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sexta-feira, 1 de julho de 2011

A grande alma de Ivo Barroso (W. J. Solha)


No dia 20 próximo passado, depois de reproduzir no seu blog “Gaveta do Ivo”, um belo texto que ele próprio publicara em maio de 2007 na Folha de São Paulo - “Duras: A Doença Mortal de Escrever” - Ivo Barroso acrescentou:

A transcrição deste artigo vem a propósito de uma esperada edição de O Amante, que acaba de ser reeditado pela Cosac Naify em tradução de Denise Bottmann – selo de qualidade de qualquer tradução, seja ela técnica ou literária. Denise costuma dizer que não gosta de traduzir literatura, mas quando o faz é com resultados irrepreensíveis, como neste caso.


Bem, como Ivo Barroso – além de grande tradutor de autores como Ítalo Calvino, Breton, Jane Austen, Umberto Eco, Herman Hesse, Rimbaud e Shakespeare – é imensamente generoso, pedi-lhe – com viva curiosidade - que justificasse o adjetivo “irrepreensíveis”. Ele me atendeu, quatro dias depois, na mesma “Gaveta do Ivo”, com esta matéria estupenda:

DURAS AINDA
24/06/11 por inbarroso

Meu amigo, o grande (escritor, poeta, etc. etc) W. J. Solha pede-me para “especificar” em que consiste a ‘qualidade irrepreensível’ das traduções de Denise Bottmann. Em primeiro lugar, no perfeito conhecimento das línguas, de partida e de chegada. Depois, seus dotes de escritora. Finalmente sua vasta cultura humanística, que lhe permite avaliar estilos, fases, tempos, adequações enfim. Veja-se, por exemplo, este trecho de O Amante:

Très vite dans ma vie il a été trop tard. A dix-huit ans il était déjà trop tard. Entre dix-huit ans et vingt cinq ans mon visage est parti dans une direction imprévue. A dix-huit ans j’ai vieilli [...] Ce vieillissement a été brutal. Je l’ai vu gagner mes traits un à un, changer le rapport qu’il y avait entre eux, faire les yeux plus grands, le regard plus triste, la bouche plus définitive, marquer le front de cassures profondes. Au contraire d’en être éffrayée j’ai vu opérer ce vieillissement de mon visage avec l’intérêt que j’aurais pris par exemple au déroulement d’une lecture. Je savais aussi que je ne me trompais pas, qu’un jour il se ralentirait et qu’il prendrait son cours normal. Les gens qui m’avaient connu à dix-sept ans lors de mon voyage en France ont été impressionnés quand ils m’ont revue, deux ans après, à dix-neuf ans. Ce visage-là, nouveau, je l’ai gardé. Il a été mon visage. Il a vieilli encore bien sûr, mais relativement moins qu’il n’aurait dû. J’ai un visage lacéré de rides sèches et profondes, à la peau cassée. Il ne s’est pas affaissé comme certains visages à traits fins, il a gardé les mêmes contours mais sa matière est détruite. J’ai un visage détruit.

Muito cedo foi tarde demais em minha vida. Aos dezoito anos já era tarde demais. Entre os dezoito e os vinte e cinco anos, meu rosto tomou um rumo imprevisto. Aos dezoito anos envelheci. [...] Esse envelhecimento foi brutal. Eu o vi ganhar meus traços, um a um, mudar a relação que existia entre eles, aumentar os olhos, entristecer o olhar, marcar mais a boca, imprimir profundas gretas na testa. Ao invés de me assustar, acompanhei a evolução desse envelhecimento de meu rosto com o interesse que teria, por exemplo, pelo desenrolar de uma leitura. Sabia também que não me enganava, um dia ele diminuiria o ritmo e retomaria seu curso normal. As pessoas que haviam me conhecido aos dezessete anos, quando estive na França, ficaram impressionadas ao me rever dois anos depois, aos dezenove. Eu conservei aquele novo rosto. Foi o meu rosto. Claro, ele continuou a envelhecer, mas relativamente menos do que deveria. Tenho um rosto lacerado por rugas secas e profundas, a pele sulcada. Ele não decaiu como certos rostos de traços finos; manteve os mesmos contornos, mas sua matéria se destruiu. Tenho um rosto destruído. (pp. 9-10)

A perícia com que a frase francesa é vertida para o português, mantendo-lhe o mesmo timbre, a mesma inflexão, o mesmo contorno, o mesmo sentido, a mesma validade emocional – mas sendo sem dúvida uma frase NOVA – é o que distingue a excelência da tradução. Além disso, é necessário um envolvimento com o que se traduz – seja para amá-lo, criticá-lo ou odiá-lo – mastigando-o, ruminando-o sem deixar qualquer dúvida quanto ao significado explícito ou meramente intencional. Conheço, no presente caso (tradução de O Amante) algumas reações da tradutora durante a confecção do trabalho. Permito-me quebrar a confidencialidade dos e-mails para transcrever este trecho:

como vc vai ver, é um ritmo basicamente recitado, para ser lido em voz alta – como uma história que a gente vai lembrando e contando para alguém, em que as repetições não são tanto para dar ênfase, mas como quando a gente repete alguma palavra para continuar o fio da narrativa, tentando lembrar direito o que aconteceu.

o léxico é absolutamente simples (como kafka – com 3 meses de alemão a gente já consegue ler o kafka porque é o vocabulário mais simples que há). isso reforça muito a sensação de que é uma história contada em voz alta para algum amigo.

a sintaxe é muito interessante, como se fosse um francês reformado, tirado da caixa tradicional (vc deve saber que a língua mais formalizada, mais petrificada do mundo é o francês…) e reposto numa ordem mais simples também, mais direta, mais enxuta, embora repetitiva – muito, muito desbastado, com algumas poucas liberdades.

tentei manter a simplicidade e o ritmo (li várias vezes em voz alta, em surdina, só mentalmente – acho que deu pra passar um pouco esse ritmo de cantilena). quanto a essa “purificação” sintática que ela faz, é mais difícil sentir em português, mas faz com que desapareça aquele ar meio emproado que as traduções do francês costumam ter.

E eis o que o editor Maurício Ayer disse a propósito do texto e da tradutora (não se trata de uma nota editorial para “chamar” leitores, mas de impressões de leitura):

A tradução ora editada impressiona de início pela fidelidade à “fala” durasiana. Quem está habituado à melodia de seus textos vai logo reconhecer a voz de Marguerite, essa fala que ao longo dos anos foi sendo maturada pela escritura. A impressão é mesmo a de ouvir a autora, como se o livro fosse o registro de uma entrevista sua – algo que ela fará em Escrever (1993), que é o registro de uma entrevista filmada. No entanto, nada ali é dispensável, não há a banalidade do discurso cotidiano. Trata-se, isto sim, de uma fala que seleciona com cuidado o seu vocabulário, simples e cortante, e que parece plenamente consciente do modo com que o pronuncia. A tradução conseguiu captar essa voz e fazê-la soar em português. A pontuação escassa e essa espécie de fluxo, entrecortado por repetições, retornos aos mesmos eventos, também foram preservadas com grande precisão. A tradutora Denise Bottman comenta que sua atenção se deteve naquilo que chama de “untuosidade” da fala da personagem. “Pareceu-me um tipo de texto eminentemente oral – quando lido em voz alta, você sente uma espécie de onda, não fluida, não líquida, não avassaladora nem, ao contrário, ‘embaladora’. É uma fala untuosa, diria eu – não chega a envolver nem arrastar, mas como que impele leve e inexoravelmente o leitor, como se seus pés estivessem mergulhados (não presos) em um ou dois palmos de lama.”

São cuidados e envolvimentos dessa natureza que levam a uma tradução irrepreensível.

Como se vê, “tudo vale a pena quando a alma não é pequena”: meu pedido inspirou ao Ivo Barroso um atendimento digno de uma grande alma.
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