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sexta-feira, 24 de junho de 2011

Como surgiu Canudos (Nilto Maciel)


Na comarca de Nova Vila de Campo Maior, depois Quixeramobim, Ceará, nasceu Antonio Vicente Mendes Maciel, no dia 13 de março de 1830, filho de Vicente Mendes Maciel e da parda Maria Joaquina de Jesus. O futuro Antonio Conselheiro foi batizado em 22 de maio. No registro consta apenas o nome da mãe. Vicente, o pai, bebia muito, mostrava-se colérico e apresentava problemas de audição. Certa feita, bêbado, esfaqueou a amante. Analfabeto, mantinha uma loja de fazendas, que ia comprar em Aracati. Quando sóbrio, se fazia cortês, obsequioso e honrado.

Ocorriam rebeliões, fuzarcas, lutas sangrentas na Província do Ceará. Presidia a província, desde 8 de dezembro de 1831, José Mariano de Albuquerque Cavalcante. Em 29 de junho de 1832 deu-se um combate na povoação de Missão Velha entre as forças legais e as de Pinto Madeira. Em 16 de outubro o chefe rebelde se rendeu ao brigadeiro Pedro Labatut, após dez meses de guerra civil. Nesse tempo chegou à cidade o jovem Ibiapina, vindo de Olinda, onde se formou em Direito. Vinha desiludido do amor. Carolina, sua amada, se deixou raptar por um parente jovem, deixando para trás o bacharel. Feito juiz, Ibiapina instalou a comarca de Quixeramobim em 6 de março de 1833. Em 29 de novembro o tenente-coronel Ignácio Correa de Vasconcelos assumiu a chefia da província, nomeado por Carta Imperial. Em outubro do ano seguinte sucedeu-o José Martiniano de Alencar, pai do romancista José de Alencar. Em 28 de novembro fuzilaram o rebelde Pinto Madeira, no Crato.

Em 1833, Silvestre Rodrigues Veras acusou de ladroagem os Maciéis. A seguir, seu parente e amigo Antonio Araújo Costa fez acusações semelhantes. E partiram, com filhos e genros, da vila de Boa Viagem em direção a Quixeramobim e Vila Nova, dispostos a prender e punir os acusados. Os Maciéis de Vila Nova rumaram para Quixeramobim e se uniram aos parentes de lá, a fim de organizarem a resistência. Acossados em Vila Nova, resistiram numa casa e não se entregaram, por temerem o pior: a prisão e a consequente morte. Nos primeiros embates os atacantes foram repelidos. Temendo novos fracassos, os Araújos e Veras pediram auxílio a dois valentões: José Joaquim de Menezes e Vicente da Caminhadeira. O primeiro se recusou a participar da empresa. Os chefões mandaram outro recado. O valentão se manteve firme na negativa: “Eu não me posso constituir inimigo nem perseguidor de quem nunca recebi a menor ofensa, nem devo demorar minha viagem (ao Piauí) para satisfazer paixões alheias”. Nova insistência e o homem se rendeu e partiu para o lugar da contenda com seus seguidores. Ao chegarem a Quixeramobim, propôs Menezes aos sitiados a rendição, com a promessa, debaixo de palavra de honra, de garantir as suas vidas. Seriam presos e bem tratados. Entregaram-se, então, os Maciéis, sem resistência, e foram conduzidos à fazenda Serrote, no alto sertão do Tamboril, propriedade do capitão Francisco Xavier de Sales, entrevado, mas alegre ancião, pai do coronel Diogo Lopes de Araújo Sales, onde Menezes os entregou aos Araújos. Durante a caminhada tratou bem os presos. E de lá partiu em viagem, no dia seguinte. Dias depois foi morto pela espada de José de Barros Mourão, quando perseguia Francisco Pereira, escravo fugido de seu pai.

Dois ou três dias após a prisão, foram os Maciéis algemados. Seriam conduzidos para a cadeia de Sobral. No entanto, no meio da caminhada, logo no primeiro dia, os condutores dos presos tramaram as suas mortes. Alegaram que os Maciéis seriam resgatados. Mandaram dar tiros de dentro do mato, como se fossem dados por amigos ou parentes dos presos. Resistiram à revolta, fizeram fogo, mataram quase todos os presos, entre eles Antonio Maciel e Manoel Carlos. Escaparam do morticínio Miguel Carlos, filho de Manoel, e outro, que se evadiram.

Além de estar algemado, como os outros presos, Miguel tinha as pernas amarradas por baixo da barriga do cavalo puxado pelo cabresto por um condutor.

Na fuga, Miguel estacionou no lugar Passagem, em Quixeramobim, na casa de uns parentes. A manhã mal começava. O rapaz se deitou para descansar da fuga e curar um pé ferido. Logo, porém, uma tropa chefiada por Pedro Martins Veras cercou a casa. Iniciou-se o tiroteio. Miguel atingiu mortalmente um dos atacantes, de nome Teotônio, que caiu no batente da casa, impedindo os movimentos do Maciel. Outra bala feriu na barriga o chefe Pedro. Uma irmã de Miguel correu a empurrar as pernas do defunto para fora, recebeu uma bala no peito e morreu na hora. Miguel continuou atirando. Tocaram fogo à casa de palha. O rapaz molhou a roupa e passou pelas chamas, clavinote na mão, à vista de todos, sem que um só se atrevesse a segui-lo. Na fuga foi bater na vila de Quixeramobim, onde viveu durante meses sem ser incomodado, protegido por familiares e por alguma autoridade policial inimiga dos Araújos. Talvez também pelo juiz Ibiapina, que o aconselhava a não praticar vingança.

No entanto, no ano seguinte, 1834, dia 12 de fevereiro, a tragédia teve escrito outro capítulo. Um dos protagonistas chamava-se Luciano Domingues, inimigo dos Maciéis, noivo da filha de Inácio Lopes Barreira, que morava algumas léguas abaixo da Vila. No dia do casamento dirigiu-se o noivo à vila, com uma comitiva. Ao vê-lo passar e sabendo que se dirigia a Tapuiará, residência da noiva, Miguel Carlos saiu para emboscá-lo na estrada, no lugar chamado Uruquezinho, perto do destino do grupo. Acompanhava-o Estácio José da Gama. Derribaram galhos de árvores para obstruir a passagem e, quando Luciano e os seus se aproximaram, deram alguns tiros de granadeira ou bacamarte. Atingido, o noivo caiu. Miguel e Estácio fugiram, perseguidos pelos amigos de Luciano. Conduzido numa rede, agonizante, o rapaz ainda se casou, para morrer em seguida.

No julgamento dos assassinos, a testemunha Joaquim Antonio prestou a seguinte informação: “viu correr um homem de uma tocalha, a pé, vestido com uma véstia de couro e guarda-peito do mesmo e chapéu, calça de riscado azul e bacamarte na mão esquerda”.O matador trazia um lenço amarrado pela face, depois de ouvir um tiro grande de bacamarte. O pai do morto, Antonio Domingues, apontou à Justiça de Quixeramobim os nomes de Miguel e Estácio como mandante e autor material do crime, respectivamente. Apesar disso, somente Estácio respondeu pelo crime. Prendeu-o, no sertão de Maria Pereira, o capitão Manoel Honorato. Em juízo, o preso confirmou ter sido ele o matador de Luciano. E disse mais: pelo crime, encomendado por Miguel Carlos, recebeu quarenta mil-réis e um cavalo. Pouco mais de um mês depois da tocaia, Simão Lopes, procurador ou advogado do assassino, se dirigiu à cadeia e conversou com Estácio, pela grade. Segundo Simão, o preso confessou não dispor de nenhuma defesa, disse não saber ler e escrever e só lhe restar implorar a Providência Divina. O julgamento se deu no dia 14 de março. O conselho de jurados, composto de 12 homens e presidido pelo juiz interino Antonio Duarte, em razão da ausência do titular Ibiapina, se reuniu no consistório da matriz da vila de Campo Maior. A parte final da sentença dizia: “Visto a unanimidade dos jurados, condeno o réu Estácio José da Gama em pena de morte natural”. Por lei, o condenado teria direito de interpor recurso da sentença. No entanto, o juiz determinou a condução do sentenciado ao local de morrer no dia seguinte. O cortejo passou pela rua. Detrás do balcão da loja, Vicente Mendes viu passarem o juiz, a tropa, o escrivão, o porteiro Manuel Gomes da Silva, que em altas vozes publicava a sentença, e o réu, que suplicava: “Não me deixem sofrer muito. Valei-me Santíssimo Sacramento!”. Eram 16 horas. Ao alcançarem o meio da vila, recebeu o sentenciado três descargas de arcabuz. Acabava de ocorrer mais um “assassinato jurídico”, como dizia o Código Criminal. Após a execução, conduziram o cadáver à igreja da matriz, por ordem do pároco, e lá sepultado.

Ao regressar à comarca, o juiz Ibiapina instaurou processo em desfavor do interino. Para ele, não houve um julgamento autêntico, mas um assassinato cometido à sombra das leis. Antonio Duarte alegou desconhecer a lei na sua integralidade, cometendo erro involuntário. Absolveram-no os jurados.

Naquele mesmo ano, Ibiapina se elegeu deputado-geral no Império, com mandato até 1837. Enquanto isso, Miguel se envolvia em novas confusões. Uma noite, sentado à porta da loja de Manuel Procópio, viu aproximar-se dele um homem. Entrou na loja e disse precisar de umas garrafas de aguardente. Para Miguel, tratava-se de um espião dos Araújos. Avançou para o desconhecido, sendo obstado pelo lojista. Serenados os ânimos, o homem se retirou e, a seguir, Miguel se dirigiu ao riacho da Palha, à saída da vila, onde aguardou a passagem do sujeito e o matou. Em seguida fugiu. Os Araújos continuavam no encalço dele. Seus espiões seguiam os passos de Miguel. Um deles seria André Jacinto de Sousa Pimentel, de importante família da Vila, ligada aos Araújos. Estaria enviando avisos aos chefes em Boa Viagem sobre as vindas de Miguel à Vila. Sabedora disso, Helena contratou soldados do destacamento de linha a darem uma surra no espião. Anos depois confessou o crime. O acusado de ser o mandante do espancamento de André acabou sendo o alferes Francisco Gregório Pinto, inimigo do rapaz.

O episódio seguinte desta trama se deu na manhã do dia 1º de julho do mesmo ano. Na casa de Inácio Mendes escondiam-se alguns Araújos, onde passaram a noite anterior. Hospedado na casa de Antonio Carlos de Oliveira, seu parente, Miguel Carlos e alguns amigos tomavam banho num poço nos fundos do quintal da casa, localizada junto à Praça do Cotovelo, próximo do riacho da Palha. Miguel pressentiu perigo e vestiu a ceroula. Súbito surgiram os inimigos, atirando. Um dos tiros atingiu o Maciel, que apanhou uma faca e correu para tentar passar por um buraco no muro. Um dos agressores, Manuel de Araújo, irmão de Luciano, puxou-o pela perna e cravou-lhe uma faca na coxa. Miguel se voltou e acertou a carótida do inimigo. Helena se aproximou aos gritos e tentou socorrer o irmão. O sangue de ambos inundava o quintal. A moça se pôs a pisar a cara do Araújo. No entanto, os dois rapazes já não viviam.

No dia seguinte os corpos foram encomendados pelo vigário Frutuoso Dias Ribeiro e sepultados na igreja matriz.

Dias depois, 31 de agosto, no final da tarde, o padre Frutuoso compareceu à casa-loja de Vicente Mendes Maciel e realizou o casamento dele com Maria Joaquina. Minutos depois ela morreu. O pequeno Antonio – o futuro Conselheiro – contava quatro anos de idade.
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