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sábado, 11 de junho de 2011

Socialismos (Manuel Soares Bulcão Neto)



O professor Paulo Sandroni, no opúsculo que escreveu para a “Coleção Primeiros Passos” (Teoria da mais-valia. São Paulo: Editora Brasiliense, 1985), conta que, certa vez, em visita a um amigo marxista, conversavam sobre as arbitrariedades da ditadura militar, prisão de operários e quejandos, quando um menininho, filho do anfitrião, interrompeu-os e, cheio de indignação, disse: “A culpa é dos hamburgueses!”.

A criança, neófita do jargão comunista, confundiu “burguês” com o natural da cidade de Hambúrguer, digo, Hamburgo (Alemanha). Há, no entanto, adultos com ampla formação acadêmica ou mesmo eruditos que, ao discorrerem sobre socialismo, cometem equívocos também elementares. E, por ostentarem o status de “formadores de opinião”, seus juízos são logo assimilados pelo senso comum.

Um desses equívocos, que considero o mais grave, é sustentar que o marxismo propugna um socialismo “de formiga”, com o mínimo possível de autonomia para os indivíduos. Ora, em O Manifesto do Partido Comunista (livreto de iniciação), a definição dada pelos autores à sociedade sem classes conforma-se perfeitamente ao ideal iluminista – e liberal! – do indivíduo como fim: “uma associação em que o livre desenvolvimento de cada um é a garantia do livre desenvolvimento de todos”. Já no ensaio A ideologia alemã, Marx descreve o homem do futuro que sonhara como um “homem integral”, não fragmentado pela divisão do trabalho, que “caça pela manhã, pesca à tarde, cria animais ao anoitecer, critica após o jantar…” — Logo, um indivíduo complexo, multifacetado e livre, sem nada que lembre o fascista ideal-típico, este sim um análogo de inseto social.

Outro erro é estabelecer identificação cabal entre socialismo com apenas uma de suas correntes: a “comunista”, que teve como precursores Babelf e Blanqui e cuja formulação final foi dada pelos assim chamados “clássicos”: Marx, Engels e Lenin.

Ocorre que o marxismo não detém (na verdade, nunca deteve) o monopólio do pensamento socialista. O que há de fundamental na ideia de socialismo – algo compartilhado por todas as suas variedades – pode ser resumido na seguinte sentença: a economia a serviço da sociedade (não o contrário, como sói ocorrer no capitalismo), sendo a função primeira da sociedade estabelecer a igualdade entre os homens.

Já as questões que dividem os socialistas são duas: a) saber qual o modelo econômico que serve – como o melhor ou na condição de único compatível – aos propósitos deste sistema social; b) o tipo de igualdade a ser implantado: igualdade de oportunidades? Igualitarismo cabal? Igualdade universal ou somente para os indivíduos de uma determinada nação, etnia ou raça supostamente superior? (esta última interrogação é a que demarca o socialismo de esquerda do socialismo de extrema-direita, ou nacional-socialismo.)

Ex-marxista (“ex”, não “anti”) e ainda socialista, simpatizo com a corrente, hoje em ascensão, do liberal-socialismo, cujo precursor foi o economista e filósofo utilitarista John Stuart Mill. (seus principais teóricos são L. T. Hobhouse, Francesco Merlino, Guido Calogero e Norberto Bobbio.) Tal corrente não tem o ranço messiânico judaico-cristão (logo, religioso) da variante marxista ortodoxa; não sataniza o mercado, ao contrário: entende que, por ser o mercado um produto histórico anterior ao capitalismo (e não uma criação deste), é perfeitamente assimilável; defende que, no socialismo, o lucro deve permanecer como critério “de eficiência empresarial”, embora não mais como único ou superior critério e, muito menos, como base da moralidade; busca estabelecer uma combinação “ótima” entre mercado e Estado de Direito Democrático para a promoção de justiça distributiva e salvaguarda do imperativo segundo o qual “nenhum homem deve ser tratado como meio, mas como fim em si mesmo.”
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Crônica publicada no jornal Diário do Nordeste em 15/05/2011, com o título “Mercado e Estado”.
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