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segunda-feira, 9 de maio de 2011

poesia à margem (Nuno Gonçalves*)




deriva,


da cabeça de um nauta torpe


a fineza de um fogo torto.


como se já não bastasse o lema:


insensato coração de náufrago,


agora esse mundo devassado.


todas as distâncias se resumem


na mirada que percorre o espaço


onde copulam as galáxias.


sem ruído a verve refaz insônias


enquanto a história dorme.


o pavor é uma equação antiga


enterrada do outro lado da divisória linha


o amor é uma canção antiga


soterrada na estrada em brasas.


ser herói à margem


punk por um dia


ou qualquer coisa que resista à real-política.


o cosmos é uma abstração ilógica


para a qual o bom senso nunca atina.


qualquer cisma vem sempre antes da pessoa que anuncia


deslocando o foco tão incerto da retina.


todo dia é sempre outro


o espelho que novamente nos identifica.


suspensa entre o sal e o azeite


a memória vai parindo seus eclipses...

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[*Nuno Gonçalves é poeta e professor de História. Publicou o livro Cartas de Navegação em 2009 e é homônimo de um pintor português do Século XV].

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