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sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Lassidão e euforia de leitor exigente (Nilto Maciel)


Ainda não consegui arrematar um conto iniciado há alguns meses. Todo dia acordo com a intenção de me dedicar a ele. No entanto, as mensagens dos amigos (quase sempre recheadas de poemas, narrativas, crônicas e artigos) me conduzem a leituras demoradas. Além disso, o carteiro, dia sim, dia não, grita meu nome. Ocupado, também grito: Pode jogar por cima do muro. Não posso, Seu Nilto; é livro. Zeloso, não quer deformar o objeto. Pois neste setembro venturoso recebi uma dezena de publicações. Algumas ainda estão no escaninho reservado aos papiros a serem lidos, como Eu tenho medo de Górki & outros contos, estreia de Ângela Calou; Libido aos pedaços, novo romance de Carlos Trigueiro; quatro tomos de Péricles Prade; e um ensaio de Álvaro Cardoso Gomes e Eliane de Alcântara Teixeira. As que li foram Memorial Bárbara de Alencar & outros poemas, do Poeta de Meia-Tigela (tratei dele no escrito “Dona Bárbara de um poeta”), e as oito às quais me referirei nesta nota. Que me desculpem os colegas, por não dispor de mais tempo e não ter ânimo (talvez deva dizer talento) para engendrar uma resenha. Ou uma para cada obra.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

‘Vida cachorra’, de Mariel Reis, entre o distanciamento e a identificação (Claudinei Vieira*)





Literatura não é reprodução da realidade (assim como nenhuma arte). É um reflexo, um comentário, uma postura, um ponto de vista do autor para o que lhe acontece ao redor. Nem mesmo uma pretensa literatura ‘realista’ pode fazer uma transposição direta da vida para as páginas: há sempre, e em primeira e última instâncias, a mediação do autor.

Comigo (Belvedere Bruno)



Ando com a alma triste e, no semblante, um sorriso enganador. Eu, que sempre frisei que a mentira era o maior dos males! Mas não a convidei, ela se instalou simplesmente e parece não ter data de partida. Terá encontrado seu habitat em mim? O tempo pintado em gris acentua essa sensação de perda. É como se, a cada momento, minha energia se esvaísse através de meus poros. Quisera ver arco-íris, mas por onde andam? Perco-me nos labirintos de meus pensamentos quando rememoro aquilo que, de tão distante, parece que nunca existiu. Já fui feliz, sim. Senti o aroma das flores e me inebriei. Dormi pacificada com o bater das ondas nas pedras, o cheiro de maresia. Já dancei parecendo deslizar nas nuvens. Beijei e fui ao paraíso. Por que minha alma de repente ficou triste e me transmutei em falsidade, mantendo um sorriso enganador? Resta-me um desejo: a visão do arco-íris, primeira referência de assombro, beleza e êxtase em minha vida. Reflito sobre a existência do eu. Terei, de fato, existido? Talvez tenha sido um simulacro. O que é a vida, senão uma frenética busca? Se um dia percebemos a fuga ou o estranhamento em relação ao nosso eu, é porque nunca existiu ou não nos foi fiel. E cá estou, comigo, esse ser estranho.
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quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Devoção (Brennand de Sousa)

Para Deise Teixeira
Longos catorze meses, aqueles. Tempo fechado, de luto. Brecha, só aos domingos e na esperança de algum alento milagroso que não poderia vir (sabia) da homilia insossa daquele vigário.

Falando francamente (Francisco Miguel de Moura)*



Numa ocasião como esta, a tentação é falar de si próprio. Mas seria impertinente falar sobre mim, quando minha apresentadora, Profª Teresinha Queiroz, já disse tudo e de forma muito clara e generosa. Resta-me, portanto, agradecer, e falar sobre a criatura – minha obra – e não sobre o criador. Lembro sempre do que disse Confúcio: – “Não se deve a todo momento ficar falando de si, por dois motivos: é que, se falamos de bem, ninguém vai acreditar, e se falamos de mal, todos acreditarão”.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Coisas Engraçadas de Não se Rir XIII: O verso do espelho (Raymundo Netto)



Almoçava sozinho no L’Escale, o melhor lugar para almoçar na cidade, claro, depois da casa da sua mãe, quando chegou-me, ante a mesa, um rapaz a estender-me as duas mãos: “Raymundo Netto, leio sempre de você no jornal. Sou seu fã!”

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Se não quer livro meu “nem de graça” (W.J. Solha)


(Capitao Solha by Fabrini)

Se for o caso, esta é uma oportunidade de NÃO virar a casaca. Como aconteceu com Relato de Prócula, meu trabalho anterior, estou editando Arkáditch, determinado a não fazer sessões de autógrafos e a não colocá-lo à venda. Portanto, para NÃO obtê-lo, basta que você NÃO passe o seu nome e endereço postal para wjsolha@superig.com.br, pois, se o fizer, receberá o livro pelo correio, livre, inclusive, da despesa de remessa.

Dona Bárbara de um poeta (Nilto Maciel)



Nesta semana quase fiquei doido. Ou fora do senso normal, comum. Se tivesse ocorrido o pior, a culpa teria sido exclusivamente minha. Pois quem me mandou escrever (remoer, imaginar, rabiscar) um conto (esboçado há alguns meses) e, ao mesmo tempo, ler (com intenção de comentar) Memorial Bárbara de Alencar & outros poemas? É demais para minha pobre encanecida pequena cabeça.

domingo, 25 de setembro de 2011

A paz não é fácil (Teresinka Pereira)

21 de setembro, DIA INTERNACIONAL DA PAZ




Apesar de tudo
há que celebrar a paz
para que os poderes mundiais
não se apoderem da guerra.


Nos corredores dos palácios
e principalmente dos capitólios
vamos remover o egoísmo, a ambição
e a usura
e deixar que os cadáveres
façam a demonstração
necessária
para salvar o mundo
dos que ainda estão
vivos.
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sábado, 24 de setembro de 2011

Caminhada (Assis Coelho)


Os dois caminhavam, tombando. Pareciam levados pelo vento. Um, mais abastado, possuía um chinelo. O outro descalço. Seguiam indiferentes a todos. O menos bêbado sobraçava um saco de papel. Era fácil imaginar o conteúdo. O descalço parava tentando suspender a bermuda que relutava em cair. Por estar menos bêbado, ainda mantinha uns resquícios de decência.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Luciano Bonfim e as brumas do éter (Nilto Maciel)




(Luciano Bonfim)


Compor estas crônicas – vistas por alguns leitores como contos – quase me levou ao desespero. Para realizá-las, fiz das tripas coração. Ou, melhor, da vontade, invenção. Faltava-me memória. Burro parado no meio (ou no começo) do caminho, eu me esporeava, me insultava, me instigava. Inventava fatos, episódios, gestos, falas. Pois nunca convivi com nenhum dos personagens que habitam o mundo deste livro. Vi-os uma, duas, três vezes, no máximo. Ouvi-lhes umas ou poucas palavras.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

“Quem não se comunica, se trumbica” (Tânia Du Bois)



A língua é passaporte. Através dela identifica-se o indivíduo, mostrando, refletindo, de onde vem a pessoa que a postula. Chacrinha já dizia: “quem não se comunica, se trumbica.” A língua é o foco da nossa capacidade de expressão. É importante ficarmos atentos à força das palavras e do pensamento.

“Se as palavras encantam/ o menino/ sai a brincar com elas/ algo maior acontece...” (Pedro Du Bois)

Excertos de Correspondências de Péricles Prade (Jorge Xerxes)


1

Foi com grande surpresa e admiração que recebi inusitada encomenda. Aquele exemplar de “Correspondências” trazia inscrita a dedicatória de próprio punho do autor, Péricles Prade, datada do dia em que meu pai comemorava seu natalício.

O livro “Correspondências: narrativas mínimas” contém 22 contos de realismo fantástico mais o posfácio de Álvaro Cardoso Gomes – intitulado “A lógica do delírio” – ao longo de exatas 96 páginas. A insólita e sugestiva ilustração da capa, concebida por João Colagem, é também digna de menção, [1].

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Da arte do ensaio* (Franklin Jorge)



Escrevendo sobre a arte do ensaio, observa inteligentemente Lúcia Miguel Pereira que o ensaísta escreve como o inglês viaja. Sem, rigorosamente, um centro, pois não sofre a limitação de um único ponto de vista e se movimenta no texto, a exemplo do flâneur, em todas as direções. Claro está que ao afirmá-lo ela pensava não nos ensaístas acadêmicos – que proliferariam depois –, mas nos humanistas infensos às fórmulas feitas e aos modismos passageiros.

Esta noite de longa cauda (Clauder Arcanjo)



Esta noite de longa cauda
Este silêncio de ex-nauta
Este floreio com flauta
Este sorriso sem pauta
Esta morada de argonauta
Este sonho de noiva infausta...


Enfim, estas dores, tangidas
Como de um tudo, sem falta.
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terça-feira, 20 de setembro de 2011

O inventor de mundos (Henrique Marques-Samyn)

(Publicado em 19/09/2011 no site "Clave Crítica: semanário de ensaística e crítica literária": http://clavecritica.wordpress.com

Muitos já disseram que escrever é inventar mundos. Sendo possível rastrear um duplo sentido para o verbo inventar, a partir de sua raiz etimológica − visto que deriva do verbo latino invenio, -ire, originalmente ‘encontrar’, com a acepção figurada ‘imaginar’ −, a definição inicialmente proposta vislumbraria na escrita tanto a arte de fabular mundos (por meio de uma inversão dos princípios que ordenam o real) quanto a arte de encontrar mundos (que estão de algum modo relacionados à realidade, mas que escapam à experiência cotidiana por razões diversas).

Largo (Carlos Nóbrega)

Do livro Mais largo (livro inédito contento apenas poemas longos)


Gostaria que não tivesses nome
e se o tivesses, não fosse de homem,
fosse de Vento: Praça de Sonho.


segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Aposentado (Silmar Bohrer)


– Então, compadre, vai bem ?
– Eu, tenho ido até além
vivendo do bom erário
de quem fui depositário.


Sou agora um perdulário,
anda cheio o meu armário,
não de víveres, mas de versos
que espalho pelos universos.


Se a vida é feita de histórias
com vagas pequenas glórias,
sigo algumas festejando.


No mundo velho sem porteira
levo uma vida galhofeira,
as desditas ironizando.
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Réquiem para uma ilha (Emanuel Medeiros Vieira)

(Para aqueles que a conheceram – no fundo)




Já é tarde para consertar.
Não, não serei nostálgico.
Não falarei de quintais, de árvores.
Já é tarde para consertar – repito.
O modelo urbano foi esse: poeira, pó e ganância.

domingo, 18 de setembro de 2011

A bolsa e o Channel (João Soares Neto)


Não dormira bem, apesar do velho Vallium que a acompanhava havia anos. Acordara cedo e sentira o absorvente higiênico empapado. Foi ao banheiro, tomou uma ducha quente demorada, penteou os fartos cabelos ruivos, cuidou da maquiagem com tudo que Esther Laudée oferecia e mirou o corpo no grande espelho embaçado pelo vapor. Passou a manga felpuda do roupão Gucci e gostou do que via. Era ainda a moça bonita que largara tudo em Chicago e recomeçara a vida em Nova Iorque, a cidade que lhe dera aquele pequeno, mas valioso loft em TriBeca. Solitária, mas tinha os seus homens. Usava-os, dava um beijo de despedidas, lavava-se, tomava o seu Vallium e deitava solitária na larga cama entre lençóis de seda e fofos travesseiros que abraçava em posição fetal.

A Fantástica Literatura do Ceará (Aíla Sampaio)

O Cravo Roxo do Diabo (contos)
Pedro Salgueiro (org.)

Pedro Salgueiro organizou a coletânea O Cravo Roxo do Diabo - o conto fantástico no Ceará. Agora, a professora e poeta Aíla Sampaio, autora de Os Fantásticos Mistérios de Lygia, fez uma belíssima apreciação do trabalho. Você confere isso acessando o Portal Cronópios.

Boa leitura! E divulgue.

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sábado, 17 de setembro de 2011

Luz vermelha que se azula (Horácio Dídimo)


Para Nilto Maciel


O amor jamais acaba. (1 Coríntios 13,8)
Mas como ver o invisível ?(*p.105)

Humanidade sofrida,
Acolhida e relembrada,
Engendrada e refletida
Na beleza da palavra.

Lá se esconde a fé azul
E aquela verde esperança
Nas flores avermelhadas
De um amor que não se cansa.

Carregamos nossa cruz
Pisando pelas calçadas
Nas rosas despedaçadas.

Luz vermelha que se azula,
Luz azul que reverdece,
Luz verde como uma prece...

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In Exercícios de Admiração
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Iconoclastia suburbana (Daniel Osiecki)


Há três anos devorei um livro de contos intitulado John Fante trabalha no Esquimó, do então desconhecido (pelo menos pra mim) Mariel Reis. Logo nos primeiros textos já tive a impressão de estar lendo um discípulo do mestre (e meu conterrâneo) Dalton Trevisan.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Cândido Rolim entre a fuga da cidade e a eterna idade (Nilto Maciel)


(Cândido Rolim)

Se não fôssemos escritores, Cândido Rolim e eu nunca teríamos nos conhecido. A não ser por acaso. Ou se nos tornássemos protagonistas de episódios de repercussão internacional, como o assalto ao trem pagador, o crime da Rua Morgue ou o grande desastre aéreo de ontem. Nos jornais, diriam repórteres alarmados e alarmantes: “Morreram, também, o maestro Cândido Rolim e o ator Nilto Maciel. Mergulhadores encontraram, a boiar nas águas...”. Jorge de Lima, o mais singular dos poetas brasileiros, escreveria: “Vejo sangue no ar, vejo o piloto que levava uma flor para a noiva, abraçado com a hélice. E o violinista em que a morte acentuou a palidez, despenhar-se com sua cabeleira negra e seu estradivárius”. Porém, nada disseram, nada dizem, nada dirão, pois somos apenas poetas, como outros, no imenso palco do mundo.

Há mãos (Carmen Silvia Presotto)


A Nilto Maciel


 
Há mãos
que ao contar poemam
escrevem no tempo
libertam amarras
reúnem amizades
e dão às letras liberdade


Há mãos
que ao contar
amam no tempo em que vivem
e por isso, trabalham, dobram espaços,
lutam e transformam horizontes


Há mãos
que ao contar
são o sal da vida.

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http://www.vidraguas.com.br/
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quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Ungulani Ba Ka Khosa: a África que o Brasil não conhece (Adelto Gonçalves*)


I
Enquanto as universidades e editoras portuguesas e brasileiras, praticamente, só estudam e publicam autores africanos lusodescendentes – com as exceções de praxe, na área editorial, como a Editorial Caminho, de Lisboa, que tem tradição na área –, pouco se lê sobre romancistas, contistas e poetas africanos autóctones ou mestiços que utilizam a Língua Portuguesa como meio de expressão. E, no entanto, em poucos anos, se a Língua Portuguesa – a língua do invasor e do colonizador – quiser sobreviver no continente africano – e com ela todo o legado lusófono –, será mesmo dos autores autóctones que dependerá.


A necessidade de vilões (W. J. Solha)


Há séculos assisti a um filme de Disney, em que o Espelho Mágico (de “Branca de Neve e os Sete Anões”) engrandecia o papel dos bandidos nas grandes narrativas:

– O que seria da estória da princesinha, por exemplo, sem a terrível presença da Bruxa, que também é a Rainha Má? O que seria da lenda de Chapeuzinho Vermelho sem o Lobo Mau? E da de Cinderela sem a Madrasta e o gato Lúcifer?

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Obséquio (Pedro Du Bois)




Obsequio o soneto: digo em versos
o muro erguido em tijolos diversos
guardam espaços inatingíveis, empilham
frutos ao relento. Recubro o soneto em ventos
soprados na expressão do verbo. Realizo
em sons o tormento do mar sobre as pedras.
Sobre as pedras ergo o muro: tijolo
resultante do cozimento do barro; início
cristalizado separa mundos: declamo
obsequioso o soneto. Silencio
paredes e portas em adjetivos.
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Retábulo (Ronaldo Monte)



Determinados eventos têm o poder de nos transformar de uma maneira irreversível. Não estou falando dos escândalos da paixão nem das agonias da morte, casos extremos e inevitáveis em nossa condição de viventes. Não me refiro tampouco aos fenômenos naturais, enchentes, furacões, tsunamis, nem aos desastres ambientais. Falo de acontecimentos mais sutis, que nos pegam de surpresa em certos momentos da vida. Pode ser um encontro com algum desconhecido, ou a revelação de uma qualidade nova em algum velho amigo. Você tem um colega de trabalho que vive uma vidinha de nada. De repente, ele senta num piano e toca uma sonata de Chopin. Eis um pequeno exemplo de espanto.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Márcia Barbieri: fogo e magma (Nilto Maciel)



Como todo leitor, leio tudo. Desde pequeno adquiri o vício de ler paredes e caibros, chão e teto, sapatos e pés, pernas, coxas e ancas, boca e olhos, testa e cabelos, tristezas e sorrisos. Leio as pessoas em movimento ou paradas. Os bichos também. Os ventos, o calor, o frio. Leio o céu, as nuvens, a chuva, as estrelas. Leio livros. Do título à última capa. Leio as abas e o prefácio, após a leitura da obra. Nunca antes. E assim o fiz com a nova coleção de composições ficcionais de Márcia Barbieri: As mãos mirradas de Deus (Rio de Janeiro: Multifoco, 2011). Primeiro li os contos (serão mesmo contos?), fiz algumas anotações num caderno, após um café com leite e tapioca, no Shopping Benfica, numa tarde de setembro. Sentei-me numa cadeira na “praça de alimentação”. Meninas se beijavam, se alisavam, segredavam carícias. Noutras mesas, jovens imberbes também se acariciavam e faziam juras de amor eterno. Aquilo não me tornava mais viril, mas me incitava a ler Márcia. Por mim passou João Soares Neto, o dono do lugar, me fez um elogio e saiu a sorrir. Na mesa ao lado, um coronel da reserva lembrava uns “áureos tempos da revolução”, enquanto chupava gelo e uísque. Uma senhorinha passou e me viu a ler. Perdi a concentração e fitei a vista nas ancas dela, que viu meu olho aceso, caminhou mais, parou e voltou. Boa tarde. Está lendo? Não durou muito o diálogo e voltei às mãos mirradas de deus.



segunda-feira, 12 de setembro de 2011

O sono e o sonho (Pedro Salgueiro)

(Quadro de  Toulouse Lautrec)

Sempre dormi muito tarde. Conto nos dedos as vezes (geralmente estando doente ou depois de uma farra durante o dia) em que dormi antes da meia noite. Minha mãe afirma que quando eu era menino passava a madrugada inteira andando pelos terreiros com o velho rádio de casa, ouvindo notícias dos lugares mais distantes. Geralmente ela tinha que desligar o aparelho, que chiava junto comigo na redinha encardida estirada na sala da frente, já quase de manhã.

Afirmação (Inocêncio de Melo Filho)

Para Dimas Carvalho
(Poeta Dimas Carvalho)



És poeta os ventos já sabem
Quem os calará?
Camões?
Fernando pessoa?
Jorge Luís Borges?
Francisco Carvalho?
Drummond?
Ferreira Gullar?
Procede minha afirmação
E ponto final.
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domingo, 11 de setembro de 2011

"José e Pilar: tudo pode ser contado de outra maneira" (Webston Moura)*

José Saramago e Pilar Del Rio


Dércio Braúna, a mais recente e forte poesia do Vale do Jaguaribe, com pés entrantes já em contos e passos avançados em pesquisas acadêmicas, deu-me cópia de uma maravilha. Trata-se do filme documentário “José e Pilar”, um acompanhamento do cotidiano do escritor português José Saramago e sua esposa e parceira em todas as venturas e desventuras, a jornalista espanhola Pilar Del Rio.

sábado, 10 de setembro de 2011

Coisas Engraçadas de Não se Rir X: Tá Todo Mundo doido... Oba! (Raymundo Netto)



Mas do jeito que as coisas andam no mundo, só não corre o risco de ficar doido aquele que já está. Estresse, ambição, egoísmo, falsidade, mentira e incompreensão. Somem-se a isso tudo a solidão, o medo e a maldade. A maior loucura é aceitar tudo isso e não ousar seguir em frente, a seu modo, traçando uma vida única e original, sem medos de ser taxado de maluco. A realidade confirma, como escrevi certa vez: “só os egoístas serão felizes!”

Dinheiro muda os valores? (Tânia Du Bois)



“A maior desgraça de uma nação pobre é que em vez de produzir riqueza, produz ricos. Mas ricos sem riqueza. Na realidade, melhor seria chamá-los não de ricos, mas de endinheirados.” Mia Couto

As mudanças inspiram-se nas etapas de inflexão da história; não custa indagar: somos ricos ou endinheirados? O dinheiro muda os valores?

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Conversa de Nilto Maciel com Gilmar de Carvalho

“Antecipei, de certo modo, o fim do romance.”

(Gilmar de Carvalho em foto de Francisco Sousa)

Esta conversa se iniciou, por correio eletrônico, no começo de julho de 2011. Tínhamos nos encontrado dias antes no Armazém da Cultura, que reeditou Parabélum. No salão não cabia mais uma só pessoa e todos queriam tocar em Gilmar. Curiosos se aproximavam dele, como se vissem um ser de outro mundo. Estudantes lhe faziam perguntas estapafúrdias (você existe mesmo?). Jornalistas puxavam-lhe pela manga da camisa. Jovens escritores se olhavam em espelhinhos. Fotógrafos pediam-lhe um olhar, mesmo que de desdém.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Entrevistas e “concurseiros” (João Soares Neto)



Quando estudante universitário – e até já formado – procurei fazer estágios/trabalhos e me submeti a provas escritas e a entrevistas, inclusive, para serviços a empresas locais, nacionais e até multinacionais que faziam pesquisas de seus mercados e de produtos. Embora o dinheiro fosse importante para ajudar a pagar o combustível ou a prestação do precário veículo que conseguira, sabe Deus como, comprar, valia a pena pelo jogo estabelecido entre entrevistadores – sempre tem mais de um – e entrevistado.

Alforjes recheados de poesia (Nilto Maciel)




Clauder Arcanjo se diz “aprendiz de poeta” (também gosto de me apequenar) e me chama de mestre (também ofereço a alguns amigos tratamento superlativo), na dedicatória de seu novo livro Novenário de espinhos (Mossoró: Sarau das Letras, 2011). Aprendizes todos somos, até certo ponto da estrada. Alguns aprendem logo, outros são mais lentos. Clauder é dos que aprenderam o fundamental com facilidade e se pôs a compor poemas e também contos e crônicas com a competência dos alunos mais dedicados. Assim, em 2007 deu a lume a coletânea de contos Licânia e, dois anos depois, apresentou Lápis nas veias, de minicontos.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

De volta ao passado: a encantadora Fortaleza do século XIX (Aíla Sampaio)



Um conto no passado, cadeiras na calçada, romance de Raymundo Netto, é uma viagem no tempo, um encontro com uma Fortaleza poética e provinciana que só a imaginação pode reconstruir. De mãos dadas com Américo Lopes, o protagonista e narrador, passeamos pelas calçadas do início do século XX e andamos pelas ruas ‘descalças’ de uma cidade menina que parece se fazer mulher aos olhos do leitor.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

O novo livro de Nilto Maciel: "Luz Vermelha que se Azula" (Webston Moura)





Ele não é charmoso como George Clooney nem veloz como Usain Bolt; não domina a bola como Neymar nem dança como Fred Astaire. Ele não tem a voz e a desenvoltura de um Cauby Peixoto ou de um Frank Sinatra. Mas certamente ele está no meio daqueles que logram sucesso numa arte e, inevitavelmente, conseguem. Portanto, ele é uma fera no que faz, e seu charme e talento consistem nisso: da festa-inferno das idéias dentro da cabeça, desse “transe" que é pensar-e-criar há de sempre nascer (e nascem) personagens e enredos maravilhosos, histórias e histórias que nos encantam e nos espantam.

Revista Clave Crítica




Está no ar, há cerca de um mês, a revista CLAVE CRÍTICA, cuja proposta é publicar principalmente resenhas e ensaios que se norteiem por três princípios:

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Astrid Cabral e um pouco de Whitman e Pessoa



Desde que nos conhecemos, Astrid Cabral e eu mantemos correspondência que só me traz alegria e prazer. Pois quem não gosta de ler carta (ou mensagem) de letras bem arrumadas, frases lapidadas, como se fossem poemas ou crônicas? As dela são assim. A par disso (das cartas), permutamos livros há cerca de vinte anos. O mais recente presente dela é Intramuros (Manaus: Editora Valer, 2011), 2ª edição revista pela autora, Prêmio Nacional de Poesia Helena Kolody, 1997. Trata-se de uma seleção dos livros Intramuros (1998) e Jaula (2006), aos quais juntou a parte intitulada “Extramuros”.

domingo, 4 de setembro de 2011

Meu mestre cearense (Ronaldo Monte)



Não sei o que fiz pra merecer tanta consideração da parte de Nilto Maciel. Nós nunca nos vimos, nunca trocamos uma palavra que não fosse por e-mail, não tenho deztões da competência que ele tem pra escrever um conto, muito menos um romance louco como Carnavalha. Mesmo assim, o Nilto vive me cobrindo de gentileza. No ano passado, me mandou os dois volumes dos seus Contos Reunidos. Mês passado, sempre pelas mãos do seu cupincha Pedro Salgueiro, me mandou o tal romance desvairado e o seu último livro de contos, Luz vermelha que se azula. Os contos, devorei em uma tarde. O livro demorou mais um pouco: dois dias.

sábado, 3 de setembro de 2011

Com a alma à beira do abismo (Regina Ribeiro)

(Fonte: O POVO Online/OPOVO/Vida e Arte, Fortaleza, 3 de setembro de 2011)

Na publicação, Nilto Maciel embaralha tramas, mistura vozes num jeito enxuto de narrar (KLEBER A. GONÇALVES)

Novo livro do contista Nilto Maciel mostra o avesso do homem contemporâneo. Com leveza trafega pelos sonhos impublicáveis, perversões e desejos humanos. Num mesmo plano expõe o sagrado e o profano

Uma das vantagens de ler um livro de contos é poder seguir um ritmo próprio escolhendo as narrativas pelo título, como se fosse um jogo, ou simplesmente pelo humor do dia. Pronto, é este. Não é diferente com o Luz vermelha que se azula, do contista Nilto Maciel, lançado na última terça-feira. Aí é que mora o engano. É diferente.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Raymundo Netto e o laissez faire (Nilto Maciel)

(Salgueiro, Nilto e Netto, na casa do segundo)

“Conheci Raymundo Netto em 1850, na calçada da Cadeia de Fortaleza”. Assim eu poderia iniciar esta crônica e ser fiel ao modo de narrar deste jovem que adora o passado de nossa terra, vive cercado de livros e escritores, sejam mortos, sejam vivos. Em suas crônicas, os antigos conversam com os de hoje, passeiam pelas ruas, transitam pelo Passeio Público, pela Praça do Ferreira, pelas vias estreitas, sem pavimento, de prédios baixos. Porém, não o imitarei e serei fiel a mim mesmo e aos fatos: Conheci Raymundo Netto numa tarde de outubro de 2005, no interior de um veículo automotor, com destino a Aracati, onde se realizaria a 1ª Festa do Livro e da Leitura. Ao meu lado, Pedro Salgueiro. Vocês se conhecem? Sorridente e tagarela, Netto estendeu a mão e se apresentou. Lancei um livro recentemente: Um conto no passado: cadeiras na calçada. A curiosidade me sacudiu: Um conto longo? Não, um romance. Pedro se mantinha ao largo, olho na estrada. E o senhor é também escritor? Acabrunhei-me. Aquele sujeito, de quem eu nunca ouvira falar, dizia-se escritor e, ainda por cima, perguntava se eu escrevia? Tive vontade de lhe dizer: Tenho vinte livros publicados. Contive-me (quantidade não significa muito, pensei) e preferi ouvir a palavra apaziguadora de Salgueiro: Nilto é um dos poucos escritores cearenses da geração de 70 que se mantém atuante. O rapaz sorriu de novo: Ah! é?

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

O tempo só tem ida (João Soares Neto)



Dizia La Fontaine, o das fábulas, “Correr não adianta. É preciso partir a tempo”. E o que é o tempo e a tempo? Pergunto a Santo Agostinho e ele – quase – responde: “Que é, pois, o tempo? (...) Se ninguém me perguntar, eu sei; se o quiser explicar (...) já não sei”. O mais maroto e um dos mais belos poetas brasileiros contemporâneos, Manoel de Barros, versa: “O tempo só anda de ida”. Pois é.