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sábado, 7 de janeiro de 2012

O espírito (João Soares Neto)



Era noite de segunda feira naquele setembro ainda quente e úmido. O Grupo Espírita God and Us estava reunido no mesmo velho apartamento da Rua 57. Eram 11 naquela noite. Todos tinham um compromisso entre si, não falavam do que faziam no mundo lá fora. Eram apenas irmãos e, assim, gostavam de ser chamados.

De repente, uma irmã começou a psicografar e não era em inglês. Parecia espanhol, mas não era. Passaram de mão em mão e só a última mão, em inglês com forte sotaque, decifrou a carta. Falou que era Português, a língua usada em Portugal, Brasil e outros lugares distantes. Traduziu o que estava escrito. Tinha um cabeçalho: “o que eu vi e o que nós veremos”. E seguia um pequeno texto: “nós, os fundadores da locomoção aérea do fim do século, passado, tínhamos sonhado um futuroso caminho de glória pacífica para esta filha dos nossos desvelos”. E assinava: Alberto Santos Dumont.

Começaram os debates: Um irmão sugeriu que rezasse por Alberto Santos Dumont – Quem seria ele? – E assim o fizeram. Outro pediu para interpretar o texto e ficou sem entender duas coisas: as expressões locomoção aérea e século passado. O que seria locomoção aérea? Um avião? Século passado? Que século? Era confuso.

Depois de muita análise, chegaram a uma conclusão Kardecista. Pediram a Deus a possibilidade de, quem quer que fosse Albeto Santos Dumond, incorporar em um dos presentes. Rezaram, fecharam os olhos e eis que, lá na extremidade da mesa, ouviu-se um irmão: “eu sou Alberto Santos Dumont, inventor do avião. Vivi momentos de glória e de profundas depressões. Tive a sorte de ser reconhecido em Paris e de voltar ao Brasil como herói. Mas, pouco a pouco, fui ficando triste. Minha invenção estava sendo usada para matar pessoas. Jogavam bombas dos aviões que passaram a ser instrumento de guerra. No dia 14 de julho de 1932, escrevi a Getúlio Vargas, Presidente do Brasil, falando da minha indignação por terem soltado bombas contra paulistas rebelados. No dia 23, sem receber resposta dos estragos causados pelo que criara, usei uma gravata e me enforquei. Estou sentindo que a minha invenção ainda não parou de causar males à humanidade e, por tal razão, minha alma não descansa. Amanhã, haverá uma grande destruição e eu serei o culpado”. O irmão foi voltando à sua voz normal e caiu em prantos. Era pranto tão forte que parecia convulsão. Parou, baixou a cabeça, entrou novamente em transe e, num esgar, repetia, com voz de outra língua desconhecida: jihad, jihad, jihad jihad...

Quem traduziria?
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