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sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Lassidão e euforia de leitor exigente (Nilto Maciel)


Ainda não consegui arrematar um conto iniciado há alguns meses. Todo dia acordo com a intenção de me dedicar a ele. No entanto, as mensagens dos amigos (quase sempre recheadas de poemas, narrativas, crônicas e artigos) me conduzem a leituras demoradas. Além disso, o carteiro, dia sim, dia não, grita meu nome. Ocupado, também grito: Pode jogar por cima do muro. Não posso, Seu Nilto; é livro. Zeloso, não quer deformar o objeto. Pois neste setembro venturoso recebi uma dezena de publicações. Algumas ainda estão no escaninho reservado aos papiros a serem lidos, como Eu tenho medo de Górki & outros contos, estreia de Ângela Calou; Libido aos pedaços, novo romance de Carlos Trigueiro; quatro tomos de Péricles Prade; e um ensaio de Álvaro Cardoso Gomes e Eliane de Alcântara Teixeira. As que li foram Memorial Bárbara de Alencar & outros poemas, do Poeta de Meia-Tigela (tratei dele no escrito “Dona Bárbara de um poeta”), e as oito às quais me referirei nesta nota. Que me desculpem os colegas, por não dispor de mais tempo e não ter ânimo (talvez deva dizer talento) para engendrar uma resenha. Ou uma para cada obra.

Os autores são Anchieta Rocha, Assis Coelho (dois volumes), Diego Mendes Sousa, Hilda Mendonça, Jesus Irajacy Costa, Kelson Oliveira, Lourdinha Leite Barbosa e Nara Rios (numa “antologia” com outros poetas de todo o Brasil).

O impresso de Anchieta Rocha é O sumiço das estrelas (São Paulo: Clube de Autores, 2010). Na segunda aba há estas informações: José de Anchieta de Assis Rocha nasceu em Pitangui, MG, formou-se em Letras, lecionou inglês e literatura. Em 172 páginas, o romance está dividido em pequenos capítulos sem numeração e sem título. A linguagem é a mais coloquial possível, num bom falar mineiro, sem atenção para as normas gramaticais. Inicia-se assim: “Segunda-feira chego tarde no serviço de novo”. Para o leitor mais velho, a história transcorre suavemente, em recordações. Primeiro aparecem Monica Vitti, Brigitte Bardot, Ava Gardner. Vive-se o tempo do rendez-vous, das festinhas, da música (long-play) de Anísio Silva. Parece que o Brasil era um só país, de norte a sul: só se conhecia (cinema, música, jornal, etc) o que vinha de fora ou do Rio de Janeiro. Tudo é recente: o pessoal do Ceará; a música caipira (sertaneja); o cinema pernambucano ou gaúcho; a literatura mineira, etc. Contradição?

O cearense Assis Coelho, morador do Distrito Federal, me mandou dois impressos: umas composições curtas e um romance. Homens de fumaça traz prefácio de meu amigo Joilson Portocalvo e 16 peças ficcionais, quase todas reduzidas. Para o prefaciador, “a crueza e nudez da realidade transbordam destes textos pungentes. O quotidiano sem disfarces está presente em toda narrativa.” O volume é pequeno: 68 páginas. O outro é Lima Barreto, um caminhante libertário. Pelo rótulo, o leitor se dirá diante de um ensaio biográfico. Geraldo Lima, bom contista e romancista do Distrito Federal, assim apresenta a obra de Assis: “Seguir os passos do autor de O triste fim de Policarpo Quaresma pelas ruas do Rio de Janeiro, no início do século XX, e conhecer de perto seu dia a dia de miséria e revolta, de lucidez e embriaguez, agora já é possível. Para tanto, basta mergulhar na leitura deste romance de Assis Coelho”(...). A peça tem este início: “Quando acordou, viu que o livro O jogador, de Dostoievsky, estava sobre seu ventre. Não rezou, preferiu ler mais umas páginas do seu mestre”. Encera-se o romance com o velório ao corpo morto do grande escritor.

De Diego Mendes Sousa é Fogo de alabastro, poemas em português e espanhol. Impresso de bom aspecto, desde a capa. As abas estão preenchidas com texto do próprio Diego. Folhas em branco, breve informação do poeta (natural de Paranaíba, Piauí, 1989): fundador de jornal, antologiado, premiado, traduzido, com três obras publicadas: Divagações, Metafísica do encanto e 50 poemas escolhidos pelo autor. Na ficha catalográfica vê-se o nome do editor: Jorge Tufic, um dos nomes fundamentais da poesia brasileira. Seguem-se três folhas de dedicatória: a Benjamim Santos, Luiz de Miranda e Lêdo Ivo. Mais uma nota explicativa (sem título e assinada por Diego): “Fogo de alabastro revela o Amor em distinta linguagem”. No verso (sem trocadilho), significado de “alabastro” e “alabastrino”. Não me perguntem por que. Para finalizar, a quarta capa traz palavras de Lêdo Ivo: “A poesia de Diego Mendes Sousa se levanta como um jorro matinal, um arrebatamento lírico nutrido pelos instantes estilhaçados de um dia explosivo”. E fotografia de meio corpo de um jovem (suponho seja do próprio Diego).

Hilda Mendonça me enviou o pequeno (infantil) Jatanay, conto para crianças (não gosto da designação “literatura infantil”). A escritora mora em Passos, MG. Viveu em Brasília por muitos anos. É muito provável que a tenha conhecido quando lá morei. O livrinho tem ilustrações singelas ou ingênuas (nem poderiam ser complexas, enigmáticas) de Antônio Inácio da Costa. Inicia-se assim: “Era uma vez uma praia misteriosa e mágica. Ali viviam algumas figuras interessantes que ninguém sabia quem eram nem de onde vieram, mas elas foram chegando, foram ficando, até que um dia...”. A protagonista da história é uma “velha tartaruga” de nome Jatanay. Outros personagens são o Pato Fuleiro, Menino-Belo, Abelhinha Zombeteira, Dona Lua e Dragão. O lugar? Praia do Solavanco. E nada mais direi.

Contos farpados é o nome da primeira coleção de Jesus Irajacy Costa, um dos vencedores do Prêmio Moreira Campos, da Secretaria da Cultura do Ceará, em 2010. Publicação de fina aparência (capa e concepção gráfica de Glauco Sobreira), da Expressão Gráfica, de Fortaleza. Na primeira aba vem Pedro Salgueiro, que interpôs, pelo menos, uma dúzia de palavras elogiosas: “relatos instigantes e bem contados, de temática e ambientação variadas,” elaborados com “talento, trabalho e acuidade verbal”. Na segunda, informações biográficas do escritor: nascido em Fortaleza (1963), médico, professor universitário, alguns prêmios literários. Fernando Siqueira Pinheiro, também médico e escritor, é autor do prefácio. Salienta no contista a “linguagem clara e fluente”, “o gosto pelo fantástico”, bem como a capacidade de “inserir no texto elementos de alegoria que se traduzem em uma linguagem metafórica, dando à prosa um tom poético e filosófico”. No posfácio, Pedro Henrique Saraiva Leão, poeta e médico mais vivido, lido e escrito do que os outros nesta nota mencionados, expõe (didática e encantadoramente) a suma do que seja conto, para situar o nosso Jesus escritor como um típico “contista moderno”, criador de “narrativas adrede inconclusas”. Por fim (não deixaram para mim uma linha sequer), nada mais tenho a dizer, porém me comprometo, com leitores e Irajacy, a dedicar, pelos menos, mil palavras aos Contos farpados, numa resenha, numa crônica ou num artigo. Não sei quando. Nem se cumprirei a promessa.

Do também cearense Kelson Oliveira são Os trabalhos de amor e outras mandingas. Compêndio de 220 páginas, entremeado de desenhos de Marcos Queiroz. Para que o leitor saiba do que se trata, há um subtítulo: A experiência mágico-religiosa em terreiros de umbanda. Pronto: não se trata de romance, novela ou coleção de peças ficcionais menores. Porém, Kelson é poeta (bom poeta), autor de Quando as letras têm a cor do sonho e Para comover borboletas. Mestre em Ciências Sociais e antropólogo, mostra no livro aqui mencionado o resultado de uma pesquisa (dissertação) para o mestrado em Antropologia da Universidade Federal do Rio Grande Norte. Segundo o professor Luiz Assunção, no prefácio, “o pesquisador parte ao encontro dos terreiros, estabelecendo lentamente relações próximas e duradouras com os pais e mães de santos, seus adeptos e frequentadores”. E o que significou isto? “Uma contribuição singular aos estudos do universo religioso afro-brasileiro, seja pela reflexão sobre as noções de ‘trabalho’ e experiência mágico-religiosa, seja por mergulhar no âmbito mais íntimo e profundo dos sujeitos – a sua emoção”.

Analisei a primeira coletânea de composições curtas de Lourdinha Leite Barbosa (A arte de engolir palavras), no mesmo ano de sua publicação. A segunda (Pela moldura da janela & outras histórias) recebeu um prêmio da Academia Cearense de Letras. A psicóloga Beatriz Jucá (nas abas) alerta o leitor para a habilidade da escritora cearense em “construir personagens, desembaraçar mistérios e desenredar sentimentos”. Na apresentação interna, a psicanalista Laéria Fontenele aborda também questões de linguagem ou discurso narrativo: (...) “uma primeira pessoa se incrusta na pele do aparente narrador externo, pois, a intensificação do discurso indireto-livre e o expediente da polifonia fazem com que as vozes narrativas muito se aproximem da emoção do leitor, por conta da presença do tom confessional”. Lourdinha é moderníssima. Há muito se livrou do narrativismo sem controle, do descritivismo pictórico, do dialogismo sem fim e de outros cacoetes herdados da literatura medieval (muito praticada, ainda, por escritores de fama nacional e internacional, louvados nas folhas culturais do centro cultural do Brasil, estudados nos cursos de Letras, etc). Lourdinha não é desses contadores de história que vivem por aí. Nem sequer conta histórias. Já passou dessa fase infantil e está madura (não velha) como os verdadeiros criadores literários.

Por derradeiro, breve notícia da Antologia de poetas brasileiros contemporâneos (rótulo pomposo), editada por Georges Luiz, no Rio de Janeiro. A publicação me foi dada por Nara Rios, que mora em Sobral, Ceará. Não conheço (nem de ouvir falar) nenhum dos cerca de 90 poetas reunidos no livro. São jovens de quase todas as unidades da Federação. Não há nenhuma referência à idade ou bibliografia deles. O poema de Nara (“Estrelas e corujas”) eu já conhecia. As estrelas brilham, vivem muito, morrem, mas deixam luz. As corujas “vivem no alto” (como as estrelas?), destroçam suas presas e continuam calmas e alertas. Nós, humanos, somos como estrelas e corujas?

Encerro esta nota com cara de resenha, entre lasso e eufórico. Lasso pelo dever (de leitor exigente) cumprido; eufórico por me desincumbir de mais uma tarefa. E ansioso para rever meu conto inconcluso.

Fortaleza, 27 de setembro de 2011.
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