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quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Da arte do ensaio* (Franklin Jorge)



Escrevendo sobre a arte do ensaio, observa inteligentemente Lúcia Miguel Pereira que o ensaísta escreve como o inglês viaja. Sem, rigorosamente, um centro, pois não sofre a limitação de um único ponto de vista e se movimenta no texto, a exemplo do flâneur, em todas as direções. Claro está que ao afirmá-lo ela pensava não nos ensaístas acadêmicos – que proliferariam depois –, mas nos humanistas infensos às fórmulas feitas e aos modismos passageiros.

Em literatura, lendo e escrevendo, o ensaísmo terá sido meu maior e mais duradouro interesse. Ainda adolescente, desde que me abeberei do gênero, senti estar diante de uma forma de expressão capaz de satisfazer-me plenamente, como motivo de criação e como objeto de leitura, por responder naturalmente às indagações do meu espírito inquieto e fatigado.

É o ensaio um meio especialmente adequado à construção do pensamento, à investigação, à reflexão e à análise, pois comporta cabalmente todas as variações, constituindo-se assim, por excelência, uma enciclopédia de sugestões e idéias. E, sobretudo, um deleite para o espírito que se recreia no usufruir intelectual da leitura, por sua vez uma arte mutante, pois depende inclusivamente da cultura do leitor.

Reflete a ensaísta carioca, célebre por seus estudos sobre Machado de Assis, que, além disso, o ensaio se adéqua, como expressão estética, à natureza excêntrica do inglês. Ela se refere ao ensaísmo praticado não por Montaigne, mas por Bacon – os criadores do gênero –, embora tão diversos entre si, como um inglês consegue sê-lo de um francês, podem ser contados entre os mais notáveis ensaístas de todos os tempos.

No Brasil o ensaio tornou-se um gênero especialmente universitário e, como tal, submetido e diminuído pelas fórmulas acadêmicas que se comprazem em excluir o prazer do texto. Em resumo, um gênero que não espicaça o apetite do leitor – que só o prestigia quando coagido a realizar leituras obrigatórias –, nunca motivado pelo prazer, que deve ser o grande estímulo da leitura, segundo a lição prodigada por Borges, um mestre nessa arte que requer cultura e desprendimento. Por isso, disse-o Voltaire em defesa dos gêneros literários – todos são bons, exceto o enfadonho, como costuma ser o produto intelectual dos acadêmicos sem talento em busca de titularidade e de recheio para a folha de serviço.

Parece-me que o ensaísmo seria a expressão cabal de um humanismo inquiridor, vivo e inquieto, propenso ao dialógico, pronto a expandir-se em ilações, como ocorre atualmente no âmbito do romance, por sua natureza, enciclopédico e não subordinado a um único ponto de vista. Desvirtuado e empobrecido por autores sem carisma, o ensaio encontrou um refugio no romance, passando do âmbito das humanidades para o domínio da ficção.

* Do livro O ESCRIVÃO DE CHATHAM: Crônicas Sobre Livros e Autores (inédito).
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