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sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Dos Contos reais à gloriosa Cantata bruta (W. J. Solha)



Já Drummond dizia, ante as notícias de Stalingrado, na Segunda Grande Guerra, que a poesia não conseguia, mais, superar nem igualar a realidade trazida pelos jornais. Quem foi ao concerto, no último fim de semana, no Cine Banguê, passou por minha tela Picasso está muerto, na mostra instalada no saguão do cinema, fruto direto dessa verdade: transformei, ali, as cenas cubistas de violência do Guernica em representações fotorrealistas enquadradas pela CNN, Globo News, etc, como transmissões ao vivo (de crimes públicos), procurando mostrar como se tornaram lentos os protestos pictóricos como o do gênio espanhol, agora – como divulgação do horror – obsoletos.
Coerentemente, publiquei durante bom tempo, no jornal O Norte, a série Contos Reais, em que me limitava a colher da imprensa reportagens que me marcavam, dando-lhes formato literário, reduzindo-as tanto que, às vezes, limitavam-se a três, quatro linhas. Fiz mil deles. Quando montava minha História Universal da Angústia (Bertrand Brasil, 2005), depois de romancear o Hamlet e Édipo Rei e reescrever as lendas do bíblico Rei Saul e de Parsifal – um dos cavaleiros da Távola Redonda –, senti falta do presente na obra, e resolvi selecionar e incluir nela as narrativas mais violentas da série, restringindo-as a cento e vinte e seis, enfeixando-as no título A Gigantesca Morgue, onde o efeito que busquei foi o de crescente pavor por nós mesmos, no acúmulo de dez, vinte, cinquenta, cem histórias da assombrosa estupidez humana.

E eis que Eli-Eri é convidado pela Prefeitura, em meados de agosto, a apresentar um concerto inédito no final de outubro, com a Orquestra de Câmara da Cidade de João Pessoa. Daí que recebo uma ligação sua, em que me pede autorização para servir-se à vontade daquele mundo terrível – com mais cinco outros compositores do grupo COMPOMUS, da UFPB – a fim de produzir coletivamente uma cantata com os instrumentistas mais o Coro Sonantis, além de dois cantores e uma dupla de atores. Embora tendo várias parcerias anteriores com o maestro – Réquiem Contestado, a operinha Reis Simultâneos, a ópera Dulcineia e Trancoso, o show Os Indispensáveis, as peças teatrais A Batalha de OL Contra o Gigante FERR e A Verdadeira Estória de Jesus – creio que, agora, o que ele tinha em mente era o trabalho feito por mim para seu mestre e nosso amigo José Alberto Kaplan – os versos dA Cantata pra Alagamar – em que contamos o que estava acontecendo naquele latifúndio, na época, final dos anos setenta.

Participei da reunião, no Departamento de Música da UFPB - com os compositores Didier Guigue, José Orlando Alves, Marcílio Onofre, Valério Fiel e Wilson Guerreiro – em que Eli-Eri traçou num quadro negro a estrutura daquela que eu iria chamar de Cantata Bruta. Perguntei-lhe:

– Como quer os versos?

– Não vamos ter versos. Quero apenas que você altere o discorrer de algumas narrativas segundo as necessidades de cada um dos compositores, cortando, acrescentando, trocando palavras e frases.

Recitativos, foi o que pensei, como os de Bach na Paixão Segundo São Mateus, feitos diretamente em cima dos versículos do primeiro evangelho.

– Uau.

O resultado – contra todos os meus temores – foi soberbo. Menos na estreia, mais na segunda apresentação, no domingo, corrigidas falhas na sonoplastia, dicção, iluminação, etc, da véspera. Imagino que a peça terá sua plenitude numa gravação em DVD, legendada, que deverá ser feita em sua apresentação, agora em novembro, no festival Virtuosi, Teatro de Santa Isabel, Recife.

CONCLUSÃO:

Além do imenso criador que conheço muito bem das parcerias anteriores, Eli-Eri Moura se revelou, na Cantata Bruta, sereno e seguro líder, capaz de juntar as mais diversas “vozes” de compositores e egos numa polifonia, frequentemente uníssona. Escolher o tenor Edd Evangelista e, como seu contraponto em cena, a mezzo-soprano Maria Juliana Linhares, fez visível uma competência extraordinária no conhecimento do ilimitado potencial desses jovens. Escolher Walmar Pessoa e Suzy Lopes – dois atores que considero fantásticos – como contrapontos entre si – no lado teatral da Cantata, muito bem dirigido pelo Jorge Bweres – e contrapontos, também, da dupla de cantores, fez-me ver o quanto ele sabe da construção de um grupo especialíssimo de comunicação. E, mais ainda, estabelecer uma também contrapontística relação entre a maravilhosa (realmente maravilhosa) Orquestra de Câmara da Cidade de João Pessoa, e o sublime (realmente sublime) Coro Sonantis foi demais.

Ouvi, no Cine Banguê, na noite de domingo, 30 de outubro, sons que jamais imaginaria alcançar em João Pessoa. Pra muita sorte minha, oriundos de algo meu.
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