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domingo, 23 de outubro de 2011

Sobre o Mito de Sísifo (Emanuel Medeiros Vieira)



Nascido na mitologia grega, há várias versões sobre Sísifo, que foi o fundador de Éfira, que mais tarde veio a chamar-se Corinto. Ele era considerado o mais astucioso dos homens, mas incorreu na cólera de Zeus. Este lhe impôs no inferno o castigo de ter de rolar até o alto de uma colina uma grande pedra para baixo; essa tarefa recomeçava incessantemente, numa punição eterna.

Albert Camus escreve uma obra célebre sobre o tema, intitulada “O Mito de Sísifo”, que marcou várias gerações (pessoalmente, li esse livro várias vezes), quando o estudo da mitologia e da filosofia era respeitado e valorizado em nossas universidades.

Para muitos, seria ele a metáfora do herói estóico. Sofre o maior dos castigos: ter de rolar até o alto de uma colina uma grande pedra para baixo e, além disso, precisa recomeçar essa tarefa sem parar. Essa obrigação, dever ou danação, lembra a noção do absurdo. Para muitos existencialistas, o absurdo é a evidência que desperta. Quer dizer, mesmo que Deus não exista, que o homem seja finito, que a justiça e o bem raramente triunfem, a missão dos viventes não é inútil. Significa que o mérito de uma obra é tê-la feito. Simplesmente isso: tê-la realizado. Que não se espere gratidão, que não se conte com a valorização alheia por posturas dignas num mundo corrompido. E preciso ter uma ética pessoal, calcada não na retórica, mas na vida. Isto é, é preciso ser autêntico. Por isso Camus encerra sua bela obra afirmando: “É preciso imaginar Sísifo feliz”. Então, a vida não é justa, nem injusta. Simplesmente é. Não caberia dizer: “ele é tão bom, não mereceria sofrer”. Porque não adianta. Com estoicismo, é preciso estar preparado para tudo. Essa é a lição que fica. Num mundo pós-utópico, absolutamente fragmentado, em que a ânsia da totalidade nunca é concretizada, no qual reina o desencanto, e também a resignação e a passividade, a capacidade de resistirmos com ética e honra se torna, talvez, nossa missão maior neste planeta. Formou-se uma comunidade de consumidores, não de cidadãos. Em um mundo árido, carente de ideais maiores, o mito de Sísifo torna-se cada vez mais atual.

Noutra versão, Zeus revoltado com Sísifo, ordenou que Tânatos o matasse. Sísifo usando sua astúcia, acorrentou Tânatos (gênio masculino que personificava a morte, irmão de Hippos, o sono), de tal maneira que ninguém mais morria. Seria, o mito de um homem eterno, não finito. O próprio Zeus teve de compelir Sísifo a libertar Tânatos, que novamente em sua função de pôr termo à vida das criaturas humanas, matou sem demora Sísifo. De volta à terra, depois de voltar do inferno (Hades), Sísifo viveu, nessa versão, até a extrema velhice.

Brasília, setembro de 2010
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