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terça-feira, 29 de novembro de 2011

Quando me casei com a Poesia (Carmen Silvia Presotto)


Quando me casei com a poesia, não sabia o que era casamento, menos ainda poesia.
Abanava as tranças
Andava em balanços
Girava na gangorra
Inventava palavras
Escutava Cecília, Bilac e Quintana em meus sábados infantis...
Quando me acasalei com a poesia, não sabia de mim, não sabia dos dias, lia a outros, buscava outras em mim. Lia romances, biografias, jogava cartas, arrastava tamancos, inventava palavras e escrevia sonhos no ar, desenhava no mar, esculpia o vento, reanimava um tempo duro, condensava rimas metáforas em deslocamentos cantantis com Chico, Caetano e Gil.
Fazia estripulias
Andanças mil
Cortamos as tranças
Acorrentamos os balanços
E as gangorras não voavam mais, só tinham um giro. Ditos duros, palavras incertas, metáforas encavernadas, dedos ululantes em fila atrás de música poesia...
Quando engravidei da Poesia, culpei A Rosa do Povo de Drummond, A estrela da Manhã de Bandeira, As Solombras de Cecília, Os Baús de Quintana, O Poema Sujo de Gullar, As Galáxias Concretas dos Campos Concretos, até porque Woolf, Plath, Maiakóviski, e tantos outros cabiam ali... e me apaixonei por Aquitânia, e o cancioneiros provincialMentes, com A Saga dos Plantagenetas de Plaidy, comprada na banca da esquina chegaram a mim..

II
A primavera já era em Praga, os cinemas Bergman, os Morangos de Caio me ajudavam a compreender os tempos mofados, Lispector me queima com sua Água Viva, o buquê de versos, se ampliam e aí, os cabelos podavam o que a mente não podia ainda revelar, curtinhos, ágeis, substituíram as tranças, as borrachas dos sutiãs queimavam, os cadarços das botas se afunilavam e por sorte havia Vinícius por aqui... entre idas e vindas... foram voltando os cancioneiros, os poetas e as tranças meninas, com elas chegaram Sócrates, Platão, Nietzche, chegaram Krusteva, Saussaure, e a poesia castelhana para me soprar as pautas de Machado ... Pessoa chega intensamente e com ele Camões e com ele Shakespeare, e com eles um fila de bardos, o meu texto virou uma gangue, o balanço uma ressignificação e as palavras começaram a ser escovadas, esculpidas...

Veio Picasso, veio Magritte, na caravana um cortejo de imagens. Veio Bresson, e revejo Eisenstein, abro uma História em minhas artes e o que já estava se amplia, olho pra trás e todos estavam lá desde o Jardim da Infância, no olhar que educa, que conduz, que transmite. Veio Shüler, veio Joyce e os jogos ficaram mais poéticos, veio a Internet, veio o espaço e o tempo mais flexível... veio A Poesia Erótica, veio José Paulo Paes e com ele: gregos, romanos e surrealistas. Veio Whitman, Baudelaire, Rimbaud me recompondo Mallarmé, me transcrevendo de Apolinaire a Breton e Peret etimologias e fundamentos ao casamento.

E hoje, despertei, busquei uma aliança de diamante pra, reforço casamento poético, estico as tranças do tempo até aqui no leito em branco, renovo as núpcias com Proust, abro meus Postigos e seguimos em busca do tempo perdido, sim, aquele que ainda está por vir...

Quando casei com a poesia, foi quando mais amei os Livros, hoje refaço o pacto, retorno a eles, recomponho as estantes de minha vida, tiro o pó de algumas páginas, faço delas dorso e travesseiro, debruço-me nos contemporâneos e me encontro com os clássicos ...

Rio, sim. Imaginem vocês, fui atrás de Augusto de Campos, e cai justo em A Ira de Aquiles – Canto I da Íliada de Homero. MHNIE dele e Trajano Vieira... bem, e morto Aquiles adentramos novamente na Odisséia e a Poesia em mim filosofa, inventa e versa e reversa e controversa e conVersa e, quando me dou conta, volto à Provence, para me reencontrar com os Bardos feito uma evasAlma que se rebusca, reforço o batom, rego a Amorréia, Esfolisco o transcurso e repasso o prefácio, logo estarei repassando, porque seria injusto retê-lo, ele diz de mim, ele diz de nós, ele funda o casamento poético em Vidráguas, em Anáguas, nas redes sociais que estudamos e projetamos.

No mais, podem nos prender, podem nos bater, podem nos esfolar, como diz Nara Leão, mas sem palavras, sem imaginação, sem língua que age, meu eu não sobrevive não... E poeticamente(s) seguimos, sigamos, no presente, que é o tempo da gente, seja indicativo, seja subjuntivo, mas seja sempre em Poesia, em mim um casamento imperativo.
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