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sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Luciano Bonfim e as brumas do éter (Nilto Maciel)




(Luciano Bonfim)


Compor estas crônicas – vistas por alguns leitores como contos – quase me levou ao desespero. Para realizá-las, fiz das tripas coração. Ou, melhor, da vontade, invenção. Faltava-me memória. Burro parado no meio (ou no começo) do caminho, eu me esporeava, me insultava, me instigava. Inventava fatos, episódios, gestos, falas. Pois nunca convivi com nenhum dos personagens que habitam o mundo deste livro. Vi-os uma, duas, três vezes, no máximo. Ouvi-lhes umas ou poucas palavras.

Luciano é mais uma das minhas criações de ócio. Nem sei quando se iniciou nas letras, como leitor e escritor. Não sei quais são seus hábitos. Não frequenta minha casa. Não me surrupia livros. Não fala mal dos colegas de verso e prosa, quando me encontra. Não se lamenta da vida, do trabalho, do calor, do trânsito de carros. Não sei, portanto, quem é Luciano Bonfim. Porém, quero escrever, pelo menos, mil palavras sobre ele. Para começar, uma informação literária: Estreou em 92, com um livrinho de poemas mimeografado. Eu ainda andava pelas avenidas de Brasília, a sonhar com as ruas de Fortaleza e as ruelas de Palma e nem sequer sabia de sua existência. Uns dez anos depois, Pedro Salgueiro mo apresentou. Depois o vi abraçado a uma senhorita de fala arrevesada, envoltos nas brumas do éter. Ele me lembrou algum amigo de trinta ou quarenta anos atrás, tempos de passeatas estudantis, encontros revolucionários, idos de 68. No cenho, uns óculos de aros escuros e lentes grossas. Na testa, um topete de adolescente pronto a enfrentar o mundo. Nos lábios, um sorriso de deboche. Mora em Sobral – completou Pedro.

Estive algumas vezes na Fidelíssima Cidade Januária de Acaraú. A primeira vez deve ter sido por volta de 70, a trabalho. A segunda se deu a convite de Luciano. Para uma palestra na Universidade do Vale do Acaraú. Eu não o conhecia direito. (Vira-o, pela segunda vez, por pouco tempo, numa noite, em meio a uma bebedeira, num bar do Dragão do Mar). Era noitinha, quando o ônibus me deixou na rodoviária. Cansado de estar sentado, doido por uma cerveja e uma conversa fiada, peguei um táxi para o centro. Deixou-me o motorista numa praça movimentada, diante de uma igreja, quiosques com mesinhas e cadeiras. Olhei para os lados. Cadê o homem? Tínhamos marcado encontro ali. Perdido e tonto, não vi a motocicleta que parou ao meu lado e dela saltou, lépido como um assaltante, o esperado Luciano: Olá, Niltão, meu mestre! Não dispunha de tempo para conversa. Estaria no palco em cinco minutos (peça escrita por ele) e queria me ver na plateia. Recusei montar na garupa da moto. Então nos veremos após a encenação, à porta do teatro. E sumiu na noite, feito bala. Sentei-me numa cadeirinha de plástico e pedi cerveja e alguma carne. Quase me embriaguei. No dia seguinte, proferi palestra para mais de cem alunos. Fui aplaudido, como se tivesse cantado uma canção da moda. De garganta seca e vontade de mentir, corri para o bar, com Luciano. Mal nos abancamos, três jovens nos cercaram. Imaginei leitoras de poesia ou atrizes. O senhor é professor? Nunca fui professor de nada, mas precisava corresponder às expectativas delas. De quê? Filosofia. E logo passamos a Hegel, Kant e Nietzsche. Ora, eu só sabia os nomes deles. Como poderia imaginar que aquelas três pimpolhas estudassem exatamente filosofia? Para tentar me salvar do vexame, pedi socorro a Luciano. Sabem como ele me socorreu? Passou a fazer elogios aos meus (fictícios) ensaios sartrianos.

O segundo livrinho de prosa de ficção de Luciano se intitula Dançando com sapatos que incomodam. Li-o numa noite de insônia, após assistir ao filme Os sete gatinhos, de Neville d’Almeida. Após a leitura e algumas anotações a lápis no próprio volume, senti sono. Sonhei com mulheres extremamente devassas e acordei pelo menos três vezes, mais transtornado do que no início da noite. De manhã, cansado, dor de cabeça, faminto e febril, escrevi o artigo “A versatilidade verbal de Luciano Bonfim”. Uma das frases é esta: “Muitas de suas composições são bem curtas, constituídas de diálogos breves, quase enigmáticos. Outras são compostas apenas de uma fala e uma narração breve”... E fiquei a pensar se há alguma relação entre a compleição física de um escritor e sua obra. Luciano é fleumático, não para, vive a correr. Talvez nem durma sossegado. E gente assim é incapaz de produzir obras de ampla estrutura, como sinfonia, romance ou mural. Para Soares Feitosa (estávamos num bar do Dragão do Mar), o rotundo Honoré de Balzac só poderia ter escrito romances volumosos, quase infindáveis, enquanto o seco Jorge Luis Borges não conseguiria ir além de contos e poemas. Carlos Emílio gargalhou. Não concordava com aquela teoria. Graciliano, magro como um sertanejo, escreveu romances. Jorge Pieiro se voltou para Luciano: Este rapaz tende a engordar, como quase todo ser humano. E então chegará ao romance de 500 páginas. Luciano ria muito: Não, meu caro, não sou romancista (ainda) por opção e, se sou magro, talvez deva isto à fome de professor no Brasil. Meti-me na polêmica: Não estamos a falar de tamanho, volume, massa, mas de gordura, que é massa aparente, enganosa. Pode também não ser uma questão de gordura, mas de temperamento (tempero?). Carlos aumentou o volume da voz: Agora temos aula de culinária? Passamos a outros assuntos e a outros insultos. Luciano apenas ria. Certamente fazia anotações mentais para outros “contos” de meia página.

Fortaleza, julho de 2011.
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