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quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Alforjes recheados de poesia (Nilto Maciel)




Clauder Arcanjo se diz “aprendiz de poeta” (também gosto de me apequenar) e me chama de mestre (também ofereço a alguns amigos tratamento superlativo), na dedicatória de seu novo livro Novenário de espinhos (Mossoró: Sarau das Letras, 2011). Aprendizes todos somos, até certo ponto da estrada. Alguns aprendem logo, outros são mais lentos. Clauder é dos que aprenderam o fundamental com facilidade e se pôs a compor poemas e também contos e crônicas com a competência dos alunos mais dedicados. Assim, em 2007 deu a lume a coletânea de contos Licânia e, dois anos depois, apresentou Lápis nas veias, de minicontos.

Este Novenário de espinhos não parece livro de igreja (apesar de, na capa, o cajado na mão envelhecida e, na primeira página, o terço – continhas e cruz – na mão mais nova): tem capa dura, o miolo é de papel couchê fosco, está repleto de ilustrações e se apresenta em forma de quadrilátero. No prefácio, Lilia Souza observa: “Os espinhos desse novenário lanham a pele, fisgam alguma veia, ferem e fazem sangrar. Ao mesmo tempo, são suaves e belos, de elevada e pura poesia. São espinhos-versos de agudeza e sensibilidade, lágrima e doçura; a úlcera e o unguento, a dor e o bálsamo.”

Clauder é homem religioso. Inicia a coleção de poemas com uma “Sonata de profundezas”, assim: “Sob a agonia da manhã, / inventei afagos, / iludi-me e cosi quimeras, / banhei-me no sal das notas, e / arranquei tímidos arpejos de luz”. Seguem-se uns “Cânticos de danação”, dedicados a José Alcides Pinto, seu conterrâneo, falecido recentemente. Outros poetas merecem a sua “prece”: Fábio Lucas (“Altissonante”), Audifax Rios (“Aldeão”), Nelson Hoffmann (“Cafuné”), Nicodemos Sena (“O sangue do espírito”), Sânzio de Azevedo (“Diário poético”), Ivan Junqueira (“Fragmentos”), Olga Savary (“Partido de ontem”), Nilto Maciel (“Entre sanhaço e saudade”) e outros menos conhecidos meus.

Clauder é poeta de sua terra e de sua gente, das dores humanas, do tempo presente, sem se deixar seduzir pelo canto de sereia do apocalipse. Em “Relicário de mortos” pinta uma paisagem, um ambiente seco, nordestino, de abandono: “Pelo vasto alpendre, / um vento insosso. / No pasto seco / reses magras e ossos. / Na rede de dormir, / um cangaceiro deposto. / Sobre o tamborete, / contas do tempo, / um relicário de morto.” Por outro lado, também se importa com a própria dor, a solidão, que não há poeta sem elas, ou dor e solidão sem poesia. Leia-se “Insônia”: “sonhos nas gavetas”, “quarto em penumbra”, “o véu da porta fria”, “o vaga-lume sem brilho”, “e eu – com a carga / de minha solidão”, “o escuro vazio / que nunca dorme dentro de mim.”

Como não sou crente, preferiria para o livro título menos católico, como “Aldeão”, “O baú da noite”, “Sal das horas” (títulos de poemas). No entanto, não devo preferir este ou aquele título, que o livro não é meu. O que devo é simplesmente ler todos os poemas, da “Sonata de profundezas” à “Tímida prece” aos sem palavra, aos desesperados, aos humilhados, aos excluídos, aos errantes. Antes da página final, ler em voz alta (talvez) “Salmoura dos guardados”: “Na gaveta, / a saudade e a memória. /Nos olhos, / a dor e o sangramento. / Na boca, / o asco e o azedume do ódio. / Nos ouvidos, / o aboio último lamento. / No alforje, / a pressão da injúria, / e a salmoura dos guardados do tempo.” E dizer: muito obrigado, poeta, por seus alforjes recheados de poesia.

Fortaleza, 5 de setembro de 2011.
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