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sábado, 12 de novembro de 2011

Entre a violência e a beleza (Henrique Marques-Samyn)




Vida cachorra é o quarto (e mais recente) livro de Mariel Reis. Como não conheço seus livros anteriores, não posso estabelecer entre eles um juízo comparativo; não obstante, se isoladamente analisado, Vida cachorra apresenta as qualidades próprias de um escritor experiente, que maneja habilmente os recursos narrativos e explora uma ambiência que lhe é familiar. Por suas características formais − o uso de frases curtas e de uma linguagem eivada pelo calão, recursos adequados à construção de contos envolvendo personagens típicas da urbanidade brasileira, sempre encerrando algum nível de violência física ou psicológica −, o volume representa exemplarmente uma certa tendência da nossa literatura contemporânea.


Vida cachorra apresenta as qualidades próprias de um escritor experiente, que maneja habilmente os recursos narrativos e explora uma ambiência que lhe é familiar


Não se pode negar que Mariel Reis produz um texto que, por sua proposta realista e por sua agilidade narrativa − que dão aos contos de Vida cachorra um cariz quase jornalístico −, está em perfeita consonância com o modus vivendi da urbanidade atual. Há em seus contos uma incontornável concretude, que força os limites da ficcionalidade; com efeito, nosso cotidiano enseja inúmeros episódios semelhantes aos figurados na obra − sobretudo quando, por força das tensões latentes, a agressividade eclode de maneira súbita e avassaladora. Essa adesão ao real, contudo, é também traiçoeira, por suscitar o risco de um mero espelhamento. Façamos um paralelo com as obras de fotógrafos como Henri Cartier-Bresson e William Klein: o que as diferencia de fotografias tiradas casualmente nos cenários urbanos é justamente o fato de que recortam, na matéria-bruta do real, os momentos que superam a trivialidade por sua qualidade estética. A essência do método de Bresson pode ser aplicada à literatura: a obra nasce da síntese do instante significativo com uma precisa organização formal.


Em Vida cachorra, há textos nos quais Mariel Reis demonstra o raro talento de conjugar esses elementos − textos nos quais sua escrita figura situações-limite, que passam despercebidas ao olhar ordinário: o despejo de uma avó e sua neta, aliás abandonada pela mãe, induzidas, por seu estado de privação, a ressignificar todas as relações de posse; o homem que, em situação de rua, recusa-se a ser removido sem o seu cachorro, único a acompanhá-lo na solidão. Como as outras narrativas que compõem o livro, também estas são violentas; contudo, há nelas um diferencial: uma força lírica que equilibra a estrutura ficcional − do que resultam contos que, para além de constituírem uma mera apropriação literária da violência, problematizam a débil condição à qual tantos são condenados na contemporaneidade. É em narrativas assim que Mariel exibe um notável talento para perscrutar os subterrâneos urbanos e deles arrancar uma beleza inesperada; ao construir um texto sobre suas vozes, atinge a modulação precisa que perfaz a pungência a partir dos silêncios. Então, não mais se trata de meramente incorporar ao texto literário a brutalidade que nos envolve, mas de provocar um questionamento sobre o que fazemos de nós mesmos e daqueles que nos cercam; de construir, enfim, uma literatura fundamentalmente crítica. Como um escritor que, ao fazer de seus personagens os impercebidos no cenário urbano, ultrapassa a superfície documental e desvela os conflitos interiores. Ou como um fotógrafo que, em vez de meramente registrar o cadáver, flagra o momento em que o assassino está prestes a apertar o gatilho.


Fonte:http://clavecritica.wordpress.com/2011/10/24/entre-a-violencia-e-a-beleza/#more-256
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