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terça-feira, 31 de maio de 2011

Leia-me, se for capaz (Mayara de Araújo)

(Publicado no Diário do Nordeste, Fortaleza, 31 de maio de 2011)


O escritor Pedro Salgueiro lança amanhã uma coletânea de autores cearenses apenas sobre contos fantásticos: causos, lendas e histórias para ninguém dormir

Na boca da noite, quando a lua cheia chegava e a escuridão já não era mais contida pela parca luz dos postes da Light, vinham com ela as muitas histórias misteriosas, contadas ao breu das velas, recriadas pelos adultos com o intento sem-vergonha de assustar meninos pequenos.

Ah, mas não era só isso. Contar histórias fantásticas sob a luz da vela de cera era a manutenção de uma tradição virtuosa, da qual boa parte dos cearenses, até onde penso, usufruíram.

E nem é preciso ir assim tão longe no tempo. Porque mesmo na cidade grande, longe das paragens do interior, quando simplesmente faltava luz, toda criança já ouviu do pai, da mãe, do avô ou mesmo do irmão mais velho, uma dessas histórias de arrepiar.

Era ali, pertinho da vela, na mesa ou no chão da sala, enquanto se olhava de rabo de olho para a lâmpada vermelha da TV (à procura de um vestígio de eletricidade), que se buscava nos bornais da memória os causos contados muito dantes. Quais delas você ouviu? Eu ouvi a da pedra acorrentada que ia se soltar de cima da serra e destruir a cidade inteira; a do rio que sussurrava anunciando que ia morrer gente afogada; a da pick-up preta que carregava os moleques e outras tantas, lendas urbanas ou sertanejas.

Para o escritor Pedro Salgueiro, natural de Tamboril, as histórias ouvidas eram "cavalos sendo misteriosamente açoitados em estradas escuras, luzes vistas debaixo das oiticicas na beira de rios, machados cortando carnes durante a madrugada no mercado fechado e meninos que apareciam e desapareciam em jardins e camarinhas...", como descreve o próprio.

De tanto ouvir tais causos, Pedro investiu na produção do romance fantástico e, de escritor, passou a pesquisador do assunto. Em cerca de três anos de pesquisa, Pedro conseguiu, com a parceria de alguns outros escritores, reunir em torno de 130 contos fantásticos desenvolvidos por autores cearenses, desde obras de Juvenal Galeno, escritas na década de 1830, até livros inteiros dedicados ao gênero, produzidos por jovens escritores como Alan Santiago e Robson Ramos.

"O Cravo Roxo do Diabo: o Conto Fantástico no Ceará", que será lançado amanhã no Sesc Senac Iracema, foi fruto desse mergulho no insólito, escrito aqui mesmo, no Ceará, ambientando muitas vezes ali, na esquina daquela rua pela qual você passa todos os dias.

Gênero

Apesar das histórias de deuses, da Antiguidade Clássica, o fantástico se consolidou a partir do Romantismo e, desde então, transformou-se ao longo dos anos. Por isso, não se pode dizer que haja uma característica própria apenas da produção cearense. Segundo Pedro Salgueiro, no entanto, algumas particularidades permanecem, garantindo a harmonia do gênero.

"Até o século XX, predominavam as histórias fantásticas fantasmagóricas, mas isso vem mudando. Hoje, entre os modernos, os escritores mais jovens, há um pouco de tudo: lendas urbanas, ficção científica. O fato é que o conto fantástico é aquele que aborda aquilo que não pode ser explicado racionalmente e esse conceito, de certa forma, une essas produções". Acrescenta ele que muitas dessas histórias atuais são ligadas ao cotidiano e os eventos misteriosos acontecem, inclusive, à luz do dia.

Os três anos de pesquisa demonstraram como o gênero é, de fato, relativamente novo no Nordeste. Apesar de vários autores cearenses terem escrito algo de fantástico em suas obras, produções integralmente pertencentes ao gênero são recentes porque, de acordo com Pedro, o Nordeste é uma região convencionada como realista.

"Essa região era vista assim por conta das histórias de lutas do homem contra as intempéries do clima, as secas... Essa pesquisa também surgiu desse desafio, de mostrar que há no nosso Estado muita produção fruto da imaginação e não só literatura voltada para o social", defende Pedro.

Pesquisa

Vencer o edital que viabilizou a produção do livro foi até fácil, difícil mesmo foi a compilação de tantos textos, encontrados por indicações de autores e principalmente por investigações dignas de Sherlock Homes.

Para tanto, Pedro Salgueiro contou com a parceria do professor do Departamento de Letras da Universidade Federal do Ceará, Sânzio de Azevedo, e do professor de filosofia Alves de Aquino, conhecido como o Poeta de Meia-Tijela, que desafiou Pedro a incluir na coletânea uma outra vertente do gênero fantástico: a poesia. Deste modo, as quase 700 páginas de "O Cravo Roxo do Diabo" guardam 130 contos, 60 poesias e ainda 17 fragmentos de romances.

Entre os autores selecionados, destacam-se nomes como José Alcides Pinto, Carlos Emílio Corrêa Lima e Dimas Carvalho, alguns dos que privilegiaram o gênero em suas obras. Muitos dos outros autores o implantaram em seus escritos muito mais como um desafio, uma fuga da escrita realista, uma experimentação motivada por uma boa história que o povo conta.

Até o próprio nome que intitula o livro tem os seus dois pés no gênero. "O Cravo Roxo do Diabo" é o título de uma obra de Alvaro Martins (1868-1906), uma das primeiras a ser pesquisada para o compêndio e a única que simplesmente desapareceu. Isso mesmo, juro. O tal texto estava publicado em uma edição da revista Iracema, cuja coleção está integralmente preservada na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. Ou ao menos estava. Faltava uma. A bendita (ou maldita?).

Até Jorge Brito, bibliófilo cearense, foi escalado para a busca e, pasmem, sequer ele tinha posse do conto ou sabia onde localizá-lo. Aí, não tem jeito, se Jorge não sabe, ninguém sabe. Resolveu-se, contudo, deixar a obra como título da coletânea, afinal já se havia mexido com o nome do "capiroto", então era melhor não contrariá-lo.

Quem sabe um dia, quando estranhamente faltar luz na sua rua, você escute que o próprio Alvaro apareceu um dia, em carne e osso, entregando a edição da revista a uma bibliotecária. Aquela que, inclusive, mora no seu condomínio. Vai saber.
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