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terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Ela me tratava tão bem (Assis Coelho)


 
Aqui estou novamente sobre esse sofá macio e cheiroso depois de longo tempo vagando pelas ruas. Ainda fica mais gostoso quando me encosto no colo farto de Zuleica, a gorda, não a cabeleireira, magricela que me expulsou de seu salão por achar que eu afugentava seus clientes. Não entendi, sempre tive fama de bom companheiro. Voltei para as ruas.


Comecei a rondar a casa de uma senhora gordinha e simpática. Não foi fácil a aproximação. Passava, depois de meus périplos infindáveis, em frente àquela casa tão limpa por fora e imaginava como seria por dentro. De início, olhares de sondagens. Em poucos dias, o convite para entrar que aceitei sem hesitações. Aí começou a vida que todo malandro gosta, mordomia sem agonia. Comida especial em prato reservado, banhos perfumados e até penteados. Logo esqueci a convivência selvagem das ruas onde tinha de disputar, com os mais fortes, comida e bebida. Quase sempre eu saía perdendo, a não ser quando, raramente, eu encontrava um mais fraco do que eu. Na verdade, nunca gostei de disputa, nem quando andava pelas ruas em bandos dividindo uma só amante sem nenhum critério de escolha. Tempos ruim, nem gosto de me lembrar. Hoje não disputo nada. Durmo onde quero, preferencialmente, no sofá em frente à televisão, que também parece ser o local predileto de minha companheira. Tenho sonhos horríveis das perseguições que já sofri nas ruas. Trago escoriações que relutam em desaparecer. Hoje elas são amenizadas pelas mãos carinhosas enquanto assistimos a seção da tarde e, em seguida, as novelas que deixa minha companheira chorosa e mais gulosa, é quando nos empanturramos de biscoitos e salgadinhos. Certa noite, talvez obedecendo a um velho instinto, quis sair e me esbaldar pelas ruas, becos ou entrar por qualquer porta escancarada. Logo no primeiro beco, um bando de malfeitores me fez voltar esbaforido para o meu refúgio tranquilo. Não voltei ileso, as escoriações voltaram, dessa vez, mais doloridas. È o preço que se paga por querer liberdade demais, não saber ficar na quietude marasmática. Tudo ia tão bem quando minha companheira trouxe outro pra casa. Era um tipo mais novo e cheio de manhas, até brinquinho na orelha. Foi logo se apossando do colo amado. Começou a usar meus pertences sem a menor cerimônia. Tudo agora girava em torno desse trastezinho. Até na boca minha companheira ousou beijá-lo na minha frente. Aí foi demais pra mim. Pulei em cima dele e mostrei a ira de um ser traído. Talvez tenha exagerado, pois aquela que me tratava tão bem me trouxe direto para este canil fedorento. Voltei para o verdadeiro mundo cão!
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P. S. Este conto foi inspirado na peça ficcional “Ela adorava meus olhos verdes”, do escritor cearense Nilto Maciel.


Brasília, 24/11/2011

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