das teorias de Freud, e, antes delas, as de Darwin e do próprio Marx, e à do cinema, com a exibição, em 1895, de dois filmes dos Lumière - "A saída dos operários da Fábrica Lumière" e "A chegada do trem à Estação Ciotat" – ao tempo em que Cèzanne fazia a transição do que fora a arte até então, para a que viria no início do século XX.

Não foi em vão que Spinoza cunhou a impossível expressão “sub specie aeternitatis”, como o ponto de vista – da eternidade - que deve ser buscado como ponto de partida pra análise de qualquer coisa.

____________
*W.J. Solha - Escritor, Dramaturgo e Ator
wjsolha@superig.com.br
/////
certezas tinham estado com o capitalismo imperialista, de um lado, Marx do outro. Para o inglês, elas se encontravam nos duzentos anos de ciência e filosofia, a partir de Descartes e Newton.