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segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

O fantasma do Urso (Ronaldo Monte)





Crematório de Vila Alpina, São Paulo. Um homem pede informações detalhadas sobre os serviços e os custos. Tira o talão de cheques do bolso e paga à vista. Quando a atendente pergunta onde está o cadáver, o homem responde: “O cadáver sou eu.”

Alguns meses depois, no dia 19 de dezembro de 1990, com 77 anos, morre Rubem Braga, o Urso, dono de sua morte, assim como foi dono de sua vida.

Hoje, vinte anos depois, o fantasma do Urso vem se instalar às minhas costas e quase não consigo dar cabo desta crônica. Cada palavra, cada frase é imediatamente comparada ao estilo do mestre, denunciando minha fragilidade de cronista. E sinto que o Urso me desdenha por chamá-lo de mestre. Mas é bom que me desgoste e tire os olhos do meu texto. Só assim consigo escrever sem o peso do seu fantasma, sem ter que adivinhar seu focinho de leão marinho se contorcendo a cada frase mal escrita.

Agora, livre do fantasma, posso falar sem preocupação do encantamento que tive e tenho ao ler as crônicas do velho Braga. Posso chamá-lo assim, pois sou seu íntimo. Pelo menos ele é íntimo de mim. Pois nada do que li dele me foi estranho. Ele sabia falar de mim de uma forma tão simples, tão humana, revelando minhas grandes fraquezas e pequenas virtudes como se eu as tivesse vendo pela primeira vez.

Nos meus momentos de solidão e sofrimento, não é aos grandes poetas e filósofos a quem recorro. São os livros do Rubem que folheio, na busca de uma tirada irônica ou mal humorada sobre as chateações naturais da vida. E nos bons momentos de minha vida, é ainda ao Braga que recorro, para que ele me mostre o quanto tudo é transitório, efêmero. E foi desta transitoriedade e desse efêmero que Rubem Braga fez a sua obra.

Quando leio um texto de Rubem Braga, tenho a certeza de que foi um homem que o escreveu. Um homem, sim. Do gênero masculino. Um homem aberto para a compreensão dos seus semelhantes e cuidadoso com as peculiaridades do feminino.

Me desculpem, mas eu tenho que terminar esta crônica. Já ouço uns passos atrás de mim e sei que o fantasma do Urso volta para bisbilhotar meu texto. Tenho que desligar rápido o computador, pois não quero sentir o seu focinho se entortar de reprovação a tanto desperdício de palavras. Nem muito menos que perceba o nó na garganta traindo o sentimento pela sua falta.

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Certos versos de um domingo (Silmar Bohrer)




Tarde primavera azul,

nuvens poucas no espaço,

canarinhos em compasso

cá pras bandas do meu sul.


Algum rumor que se alteia

vindo da beirinha da praia,

deve ser a essência gaia

fabulando com alguma sereia.


Brigadeiros celestiais

estes céus tão azuis,

magias verdes, concluis,

são os mares-poemas colossais.


Ventanejares fecundos

nesta noitinha dos ventos,

vão eles cumprindo intentos

de mensageiros dos mundos.


Andam gotículas frias

volitando pelos ares,

é a Poesia dos meus mares

disfarçada de maresias.


Vento, ouvindo teu sibilar

nestas tardes primaveris

alguma coisa então me diz

que devo contigo cantar.


Destes céus a magnitude,

dos meus mares a realeza,

e eu nunca jamais pude

versejar tanta grandeza.


Ventos parecem visagens

nestas noites barulhentas,

como ventanejas - ventas,

ventinho - nestas paragens.


Nas manhãs primaveris

ouvindo o som da passarada

teço versos em disparada

buscando as rimas mais hostis.


Maravilhas que seduzem

eu vejo em tantos lugares,

e todas elas conduzem

aos céus, terras e mares.


O ventinho primaveril

nesta manhã domingueira

traz a Poesia faceira

em cantigas de encantos mil.


Barra do Saí/281110
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domingo, 30 de janeiro de 2011

Chuvantiga (Raymundo Netto)





Seria uma crônica sobre a chuva? Mais uma, dentre tantas, não fosse o fato de que, ao entranhar a lembrança no pensamento, senti chover-me no peito a chuvantiga. A quedar-me assim, comecei:

Numa das ruas do Monte Castelo, seguia um barquinho de papel a correr-lhe pelas águas frias das coxias. Sem pressa, sem pressa, chuá, chuá, imaginava: todas as aventuras do mundo cabiam naquele barco a desmanchar-se lentamente enquanto vaguejante por sobre um céu baço que parecia, na meninice, ser tão grande.

Nas calçadas, buscando bicas, outros meninos e meninas saltavam felizes a tiritar, braços cruzados ao peito, inda livre, crentes na simplicidade de uma vida a viver ainda distante e muita.

À praça redonda, as peladas nas areias corriam entre pernas ligeiras. Os menores piscinavam no antigo chafariz coberto em mosaicos vermelhos que nem vi crescer, assim como aquelas crianças.

Em volta, pretos guarda-chuvas cumprimentavam-se com bons-dias domingosos; o peixeiro a cantar para as freguesas aos portões; encimando os muros baixos, verdes em limbos, as buganvílias, afirmando um vai-e-vem, dançavam; os cães a ladrar o estranhamento; as águas cortinavam, de cores, arco-íris na varanda; as empregadas corriam a desroupar o varal: “Chega, menina!”; o cheirinho de terra molhada entupia as narinas quando os respingos frios — vinham das venezianas do quarto — jaziam no travesseiro; o tactac repenicado no telhado acompanhava o grito do vizinho no alto do muro do quintal; o quintal avermelhecido em acerolas.

Era manhã e na sala inda escura o café esperava — passado no pano —, com leite, o pão francês quentinho e a manteiga de lata.

O pai, a mãe, os irmãos: nunca a mesa fora tão pequena.

Chovi com a chuva a tarde que ribombava.

“Mundo, mundo, vasto mundo”... Ah, se eu não me chamasse Raymundo, como vento gemeria, não em prosa, mas em poesia, todo o vivido retrato que, só no escuro deste quarto, a rasgar os céus azula-me o clarão, pela janela distraída do nublado coração.

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Coluna quinzenal do Vida & Arte de O Povo: Raymundo Netto. Contato: raymundo.netto@uol.com.br blogue AlmanaCultura: http://raymundo-netto.blogspot.com
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sábado, 29 de janeiro de 2011

Três poemas de Pedro Du Bois

Hóspedes


Hóspede na inutilidade perco

a paciência em obviedades:

ao responder anseios interiores

rasgo paredes com palavras

alarmadas ao milagre e refaço

a noite divulgada ao acaso: junto

o teor do expediente e o declino

em versos: no inverso da jornada

esqueço a escala crescente

das necessidades:


hospedo a maldade

ultrapassada.


Sobram cicatrizes em calosidades:

esquecer ainda é o maior mistério.


Crescer

A antevisão do inferno

conforma a figura ensinada

enquanto criança: ter sido

criança antes

da história

adulterada


o menino ativa idéias

descomunais ao corpo

ingente, purgado

em vitaminas inexistentes


o inferno desdobrado

em passos: passado

recoberto em eras.

Floresta desbastada.



Desprezo

Desprezado ao sustento

despedaço o corpo à estrada: ir e vir

em bifurcado

corpo


estraçalho a vontade

ao recontar pedaços

inaproveitáveis


repouso antes da viagem

na longitude programada


imerso em pensamentos

penso a passagem

do pássaro escalado

ao morro atrás da casa


ao sustento identifico

a fome: restam fatias

intercaladas.
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A dança (Ádlei Carvalho)

http://adleicarvalho.blogspot.com/




A vida não nos conta a verdade

Tão clara e despretenciosamente

Feito uma semente,

Um riso de criança.

Há tantos rios a correr,

Tantos estágios,

Tanta terra a vencer,

Muitas pedras,

Lágrimas, naufrágios…

Tanto vazio

Em tanta abundância,

Tanto se encontrar

Em se perder!

Nos descaminhos

É que a verdade se oculta.

No tropeço

Se esconde a dança.
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sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Novos narradores brasileiros (1)

Nilto Maciel


Recebi, nos últimos dias de 2010, quatro livros de prosa de ficção. Todos de escritores desconhecidos e novos. Desconhecidos da crítica, dos divulgadores de livros, dos professores, dos leitores. Como a grande maioria dos escritores brasileiros. Alguns têm aparecido em blogs ou revistas eletrônicas. E é por isso que os conheci. Como conheço centenas de poetas, contistas e romancistas.

Os quatro volumes são: O olho da fechadura (Rio de Janeiro: Multifoco, 2010), de Angela Schnoor; Anéis de Saturno (Clube de Autores, s/d), de Marcia Barbieri; Desatino (Porto Alegre: Sulina, 2002), de Leonardo Brasiliense; e Um (Brasília: LGE Editora, 2009), de Geraldo Lima.

O primeiro é constituído de pequenos contos. Um deles tem apenas duas linhas e se intitula “Desejo de sapo”. Uma beleza de síntese, em recriação da fábula famosa: “Quando a princesa decidiu beijar o sapo, ele foi mais rápido e seu desejo se concretizou: ela transformou-se em perereca!” A lembrar também o axioma filosófico: “O belo para o sapo é a jia”. Há contos de três, quatro, cinco linhas. Quando alcança dez, é um exagero. Angela é econômica ao extremo. O conto que dá título à coleção – "O olho da fechadura" – é exemplar: “Lembrava bem de si, na ponta dos pés, espiando pela fechadura do quarto dos pais. Já homem-feito, como suas costas doessem ao se envergar, abriu um novo buraco num ponto mais alto. Sozinho na antiga casa, velho e covarde espectador da fida, continua a espreitar o vazio de sua existência pelo olho da inútil fechadura”. Não trata apenas de voyeurismo, mas também de solidão, angústia, timidez. Portanto, um conto de aprofundamento, de mergulho no interior do ser. Todo o conjunto é de muita gostosa leitura. Porém, como ler não é só prazer, as pequeninas histórias de Angela Schnoor são pancadas no lombo dos que dormem até quando outros morrem soterrados.

A outra voz feminina desta resenha é da paulista Marcia Barbieri. Tem publicado contos e minicontos em blogues e revistas eletrônicas. Com Anéis de Saturno (Contos circenses) dá um salto de espetáculo para o palco da Literatura Brasileira. Entretanto, por inexperiência ou falta de orientação, apresenta um livro incompleto: sem ficha técnica (cidade, editora, ano de publicação da obra) e dados biográficos. A segunda edição poderá corrigir esses defeitos. Nada a reclamar, porém, da substância literária. A contista faz uso do diálogo sem se perder em trololó de novela de televisão, embora não se valha de novas técnicas, ainda apegada ao antigo travessão do diálogo direto. Mas, pelo menos, aboliu os verbos dicendi. A narração flui com lentidão, sem a pressa de alguns “transgressores”. Tudo com certo ar de pintor, que mistura narração com descrição: “Costumo olhar a rua debruçado no parapeito. Olho para o velho sentado imóvel na cadeira”. E epílogos poéticos: “Quanto a mim, ainda construo gaiolas, mas não crio mais pássaros. Tudo que voa, pode, de repente, criar asas”. Valeu-se, ainda, Marcia Barbieri do expediente de escrever e reunir num só volume vários contos de um mesmo tema, à maneira de romance sem linearidade temporal e composto de quadros (capítulos) ao mesmo tempo independentes entre si e coligados pelo enredo, de que Vidas Secas é o melhor exemplo no Brasil. E foi além: criou personagens de uma mesma categoria (trabalhadores de circo): palhaços, mágicos, mulher-barbada, domador de leão, etc. Não retratos desses tipos, mas pinturas de suas almas, suas angústias, suas alegrias, suas dores, seus prazeres.

O gaúcho Leonardo Brasiliense é autor do terceiro volume de contos aqui comentados com parcimônia de leitor preguiçoso e incapaz de se aproximar da crítica. Desatino, que também pode ser lido como Destino, com a supressão do “a” sugerida na capa e na folha de rosto, divide-se em seis partes ou contos subdivididos. Nas abas, Valesca de Assis opina: “Persistindo num modelo estético já anunciado em Meu sonho acaba tarde, em que a estranheza e o reverso das coisas é uma constante, Leonardo Brasiliense está construindo uma carreira cuidadosa, segura, porém não acomodada. Quem, como ele, aborrece o trivial, quem, como ele, propõe um olhar sempre oblíquo, jamais assumirá o risco de copiar a si mesmo, esse pesadelo que assombrava gênios como Pablo Picasso”. Os personagens de Leonardo não são inventados, mas também nada inventam. Cumprem um destino. Como diz o narrador de “A fortuna”, parte 3: “Antes de aqui achegar, porém, o destino acenou-me com uma segunda oportunidade, ele, brincalhão, que se diverte sempre, não distinga quem ganhe, quem perca, ele que ri, antes e depois, caprichoso, assanhado, gracejão”. Desatinados ou destinados a vidas sem eira nem beira, os seres criados pelo contista são semelhantes às criaturas reais, as que andam por aí e morrem nas esquinas. E, ele, o criador, sabe o que faz. Ou o que escreve. Porque escreve bem como poucos.

O goiano Geraldo Lima, que também é contista, se apresenta com o romance Um, segmentado em oito partes. O narrador aparece “estressado, enfastiado, marcado pelas refregas com o cotidiano”, num apartamento. Debate-se em dúvidas, meditações, até se ver diante da “face luminosa de Deus”. Crente, vê, num porta-retrato, a figura da mulher Ana e seus “dentes que, sob o transe do amor, mordiam os meus lábios até sangrarem”. Mas Ana se foi, “com todos os seus pertences / com os risos de dentes alvos / com as carícias de fogo / os gemidos da carne em brasa / a alma oceânica, tempestuosa / derramando-se pelas bordas do copo”. Poesia dentro da narração. Esse narrador é leitor da Bíblia, de Camões, Drummond, Alberto Caeiro, William Blake e outros. E deve ser poeta. Não está só na trama: há também Ariadne, padre Artur, o pai e a mãe. O escritor Menalton Braff faz uma síntese da obra: “Um é um romance em que se convida o leitor a fazer um terrível mergulho no inferno em que vive Paulo, o protagonista. Ex-seminarista, acaba de passar por uma experiência mística, que o expõe de corpo nu (seria melhor dizer de mente nua?) vivendo em plena fogueira de seu conflito: de um lado, o desejo carnal em estado de violência, que o domina obsedante; de outro, a certeza de sua vocação espiritualizante, cuja realização exige-lhe pensamentos puros e castos, que já não pode alcançar”.

Como deixei claro, os quatro são escritores novos, porém feitos ou quase feitos. Pois ninguém nasce feito nem se faz completamente. Há sempre um passo a ser dado. Nem que seja para o abismo. Para mim, Marcia Barbieri, Geraldo Lima, Leonardo Brasiliense e Angela Schnoor caminham, pelo mundo das letras, a passo firme e poderão figurar longe da última fileira dos chamados para a brincadeira de inventar pessoas e coisas.

Fortaleza, 23 de janeiro de 2011.
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quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Poemas de Carlos Nóbrega (I)


(De um livro inédito ainda sem título)



ESCOLHEI

Que aflitivo é o silêncio

de um tambor

numa sala cheia de pessoas tristes.


Ó vós que amai vossos ouvidos,

preferi as bocas

que têm seus dois cantos

virados para cima.


* * *
A VENCEDORA DAS GENTES

A dor é uma faca comprida

uma viga uma briga uma grade;

É fera que late e grita

e fere em furor, e bate;

É nossa maior inimiga,

uma farpa a rascar a ferida,

ardor sobre o ardor do que arde:

A dor

é o desempate

do jogo da morte com a vida.

* * *
NASCIMENTO

Minha mãe me deu ao sol,

ao ardor deste deserto

E vim com tinta em meu olho

e vim com sombra em minha alma

E vim com febre em minha pele

e com chamas no meu lábio,

Com mais sede de palavras

do que mesmo de seu leite.

* * *
DISCURSO AO PÉ DO ALTAR

# muita paisagem

fez o meu olhar se engasgar,

muitos rostos,

filmes e amores que se perderam


# sei sim que sou inteiro,

inteiro desde os cabelos que perdi

aos cacos das unhas que aparei

e se perderam


# da dor ao êxtase,

e o sal desta maçã

Da infância a esta pedra,

as chamas e aquela estrela:

Todas as coisas esperam

por seu adeus,

todas as coisas,

ó bem amada.
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A Fortuna Eólica de Francisco Carvalho (Inocêncio de Melo Filho)


(Poeta Francisco Carvalho)

O território poético de Francisco Carvalho tem se ampliado nestes últimos anos. É o que se percebe em Galope de Pégaso (1994), Artefatos de Areia (1995), Raízes da Voz (1996), As Verdes Léguas (1997), Os Exílios do Homem (1997), Girassóis de Barro (1997).

Nos livros acima mencionados destaca-se o eolismo, ou seja, o vento. O eolismo não é apenas uma presença constante na poesia de Francisco Carvalho, é uma existência real, que se mostra intensa e reiterada.

As manifestações eólicas que se realizam na poesia de Francisco Carvalho não se mostram submissas às costumeiras ações do vento, erguer poeira, telhados, provocar barulhos... Mailma de Sousa universaliza a realidade eólica do poeta, situando-a numa condição de alfa e ômega:

“O vento parece origem e condução de tudo: do tempo, das coisas, do homem, de toda a vida, por isso é tão presente e representa mesmo a efemeridade de tudo.”

O eolismo se apresenta na poesia universal. Não é propriedade exclusiva de algum poeta. É por isso que ele pode ser visto em Camões, Fernando Pessoa, Pablo Neruda, Homero, Frederico Garcia Lorca, Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Byron, Edgar Alan Poe, dentre outros.

A poesia cearense transborda eolismos por todos os poros. Basta lermos José Alcides Pinto, Artur Eduardo Benevides e Dimas Macedo, para percebermos a constância do vento nas suas variadas formas.

Essa intensidade eólica que se faz na poesia cearense advém da relação que os poetas têm com a natureza, ou de suas reminiscências litorâneas. Isto talvez justifique a presença do vento na nossa literatura.

Em José Alcides Pinto visualiza-se o eolismo nas figuras de linguagem, de comparação, de igualdade e superioridade. Quanto a substantivação eólica pode-se ver em Dimas Macedo e em Artur Eduardo Benevides. A poesia de Francisco Carvalho não se isola desse contexto, no livro Galope de Pégaso o eolismo se mostra substantivado nos poemas “Cabeça de Cavalo”, “Cântico das Reminiscências”, “Cântico da Busca” e “Marginalia”:

De que frescor de árvore
é o vento que agita
tuas crinas de mármore?

O vento cessou. As árvores parecem
esculturas da solidão de Deus.

O vento quebra as portas
das negras sepulturas

onde os eleitos sonham
que ao fim da senda estreita
repousarão na concha
de tua mão direita.

A luz à beira da sombra
o vento à beira do fogo
a vida à beira da morte.

A substantivação eólica flui com naturalidade em toda a poesia de Francisco Carvalho, assim como flui intensamente na poesia universal. Há casos em que o eolismo se desnuda das imagens e das metáforas, expressando apenas sua existência no poema. Na poesia de Francisco Carvalho o eolismo não se expõe vazio, vê-se o peso da imagem e da metáfora que norteiam o destino de outros significados, que se concentram no seu tecido poético.

A natureza se concentra em “Raízes da Voz”, relacionando-se com imagens e metáforas, definindo o eolismo nos poemas II, III e IV, que recebem o título de “Adágios do Vento”:

O vento é uma seara
de trigo regada
pelo vinho dos deuses

O vento é uma foice
de ceifar os dias
e as noites

O vento é uma sesmaria
de relâmpagos
e de acalantos

O vento é um manje
que reza ladainhas
pelas almas dos mortos.

O vento é uma estrada
de folhas mortas
um deus que arrebenta
os gonzos das portas.

O vento é um andarilho
que sacode as cancelas
e passa sem ser visto
pelas janelas.

O vento é um dromedário
sem rumo certo
que vai escrevendo
elegias no deserto.

O vento é um abutre
de longas asas
que expulsa os homens
de suas casas.

O vento é uma loba
de patas amarelas
que engole as moças
e os seios delas.

O vento é uma égua
que só come brotos
bebe a água dos rios
e amamenta os potros.

A definição eólica prossegue em “Girassóis de Barro”, no terceiro verso da primeira estrofe do soneto “Messe dos Aflitos”, reiterando a temática aqui exposta:

O vento é um deus com túnica de seda.

O poema II, que pertence ao conjunto de poemas intitulados “O vento anuncia a morte”, do livro Artefatos de Areia, anuncia imagens personificadoras do eolismo:

O vento devaneia
desenhando a saudade
nas laudas do mármore.

“O vento anuncia a morte” é mutante como os homens, e tem morte certa como eles. Essa morte eólica se revela na segunda estrofe do poema “38”, inserido na primeira parte do livro “Os Exílios do Homem”:

a chuva cai
com tal modorra
até que o vento
até que eu morra

As virtudes poéticas de Francisco Carvalho são diversas e o eolismo é uma delas, que se manifesta de forma intensa na sua literatura, expressando uma variedade de significações. O poeta aproxima o vento das realidades humanas numa dimensão de vida e morte. Isto o destingue dos demais poetas filiados à doutrina do eolismo.
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quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Bárbara de Alencar, a primeira presidente no Brasil (José Carlos Mendes Brandão)


(A revolucionária Bárbara de Alencar)

Em 2009, visitei o cárcere de Bárbara de Alencar, no centro histórico da cidade de Fortaleza. Em casa, vendo as fotos do lugar, não pude me furtar a lhe dedicar um poema. Há uma força estranha que se emana dali, um grito da história e da dor humana. Muitas vezes, lembrando-me do cárcere, incomum, à flor da terra, mas de pedra, pesado, vi-me murmurando: “O túmulo de Bárbara...” Logo em seguida corrigia-me, mas pensava primeiro em túmulo.

Eis o poema “O cárcere de Bárbara de Alencar”, eis como retratei aquele ambiente de sofrimento e de frieza, porque a história é fria, como as pedras que a conservam:

Eu vi o cárcere de Bárbara de Alencar.

No subsolo, a pequena cela de tortura:

Atrás das grades, pedras, paredes de pedras,

A cela onde um homem não cabe em pé.



Bárbara recebia uma só refeição por dia,

Mas era muito: alimentava-se de pedras

E de orgulho ferido e erguido como bandeira.

As pedras eram cabras mansas para Bárbara



Ordenhar: Bárbara tirava leite das pedras.

“Quem me pedirá contas de meus atos?

Meu marido, meus filhos, o meu Ceará?



Quem combate o bom combate não sucumbe.

Eu colho na derrota toda a minha vitória.”

Ouvi a voz de Bárbara, viva, nas pedras.

Esse poema está no meu livro “O sangue da terra”, publicado pela Secretaria de Cultura do Ceará em 2010. Saiu também em um blog do Cariri, onde amigos que o leram logo me disseram: “Mas você é daqui!” Sabiam que eu era paulista de Bauru, mas o orgulho nacional falava mais alto – o orgulho da nação do Cariri (grande região ao sul do Ceará, onde há um conjunto de onze cidades, sobressaindo o Crato e Juazeiro do Norte).

Quando estourou a Revolução Pernambucana de 1817, Bárbara liderou o movimento no Cariri e proclamou a República do Crato, sendo designada presidente. Assim, Bárbara de Alencar tornou-se, senão a primeira presidente do Brasil, a primeira presidente de uma república brasileira. Os cearenses têm muito do que se orgulhar.

Num tempo em que as mulheres dedicavam-se às famosas prendas domésticas (prendas que as prendiam, restringiam, totalmente), Bárbara não apenas aderiu, mas pôs-se à frente da Revolução Pernambucana em seu estado de adoção, o Ceará. É o pioneirismo de uma mulher tomando as rédeas da história.

A Revolução Pernambucana durou menos de três meses. Bárbara foi presidente por apenas oito dias. Mas foi o bastante para marcar a sua presença na história.

Quando o romancista José de Alencar foi eleito Senador do Império, D. Pedro II vetou o seu nome. Apesar de já ter sido ministro da justiça, o imperador temia que trouxesse em seu DNA os genes revolucionários e republicanos de seu pai José Martiniano, de seu tio Tristão e de sua avó Bárbara de Alencar.

O Centro Cultural Bárbara de Alencar agracia todos os anos três mulheres, com a “Medalha Bárbara de Alencar. O centro administrativo do Governo do Ceará chama-se “Centro Administrativo Bárbara de Alencar”.

Luiz Gonzaga sempre saudava "dona Bárbara de Alencar", nos seus shows no Cariri, onde sabia que a reverenciavam. No dizer do etnólogo potiguar Luís da Câmara Cascudo, a revolução de 1817 foi a mais linda, inesquecível, arrebatadora e inútil das revoluções brasileiras.

Os cearenses têm muito do que se orgulhar. Agora temos uma primeira presidente do Brasil, Dilma Rousseff, revolucionária brasileira e presa política como Bárbara de Alencar. Esperamos que seja motivo de orgulho para os brasileiros, como Bárbara de Alencar é para os cearenses.

http://www.poesiacronica.blogspot.com/
http://passaroimpossivel.blogspot.com/
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O voo de Alaor Barbosa (José Leão Filho*)

(O escritor Alaor Barbosa)

No sul de Goiás, voltando de agradável visita a Goiânia para Uberlândia e São Paulo por rodovia, você vai de novo tangenciar a bonita cidade de Morrinhos. Se seguir além do trevo da entrada, e atentar à sua direita, poderá enxergar alguns pequenos morros que talvez motivaram o nome dessa cidade que tem a sua importância na história de Goiás. Mas se fizer o contorno do trevo, e entrar à esquerda rumo à cidade, vai deparar com uma estátua de Cristo que assinala e recorda, sem que o prefeito que lá a colocou tivesse essa intenção, os antigos liames familiais e intelectuais do povo de Morrinhos com a antiga capital federal, o Rio de Janeiro. E aí você já estará descendo uma avenida que o levará a passar perto do cemitério, não o mais antigo, e sim o segundo, já hoje em dia tornado velho pela construção de um outro, numa parte nova da cidade. Continuando, você alcançará, percorridos três ou quatro quarteirões, o âmago original e histórico da cidade onde nasceu, viveu até aos quinze anos de idade, e, após uma temporada de nove anos e pouco fora, em Goiânia e no Rio de Janeiro, tornou a morar, por quatro anos, já como advogado que sem demora se tornou bastante conhecido em toda a região, o escritor Alaor Barbosa. O burgo que ele inventou, Imbaúbas, muito, mas muito mais interessante que aquela Macondo de Gabriel García Marques, deve situar-se ali por perto. Imbaúbas é um lugar que precisa ser conhecido.

Alaor Barbosa, um dos melhores repórteres da fornada do Jornal do Brasil dos anos 50-60, foi farejar nesse pequeno mundo com seu faro atilado e certeiro. Ali se estabeleceu solicitador-acadêmico e, dois anos depois, advogado, em busca de uma parada na vida, a fim de se recompor dos abalos sofridos no Rio de Janeiro com o golpe, autodenominado Revolução, de abril de 1964, e ansioso de recuperar, e de dele se apropriar para sempre, o “tempo perdido” da sua infância e do passado da sua cidade. Alaor, repito, é um filho daquela terra dadivosa, penúltimo filho, feito caçula por morte, aos sete meses de vida, da irmãzinha Maria da Conceição. O pai, morrinhense filho de mineiros do Sul de Minas. A mãe, filha de paulistas de Igarapava, nascida um tanto casualmente em São Pedro de Uberabinha, depois e atualmente Uberlândia, e criada até aos sete anos em Igarapava e com essa idade transplantada, para sempre, para a Morrinhos onde a esperava, incônscio da trama dos destinos de ambos, o futuro pai dos seus filhos. A relação de Alaor com Morrinhos nunca se esgotará, pois lá se casou e nasceram-lhe os dois primeiros filhos. Lá sempre volta, impelido por um tropismo recíproco, a um tempo seu e de seu povo.

Das suas vivências e incursões no passado da região, Alaor desenterrou e recriou numerosos casos e estórias: os substanciosos e exemplares contos de Picumãs, Campo e noite, Os rios da coragem, Praça da Liberdade, Caminhos de Rafael; e os marcantes romances O exílio e a glória, A morte de Cornélio Tabajara e, o mais recente, recém-saído do que antigamente se chamava prelo, Memórias do nego-dado Bertolino d’Abadia. A morte de Cornélio Tabajara trovejou dentro e fora de Goiás, como uma obra fortíssima, perfeita na trama e na linguagem. Anotadas igualmente na inefável Imbaúbas – em primoroso produto da AB-Editora, que, como se adverte, nada tem a ver com o nome do autor –, Memórias do nego-dado Bertolino d‘Abadia (336 p), agora publicadas graças à diligência do advogado Rafael Noronha, que as anotou, em combinação com o escritor Alaor Barbosa, merecem ser conhecidas do Brasil e do mundo. Ah, se merecem!.

Obscuro a não ser em Imbaúbas – onde nasceu, viveu e morreu, com temporárias evasões para Goiânia, São Paulo, Brasília e até Rio de Janeiro – o gigante Bertolino, em sua exuberante insignificância interiorana, se meteu no Exército Nacional, participou das revoluções de 1930 e 1932, viu-se envolvido na Intentona Comunista de 1935 e, mais tarde, ingressou mesmo no Partido Comunista de Imbaúbas. Após uma longa vida passada de peripécias amorosas e políticas, – “foi assassinado quando estava sentado, na banda de fora de sua casa, na calçada do passeio, no lusco-fusco de uma tarde de sábado”, como indica o “Epílogo antecipado”. “... o matador puxou o revólver e lhe disparou dois tiros. Bertolino d‘Abadia desabou no chão. O arremate: três tiros mais, dois no peito, um na testa.”

No Prólogo, o Doutor Rafael Santoro Noronha – o registrador das memórias que passou a Alaor para oportuna publicação —, ao apontar traços da personalidade do nego-dado, realça de logo uma personagem secundária mas coruscante, um desses cornos-de-goteira que se abrigam da chuva sob o beiral da própria casa enquanto um Pantagruel irresistível ou conveniente se serve lá dentro: Alonso Luís Carneiro.

“À noite ou de madrugada, Bertolino d’Abadia, desde uns cinco-seis anos atrás, lhe bate à janela do quarto ali na Rua Santa Catarina e, com sua possante voz, que os vizinhos ouvem, avisa: ‘Alonso, pode sair, que eu quero entrar!.’ E o Alonso obedece. Sim, o Alonso Carneiro levanta-se da cama e, calado, humilde, conformado, abandona a casa e sai para a rua, a fim de que Bertolino d’Abadia entre e deite-se com a sua mulher.”

Segundo o publicador do livro – autor, na verdade –, “Rafael Noronha me pediu que o lesse, corrigisse-lhe a forma literária e, se concordasse, o ajudasse no momento que julgássemos mais oportuno a encontrar editor.” Respeitou-se um prurido ético: a publicação sai após a morte de Bertolino.

Suspeitei que Rafael Noronha nunca existiu, a não ser na fantasia de um ficcionista veraz em sua inventiva.

Na sala onde anoto estas linhas enquanto converso peripateticamente com minhas lembranças, recordo que, antes de empreender a primeira e tão sonhada viagem à Europa – notadamente à Península Ibérica -, Alaor tratou de, tanto quanto possível, conhecer Goiás e o Brasil. Temia passar, lá longe, pelo vexame de emudecer diante de perguntas elementares sobre sua terra. Esse traço de percuciência, curiosidade e capricho intelectual já se lhe manifestava aí por 1955, quando ele empolgava em Morrinhos e Goiânia as platéias estudantis com a sua admirável oratória de adolescente precocemente preocupado com questões culturais e políticas da nacionalidade e do Mundo.

Em 1956, com mesada paterna, Alaor se abalou para o Rio, indo morar na Rua Correia Dutra (Flamengo), na casa do culto, gentil e retraído irmão mais velho, Geraldo, funcionário do IAPI. Na mesma rua, logo acima, Alaor começou a frequentar (e para onde em seguida se mudou) um ninho de estudantes goianos residentes em quartos exíguos de um apartamento sem conforto, dentre os quais surgiriam mais tarde um prefeito de Goiânia, um Governador do Estado, empresários da mídia eletrônica e publicitária, um médico, dois jornalistas e um magnata do sistema financeiro. Todos em busca da formação escolar, mormente a de nível universitário, que ainda não existia em Goiás — e que hoje lá se encontra tão desenvolvida. Alaor freqüentou o Clássico no Colégio Juruena e em seguida no Educandário Ruy Barbosa. Leitor voraz, frequentava as ricas bibliotecas públicas do Rio, filou algumas aulas de Sociologia (de Guerreiro Ramos) e Português (de Aurélio Buarque de Holanda) na Escola Brasileira de Administração Pública, da Fundação Getúlio Vargas, e, por intermédio do amigo Assis Brasil, um dos “escritores do Restaurante do Calabouço” a quem se ligou, passou a freqüentar a redação do Suplemento Literário do Jornal do Brasil, do qual se tornou, sem demora, o mais jovem colaborador, com comentários a respeito de livros recém-publicados. Assim complementava ele, com o honrado dinheiro que recebia por seus artigos, as mesadas paternas, que iam mingüando em consequëncia da incipiente inflação monetária do governo Juscelino Kubitschek. No Suplemento do JB Alaor convivia com a nata da jovem elite intelectual e artística brasileira, hoje no poder.

Terminado o segundo grau escolar, e no momento de encetar o curso de Direito, foi pelo pai chamado à realidade de que teria de ganhar o seu dinheiro para viver: mesada paterna, não mais haveria. O rapaz padeceu um bocado até conseguir emprego de jornalista. No jornal, optou pela área política, após um curto estágio na reportagem-geral. Na profissão de jornalista, que perdurou quase o tempo todo do seu curso universitário, se projetou muito e depressa. Fez uma entrevista de página inteira com Carlos Lacerda, de quem recebeu, em editorial assinado, um baita elogio; viajou com Jânio Quadros numa das suas excursões de campanha por Minas Gerais; recolheu de Juscelino a sua primeira entrevista de ex-presidente; entrevistou João Goulart mais de uma vez, e Fernando Ferrari, Alceu Amoroso Lima, Francisco Julião, Mário Martins, Jean-Paul Sartre, Jorge Amado, Mauro Borges Teixeira, e muitos outros. Conviveu com grandes nomes da literatura brasileira. Um deles se fez seu amigo e incentivador: João Guimarães Rosa. De volta a Goiás, veio-lhe o longo tempo da advocacia, o breve período como diretor de banco, a enriquecedora experiência de consultor legislativo (por concurso de provas e títulos) do Senado Federal, e, atualmente, outra vez, a advocacia em Brasília. Durante esses períodos ele não cessou a sua exaustiva dedicação à criação literária. Nos últimos quatro anos, Alaor publicou quatro livros, dos quais os dois mais recentes são os romances que mencionamos. Logo depois que saiu seu primeiro livro de contos, Joel Silveira, esse jornalista quase mitológico, leu-o em Goiânia, aonde fora cobrir a deposição do governador Mauro Borges Teixeira. E exclamou com entusiasmo: “Se Lacerda tivesse conseguido escrever um conto tão bom como Pretérito imperfeito, não teria feito a Revolução”.

Mestre em Literatura Brasileira, por sua obra mas também por diploma universitário, reconhecido pelo público e por notáveis de nossa literatura (é impressionante a sua fortuna crítica, constituída por um Carlos Drummond de Andrade, um José Américo de Almeida, um Antônio Olavo Pereira, um Hélio Pólvora, um Wilson Martins, um Assis Brasil, um José Edson Gomes, um Manoel Lobato, um Modesto Gomes e muitos outros), Alaor Barbosa, com esse romance Memórias do nego-dado Bertolino d’Abadia extrai do regional de Imbaúbas poderoso facho de universalidade, um clarão da melhor literatura da América Latina. E eleva o vôo decisivo que o vai levando bem longe, muito longe, depois de, realizando a profecia de José Edson Gomes, “terminar por explodir neste Brasil imenso e quase cego”.


* José Leão Filho, jornalista e escritor, falecido em 2004.
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terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Vietnã (E o “desfolhante laranja”)

Emanuel Medeiros Vieira


Ah, Porto Alegre, anos 60. Conversávamos na Praça da Matriz: eu, Flávio, Alberto, Edgar, Aydos, Paulo, Sá Brito e outros. O que fazer? Havia a ditadura, cassetetes, mimeógrafo, apostilas. E a notícia de que Glauber e outros artistas haviam sido presos no Rio por protestarem contra a Guerra do Vietnã. Era preciso fazer alguma coisa. Sabíamos o que o Império estava fazendo. Não, mais uma vez não era possível ficar calado, como se nada estivesse acontecendo lá longe, sim, bem longe, do outro lado do mundo. (A luta continuou depois, já na década de 70, em São Paulo e Florianópolis.) A guerra terminou. Acordo assinado em 1975. Mas ela guerra não acaba com o armistício: ficam as sequelas, as viúvas, as muletas, os órfãos, as cidades destruídas. Éramos poucos? Sim. Mas parecíamos muitos. Queríamos mudar o mundo. A gente já escrevia para jornais do centro acadêmico, da faculdade de Direito, de Filosofia. Os verbos eram “ampliar”, “engajar”. Ou: “nossa força é a nossa união, não passarão, polícia também é povo.” (Hoje, quem ler, talvez sorria.) Iríamos “fundar a utopia.” Líamos tudo. Queríamos saber, conhecer, viajar. A livraria do Arnaldo e do Brutus (“Coletânea), no coração da cidade, era ponto de encontro. E vendia a crediário. Andávamos quase sempre “duros”. A livraria, o centro acadêmico, a Praça da Matriz, o “Mateus”, o “Rian”, as casas dos amigos, as repúblicas, os restaurantes universitários, os cines-clube eram os locais agregadores. E havia o Vietnam, para quebrar a nossa cabeça. A turma tem hoje, aproximadamente, 60 anos, 60 e poucos. Enternecer sem perder a dureza... A vida pode ter colocado espaço, distâncias. Vários amigos já estão encantados, tentando decifrar os enigmas da eternidade. Não, não estamos em 1967. Estamos em 2010. Trinta e cinco anos depois do final da guerra e da maior derrota militar dos EUA, os efeitos da dioxina usada no desfolhante laranja continuam a afetar regiões que compreendem áreas do Vietnã, do Laos e do Camboja. Os resíduos se entranharam na terra e nas sementes das plantas , e as pessoas que as consumiram e consomem, transmitiram e transmitem seus efeitos aos descendentes. 35 anos depois! Crianças sem olhos, sem braços, sem ouvidos, como revela Mauro Santayana. Recém-nascidos com os órgãos genitais na face.

Escreve ele: “São milhares de seres humanos e, enquanto viverem e continuarem a nascer, representam o libelo mais ácido contra os piores terroristas: os senhores estadunidenses da guerra.” A história do desfolhante laranja começou na Segunda Guerra Mundial, quando os encarregados das armas químicas sugeriram seu emprego maciço sobre os arrozais japoneses. Mas maiores empresas químicas do EUA, estimuladas pelo Pentágono – tendo à frente a Monsanto (não esqueçamos este nome) e a Dow Chemical passaram a pesquisar os efeitos do agente laranja contra os seres vivos, não só os da deformação genética, como também os da indução ao câncer. Em 1960 passaram a produzir para a guerra. Em 1961, o glorificado presidente Kennedy autorizou o uso do produto no Vietnã. Naquele país, além das crianças deformadas a incidência do câncer no útero é 30 vezes maior do que no resto da Ásia. Os acordos de Genebra proíbem rigorosamente o uso de armas químicas nas batalhas. A morte pode ser um processo técnico lucrativo, observa Mauro. “Não lhes importa a possibilidade de que os transgênicos venham a matar os consumidores ou a condenar as almas das crianças a habitar coros deformados nas próximas gerações. O que importa é o preço das ações, os dividendos aos acionistas, e a elevada remuneração de seus quadros executivos”, arremata.

Porto Alegre. Rapazes de 20 anos. Os inseguros amores, os esperançosos amores. Contos, poesias, curtas-metragens. Meu barro é mnemônico: não esqueço. Eu me lembro: Vietnã. Talvez, o exemplo que conhecemos de maior bravura e de maior coragem de uma gente. Tal luta vale mais que mil teses que falem em autodeterminação dos povos.

(Queria dedicar esta memória a todos os amigos que estiveram juntos naquele “campo de sonhos”, nos anos de Porto Alegre – cidade, também florida, das faculdades tão agitadas, do Guaíba do pôr-do-sol, das ladeiras, do “Rian”, do Cine Rex, do Quintana, do Gastal, do Appel, do Gerd e de tantos outros que, generosamente, nos ensinaram o valor da amizade, do pluralismo e da democracia (sim, que vá o lugar-comum necessário) como valor universal.
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O homem de paletó (Simone Pessoa)



Desliguei a luz da cabeceira para me aninhar entre os lençóis. Quando me virei para encontrar posição mais aconchegante, olhei de relance para a parede... Um susto! Na penumbra do quarto, por trás do cabide, um homem alto, de paletó, estava parado. Devido à escuridão, não dava para distinguir o rosto na cabeça chata da criatura. Fechei os olhos e, por instantes, evitei me mexer enquanto meu coração quis pulsar acelerado.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Pedras de toque (Descortinar) (Tânia Du Bois)





Quando a poesia é especial, a vida ganha um toque de suavidade.

“... Do perdido tempo / Do passado tempo / escuto a voz das pedras: // volta...

volta.../ E os morros abriam para mim / imensos braços...” Cora Coralina.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Conversa de Nilto Maciel com o poeta Carlos Nóbrega



(O poeta Carlos Nóbrega)


Como a maioria dos escritores brasileiros, Carlos Nóbrega é um desconhecido. Mora em Fortaleza (como outras dezenas de bons poetas, contistas e romancistas), não aparece nos jornais (e quem aparece?), publicou cinco “livrinhos” (por pequenas editoras, é claro) e, vez por outra, sai de casa ou da empresa onde trabalha, para tomar um chope e conversar com os poucos amigos, também escritores. Um deles sou eu, que gosto de ser jornalista (do tipo antigo, sem formação em curso de jornalismo) e de ouvir quem tem muito a dizer. Conversei com ele (via correio eletrônico) durante alguns dias do final do ano passado. Só então fiquei sabendo de seu nome completo: Carlos Alberto Medeiros Nóbrega, descendente de paraibanos. “Nasci no Henrique Jorge (bairro popular da capital cearense), poucos anos depois da inauguração do Conjunto Residencial Casa Popular. Foi uma infância bárbara, selvagem, no mato. Tão maravilhosa que ainda hoje, 45 anos depois (tenho 55) me fornece alumbramento. Depois cresci, fiquei careca, fiz um curso de Gerência Financeira na UFC, casei, descasei, recasei, extraí cinco filhos daí, e escrevi uns versinhos bobos que ficaram enfeixados nos livrinhos A sono solto, Outros poemas, Breviário, Árvore de manivelas, O quanto sou e 8verbetes. Mais nada que mereça ser relatado, lembrado ou registrado, a biografia é magrela mesmo”.




Poema de Carmen Silvia Presotto





Se pássaro, voaria


Se peixe, nadaria


Se planta, cresceria




Humana?!




Deslizo


Debato


Decresço




No ar e no mar


caio




Na terra


com personagens


crio letras...


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sábado, 22 de janeiro de 2011

A impressionante influência vocabular da literatura (W. J. Solha)




Tornou-se lugar-comum, na imprensa, reportar fatos como o acidente com o avião da TAM, que matou 162 passageiros, ou o deslizamento de terra no Morro do Bumba, em Niterói, como “tragédias anunciadas”, influência evidente do belo título de um livro que é o Crônica de uma Morte Anunciada, de Gabriel García Márquez. Claro que isso não é de hoje. Todo sujeito ciumento é um “Otelo”, desde que Shakespeare escreveu a peça a respeito do Mouro de Veneza. Todo homem excepcionalmente forte é um “Hércules”, acho que desde que os gregos, influenciados pela sua mitologia, e os romanos, pela tragédia Hércules sobre o Eta, de Sêneca, passaram a vê-lo como o modelo do Stalone ou Schwarzeneger de sua época. Do mesmo modo, toda viagem ou percurso repleto de percalços passou a ser “uma odisséia”, desde que Homero escreveu a história de Ulisses, cujo nome grego era Odisseu. Daí 2001 – Uma Odisséia no Espaço, o filme de Stanley Kubrik – daí Ulisses, o famoso romance de James Joyce, que consome cerca de 800 páginas pra contar o que foi um dia – 16 de junho de 1904 - na vida de um certo dublinense chamado Leopold Bloom. Se esse caminho é de mais sofrimento do que aventura, o rótulo é o de “via-sacra”, “via-crúcis” ou “calvário”, por conta do peso do texto evangélico, que transformou, também, todo traidor em “judas”, toda vítima em “cristo”, todo mau caráter em “judeu”, toda maldade humana em “judiação”, todo homem caridoso em “bom samaritano”, todo fim do mundo em “apocalipse”. Do mesmo modo, abrindo para o Velho Testamento, todo começo de qualquer coisa é “gênesis”, todo assassino é um “Caim”, assim como todo lugar maravilhoso é um “éden” ou “paraíso”, todo vidente é “profeta”, toda figura com liderança é “messiânica”, toda decisão sábia é “salomônica”, todo embate desproporcional, tipo camundongo Jerry contra o gato Tom, Oliveiros contra Ferrabrás, Vietnã versus Estados Unidos, é uma luta de “Davi e Golias”.

Acerca de Astrojildo Pereira (Dimas Macedo)



Se no Brasil, efetivamente, segundo o pensamento de Leandro Konder, houve uma derrota da dialética, pertinente à recepção das ideias de Marx, na primeira metade do século precedente, creio que essa assertiva não pode ser aplicada ao caso de Astrojildo Pereira.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Romance de Primeira Divisão (Cyro de Mattos*)



“Segunda Divisão”, de Clara Arreguy, é um dos melhores livros de ficção escrito no século XX tendo como tema o futebol brasileiro. Nesse romance com estilo que seduz sobre assunto que muitos acham sem condições para ser ficcionalizado, a mineira Clara Arreguy demonstra que a obra de criação literária vive da íntima capacidade de seu criador e do talento de quem a expressa com alma, dinamismo e vivência. Ela demonstra isso com firmeza ao desenvolver cada capítulo de “Segunda Divisão” em torno dessa grande paixão do povo brasileiro.

Clown (Inocêncio de Melo Filho)





Ri! Coração, tristíssimo palhaço (Cruz e Sousa)




Ri! Coração, tristíssimo palhaço
Pois tua tristeza incomoda
O que eles querem é riso
Novidades no espetáculo
Ri! Coração, tristíssimo palhaço
Porque tu sabes
Que se não semeares a alegria
Eles se afogarão
No tédio extremo.


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quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Poetas brasileiros (1)

Por Nilto Maciel



Nos últimos dias de 2010, recebi três livros de poemas: Para comover borboletas (Rio de Janeiro: 7Letras, 2010), de Kelson Oliveira; Campo marcado (Rio de Janeiro: Booklink, 2010), de Francisco Marcelo Cabral; Postigos (Porto Alegre: Vidráguas, 2010), de Carmen Silvia Presotto. O primeiro é cearense de Limoeiro do Norte (1983). O segundo é mineiro de Cataguases (1930). A voz feminina é gaúcha de Sarandi. Vêm de três regiões bem distintas do Brasil e de tempos diversos. Em comum: o serem poetas e brasileiros.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

A medida dos dias (Belvedere Bruno)



Eram dias pesados aqueles. Rabiscar palavras, cortar frases, substituir adjetivos. Fechasse eu os olhos subitamente, para sempre, algo mudaria? Para onde fui, onde escondi meu eu, em que abismos mergulhei, para cair nesse ostracismo?

O telefone toca. Há uma espécie de mimetismo rondando os meus dias – telemarketing, sirenes, buzinas, tragédias anunciadas. Nada de novo. Sequer um cântico que me desperte. É como se, aos poucos, sem querer, me enquadrasse nesse mundinho abjeto, cujo roteiro não permite mudança, mínima que seja. Adapto-me de forma que já não tenho personalidade. Faço parte de cada objeto, situação, e sigo as regras.

Há, aqui, um espelho lateral que me permite observar as inúmeras mudanças ocorridas em meu corpo, à medida que, inconscientemente, fui me desvencilhando de meu eu. Vampirismo ou coisa similar? Sinto vontade de reagir, quebrando-o, mas dizem que quebrar espelho é igual a sete anos de azar. Além disso, ele não mente. Paciência, porém me intriga pensar que esse ser amorfo seja eu.

Bebo um gole de água. Minha boca está seca, tal qual a minha alma. Entrego-me passivamente, quem sabe, por medida de segurança? Levanto-me e, através da janela, vejo o corre-corre das crianças no parquinho, a movimentação do dia a dia, mas tudo isso faz parte do mais antigo dos cenários.

Nada tenho a anunciar. Desconecto-me. Fecho as cortinas e, imersa na escuridão de meu quarto, penso em como essa vida é sem sentido.

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Amigos (Ronaldo Monte)




Uma amiga vivia insistindo para que eu entrasse no Facebook. De tanto ouvir suas loas às maravilhas de pertencer a essa rede social, cedi à tentação, mesmo sem saber o que queria dizer uma palavra supostamente tão fácil. “Livro de caras”, supus, e resolvi dar as caras por lá.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Passeio em Madalena (Astrid Cabral)


(Mercado da Madalena, Recife)


Para mim o mundo começou em Madalena, no Recife.

No colégio, tempos depois, as freiras me falaram no Éden de Adão e Eva, e mais tarde, já na escola pública, a mestra apontou no mapa a Mesopotâmia como o berço da civilização humana. Mas nenhum desses lugares tinha a ver comigo, com a minha pequenina história pessoal. Esses imensos retrocessos de milênios me deixavam perdida, eram pontos longínquos de alcançar, abstrações grandes demais para cabeça de menina, onde um laço borboleta de tafetá sempre me incomodava.

O Prazer do Cinema (Dimas Macedo)

(Foto de cena do filme Lua cambará)

O cinema é uma arte de difícil conceituação. É a mais sutil de todas as formas de expressão da linguagem. Não está codificada em partituras ou em arranjos verbais como a música e a literatura. E não é inanimada como a pintura ou a escultura, que se utilizam de vários artefatos culturais para alcançar a sinergia das formas.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Noite... (Teresinka Pereira)





A neve cobre o chão.
Não há estrelas no céu.
A tristeza
vem com a noite
e se encosta em minhas
pálpebras
para que eu não sonhe
contigo.

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Origem da ciência (Manuel Soares Bulcão Neto)

(Biblioteca de Alexandria)

Há algum tempo, apareceu no meu sítio um galo que punha ovos. Embora raquítico, apresentava a mesma crista alta e andar majestático dos demais. Só que, vez por outra, juntava-se às galinhas e expelia frágeis ovinhos. “Vige, isso é coisa do Diabo!”, exclamou o caseiro no dia em que me mostrou o aleijão. Sua mulher, pentecostalista, propôs exterminar o agouro, o que não foi necessário: dias depois, de tanto apanhar do galo alfa, pendurou os esporões.

Pois bem: semana passada estava a folhear o livro “A nova aliança” dos físicos Ilya Prigogine e Isabelle Stengers, quando, para minha surpresa, na parte que trata das origens da ciência moderna, deparei-me com um trecho sobre a reação dos homens às anomalias. O exemplo dado? Galos que põem ovos. Afirmam os autores que tal reação é (pasmem!) determinada menos por instinto do que pelas crenças religiosas; que, na Ásia medieval, criaturas anômalas ou eram discretamente escondidas pelas autoridades confucianas (atitude idêntica a dos pitagóricos que, ao descobrirem os números irracionais, proibiram sua divulgação) ou, então, aclamavam-nas como manifestações divinas e mesmo como deuses efêmeros. Já na Europa cristã, nessa mesma época, animais monstruosos eram queimados vivos em espetáculos públicos — por serem “antinaturais”, isto é, contrários às “leis da natureza: leis de Deus”.

Vê-se, na postura cristã, peculiar sacralização das leis naturais sem a qual deficilmente teria se desenvolvido, nas primeiras universidades e mesmo em mosteiros – e entre indivíduos mais inquietos – a pulsão epistemofílica voltada para seu conhecimento, isto é, o espírito científico. Pois, em que consiste a atividade do cientista? — Analisar metodicamente a pluralidade dos fenômenos naturais e dela extrair padrões, regularidades cada vez mais gerais, leis.

É de considerar, ainda, a influência fundamental do racionalismo aristotélico – sua Física, inclusive – na Escolástica de São Tomás de Aquino. Tanto que, para esse pensador, a “Razão” é divina (vale lembrar, “en passant”, aquele vestígio da cultura helenística no primeiro versículo do Evangelho de S. João: “No princípio era o Logos, e o Logos estava com Deus, e o Logos era Deus” – Logos: para Heráclito, “conjunto harmônico de leis”), de modo que não basta a Fé: absolutamente tudo pode ser explicado e justificado pela argumentação racional — daí o surgimento, na época, dos primeiros argumentos lógicos favoráveis à existência de Deus: o da causa primeira, o do desígnio, o ontológico… Aliás, foi com base nesses dados que o grande matemático do séc. XX, Alfred. N. Whitehead, afirmou que “a convicção instintiva… que há segredos a serem desvendados… Ela não parece poder encontrar sua origem senão numa fonte: a insistência medieval sobre a racionalidade de Deus.”

Há, de fato, um elemento de continuidade entre o Deus legislador cristão, a “Natura naturans” (Deus, segundo Spinoza) e a razão científica de Leibniz, Kepler, Isaac Newton… Por vezes, em atos falhos ou metáforas, cientistas com forte ranço antirreligioso mostram esse “continuum”: Freud, por exemplo, chegou a afirmar, mais ou menos com essas palavras, que “nosso deus, a ciência, é frágil, uma vez que não responde a todas as questões.”

Infelizmente, há outra característica comum, desta vez perversa, sempre pronta a se manifestar: a praga do fundamentalismo, o impulso para se converter em e se impor como pensamento único; de queimar todas as bruxas (descrentes, hereges, apóstatas…). Se foram cristãos puristas – à frente, o Bispo Teófilo – que incendiaram a Biblioteca de Alexandria, de outro lado, na primeira metade do século XX, igrejas foram destruídas ou transformadas em mictórios públicos por ateístas cientificistas. Vade retrum, Demônio de Laplace!

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Crônica publicada no jornal Diário do Nordeste em 02/01/2011.
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sábado, 15 de janeiro de 2011

Noite com sátiros e bacantes (Nilto Maciel)



Nunca tive sonhos de doido. Não viajo ao Kilimanjaro nem me encontro com Jesus de Nazaré. Não enfrento leões nem me abraço com Salomé. Sou normal, tenho sonhos de funcionário público bem remunerado: passeio de carro novo, família numerosa e sadia, algum voo entre estrelas de quinta categoria, divertimento com beldades de Hollywood. Hoje, porém, sonhei com Pedro Salgueiro e Dimas Carvalho. Ora, dirão os leitores: Onde está a loucura? Todo escritor sonha com dois ou mais escritores. E ninguém vê nisso sandice. Muitos veem, isto sim, latente homossexualismo. A insânia está, meus amigos, no tempo e no espaço da história. Éramos romanos ou, se não tanto, cearenses em visita a Roma. Não a Roma de Silvio Berlusconi e Bento XVI, ou Benedictus XVI ou o alemão Joseph Ratzinger. Estávamos nos primeiros anos da era cristã. O Rex Iudaeorum tinham crucificado havia pouco tempo. Dominava o mundo o Big Brother Tibério. E Dimas dava explicações minuciosas: Não o chamem simplesmente de Tibério. O nome completo é Tibério Júlio César Augusto. A brincar, Pedro saiu a dar pulinhos e a gritar: “Morra, Tibério!” Um centurião, com cara de Benito Mussolini, seguido de 100 soldados, passava ao largo. Apavorado, Dimas balbuciou: Plínio, o Velho, o chamou de “tristissimus hominum”.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Crônica Desamada (Raymundo Netto*)



Eu que não ando só, mas somente em boa companhia, dava fecho à noite de segunda, numa boêmia sem razão de ser, no sempre Assis da Gentilândia, a conversar fiadamente sobre futebol, política e nosso cancioneiro com Vinícius de Morais e o irmão da Ana de Hollanda, ambos pilequeados sob véu cinzento da fumaça de cigarros. Vinícius, flagrando meu constrangedor desinteresse sobre tais coisas externas à alma, vessou o ar e apontou a contenda ao tema de sua predileção: a especialidade no exercício penitente do amar.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Santa Bárbara (Emanuel Medeiros Vieira)


A CELEBRAÇÃO DE SANTA BÁRBARA NA BAHIA: MISSA FESTIVA, PROCISSÃO E CARURU

Mais de 12 mil pessoas no Largo do Pelourinho. Sábado, 4 de dezembro, bem cedinho. Milhares de pessoas celebram Santa Bárbara, a maioria vestida de vermelho. É uma belíssimo momento do sincretismo religioso na Bahia. Bárbara é santa católica. E Iansã, do candomblé ketu, ou Bamburucema do angola. Mas todos a conhecem como Bárbara ou Yansã, padroeira dos bombeiros. Emociona a intensa participação popular, a devoção dos fiéis, a força interior daquelas pessoas, muitas descendentes de escravos. A missa festiva celebrada no Pelourinho é bela e tocante. É completa a integração entre a liturgia católica da missa e os cânticos das religiões afro-brasileiras, tão fortes na Bahia, apesar do fundamentalismo de algumas seitas evangélicas, que procuram destruir – até com violência – tais tradições. Arrepia escutar aqueles cânticos das religiões afro-brasileiras escoando no Pelourinho, junto com a devoção e a liturgia católica, que marcaram tanto a minha vida – de um menino a um sexagenário. (É como se a energia de uma força maior atravessasse aquelas pedras de tantos séculos, enquanto o povo todo cantava, contra a violência, o individualismo, a carência de compaixão, e a sensação de que a vida vale cada vez menos.) Vou mais longe: assistindo à missa, com aquele povo todo reunido no Pelourinho, tive a sensação da recuperação do Sagrado num mundo cada vez mais dessacralizado e materialista.)

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Final (Pedro Du Bois)




No final do dia


aproximado ao cansaço


trazido dos ofícios


não estou


presente. Ausentado ao tempo


não traduzido, esmaecido


nos alvoreceres da noite




amanhecido em finais


de tardes recompostas




minha ausência despercebida


em minúcias: a estrada


bloqueando a entrada.


http://pedrodubois.blogspot.com/
http://www.projetopassofundo.com.br/
http://luis-eg.blogspot.com/
http://literaturasemfronteiras.blogspot.com/
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terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Monte de leituras

Caros amigos, iniciei hoje uma série especial (em cinco partes) sobre o grande Lawrence Durrell, autor de O quarteto de Alexandria. Caso haja interesse nesse e em outros post, acesse www.armonte.wordpress.com


Obrigado a todos, e um grande abraço. Alfredo Monte
 
(Trecho)
 
A primeira leitura que fiz, ao mudar para a rua Messia Assu, onde residi por dezoito anos, foi a de O quinteto de Avignon (1974-1985), de Lawrence Durrell (1912-1990). Agora que me instalei em outro lugar, numa casa na avenida Marechal Deodoro, estou me ocupando novamente—como “leitura inaugural” e como rito propiciatório—com o “quinconce” durrelliano, me valendo da mesma tradução de Waltensir Dutra, publicada pela Estação Liberdade entre 1989 e 1992 e que batizou meu período de vida no meu saudoso apartamento.


No ano da minha mudança para a Messia Assu (1992), eu já lera os dois primeiros volumes, Monsieur ou O Príncipe das Trevas (na tradução portuguesa do grande Daniel Gonçalves, o mesmo de O quarteto de Alexandria), e Livia. Este, apesar de traduzido competentemente por Margarida Vasconcellos Dias (lida por mim, numa série publicada pela Abril Cultural nos anos 80), apresenta uma série de erros, a começar pelo subtítulo, Enterrada viva (de fato, é Enterrado vivo, referindo-se explicitamente ao escritor Blanford), e outros detalhes menores, como transformar a lésbica Trash num homem. Tais deslizes se deram porque Margarida Vasconcellos Dias só deve, possivelmente, ter lido o volume que estava traduzindo, e se Durrell oferece várias armadilhas aos seus tradutores mais constantes, como o próprio e brilhante Daniel Gonçalves (que desabafou: ”Durrell pretende algures que o autor tem o direito de escrever até aquilo que ele próprio não sabe o que quer dizer, mas abusa desse direito criando extremas dificuldades ao tradutor que, nessas circunstâncias, encontra-se impossibilitado de concretizar o dever de fidelidade ao pensamento—confuso, impreciso, inexistente—do autor”), imagine se a pessoa tiver conhecimento mais limitado da sua obra e do seu estilo intrincado e (auto)alusivo.

(Continua)
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velho/ano/novo (Silmar Bohrer)


Vai-se o trinta e um
dezembrino.


Dias risonhos.


Mechas de vidas
flores
louvores
amores.


Pechas de sonhos.


Ilusões perdidas
dissabores
desamores
desalentos.


Como será
o dois mil e onze teatino ?


Cabe ao destino...


311210
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segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Palavra: poesia (Tânia Du Bois)


Concordo quando Chico Buarque disse que “agora posso cuidar da poesia”, pois, ela trata a palavra em seu momento mais inspirado, no inteligente jogo de significado e significante.

O brasileiro desvenda os segredos das palavras através da poesia, comunicando-se com a linguagem da liberdade, podendo criar novos ideais, voar, sonhar e até mesmo vivenciá-la.

POESIA É VIDA! Ela nos brinda com palavras mágicas. Então, pergunto: qual é o segredo que elas guardam? Lêdo Ivo responde: “A poesia é um segredo / feito de êxtase e medo / que não confio a ninguém – nem a mim mesmo".

E como cada um de nós ao ler um poema sente esse segredo? Bem, magicamente, o inatingível torna-se palpável. De alguma forma participamos vivenciando momentos e emoções. Destacar a palavra “poesia” mostra a sua importância e como ela muda as nossas vidas, tornando-nos novos amantes da poesia.

Desejamos segredo maior que o contido nas expressões poéticas?

“... você foi o melhor dos meus erros //... você foi a mentira sincera /

... esqueci de tentar te esquecer.” (Outra Vez, de Isolda)

Sentir a energia que emana do relacionamento direto entre o escritor e a sua obra, do letrista com sua lírica, é algo imperdível para as pessoas de sensibilidade.

Como escreveu o poeta Ferreira Gullar, “... pretendo que a poesia tenha a virtude de, em meio ao sofrimento e ao desamparo, acender uma luz qualquer”. E Jorge Luis Borges arremata que “a poesia não é alheia, a poesia está logo ali, a espreita. Pode saltar sobre nós a qualquer instante. E a vida, tenho certeza, é feita de poesia.”

Poesia é descobrir a essência mágica das palavras. A linguagem como significado, como expressões que avessas ao poema destacam o fascínio do código em si. Seu ingrediente fundamental é despertar nossa atenção para ser explorada em papel literário e transformada em magia.

Encontro em Edson Cruz: “... vendo o escritor não como construtor, mas como colecionador que se comunica com o mundo ao conquistar sua coleção de palavras”.

Assim, os temas viram releituras, na medida para os amantes da poesia, como em Pedro Du Bois:

“Poesia de palavras simples / rimas simples: / expressa sentimentos

explora sentimentos / sente / o fazer feliz / deixar feliz. // Poesia de

palavras certas / em seus significados...”

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