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quinta-feira, 31 de março de 2011

Informações sobre a vida blogueira!



Sonhamos a vida inteira com uma independência, um espaço próprio para expressar idéias. Eis que ele chegou: o blog. E gratuito! Creio que um esforço a mais de nossa parte para um melhor entendimento será ótimo. Por isso, essa conversa aqui.

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quarta-feira, 30 de março de 2011

O que é conto? (Nilto Maciel)


(Machado de Assis)

Os manuais e os dicionários de literatura ensinam que o conto deve ter em si um só drama, um só conflito, uma só unidade dramática, uma só história, uma só ação, uma única célula dramática. Por isso, o conto rejeita as digressões e as extrapolações, ou seja, o passado anterior ao episódio é irrelevante, assim como o são os sucessos posteriores. Sendo o tempo limitado ao momento do drama, também o espaço seria circunscrito a uma sala, um cômodo. Sendo tudo tão restrito, por que as personagens seriam muitas? E a linguagem do conto? A da concisão, com predomínio do diálogo. Chegado o epílogo, o contista há de ter guardado um enigma. Ou o desfecho inesperado, embora determinado desde o começo. E mais uma infinidade de regras, limites, modelos.

terça-feira, 29 de março de 2011

Réquiem para um anjo (João Carlos Taveira)


(Clovis Sena)

Clovis Sena não está morto. Depois de uma vida inteira dedicada à família, ao trabalho e aos amigos, foi convocado para seguir rumo à outra dimensão. Insisto. Clovis Sena não está morto. Depois de uma vida inteira dedicada ao jornalismo, ao cinema, à literatura, à música, às artes plásticas, partiu em 15 de fevereiro de 2011, conduzido pela “indesejada das gentes”. Mas sua missão estava cumprida. Não deixou nada por fazer entre os homens nem débito entre os anjos. Seu crédito agora transcende céus e estrelas.

segunda-feira, 28 de março de 2011

O guardador de fios (Abel Sidney)


– O maior mistério que cerca a vida do grande Marechal Rondon foi o fato, até hoje inexplicado, de sua mudança de rota ao estender os fios do telégrafo nestas terras que então pertenciam ao Mato Grosso...

sábado, 26 de março de 2011

Cuaresma (Cláudio Sesín)



La hora que aquí es, no está en el tiempo.
La brisa,
esa mendiga de tan suaves gestos
se parece a una idea ofreciendo cariño.

Y al fin, es la memoria,
la última armonía de una canción lejana
perdiéndose en la noche
de un carnaval
estremecido.


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*Cláudio Luis Sesín nasceu em 9 de junho de 1959, em Villa Dolores, Velle Viejo, tendo passado a infância em Pomán, província de Catamarca, Argentina. Publicou La Barbárie (1993), El círculo de fuego (1997) e El libro de los poemas casuales (2008), em edição bilíngue español-portuguê. Este poema é de Palabras Sencillas (2010)


Blog El Vuelo y La Palabra de Claudio Sesín
Blog Navegantes de la Cruz del Sur


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sexta-feira, 25 de março de 2011

Poeta Abel B. Pereira (Teresinka Pereira)

(Falecido dia 1º de março, 2011)






Já não é preciso
chorar nem cantar
seu desencanto.


O sacrifício de seu voo
sobre a terra não deixou
a página em branco.


Consagrado já era em vivo,
imortal será de agora
em diante
em nossas vozes.


Abel B. Pereira na Estante Virtual

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quinta-feira, 24 de março de 2011

Em favor de uma TBC original (Alaor Barbosa)



A Televisão Brasil Central, pertencente ao Estado de Goiás, mudou o nome para TBC News. E vai adotar um estilo de televisão copiado de uma emissora americana. Só notícias.

As mudanças anunciadas constituem erros graves. O primeiro erro é o da inconstitucionalidade do novo nome adotado: fere o Art. 13 da Constituição Federal, que estabelece: “A língua portuguesa é o idioma oficial da República Federativa do Brasil”. O certo seria chamar-se TBC Notícias. A palavra notícias é – e mesmo que o não fosse, pois pertence ao vocabulário da nossa língua – muito melhor, mais bonita, mais expressiva, mais inequívoca e comunicativa do que news. Adotando notícias em lugar de news, a TBC se ajustaria também aos bons exemplos das emissoras públicas federais no ponto em que se mostram redutos e instrumentos de resistência da cultura nacional. Adotando o substantivo news no nome, inscreve-se a TBC no rol das emissoras de televisão brasileiras subservientes ao imperialismo anglo-saxônico. Até agora, somente emissoras privadas haviam cometido esse desastroso ato errôneo.

Poemas (Dércio Braúna)

Abstrato - Fernando Odriozola


PREPARO UMA LUZ



Este chão já não tem limpeza possível.
Mia Couto
Vinte e zinco



Velo por minhas circunstâncias.

Estou nudo
das armas contemporâneas,
solene sobre o escuro estrado
no centro duma praça aberta
                              e cinza.
Nela há homens mais nudos que eu,
porém gozam do triste benefício
da profunda aniquilação.

O tempo, o mar que espia,
o homem que expia,
tudo parece praparado
para a triste glória dum tempo antigo
que hemos de ter.

Os ossos de minhas circunstâncias,
já os acendo:
          preparo uma luz
          para dias malditos ―
          os em que pisaremos
          o coração do irmão.




Abstrato - Flávio Shiró



DADOS BRUTOS



Eu sou muitas pessoas destroçadas
MANOEL DE BARROS
Livro das Ignorãnças



I.

um dia
vinte e quatro horas
cem mil soldados
um sem-número de tanques

seis homens-bomba

um império
(que Deus [?] sempre o salva)

uma enfermaria
quinze crianças mortas
um pão para dois
(uma falta para tantos!)
um bilhão
uma bomba
                     pólvora
                     pedaços
                     poeira
           povo
gente
          (algo se esvai...)

um osso exposto
um grito
(o homem, por que não sara?)
um cão-vagador
uma nota na imprensa
dez estrelas aos ombros

um general
uma relatório
centenas de baixas
um despacho
um mercado abaixo
uma ponte abaixo
uma terra abaixo
(quantas indigências sob a vala rasa!)

um dia...
(arrastado desde o tempo dos tempos!)
pergunto:
                 evoluiremos do vírus
                 algum dia?


II.

Há no mundo um imundo cão-vagador
farejando a carniça dos que quedam rotos:
Deus bem pode ser um de seus nomes.




 
*Dércio Braúna é historiador, poeta e contista, autor de O pensador do jardim dos ossos (Expressão Gráfica e Editora, 2005), A Selvagem Língua do Coração das Coisas (Realce, 2005), Metal sem Húmus (7 Letras, 2008), Uma Nação entre dois mundos: questões pós-coloniais moçambicanas na obra de Mia Couto (Scripta Editorial, 2008), Como um cão que sonha a noite só (7 Letras, 2010). Contato: derciobrauna@bol.com.br.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Sapatos & cia (Simone Pessoa)



Tenho meus caprichos. E sapato é um deles. Não passo por uma vitrine de sapatos sem parar e olhá-los longamente. Gosto de examinar os designs, as texturas, as cores, os saltos. Dificilmente encontro um par que me atenda a todos os requisitos. Se tem um belo modelo, o salto é alto. Se o salto é de altura aceitável – nem alto nem rasteiro – o modelo não me agrada. Se o modelo me agrada e o salto é adequado, ainda tem que passar pelo teste do conforto. Sapato que machuca em algum canto do pé não vale a pena. Finalmente ele precisa caber no bolso: se for muito caro, está fora de cogitação.

Blues da finitude (Luciano Bonfim)

(Toulouse Lautrec)


1.

Uma pequena chuva, dessas que não divergem opiniões e nos estimulam ao sexo, lambeu por toda a noite a cidade insone.

No descanso das palavras o exercício das carícias, Kama Sutra, edição bilíngüe, Índia-Brasil, página 69.

terça-feira, 22 de março de 2011

Pequena crônica de uma tardinha (Silmar Bohrer)


18 horas – Saio a caminhar até a Barra. A maré está baixa, o mar, distante, caminho dentro das águas. Final de tarde sereno... Chego à Barra calmamente entre um e outro dos exercícios diários. Aprecio a pororoca do Saí e começo a volta pra casa. venho devagarito na beira d’água observando o mar, as ondas bem serenas, muita areia com a maré baixa. Paro dentro d’água, olho o céu, vejo a lua cheia. Depois sigo. Caminho como gosto, chutando as ondinhas suaves, sempre em frente.

Vilões e mocinhos (Manuel Bulcão)



Paulo Honório, personagem de Graciliano Ramos, pertence ao tipo que, nos Estados Unidos, chama-se self-made man, isto é, alguém que se fez por si próprio — no caso dele, destruindo almas pelo caminho. Não é, entretanto, pessoa inteiramente má: nas páginas finais do romance São Bernardo, esse homem agreste (elemento entre outros da caatinga) pune-se numa comovente autorreflexão. E diz: “Não consigo modificar-me, isso é o que mais me aflige.”

segunda-feira, 21 de março de 2011

Enquanto... (Clauder Arcanjo)




Enquanto o sono não vinha,
a insônia azunhava a porta.
Enquanto não surgia o dia,
a noite reinvadia a aorta.
Enquanto o poema não via,
a palavra enterrava-se, morta.


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aclauder@uol.com.br

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Quero assim (Carlos Nóbrega)




Quero assim o meu tempo de viver
poroso e pulsante
com o mistério e a claridade meio a meio
Um olhar de soslaio sobre um seio
outro olhar com a piedade que há em maio;
Quero-o assim para que, após,
quando o meu tempo estiver vencido
tenha sido como se fora escrito
por José Maria Eça de Queiroz.
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Poemas (Webston Moura)

Sem Título - Alex Vallauri




Os sobreviventes da utopia morta[1]


Que diabo significavam pedaços de papel coloridos
e numerados que aqueles recebiam dos
chefes e trocavam por comida,
roupa, objetos variados de propriedade
dos mesmos chefes?
Nilto Maciel


Sonho a minha carne devorada
   em milhões de outros corpos,
                              vidas futuras.

Lacera-me a premonição de uns terríveis dias,
                                     escassos de humanidade,
                                                     rotos de sonhos.

Nesta aldeia de um tempo sem relógio,
                          entre o tear e a hortelã,
                          entre a lenha e o barro,
    entre o milho verde e a chuva irmã,
adivinho o sol de um mundo estranho
       a cair, imenso, sobre tudo e todos,
                  
                             inclusive meus filhos,

que o serão também
― diz-me o sonho ―
filhos de um pai Abraão,
de um mãe máquina;
irmãos do perigo,
da desordem

                         e da tristeza.





Sem Título - Alex Vallauri



Minhas secretas luas[2]



Não havia nenhuma pressa em seus pés,
nem sequer algum desígnio em seu olhos.
Bastava andar, acompanhar o desenho dos próprios
passos, para cansar-se e poder dormir.
Nilto Maciel


Trago do lado avesso do peito
secreta porta,
página sutil e irrequieta
de um livro primal.

Por sua trágica magia, a prata
de um punhal, o aço de mil luas,
a sombra volumosa de meu grito
                                          inascido.

(Corro! Para onde?)

Habito a viagem que me funda
o deus solitário, cheiroso a nicotina
 
                                    
                                     ― e a sangue.






Sem Título - Alex Vallauri



Teu último eterno dia em mim[3]



Cabe a mim completar a história
― essa pequena história vivida por ela e por mim.
Nilto Maciel


Não é teu fantasma num capulho
a gestar aljôfares.
Não é um delírio que minh’alma
gane, íngreme, noutro diabolos.

É teu timbre quando me percorrem
Yardbirds, Joni Mitchell, The Who
(e os aromas de cuscuz e café
em mês viçoso de flores).

É um palimpsesto brotando infinito
de teu diário, transitando sua seiva
em meu pensamento.

É a tua imagem no carbono flácido
de teu corpo pétreo, imóvel,
que me passou qual areia entre os dedos.

Para nunca mais. Para sempre.

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Notas:

1 - Inspirado no conto Aqueles homens tristes de Nilto Maciel, constante de Contos Reunidos - Vol. I, Editora Bestiário, p. 14.

2 - Inspirado no conto O pecado de André Guide de Nilto Maciel, constante de Contos Reunidos - Vol. I, Editora Bestiário, p. 37.

3 - Inspirado no conto As irreversíveis lavas do Vesúvio de Nilto Maciel, constante de Contos Reunidos - Vol. I, Editora Bestiário, p. 42.

Visite o blog de Webston Moura: http://arcanosgravidos.wordpress.com/
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Cidades (Pedro Du Bois)

Geométrico - Judith Lauand


Tenho suas ruas em retas
e esquinas alongadas: encontros
                            e desencontros


o casario aberto ao espaço
cresce em andares onde esqueço
o solo: desço e carrego no colo
o animal que me habita


entre portas e postes
conheço o vento
que passa: o passado
invernado abre a fresta
e a cidade se recolhe


retorno: na casa desabitada em antes
forço a entrada (forço a passagem)
da pessoa que me acompanha
e sangra a desfaçatez: o animal
foge ao colo e se distancia
em semáforos.


Visite: Pedro Du Bois - Poemas
Visite: Ver-O-Poema
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domingo, 20 de março de 2011

Ventos poéticos (Tânia Du Bois)




“Grão de areia arrastado pelo ar, eu sentia sumir-me o chão dos pés, levitar, alçar voo... E me guiavam os quatro ventos...”. Nilto Maciel, em sua poética, mostra-nos que as mudanças climáticas afetam a vida e a paisagem dos homens. Fazemos ideia do poder que o vento tem? O que se revela ao decidirmos sair em caminhada para sentir o vento? Esse, o desafio.


Jorge Xerxes poetiza que “Cada um de nós / traz dentro do peito / uma brisa / alguns dias sopra fraca / parece sufocar a calmaria...” E Benedito Cesar Silva revela: “Folhagens ao vento / gosto de beijo marcado / olhar paralelo.”



Eram três (ou tema para um conto triste) (Pedro Salgueiro)

Para o amigo Lourival Mourão


Eram três amigos.
Eram três amigos inseparáveis.
Ficaram unidos desde a primeira vez que se viram (gostavam de se pabular disso).
Eram carne e unha desde as primeiras brincadeiras de bila, bola e arraia. Moravam em ruas separadas, mas não distantes. Nunca houve briga, mancha alguma que os separasse.
Cresceram juntos, apaixonaram-se pelas quase mesmas meninas. Dois torciam pelo São Vicente e o outro pelo Unidos do Petróleo.
Cresceram, irremediavelmente.
Um ficou pelo ginásio e ajudava o pai na bodega. Outro foi para o seminário em Sobral. E o terceiro perambulou de festa em festa.
Fatalmente um deles seria próspero comerciante. Outro, dedicado padre. E o último, professor e poeta.
Porém um deles suicidou-se por causa de um amor não correspondido. O outro foi assassinado ao separar uma briga de casais. E o derradeiro pulou da ponte da linha férrea e espatifou a coluna.
Eram três amigos.
Eram três.
Eram.


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Pedro Salgueiro - pedrosalgueiro64@yahoo.com.br
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sábado, 19 de março de 2011

Versos milionários sim (Carmen Silvia Presotto)




Pois bem, vivemos falando que temos que repensar o valor da Poesia, parece que chegou hora, pensemos não é muito barulho por nada como nos sopra o bardo, mas por mais poesia no mundo ...

Nilto Maciel. Ele não apenas conta (Cissa de Oliveira*)




Com o Nilto Maciel, a gente não apenas lê. Claro, pois se ele não apenas conta!

Imagine-se então o que é ter em mãos o “Contos Reunidos II” (1) – uma pinçada a partir dos seus três últimos títulos: “As insolentes patas do cão” (1991) , “Babel” (1997), e “Pescoço de Girafa na Poeira” (1999), e o que seus subtítulos fazem com a gente.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Castro Alves e o Dia Nacional da Poesia (Emanuel Medeiros Vieira)




“Stamos em pleno mar... Dois infinitos/Ali se estreitaram num abraço insano/Azuis dourados/Qual dos dous é o céu? Qual o oceano?...”
(Versos de “Navio Negreiro”, de Castro Alves)

A praça Castro Alves, em Salvador (que tem umas das mais belas vistas que conheço), se transformou na segunda-feira, dia 14 de março – Dia Nacional da Poesia -, no palco das comemorações pelo 164ª aniversário do nascimento do chamado poeta dos escravos que, como observou alguém, se mantém firme e forte a mirar a cidade, do alto da praça que leva o seu nome.

Coisas Engraçadas de Não se Rir II: Monólogo Poético (Raymundo Netto)




Dava-se dia ensolarado e, à calçada, encontrei aquele escritor que acabara de lançar o livro príncipe. Poesia, para variar e aderir à coorte. O “poeta”, reconhecendo-me em suposta conta de intelectual — tal como o próprio, certamente — discorreu sobre o sucesso do lançamento de tão aguardada obra. Sorrisando largo o olhar faiscante, segredou, com devido anúncio de reserva, que o TT da madrugada anunciara — coisa que fez também, e ele não sabia, com todos os 500 usuários de seu espaço cultural —, o recorde, o maior sucesso da história de lançamentos nesta província.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Sarapalha (W. J. Solha)



Fui palestrante num dos Seminários Internacionais Guimarães Rosa, na PUC Minas, e, a partir de então, comecei a receber e-mails assinados com codinomes tirados da portentosa galeria de personagens do escritor mineiro, tipo “Quelemém”, “sié Marques”, “Manuelzão”, “Fulorêncio”, “Zé Bebelo” ou “Miguilim”, com mensagens sempre marcadas por enorme entusiasmo pela obra rosiana. Aí um certo “Augusto Matraga” me tornou sócio da AAMCGR – Associação dos Amigos do Museu Casa de Guimarães Rosa, de Cordisburgo; uma tal de “Maria Deodorina da Fé Bettancourt Marins” me encomendou – e pagou – um artigo sobre a geografia do conto “Sarapalha” para a revista Sagarana de Cultura e Turismo; um esquivo “Dr. Meigo de Lima” – ciente de que eu estava de férias na UFPb – me mandou passagem de ida e volta para aquela área, e – lá – um guia, contratado por um “Pacamã-de-presas”, me embarcou numa canoa do Rio Pará até a fazenda Aurora (que seria a Sarapalha do primo Ribeiro, na estória). Daí por diante não ocorreu um evento vinculado ao Grande sertão: veredas, Corpo de baile ou Tutaméia para o qual eu não fosse convidado por um “Riobaldo”, “Malinácio”, “Quipes” ou “Guirigó”, fosse onde fosse. Na II FLIP – Festa Literária de Parati, que aconteceu em 2004, quando vi o grande Davi Arrigucci Jr. ser ovacionado durante o discurso de abertura ao dizer que Guimarães Rosa foi um dos maiores escritores do Século XX, à altura de Faulkner e James Joyce, eu, sentado numa das primeiras filas da platéia, voltei-me e desconfiei que todos aqueles que o aplaudiam de pé eram todos meus – não sabia por que anônimos – correspondentes e patronos. Como GR é chamado por muitos de brazilian Joyce (o que não deixa de humilhar o elogiado, colocando-o num segundo escalão internacional, o dos seguidores locais do irlandês que pipocaram por um bom tempo em toda parte), o delírio da claque foi ainda maior quando o orador garantiu:

A alma da casa (Ronaldo Monte)




Não pense que uma casa é um simples amontoado de tijolo, cimento e telha. Toda casa tem uma alma. E como toda alma, a alma da casa tem suas nuances, suas alegrias, seus azedumes. Cada vez que se entra em casa, ela nos recebe de um jeito diferente. Logo na porta da frente, você percebe se ela está contente com a sua chegada. Tem dias em que sentimos uma luz, um brilho diferente. A casa nos aconchega, nos acolhe com intimidade. Outros dias tem umas sombras, um não sei que de estranheza lá pelos fundos do corredor. A minha casa, pelo menos, é de veneta.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Sua Majestade, o Juiz (Dimas Macedo)



Jáder de Carvalho pertence à elite dos grandes escritores cearenses. Premiado pela Academia Brasileira de Letras e consagrado nacionalmente como um dos nossos melhores poetas, é como romancista que ele vem sendo reabilitado, a partir da reedição de romances como Aldeota e Sua Majestade, o Juiz, que agora volta às livrarias em sua terceira edição.

A bolsa de Joelma (Inocêncio de Melo Filho)



Aquietou-se no centro da mesa

E se transformou numa galinha

Para que as mãos curiosas

Não lhe sondem as entranhas.

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terça-feira, 15 de março de 2011

Hermanos (Simone Pessoa)


(Praça do Ferreira, Fortaleza, anos 1960)

Encontros e desencontros são levados pelo vento, mas a essência, a identidade tende a permanecer mesmo diante das tempestades. Ainda muito jovens, assentamos nossas raízes em torno daquele banco. Nele, depositamos nosso verdor, nosso entusiasmo de adolescente, nossas dúvidas e receios quanto ao futuro. E nessa vibração e desassossego, irreverentes disciplinados, sorrimos, choramos, crescemos, frutificamos.

Desígnio, será? (Silmar Bohrer)




Bulimos tanto no planeta
sem nenhum impedimento,
tantas tragédias, sem veneta,
o mundo virou sofrimento.

Tempestades, vendavais,
maremotos, mar profundo,
outras eras foram iguais
ou o que há com este mundo.

Será um desígnio desta terra
estar sempre em ebulição,
caos, tormentos, guerra,

O bicho-homem tem transformado
em planeta-terra-mundo-cão
no cosmos um cantinho abençoado


Barra do Saí, 12.3.11

Silmar Bohrer no Recanto das Letras
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segunda-feira, 14 de março de 2011

Dimas Macedo e o doce lar das letras (Nilto Maciel)


(Dimas Macedo)

Minhas amizades com escritores cearenses se iniciaram em três etapas: até meados de 1977 (quando me retirei para Brasília); deste tempo até setembro de 2002 (período em que vivi na Capital Federal); e o depois disto. A primeira começou pouco antes do surgimento da revista O Saco: Airton Monte, Batista de Lima, Carlos Emílio, Gilmar de Carvalho, Jackson Sampaio, Oswald Barroso, Paulo Veras, Renato Saldanha, Rosemberg Cariry, Yehudi Bezerra e outros. Na segunda, sobretudo quando a Fortaleza vinha de férias, me aproximei mais de Adriano Espínola, Floriano Martins, Carlos Augusto Viana, Luciano Maia, Márcio Catunda, Nirton Venâncio e Rogaciano Leite Filho, participantes do grupo Siriará. A seguir, conheci Dimas Macedo. Não me lembro da apresentação, quem a fez, onde e quando. Pode ter sido numa das noitadas no Estoril. Não sei, pois bebíamos além do que sorviam os idólatras de Baco e, assim, quase todo o meu viver de então o arrastou o vórtice do olvido ou se afundou nas reentrâncias da memória.

Coisas Engraçadas de Não se Rir III: O Bloco da Literatura Carnaval (Raymundo Netto)

(Especial para o jornal O Povo)


Deu-se o fantástico, o inopinado, o irreal: os escritores, quem o diria, decidiram se unir! É certo que o motivo nem não era tão literário assim. Queriam porque queriam apenas criar um bloco de carnaval, acredita? Pois senta aí, Cláudia. Na busca da visibilidade, da contemporização (égua!) de costumes e da divulgação de uma imagem moderna do escritor perante o seu público, este desconhecido, decidiram-no como “estratégia de enfrentamento”.

domingo, 13 de março de 2011

Confissão (Pedro Du Bois)




Sintonizado em barulhos


reconheço o prego


ao ser pregado


o parafuso


ao ser enroscado


a água


ao ser fervida


o dia


ao ser mudado


para a tarde


noite


dos regressos




ser fechado


confesso o crime


de escutar a vida


por todos os lados.


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Carnavalearte (Claudio Sesín*)



Tomamos los suspiros de la noche


a la hora que cumple su presencia


y le ponemos luz para que encienda


nuestra penetración a las tinieblas.




Artistas trashumantes y traslúcidos,


llegan al puerto casual de los sin rumbo.




Hermosas


como novias corriendo en los pasillos,


ebrias hembras felices


de túnicas livianas y cabelleras frescas,


celebrarán las armonías y los acordes


que sólo traen piel,


de cuando el barro mezcla a sangre y fuego,


ese argumento de eternidad y hombre.




Furtivas y cenizas, ligeras, insolentes,


acuden a esta fiesta de torbellinas almas,


las mismas locas locas, de cuando loca es santo,


y redimen sus vidas, ahora celebradas.




Aquí los laberintos son presurosas risas y suspiros.


Aquí cruzamos los umbrales de cálidas maderas,


y en aguas transparentes, blanca estrella,


y en los cuerpos luciérnagas,


y en los labios la sed que hace encender al cielo,


y en el aire ese aroma


que esparce y enrojece la idea del instinto.




Siempre es feliz la piel lanzada en torbellinos,


que abraza las cadencias y las libera,


agua marina, almendra y chocolate,


en el aire, en la lengua, en los amplios momentos,


en los pequeños.


¿Qué latitud aguarda


esa dulzura turbia que precede al orgasmo?


¿Qué humo se consume al pensamiento


en un fulgor de gloria sin fracasos?




Signos del cielo en invisibles trazas,


sangre apretada al flujo y tremolar de los sentidos,


canción urbana a nombre de un buen vino.




Golpeamos los cinceles en las piedras


que un día rotarán al infinito.




La mirada es de Dios sobre los cuerpos.


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*Cláudio Luis Sesín nasceu em 9 de junho de 1959, em Villa Dolores, Velle Viejo, tendo passado a infância em Pomán, província de Catamarca, Argentina. Publicou La Barbárie (1993), El círculo de fuego (1997) e El libro de los poemas casuales (2008), em edição bilíngue español-portuguê. Este poema é de Palabras Sencillas (2010)




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sábado, 12 de março de 2011

A paisagem prometida (Clauder Arcanjo)

Para Alfredo Pérez Alencart





Tentei-a em tons de ocre,


O tempo-pardo não a quis.


Pintei-a em laivos verdes,


A natureza, assim, não a bendiz.


Salpiquei-a, então, de aluvião de luz,


Mas, serena, a paisagem prometida...


Tão só na fina memória (gesta) reluz.


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Jacu Bird e seus grãos preciosos (Regis Luís Cardoso)



Depois de almoçar, dois amigos tomam um café no restaurante perto do trabalho e caem fora. A volta pro trampo é aquela coisa, barriga cheia e sono. O café está presente em quase todas essas horas. Por isso entraram nesse papo:

– Porra... que café horrível!

– Também achei. Ruim pra caralho.

– Bem que podia ser aquele café do cu do Jacu né?

– Como que é?