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quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Os escritores (Franklin Jorge)

(Manuel Bandeira)
Disse Faulkner que um escritor, se for um bom escritor, será arrastado por demônios, perderá a paz, a decência, o orgulho, a honra, a felicidade e a segurança, desde que possa escrever, pois a arte não tem nada a ver com paz e alegria. A impiedade seria um dos atributos mais notáveis do escritor que se compraz em sua arte e se mantém, permanentemente, ocupado.

Nadine Gordimer concorda que os escritores são impiedosos e devem sê-lo por necessidade. Principalmente o escritor casado e com filhos, que os sacrifica em favor da realização de uma obra que exige, tiranicamente, disponibilidade de tempo para concatenar-se em forma. Tempo para observar. Tempo para ler. Tempo para pensar. Tempo para escrever. Tempo para submeter-se a infinitas revisões... Tempo, tempo, tempo – um dos principais ingredientes que uma obra requer para realizar-se.

Ninguém [completaria Gore Vidal] se torna um grande escritor sem ler muito. Por isso existem muito poucos grandes escritores, afirmou Isaac Beshevis Singer, no outono de 1968, a Harold Flender. Ele confessa nessa entrevista que nunca escreveu em paz, porém nunca ficou aborrecido por ser incomodado enquanto escrevia. Para ele a interrupção inesperada muda às vezes a perspectiva e amplia os horizontes. Contudo, achava desaconselhável ao escritor o exercício da crítica. Escrever uma resenha ou outra, tudo bem, mas reiteradamente, por ofício, acabaria transformando o escritor em ensaísta. Mas, há exagero nisso.

Baudelaire já acusara – com sofrido conhecimento de causa – a terribilidade que permeia e instrui os bastidores do gênio. Sua vida é, neste aspecto, exemplar e, a sua obra, o resultado de humilhações e angústias com as quais se mortificou e escreveu, para maior glória da literatura, até morrer, no colo da mãe, hemiplégico e afásico.

Remy de Gourmont – com o irmão, autor de um jornal literário famoso, em cujas páginas toda a vida cultural de Paris em sua época está consignada –, escrevendo a Ezra Pound, afirma que o único prazer do escritor consiste em escrever francamente o que pensa. Talvez, ao dizê-lo, consolasse o próprio Pound, que reconhecia ter frustrado sua capacidade de ganhar dinheiro por não saber fica calado o bastante.

Céline viveu o suficiente para constatar que os escritores foram substituídos por impostores. Após uma vida de miséria – viveu até os dezoito anos comendo unicamente macarrão todos os dias, em todas as refeições –, o autor de “Morte a Crédito” [1936] e de “Viagem Dentro da Noite” [1932], reconhecia não saber como agradar aos leitores, “essa gente com quem você precisa ser gentil”. Como resultado de curiosidade e esforço, Céline enfiou a palavra falada na escrita, influenciando a partir daí escritores os mais diversos, como Sartre, Henry Miller e Kerouac.

Nunca pensou em ser escritor. Nunca pediu alegria. Nunca sentiu alegria. Para ele, que conciliou a literatura com o exercício da medicina, sempre clinicando para uma gente muito pobre, a felicidade seria estar sozinho à beira-mar, comendo muito pouco, quase nada, sem eletricidade, lendo o jornal à luz de vela. Num lugar onde ninguém pudesse vê-lo.
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