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sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Conversa de Nilto Maciel com Gilmar de Carvalho

“Antecipei, de certo modo, o fim do romance.”

(Gilmar de Carvalho em foto de Francisco Sousa)

Esta conversa se iniciou, por correio eletrônico, no começo de julho de 2011. Tínhamos nos encontrado dias antes no Armazém da Cultura, que reeditou Parabélum. No salão não cabia mais uma só pessoa e todos queriam tocar em Gilmar. Curiosos se aproximavam dele, como se vissem um ser de outro mundo. Estudantes lhe faziam perguntas estapafúrdias (você existe mesmo?). Jornalistas puxavam-lhe pela manga da camisa. Jovens escritores se olhavam em espelhinhos. Fotógrafos pediam-lhe um olhar, mesmo que de desdém.

Eu o abracei, feliz. Porque sou admirador de Gilmar desde os primeiros mugidos nossos. Desde quando li originais de seus contos (que depois constituiriam Pluralia Tantum), em 1970 ou pouco mais adiante, num concurso literário para universitários do Ceará. Lembro do impacto que sofri ao ler aqueles textos enigmáticos, enxutos, tortos, de deixar enviesado qualquer leitor acostumado a ler quem escreve certo por linhas certas.

(Ao final da entrevista, uma bibliografia e alguma informação biográfica.)

A entrevista

Nilto Maciel – Você me parece avesso a entrevistas escritas. Conheço poucas. Vejo você em documentários na TV. Você não gosta de se expor? Tem pudores? Ou depende de quem faz as perguntas? Tem muito a esconder (guardar no baú?) ou poderá erguer a tampa do móvel agora que chegou à maturidade? Aguardarei respostas nuas e cruas. Ou vestidas e cozidas. A fala é tecido. Ou tecida?

Gilmar de Carvalho – O começo de nossa conversa: não tenho baús, publiquei tudo o que escrevi, no campo da ficção. Tenho ainda muito para publicar como ensaio. Este é um dos meus defeitos, apontados por muita gente: tenho pressa, não deixo o texto decantar. Juro que não deixarei inéditos, mesmo os cadernos dos tempos dos jesuítas não existem mais. Quando era jovem, não me levava muito a sério. Ainda bem. Sobre os pudores, tenho certo cuidado para não cair numa exibição pessoal que muito me incomoda. Acho curioso quando algumas pessoas que vivem de imagem reclamam de privacidade. Gosto de me preservar e aos que me cercam. O que tenho a dizer digo. No mais, é o silêncio. O cuidado com a privacidade não significa "armário", mas uma ideia mesmo de que vale a produção, a reflexão é que são importantes e não se gosto ou não de "balada", se comprei um carro ou quem com quem vou para a cama. Isto é papo de quem não tem o que dizer, o que não é (espero) o meu caso. Não gosto de quem se expõe à toa, tanto os que fazem questão de evidenciar os índices de riquezas, como os que mostram as feridas para pedir esmolas. O pudor se relaciona ao desejo pelo respeito que merecemos e que devemos ter com os outros e com a gente mesmo.

NM – Você tem consciência da importância de Parabélum, não só para a literatura cearense (existe literatura cearense?), mas para a literatura brasileira? O seu romance seria uma ponte entre Macunaíma e o pós-romance ou a literatura pós-moderna?

GC – Sou tão acusado de ser vaidoso (com razão, na maioria das vezes) que me sinto cabotino ao falar do Parabélum. Deixando os pudores (outra vez) de lado, sempre tive consciência da importância do "Parabélum". Foi um romance escrito com fôlego e vigor de um jovem de vinte e cinco anos. Sabia que se tratava de um instante único. Em plena ditadura militar, numa cidade esquecida, um livro bancado por um autor, com tiragem pequena e sem respaldo de editora. Eu podia me soltar. Não precisava me ater às regras do marketing (que eram ainda tão incipientes). Escrevi pelo prazer de interferir, de dizer. Sabia que não seria lido. Por sorte, ficou uma "aura". Muito tempo depois, recebia pedido de cópias do livro. Eu era mais citado do que lido. Poucos se ocuparam dele: Dimas Macedo, Floriano Martins, Eleuda de Carvalho. Rendeu uma dissertação de mestrado do Saulo Lemos. Creio ter tirado partido da raridade que se tornou o livro. Eu mesmo adquiri exemplares no sebo do Geraldo, na Rua 24 de Maio. Sempre me recusei a me autopublicar de novo. Até que apareceu a Albanisa Pontes e topou a empreitada. "Parabélum" foi escrito muito por intuição. Não tinha e não tenho formação em teoria literária. Fui um leitor ávido de muita coisa boa (Proust, Rosa, Lispector, Moreira Campos) e de muita coisa ruim (lado B). Creio ter digerido muito e o resultado está aí. Antecipei, de certo modo, o fim do romance. Não sei mais o que é romance hoje. Talvez não saiba nem mesmo o que é literatura. Fala-se em "trânsito", "errância", outros cacoetes de críticos antenados. Escrevi o que senti, o que me deixava amargurado, o que pensava que deveria escrever naquele instante. Fiz um roteiro para não me perder tanto, mas a obra era, sempre foi, aberta. Incluía outros textos e contava sempre com um leitor atento, crítico e participante. O conceito de pós-modernidade se desgastou tanto, ultimamente. Parece que o texto resistiu. Minha aventura foi bem sucedida, avalio.

NM – Nos anos 70, a Internet ainda não existia, mas já se falava no fim do romance e do livro. Muito antes, já se falava no fim do mundo, no apocalipse. As livrarias estavam repletas de best-sellers (romances norte-americanos e ingleses de 500 páginas), biografias de pinups, pinochês e pinóquios, livrinhos que ensinam como ser vencedor num mundo de perdedores. O nouveau roman tinha passado. Joyce já era. Tudo parecia déjà-vu. No entanto, você está tão otimista quanto em 1970, seus livros estão sendo reeditados, todo dia se publicam dezenas de livros, leitores nascem e renascem, leem (e procriam) sem parar e morrem de ler (ou de tédio). Quando será o apocalipse do romance, do livro, da literatura? Ou você prefere não ser profeta ou fundador de crença?

GC – Prezado Nilto, sou gutembergiano de carteirinha. Não acredito no fim do romance, da literatura. Não acredito no fim do impresso. Gosto do contato com o papel, do cheiro da tinta. Sinto um prazer imenso em folhear um livro. Vamos de Gutemberg ao Google num piscar de olhos. Não descarto a Internet. Mas não a cultuo, nem a divinizo. Ela está aí e é fantástica. Mas o livro é mais. Como dizia Mallarmé: "tudo existe para acabar em livro". Em livro e não em pizza.

Detesto essas visões trágicas e apocalípticas. Outro dia, em um programa de tv sensacionalista, um "profeta" antecipava que teríamos um tsunami em Fortaleza, em 2013. Um ano antes da Copa? E para que vai servir o Castelão? E a duplicação das avenidas? E as trincheiras e os viadutos? E o VLT entre Parangaba e Mucuripe? Não acredito. Mesmo com toda a sacanagem que estamos fazendo com a natureza, não acredito em revertério. Revertério maior que o que estamos a viver. Tudo passa, tudo muda e o "coração continua", como cantou Drummond.

NM – Pluralia Tantum veio antes do Parabélum, como livro impresso. O que você escreveu antes do romance?

GC – Comecei escrevendo crônicas para a Gazeta de Notícias. Tudo começou quando prestei vestibular para Comunicação Social. Lá conheci Socorro Trindad, Yehudi Bezerra, colegas que escreviam e que me estimularam bastante. Adísia Sá me levou para o jornal, que fazia parte do Grupo J. Macedo. Escrevi crônicas que foram publicadas em 1969. Era o período da Junta Militar, transição entre os governos Costa e Silva e Médici. Fui acusado de escrever pornografia. Foi a forma mais sutil de me incriminar e de desqualificar o que eu fazia. Dizem que fui "dedurado". Algumas pessoas se compraziam, à época, de procurar os militares para dar nome às bruxas. Saí do jornal (voltei em 1972, editando o caderno cultural Balaio) e juntei o que tinha, fiz mais alguns textos e os publiquei, em 1973, com o título de "Pluralia Tantum". Foi minha estreia e volta por cima. Pluralia trazia o embrião dos "Orixás do Ceará", que seria minha primeira incursão ao teatro, pelas mãos de Marcelo Costa, em 1974. Os perfis das entidades estavam aí. Veio depois outro nível de sincretismo, com a cultura cearense e assim Oxum se tornou uma rainha de maracatu e assim por diante. No final dos anos 1960, início dos anos 1970, tínhamos páginas de literatura e recebi muito apoio e espaço do Antonio Girão Barroso, que foi meu professor na Faculdade de Direito e a quem admirava como homem íntegro e como poeta.

NM – Ainda escreve prosa de ficção? Ou a sua missão (de ficcionista) está cumprida?

GC – Nunca mais escrevi ficção. Meu embate agora é com o real, com o concreto. Não sei se a vida é bela, sei que é dura. Gosto da frase da personagem do Guimarães Rosa: "Viver é muito perigoso". Posso voltar à ficção. Complicado dizer que desta água não beberei. Acho pouco provável, mas as pessoas inteligentes mudam de opinião. E eu creio que posso me incluir entre elas.

NM – Gilmar, vou te enredar nas malhas da maledicência mais infame. Veja esta série de perguntas muito malvadas: Ao longo de nossa conversa, você citou (com carinho) alguns nomes de escritores nascidos no Ceará. Mas não fez elogios. Você se sentiria à vontade, se eu lhe pedisse para falar (resumidamente) da literatura cearense? Quem são Moreira Campos, Francisco Carvalho, Alcides Pinto, Airton Monte, Natércia Campos, Tércia Montenegro? Deixo por sua conta outros nomes. Quem mais merece leitura e estudo? Você é injustiçado nesse sentido? Até agora, somente uns três ou quarto “críticos” se lembraram de sua vasta obra. Cuidado com as respostas, meu caro. Sua vida pode estar em jogo. Cuide-se (da língua).

GC – Prezado Nilto, não tenho medo de polêmicas, ainda que possa achar que muitas delas não levam a nada. Melhor falar dos mortos. Os vivos ainda podem nos surpreender. Veja o caso do Mello Mourão, execrado como colaborador do nazismo e depois um dos nomes respeitáveis da poesia brasileira. Não dá para avaliar na base do não gosto de fulano ou fulana. Também o que gosto não é a última palavra. Sou humano, erro muitas vezes e não pretendo ser Deus (nunca pretendi, ao contrário de Gilberto Freyre que brincava de ser Deus). Moreira Campos talvez seja o maior escritor cearense de todos os tempos. Merece maior visibilidade e reconhecimento. Natércia tinha uma escrita delicada e nunca quis ser clone do pai. José Alcides Pinto me ensinou o que era ser escritor. Vendia o gado para bancar os livros. Tinha a angústia da expressão. Foi meu professor e era muito querido. Francisco Carvalho, Airton Monte, Tércia Montenegro estão bem vivos. Ressaltaria a importância do Juarez Barroso, outro dos meus "mortos azuis", para citar o Carvalho, que não é (infelizmente) meu parente. Não me considero injustiçado. Tenho uma visão muito crítica do que se passou a chamar de Indústria Cultural. Não existe injustiça. Existe investimento. Existe a necessidade da exposição, o circuito da badalação. Estou muito fora disso. O que escrevi e escrevo está aí. Está sendo lido, aos poucos. Nunca quis comendas, galardões, troféus de lata ou título de imortal. Quero escrever, publicar, deixar uma obra. O resto não é mais comigo.

NM – Você escreveu a maior parte de sua obra (prosa de ficção) durante os anos de juventude, tempos de faculdade ou início de sua vida profissional como professor e jornalista. Aquele ímpeto criativo não existe mais? Sua dedicação à pesquisa, ao ensaio, à cultura popular é responsável por isso ou é consequência do fim daquele momento de criatividade?

GC – Tenho tanto ímpeto que visitei todos os municípios cearenses, a bordo de um Fiat Uno e em companhia do fotógrafo (e amigo) Francisco Sousa. Como se diz no sertão: "ainda pulo balceiro". Tenho muito pique e sou determinado. Não desisti fácil das coisas que me interessam. O que acabou foi o interesse pela ficção. Talvez pelo fato de o real se apresentar com mais força. Talvez porque precisasse construir uma carreira acadêmica e não gosto de nada pela metade. Entrei de cabeça na dissertação, tese, artigos, ensaios, etc. Tenho um Lattes bem grande... Falo da Plataforma do CNPq que mostra a produção docente no Brasil. Não quis ser apenas professor de sala de aulas. Viajei com os alunos. Fizemos muitas viagens e eles (elas) pagavam hospedagem comida e rachávamos o aluguel do ônibus. Gosto de escrever. Escrevo todos os dias, nem que seja uma frase, um parágrafo ou anoto uma ideia, um "insight". Adoro meus cadernos, meus bloquinhos de anotações, escritas com caneta com tinha nanquim e letra bem pequena e ordenada. É assim que me sinto bem. Penso que dou alguma contribuição com meus escritos. Tenho essa impressão, mas posso estar equivocado.

Minha intenção foi fazer textos acadêmicos com rigor, mas sem abrir mão da criatividade. Ainda bem que encontrei esse filão de pesquisa e pude desenvolver outros níveis de escrita. Isso reduziu muito minha amargura de ser um escritor sem leitores. Hoje, tenho poucos leitores, mas sei onde eles estão e procuro ofertar o que creio que eles esperam de mim. Entrei de cabeça nessa nova ordem da escrita, da mesma forma que me afastei, até com certa radicalidade, da ficção. No fim, tudo conflui. Talvez tenha tentado apagar essas fronteiras rígidas, esfumaçar limites e mostrar que a escrita acadêmica pode ser prazerosa e sedutora. Não gosto de notas de rodapé. Não me escoro nas citações, como se fossem muletas. Bebo em alguns autores, mas ouso pensar, errar e falar do que me inquieta, do que está ao meu redor. Daí a tradição popular, Patativa, Tv Ceará, publicidade dos "gerentes doidos". Falo do que conheço e me provoca. Sou movido pela emoção, ainda que me considere cartesiano demais para o meu gosto.

NM – Vamos encerrar esta nossa conversa, porque “conversa comprida é para quem tem dinheiro”, como diziam. Você quer se expor um pouco mais, falar deste momento de sua vida? Fique à vontade e obrigado pela paciência.

GC – Vivo um momento bom. Tenho mais tempo para as pesquisas e para a escrita. A experiência do magistério foi muito marcante. Diria que muito boa. Ganhei energia, ritmo e ainda mais disciplina. Agora vou cuidar dos meus projetos pessoais (os quais nunca foram deixados de lado, diga-se). Preferi os ensaios e a carreira acadêmica. Mas ainda posso voltar à ficção. Espero viver muito e bem, com boa qualidade. No mais, a gente toca, vai levando e sendo levado, como diz a canção.

Quem é Gilmar de Carvalho

Nasceu em 1949, na cidade de Sobral (CE). Bacharel em Direito (1971) e em Comunicação Social (1972) pela Universidade Federal do Ceará. Começou como ficcionista (Pluralia Tantum, 1973). Teve peças de teatro encenadas (Orixás do Ceará, 1974). Foi editor do caderno cultural “Balaio” (Gazeta de Notícias, 1972). Trabalhou como redator publicitário da Scala Publicidade e Mark Propaganda, de 1978 a 1984. Professor do Curso de Comunicação Social da UFC desde 1984. Mestre em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo (1991) e Doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP (1998). Professor do Mestrado em História Social da UFC de 2000 a 2008. Integrou o Programa de Pós Graduação em Sociologia da UFC, desde 2000, e do Mestrado em Comunicação Social da UFC até 2010, quando se aposentou. Menção Honrosa do Prêmio Rodrigo Melo Franco, do Iphan, em 1998, por sua contribuição à xilogravura cearense. Vencedor dos Prêmios Sílvio Romero (Funarte, 1999) e Érico Vanucci Mendes (CNPq, 1999). Autor, organizador e co-autor de mais de trinta livros, tem artigos publicados pelas principais revistas acadêmicas brasileiras e algumas do exterior.

Obra de Gilmar de Carvalho

Ficção:
Pluralia Tantum. Fortaleza, Grecel, 1973;
Parabélum. Fortaleza, 2ª edição, Armazém da Cultura, 2011;
Resto de Munição. Fortaleza, IOCE, 1982;
Queima de Arquivo. Fortaleza, IOCE, 1983;
Buick Frenesi. Fortaleza, IOCE, 1985;
Pequenas Histórias de Crueldade. Fortaleza, IOCE, 1987.

O teatro está sendo publicado como
Teatro Completo. Fortaleza, Secult, 2011.

Ensaios principais:
Publicidade em Cordel. São Paulo, 2ª edição, Annablume, 2004;
Madeira Matriz. São Paulo, Annablume, 1998.

Sobre Patativa:
Cem Patativa. Fortaleza, OMNI, 2009;
O sertão dentro de mim. Com fotos de Tiago Santana. Fortaleza;
Tempo d' Imagem. São Paulo, SESC, 2010.

Com fotos de Francisco Sousa:
Artes da Tradição. Fortaleza, Expressão Gráfica, 2005;
Rabecas do Ceará. Fortaleza, Expressão Gráfica, 2006.
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