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terça-feira, 13 de setembro de 2011

Márcia Barbieri: fogo e magma (Nilto Maciel)



Como todo leitor, leio tudo. Desde pequeno adquiri o vício de ler paredes e caibros, chão e teto, sapatos e pés, pernas, coxas e ancas, boca e olhos, testa e cabelos, tristezas e sorrisos. Leio as pessoas em movimento ou paradas. Os bichos também. Os ventos, o calor, o frio. Leio o céu, as nuvens, a chuva, as estrelas. Leio livros. Do título à última capa. Leio as abas e o prefácio, após a leitura da obra. Nunca antes. E assim o fiz com a nova coleção de composições ficcionais de Márcia Barbieri: As mãos mirradas de Deus (Rio de Janeiro: Multifoco, 2011). Primeiro li os contos (serão mesmo contos?), fiz algumas anotações num caderno, após um café com leite e tapioca, no Shopping Benfica, numa tarde de setembro. Sentei-me numa cadeira na “praça de alimentação”. Meninas se beijavam, se alisavam, segredavam carícias. Noutras mesas, jovens imberbes também se acariciavam e faziam juras de amor eterno. Aquilo não me tornava mais viril, mas me incitava a ler Márcia. Por mim passou João Soares Neto, o dono do lugar, me fez um elogio e saiu a sorrir. Na mesa ao lado, um coronel da reserva lembrava uns “áureos tempos da revolução”, enquanto chupava gelo e uísque. Uma senhorinha passou e me viu a ler. Perdi a concentração e fitei a vista nas ancas dela, que viu meu olho aceso, caminhou mais, parou e voltou. Boa tarde. Está lendo? Não durou muito o diálogo e voltei às mãos mirradas de deus.



A apresentação de Márcio Almeida não me cativou como as pupilas da senhorita do shopping. Daniel Lopes (conheço umas narrativas dele), no entanto, conseguiu me prender à cadeira: “Tudo neste As mãos mirradas de Deus é feminino, dionisíaco, poético, esquerdo. Márcia pratica uma prosa que se enlaça e se envolve com a poesia. Embora seja prosa, nada é prosaico, nem superficial. Como é característico da poesia, a autora só traz à tona o essencial, o que é fogo e magma”.

Márcia dá voz a personagens masculinos e femininos. Não tem preferência por uns ou outros. O narrador de “As mãos mirradas de Deus” tem “ódio inexplicável pelas crianças” e, por isso (?), passa o tempo a recordar a infância. A narradora de “Sangria nos meus olhos mortos” fala em “vagina de puta cansada”. O homem de “A matança” foi “menino mau” e tira conclusões alarmantes: “O tempo é uma puta despencando filhos de sua vulva raivosa”; “todo quintal termina num abismo”. Em “Repicam os sinos enferrujados” o leitor só percebe a natureza feminina da protagonista quando ela afirma: “Minha saia varria e deixava rastros”. Em “Placenta” duas mulheres dividem o palco. Em “Via-Láctea” um homem relembra antigos conhecidos: “O moço de cabelos compridos e anarquista agora anda de terno”. Em “A rotina do tempo” mulher (poderia também ser homem) reclama da solidão: “Os meus dias também são longos”.

Os narradores de Márcia, sejam homens ou mulheres, não são atores e, muito menos, espectadores. Não participam de atos ou ações. Se veem isto ou aquilo, quase nada dizem. Como se estivessem no teatro da vida muito depois das cenas, dos dramas, das tragédias. Não lhes interessam os enredos, as tramas. Para o leitor (ouvinte) é como se não houvesse propriamente conflito. Ou o incidente fosse contado resumidamente: fulano morreu. Nada de relatar a morte, o fato, mas apenas o pós-fato, o resultado. Há como uma opacidade nas frases, um remoer de imagens (“ensacar figos”; “marimbondos rondam o quintal”). Vez ou outra, lê-se uma narração, muito breve, que mais parece observação: “O desconhecido é uma puta oferecida”; “Cena hedionda”; “O tempo é um cão cego e sem faro a nos guiar”; “Estou tão debilitado que, durante toda essa conversa, penas passei do corredor para a tristeza unida do quarto”. São apenas ruminações. Os atos são quase imperceptíveis: “Olho através da janela”. Em não havendo ações (na visão do narrador), não haverá narração. O narrador parece estático, paralisado, inerte, a contemplar o mundo ao seu redor, a evocar fatos, imagens, falas. Suas e dos outros (que também não têm nome explícito). O outro ou os outros estão quase sempre ausentes (o narrador refere-se sempre a um passado muito distante e a um lugar longe de onde se encontra). Narra, por isso, lembranças. Não suficientes para compor uma história. São vagas reminiscências que se perdem na retina do narrador.

As peças que formam As mãos mirradas de Deus (apenas 26) são curtas. Não tão curtas. Não se enquadram no chamado miniconto. É que Márcia Barbieri não perde tempo (ou não toma o tempo do leitor) com narrações minuciosas de atos humanos corriqueiros e, muito menos, de discursos inúteis. Como diz Daniel Lopes, ela só traz à tona o essencial. Deixa o supérfluo para os que não têm nada a dizer/escrever.

Fortaleza, 11 de setembro de 2011.
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