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terça-feira, 16 de agosto de 2011

Ofício (Emanuel Medeiros Vieira)



Mal rompe a aurora:
papel, lápis afiado, borracha.
Nada muda nada?
Continuas: sempre.
A palavra.
Não importa que (quase) ninguém queira mais saber.
Prevalência de imagens, aparelhos eletrônicos
Soberano reino do aparecer.
Chove lá fora: solitário ofício – desde menino.
Desaparecerá o sonho de ouvir e de contar histórias?


Rompeu a aurora e continuas:
o café ficou frio, o leite talhou, o pão é dormido.
(O que importa?)
Médium, antena.
Freud já sabia: os poetas chegaram antes de nós.
“Publicar é pôr o espírito humano em leilão”
(Emily Dickinson).
Dar a cara ao tapa:
este o ofício.
Agora, tudo é noite.
(E desmoronamos.)
Navegando, aportando,envelhecendo – a caminho da eternidade
(As Parcas sempre chegam – para todos: fúteis, soberbos, sonhadores.)


(Salvador, maio de 2011)
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