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sábado, 19 de novembro de 2011

Atrás da porta (João Soares Neto)


 
As varizes nos membros inferiores faziam-no andar arrastado. Já operara duas vezes e elas voltavam. Pareciam formiguinhas andando dentro de suas veias, especialmente na região da panturrilha. Aprendera esta palavra com o cirurgião vascular que o operara. Achava bonito e até ficava contente em dizer a Joan, sua descrente mulher, que as panturrilhas estavam doendo mais.

Aquele era o seu último quarto de fiscalização. Das 6.00 às 9.00 horas da manhã ficaria andando entre materiais de construção, andaimes e uns poucos operários que cuidavam daquela reforma que já deveria ter terminado. Apanhou a sua ficha e saiu inspecionando. Esteve no primeiro posto e conferiu. Andou mais 100 jardas e teve que repetir a mesma rotina. Sua vida toda tinha sido assim. Desde que conseguira, na década de 60, após os graves incidentes pelos direitos do negro, aquele seguro e estável emprego na Secretaria da Defesa dos Estados Unidos e era ali no prédio do Pentágono que passara os últimos trinta anos trabalhando.

Orgulhava-se de sua farda quando descia de sua Chevy para fazer compras no supermercado. Era, muitas vezes, confundido com militar e isso lhe dava prazer. Naquela manhã de 11 de setembro completava o tempo de sua aposentadoria. Depois, iria pescar em um canto ainda piscoso do Rio Potomac e fazer churrascos de frango no quintal de sua casa. Os dois filhos tinham tomado destino. Joan e ele trocavam rabugices há tanto tempo que riam das implicâncias de um com o outro.

No terceiro posto, ouviu um barulho. Cauteloso, por conta da idade e do hábito, comunicou pelo rádio que havia detectado um barulho atrás da porta 76-Z e aguardava instruções. Chegaram dois jovens seguranças afogueados e um sargento de olhos ainda remelados. Sacaram de suas armas e abriram a fechadura de segredo. Em meio a sacos de argamassa um casal de esquilos roía um grosso pedaço de madeira. Riram os três, ouviram um barulho ensurdecedor e não tiveram tempo de fugir da grande parede que caía.
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