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quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Braúna (W. J. Solha)


Li, dele, os contos de Como um cão que sonha a noite só e os versos de Metal sem Húmus. Sintonia, no entanto, é coisa de momento, de magia. Passei séculos para aceitar a Chacona de Bach, esmagado pela beleza imponente da Tocata e Fuga em Ré e da Paixão segundo São Mateus. Daí que o que me marcou mesmo, do cearense Dércio Braúna, foram os detalhes de A Selvagem Língua do Coração das Coisas. “Detalhes” no sentido usado em artes plásticas, em que pormenores de algumas obras encantam tanto ou mais que elas inteiras.
Parece que a propósito, o poeta diz, num dos poemas desse livro:
Deslumbrar de tudo
é que bem queria!
Mas o coração
(um bloco de pedra todo riscado com gritos)...
Todo aquele que se aventura nos abismos da Poesia se ressente dos próprios limites. Mas Braúna tem a maneira exata de dizer isso:
Para poeta restam-me léguas.
Por que essa sensação?

Ele é mais explícito, noutro poema:
Minha fala tarda em se fazer inteira
Chego a temer que nunca venha a ser propriamente fala.

Bem, Octávio Paz já dizia que nosso problema não é de pecado, mas de insuficiência original. Augusto dos Anjos sentia o mesmo. Como ele diz em Ideia:

Vem do encéfalo absconso que a constringe,
Chega em seguida às cordas do laringe,
Tísica, tênue, mínima, raquítica…

Quebra a força centrípeta que a amarra,
Mas, de repente, e quase morta, esbarra
No mulambo da língua paralítica

Com autocrítica cerrada, angústia de verdade, Braúna diz, noutro poema:
Adormeço na paz de meu inferno
Armado de fuzis e velhas poesias
De rimas tão ridículas quanto eu.
Inferno.
Exato.

Mas... “falar do mistério no seio do próprio mistério – diz Joyce no Ulisses – Isso é arte”.
Braúna:
Que de mim se desprende por estas palavras?
Quê?
Então existe, evidentemente, sentido no aparente absurdo de tentar fazer poesia, quando nos sentimos incompetentes, insuficientes para ela. Em Meu Pequeno Poema, Simplesmente, que é muito bom, o poeta defende com unhas e dentes o “pouco” que faz.

Vivemos num tempo / em que não basta dizer / FLOR / para que se sinta/ o calor de dois corpos que se querem; / em que não basta dizer / MAR / para que se contemple / toda a imensidade das coisas sem medida. Mas não quero / (e não vou) / dizer mais que / FLOR/ (esse infinito) / e / MAR (esse sem fim).

É o meu poema!

Gosto muito deste trecho de Lírios de Magdala:

Jorro em ti / viços que os trouxe/ a noite / dos lírios de Magdala, / rebento em tuas carnes lavas, / lavo tua garganta, / alimento tuas fomes / no caos solar / (o velho mergulho do homem).

Sou teu bicho e teu deus
sob a mesma pele.

A força das duas linhas acima é enorme.

Ele se pergunta, em Apátrida:

poema é / porventura / o que carrega a operária / abrigado em seu ventre / vindo das trompas de falópio / há pouco mais de uma semana?

E aí, como operária que engravida contra a vontade, mas acaba amando o que gera, ele admite, em seu poema Livro Segundo das Confissões:

Não escrevo para que me leiam
menos ainda para que me entendam.
Se escrevo
É para que esse fio tênue
que me ata à vida
se não parta ainda.

Ao fim e ao cabo, porta-se como Jeová no Gênesis, quando vê que tudo que havia feito era bom. Lembra-me também Whitman, quando diz em Sobre Deus como Homem:

Deus não suportaria a beleza da vida
e à terra (em rijo e viçoso corpo)
desceria homem
e se poria
nudo deitado
entre campos de odoríferas ervas
a sentir (noutro a dentro corpo)
Sua divina criação.
/////